CASA
DE PENSÃO
Aluísio
Azevedo
CAPÍTULO VII
Dos hóspedes
de cama e mesa só três compareceram ao jantar - Lúcia,
o marido e o tal gentleman de nome difícil. Paulo Mendes estava
de passeio, com a mulher, em casa de um artista.
Amâncio foi apresentado àqueles três pelo João
Coqueiro. Trocaram bonitas palavras de etiqueta; fizeram-se os mentirosos
protestos da cortesia e cada um tomou à mesa o seu lugar competente.
Mme. Brizard, como era de costume, ocupou a cabeceira, defronte de uma
pilha enorme de pratos fundos, os quais ia enchendo de sopa, um a um,
paulatinamente, depois de rodar a concha três vezes no fundo da
terrina; e, à proporção que os enchia, passava-os
ao marido que nesse dia lhe ficara à esquerda, visto que à
direita, seu lugar favorito, cedera-o ele ao novo hóspede.
Na ocasião de conferir-lhe semelhante honra, bateu-lhe carinhosamente
no ombro e disse-lhe baixinho: - Ficas bem! Ficas junto a Loló!
Mme. Brizard, que ouvira estas palavras, acrescentou sorrindo:
- O Sr. Vasconcelos preferia talvez ficar entre as moças...
- Ó minha senhora!... balbuciou Amâncio, vergando-se para
o lado da francesa. - Estou muito bem aqui; não podia desejar melhor
vizinhança!...
E voltou o olhar para a sua direita, onde Lúcia acabava de tomar
assento.
Examinou-a logo, à primeira vista, sem o dar a conhecer, e a impressão
recebida não foi das melhores. Achou-a esquisita, um tanto feia,
um ar pretensioso, de doutora.
Era de estatura regular, tinha as costas arqueadas e os ombros levemente
contraídos, braços moles, cintura pouco abaixo dos seios,
desenhando muito a barriga. Quando andava, principalmente em ocasiões
de cerimônia, sacudia o corpo na cadência dos passos e bamboleava
a cabeça com um movimento de afetada languidez. Muito pálida,
olhos grandes e bonitos, repuxados para os cantos exteriores, em um feitio
acentuado de folhas de roseira; lábios descorados e cheios, mas
graciosos. Nunca se despregava das lunetas, e a forte miopia dava-lhe
aos olhos uma expressão úmida de choro.
Em seguida via-se o marido. Um homenzinho gordo, de barba por fazer e
pequeno bigode castanho, em parte lourejado pelo fumo. A fronte abria-lhe
para o crânio em dois semicírculos constituídos na
ausência do cabelo. Fisionomia inalterável, de uma tranqüilidade
irracional e covarde. Fechava de vez em quando os olhos, por um sestro
antigo, e então parecia dormir profundamente.
Percebia-se que ele e a mulher estiveram, antes de vir para a mesa, empenhados
em alguma discussão desagradável, porque, mal se furtaram
às apresentações e aos cumprimentos da chegada, Lúcia
pôs-se a falar-lhe em voz baixa, com azedume disfarçado.
Ele, porém, não dava resposta, e, quando a mulher insistia,
cerrava os olhos como se fugira para dentro de si mesmo.
César, ao lado, acompanhava-lhe os movimentos com persistência
tão grosseira que a outro qualquer constrangeria.
Defronte perfilava-se o gentleman. Teso, o pescoço imobilizado
no rigor de uns grandes colarinhos; as sobrancelhas franzidas diplomaticamente;
o olhar grave, de quem medita coisa de alta importância; a boca
engolida por um farto bigode grisalho; o queixo escanhoado, formando largas
pregas, sempre que Lambertosa voltava o rosto com amabilidade para responder
o que lhe diziam da direita ou da esquerda. Bonita figura, bem apessoado,
fronte espaçosa, cabelo branco, puxando de trás sobre as
orelhas.
Entre ele e Coqueiro, Amelinha, cheia de piscos de olhos e de gestozinhos
passarinheiros, recebia do irmão os pratos de sopa e passava-os
adiante.
- E Nini?... perguntou Mme. Brizard com interesse.
E, como Amâncio a fitasse, quando lhe ouviu aquela pergunta, ela
explicou que Nini era uma filha sua, "muito doente, coitadinha!"...
E contou logo a história da pobre menina - a viuvez, a dolorosa
morte do filhinho "que lhe havia ficado como extrema consolação",
e, afinal, falou daquela "maldita moléstia que sobreviera
a tantas calamidades e que parecia disposta a não abandonar mais
a infeliz".
- Não dá idéia do que foi! disse após um suspiro.
- Era uma beleza e tinha o gênio mais alegre deste mundo! Ah! Está
muito mudada! muito mudada! Impressiona-se com tudo, tem exigências
pueris, caprichos, coisas de uma verdadeira criança! E ninguém
a contraria, que aparecem as crises, os ataques! Uma campanha! - Ainda
outro dia porque não lhe deixaram ver um desenho que meu marido
achou na chácara...
E, voltando-se rapidamente para Amâncio:
- O Sr. Vasconcelos não se serve de vinho?... - Um desenho indecente;
pois ficou prostrada e eu tive sérios receios de a ver perdida
para sempre! Desde então está nervosa que se lhe não
pode dizer nada! É preciso não insistir com ela em coisa
alguma: se a chamam duas vezes para a mesa, começa a chorar e não
vem; se a querem constranger a pôr um vestido melhor, um penteado
mais decente, são gritos, soluços, repelões, e agarra-se
à cama, que não há meio de tirá-la! Eu já
não sei o que faço!...
- Por que, Madame, não experimenta os banhos de mar? perguntou
o gentleman, limpando energicamente o seu grosso bigode no guardanapo
que atara ao pescoço.
- Qual! Não produzem efeito nenhum! Ela já tomou quarenta
seguidos. Acho até que ficou pior.
- É estranho!... volveu o gentleman, franzindo o sobrolho e passando
à Lúcia a corbelha de farinha. - É estranho, porque,
segundo Durand Fardel, não há enfermidades nervosas que
resistam a um bom regime de banhos marítimos; mas aconselha também
o uso interno de água salgada, e prova que a mineralização
desta é muito mais rica em cloreto se sódio do que a das
águas minerais da fonte.
- Não sei, Sr. Lamber...
Mme. Brizard não se lembrava do nome dele.
- Lambertosa, Madame, Lambertosa!
- Não sei, Sr. Lambertosa, não sei... O caso é que
Nini não consegue melhorar. Temos experimentado tudo, tudo!
E, mudando de tom, bateu no braço de Amâncio, segredando-lhe
com um sorriso:
- Não se esqueça de provar daqueles camarões. São
especiais!... E descreveu uma olhadela entre ele e Amélia.
- O casamento talvez a restabelecesse! observou o provinciano, servindo-se
dos afamados camarões. - Dizem que há muitos exemplos de...
Amélia afetou um sobressaltozinho, e olhou para ele que procurando
disfarçar o mau efeito de sua proposição, citou Le
Bon.
- O doutor acha então que o histerismo se pode curar com o casamento?...
perguntou Lúcia da direita.
- Parece, minha senhora, a dar crédito aos fisiologistas...
A sonoridade desta palavra consolou-o.
- E é exato!... confirmou Pereira, marido de Lúcia.
- Tu mesmo entendes disto!... respondeu-lhe a mulher desdenhosamente.
Pereira fechou os olhos e não deu mais palavra.
Lambertosa havia já limpado o bigode para emitir a sua conceituada
opinião, mas teve de renunciar a essa idéia, porque Nini
acabava de assomar à porta do quarto, arrastando-se dificilmente
ao peso de suas inchações.
Vestia uma bata de lã parda, enxovalhada e sem cinta. A gordura
balofa e anêmica tirava-lhe o feitio do corpo; as suas costas formavam-se
de uma só curva e os quadris pareciam duas grandes almofadas.
Contudo ainda se lhe reconhecia a mocidade e ainda se alcançavam
os vestígios desbotados dos encantos, que a moléstia foi
pouco a pouco devastando.
Só depois de assentada, Nini desmanchou o ar aflito que fazia,
pelo esforço de andar.
- Ah! respirou, quase sem fôlego. E correu os olhos em torno de
si, abstratamente, como se despertasse de um desmaio. Ao dar com Amâncio,
ficou a encará-lo com insistência de criança; depois,
contraiu os músculos do rosto e espalhou a vista, vagarosamente,
a tomar longos sorvos de ar.
Um silêncio formou-se em torno de sua chegada; percebia-se que pensavam
nela.
- Queres sopa , Nini? perguntou afinal Mme. Brizard, com ternura. E, como
a filha fizesse um movimento afirmativo de cabeça, passou-lhe um
prato cheio.
Nini sorveu-o todo, a colheradas seguidas e pediu mais.
A mãe aconselhou-a que comesse antes outra qualquer coisa.
Nini largou a colher no prato, sem dizer palavra, e pôs-se de novo
a encarar para Amâncio, com um olhar tão dolorido e tão
persistente, que o rapaz ficou impressionado.
E não lhe tirou mais a vista de cima. O estudante remexia-se na
cadeira, importunado por aqueles dois olhos grandes, rasos, de um azul
duvidoso, que se fixavam sobre ele, imóveis e esquecidos.
Disfarçava, procurava não dar por isso, nada, porém,
conseguia. Os dois importunos lá estavam, sempre, assentados sobre
ele a lhe queimar a paciência, como se fossem dois vidros de aumento
colocados contra o sol.
- Que embirrância! dizia consigo o provinciano.
Entretanto o jantar esquentava. A conversa explodia já de vários
pontos da mesa com mais freqüência; ouviam-se tinir os garfos
de encontro a louça, e os copos esvaziavam-se e de novo se enchiam,
sem ninguém dar por isso.
Mme. Brizard não se descuidava um minuto de Amâncio. Apontava-lhe
os pratos preferíveis, puxava as garrafas para junto dele, sempre
a falar da salubridade da casa, do bem que se ficava ali, da simpatia
que toda a família parecia lhe dedicar, desde o primeiro momento
em que o viu.
- Pois se até a pobre Nini não se fartava de olhar para
o Sr. Vasconcelos!...
Amâncio sorriu.
O Lambertosa atirou-lhe diretamente a palavra sobre o Maranhão.
Tratou com respeito dessa "judiciosa província, a qual merecia
de justiça o honroso título que lhe fora conferido de -
Atenas Brasileira!. E, depois de citar nomes ilustres, dispôs-se
a contar as façanhas de um tal Maranhense, célebre pelas
suas espertezas.
- Perdão! acudiu Amâncio. - Esse cavalheiro de indústria,
além do nome, nada tem de comum com a minha província!
- Ah! fez o gentleman. - Pois eu o julgava filho de lá...
- Felizmente não é, respondeu o outro, ferido no seu bairrismo.
- E ainda que fosse!... observou Lúcia - que mal havia nisso?
- Certamente! confirmou Coqueiro, a encher o prato.
- Pois meu amigo, volveu Lambertosa, dirigindo-se a Amâncio - eu
o felicito! E levou o copo à boca. Eu o felicito, porque, francamente,
considero um padrão de glória ver a luz do dia em uma província
tão...
Faltou-lhe o termo.
- Tão, tão gigantesca! Estude, caminhe, caminhe, que tem
uma grande estrada aberta defronte de si!
E engrossando a voz:
- Assiste-lhe uma responsabilidade enorme! É caminhar e caminhar
firme! Ah! terminou ele com um gesto lamentoso. - Quem me dera a sua idade,
meu amigo! Quem me dera a sua idade!
Continuou-se a falar sobre o Maranhão. Lúcia quis informações;
Amâncio voltou-se logo para ela, solicitamente, e na febre de falar
de sua terra, começou, sem reparar que mentia, a pintar coisas
extraordinárias. O Maranhão segundo o que ele dizia, era
um viveiro de talentos; os grêmios e os jornais literários
brotavam ali de toda a parte; cada indivíduo representava um gramático
de pulso; as senhoras - ilustradíssimas; os homens_ poços
de instrução; as crianças saíam da escola
bons poetas e prosadores.
Coqueiro afetava acompanhá-lo naquele entusiasmo, mais ria-se por
dentro. O outro lhe parecia cada vez mais tolo.
Lúcia perguntou se Amâncio tinha algumas produções
dos seus comprovincianos, que lhe pudesse emprestar. Ele prometeu que
traria as que tivesse em casa. E recomendou Entre o Céu e a Terra,
de Flávio Reymar.
- Há em sua província um poeta que eu adoro, disse ela,
cortando em pedacinhos uma fatia de carne assada que tinha no prato.
- O Franco de Sá? perguntou o maranhense.
- Não, refiro-me ao Dias Carneiro.
Amâncio sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Nunca em sua
vida ouvira falar de semelhante nome.
- É, disse, entretanto. - É um grande poeta!
- Enorme! corrigiu Lúcia, levando à boca uma garfada. -
Enorme! Conhece aquela poesia dele, o...
Novo calafrio, desta vez, porém, acompanhado de suores. E não
lhe acudia um título para apresentar, um título qualquer,
ainda que não fosse verdadeiro.
- Ora, como é mesmo? insistia a senhora. - Tenho o nome debaixo
da língua!
E, voltando com superioridade para o marido:
- Como se chama aquela poesia, que está no álbum de capa
escura, escrita a tinta azul?
Pereira abriu os olhos e disse lentamente:
- O Cântico do Calvário!
- És um idiota! respondeu a mulher.
A resposta de Pereira provocou hilaridade. Amâncio consultou logo
a opinião de Lúcia sobre o Varela. Mme. Brizard falou então
dos versos do marido, prometeu que os mostraria depois do jantar.
Amâncio soltou uma exclamação de espanto:
- Ignorava que Coqueiro também fizesse versos!
- Faço-os, confirmou este - mas só para mim, publiquei já
alguns com pseudônimo. Receio a convivência dos literatos
que formigam por aí, esfarrapados e bêbedos. Não me
quero misturar com eles. Faço versos, é verdade, mas tenho
a presunção de escrevê-los como devem ser e não
acumulando extravagâncias e disparates para armar ao efeito! Faço
versos, mas não tomo parte nessas panelinhas de elogio mútuo
e nesses grupos de imbecis escrevinhadores!
E, com muito azedume, com durezas de inveja, principiou a dizer mal dos
rapazes que no Rio de Janeiro se tornavam mais conhecidos pelas letras.
- Pedantes! resmungava. - Súcia de idiotas! Hoje todos querem ser
escritores; sujeitinhos que não sabem ligar duas idéias,
arrogam-se, da noite para o dia, os foros literatos! Uma cambada!
E ria-se com um gesto amargo de desgosto.
Lúcia e Lambertosa defendiam timidamente alguns nomes.
- Ora o que, senhores! replicava Coqueiro furioso e pálido. - Qual
é aí o tipo da tal "geração moderna"
que se possa aproveitar?... Não me apontam nenhum! São todos
umas bestas!
- Coqueiro!... repreendeu Mme. Brizard em voz baixa.
- São todos umas nulidades, uns zeros!...
Era a primeira vez que Amâncio via o colega sair de si. Não
o supunha capaz daquelas explosões.
Mme. Brizard compreendeu o pensamento do provinciano e apressou-se a dizer-lhe
ao ouvido:
- Também é só o que o faz sair do sério...
a literatura!
Amélia indagou se Amâncio também escrevia. Ele disse
que sim, a desculpar-se com os outros.
- Quem neste mundo não rabiscava mais ou menos?...
Ela mostrou logo empenho em lhe conhecer as produções.
- Não vale a pena! disse o moço. - Não vale a pena!
- Ai, ai! suspirou Nini, que parecia adormecida com os olhos abertos.
Mme. Brizard que já conhecia o alcance daquele suspiro, perguntou
à filha o que desejava. Nini apontou melancolicamente para um prato,
onde fatias transparentes de abacaxi nadavam em calda de vinho.
- Não senhora, volveu a mãe - isso não pode ser;
faz-te mal.
Nini suspirou de novo e ficou e a olhar para Amâncio, resignadamente,
o semblante muito pesaroso, a cabeça vergada para o lado.
- Serve-te antes de doce, aconselhou Mme. Brizard.
O Lambertosa apressou-se a passar a Nini a compoteira.
- Pouco, Sr. Lambertosa, dê-lhe pouco!
Veio o café. César levantou-se da mesa e foi brincar a um
canto da sala. Mme. Brizard queria saber se estavam todos satisfeitos;
ela, quanto a si, jantara perfeitamente, confessava.
E, com um aspecto regalado, deixava-se ficar prostrada na cadeira, entorpecida
no bem-estar do seu estômago.
O copeiro, um preto alto de pernas compridas, levantou a toalha, acendeu
o gás e trouxe curaçau e conhaque. Amélia bebericou
o seu cálice de licor e levantou-se logo para ir à janela.
Afastaram-se as cadeiras da mesa, e a conversa reapareceu com mais força.
O Lambertosa, Mme. Brizard e Coqueiro formaram grupo, a discutir o preço
excessivo e a falsificação dos gêneros alimentícios.
O gentleman reclamava uma junta de higiene, rigorosa, que mandasse lançar
à praia todos os gêneros deteriorados que encontrasse. "Era
assim que se fazia na Europa!"
Lúcia, do outro lado da mesa, continuava a falar com Amâncio
sobre literatura. Já estavam em Théophile Gautier, Théodore
de Banville e Baudelaire, depois de haverem tocado de passagem em alguns
escritores de Portugal. Agora sentia-se mais eloqüente o provinciano;
acudiam-lhe opiniões e juízos perfeitamente armados; percebia
que as suas palavras causavam bom efeito; ia bem.
Pereira e Nini conservavam-se um defronte do outro, igualmente concentrados
e mudos; ela, porém, com os olhos muito abertos sobre Amâncio.
O outro afinal ergueu-se, atravessou, lentamente, como um sonâmbulo,
a sala de jantar, e foi estender-se em uma preguiçosa que ficava
junto à janela.
Vibrou então o piano no salão de visitas.
- É melhor irmos todos para lá, alvitrou a dona da casa.
O marido e o Lambertosa aceitaram logo a idéia, e Amâncio,
sem interromper a sua conversa com a mulher do Pereira, a esta deu o braço
e seguiu o exemplo daqueles.
Lúcia caminhava toda reclinada sobre ele, falando-lhe em tom mui
vagaroso, com acentuações finas de boa educação.
A sala iluminada tinha um caráter imponente. O gentleman encaminhou
a conversa geral para a música, aconselhou a Amâncio a que
solicitasse da Sr.ª D. Lúcia um pouco do Guarani, que ela
tocava admiravelmente.
Lúcia queixou-se de que ultimamente sofria de certa fraqueza nos
dedos e não tocava com a mesma expressão, mas sempre foi,
pelo braço de Lambertosa tomar ao piano o lugar que Amélia
deixara nesse instante. E logo as primeiras notas da introdução
do Guarani encheram a sala com a sua corajosa e dominadora solenidade.
Fizeram silêncio.
Ela tocava bem, com muita energia e destreza. Amâncio encostara-se
sozinho ao canto de uma janela e sentia-se ir pouco a pouco arrastando
pela irresistível corrente daquelas frases musicais. Seu estômago,
perfeitamente confortado, dava-lhe ao corpo um bem-estar beatífico
e predispunha-lhe o espírito para as vagas concentrações
e para os místicos arrebatamentos da fantasia. Um profundo langor,
muito voluptuoso, apoderava-se de todo ele, e os vapores duvidosos de
um princípio de embriaguez acamavam-se em torno de sua cabeça,
anuviando-lhe os objetos exteriores.
E ali, da janela, suspenso ainda pelas novas impressões que lhe
deparavam os novos aspectos de sua existência, abstrato e perdido
em cismas indefinidas, enxergava, por entre as névoas de seu enlevo,
o vulto melancólico de Lúcia, assentado defronte do piano,
a tocar o teclado com os dedos, num frenesi delicioso.
Depois da música, principiou a simpatizar com ela; já gostava
de a ver, misteriosa e pálida, arrastando a vida com a languidez
de uma convalescente.
Estava todo embevecido a pensar nesta simpatia, quando voltou por acaso
o rosto e deu com os olhos de Nini, que o fitavam sem pestanejar.
- É birra, não tem que ver! pensou ele aborrecido.
Duas horas depois tornavam à sala de jantar. Serviam-se as torradas.
Parecia, com o César adormecido sobre as pernas, ressonava profundamente
na mesma preguiçosa em que o tinham deixado.
Mme. Brizard chamou o copeiro e ordenou-lhe que recolhesse o menino. Pereira
espreguiçou-se, abriu vagarosamente os olhos, mas tornou a fechá-los,
bocejando.
Já estavam à mesa, quando os hóspedes principiaram
a chegar.
Veio o Paula Mendes e mais a mulher. Ele de pequena estatura, grosso,
os movimentos acanhados, a voz branda e a fisionomia triste; ela muito
alta, cheia de corpo, despejada de maneiras e com feições
de homem.
Chamava-se Catarina, estava sempre a implicar com as coisas e tinha muita
força de gênio. Entrou na sala como uma fúria; o marido
atrás. Cumprimentou a todos com um - "boas noites" terrível,
e, atirando-se a uma cadeira, declarou, a bater com a mão na mesa,
que vinha desesperada! - Pois, se em vez de piano, lhe haviam dado um
tacho, um verdadeiro tacho, para executar um noturno de Chopin, dificílimo!
- Pouca-vergonha! exclamava ela, rangendo os dentes. - Canalhas!
- Mas o culpado foste tu, lesma de uma figa! - já devias conhecer
melhor aquela súcia!
- Mas... ia responder o marido.
- Cale-se, berrou ela. - Não me dê uma palavra, que não
estou disposta a lhe ouvir a voz! Diabo do basbaque!
Fez uma pausa, estava arquejante, mas continuou logo:
- Também ali, acabou-se! cruz na porta! Nunca mais! nunca mais!
Nem admito que me falem na rua! Corja!
E, levantando-se com ímpeto, cumprimentou a todos com um arremesso,
e subi para o segundo andar, levando o marido na frente, aos empurrões.
- Safa, disse Amâncio consigo.
O Dr. Tavares é que vinha satisfeito. Estivera em casa de um amigo,
pessoa de muita consideração, onde se reunia a mais fina
sociedade.
E, necessitando de expandir o seu bom humor, entabulou conversa com Amâncio.
Falou-lhe a um só tempo de mil coisas diferentes; tratou muito
de si; das suas pretensões na Corte que apenas conhecia de alguns
meses; das suas esperanças de obter o que desejava: do que lhe
dissera tal ministro; do que lhe prometera tal conselheiro, e, afinal,
da sua profissão de advogado, profissão que ele exercia
com entusiasmo, com delírio, porque, desde pequeno, toda a sua
queda fora sempre para falar em público, para dominar as massas.
E, esquentando-se ao calor de suas próprias palavras, discursava,
como se já estivesse no tribunal. Armava posições;
recorria aos efeitos da tribuna, vergava para trás a cabeça,
ameaçando espetar o auditório com a ponta de sua barba triangular.
Sentia-se radiante por ver que todos os mais não abriam a boca,
enquanto ele estivesse com a palavra.
Seu tipo indeciso, de cearense do interior, uma dessas fisionomias confusas
e duvidosas, nas quais o fulvo castanho dos cabelos quase que não
se distingue do moreno da pele e do pardo verdoengo dos olhos, seu tipo
transformava-se na febre da eloqüência e parecia acentuar-se
por instantes.
E, já de pé, com uma das mãos apoiada nas costas
da cadeira, jogava freneticamente com a outra, ora espalmando-a em cheio
sobre o peito, ora apontando terrível para o teto, ora indicando
o chão, horrorizado, como se aí estivesse um abismo, ora
dando com o indicador ligeiras e repetidas facadinhas no ar; ao passo
que a voz, pelo contrário, se lhe arrastava em trêmulos prolongados,
como as notas graves de um harmonium.
Enquanto ele parolava, outros hóspedes se recolhiam aos competentes
quartos, atravessando a varanda pelo fundo na ponta dos pés, com
medo da "caceteação".
Aquele homem era o terror da casa. Às vezes, depois do jantar,
quando ele abria as torneiras da loquacidade, iam todos, um por um, fugindo
sorrateiramente, até deixá-lo a sós com o Pereira
que, afinal, adormecia.
Amâncio principiava a sentir cansaço. Quis retirar-se; não
lho consentiram.
- Passava já da meia-noite, a casa de Campos devia estar fechada
àquela hora. - O melhor seria ficar, observou a francesa.
- Que diabo, acudiu Coqueiro. - Fica! não incomodarás ninguém...
Está tudo providenciado; a cama feita... Além disso, olha!
E mostrando o céu pela janela: - Vamos ter chuva!
Com efeito sopravam os ventos do sul. Amâncio ainda opôs algumas
razões, mas finalmente cedeu.
* * *
Era mais de uma hora quando se dispersou a roda e cada um, depois de novos
protestos e oferecimentos se recolheu à competente alcova.
Mme. Brizard recomendou muito a Amâncio que ficasse à vontade;
que não tivesse escrúpulos em reclamar qualquer coisa de
que sentisse falta. Supunha, porém, não haver ocasião
disso, porque fora ela própria e mais a Amelinha quem lhe arranjara
o quarto.
Coqueiro acompanhou-o até à cama, examinou rapidamente se
estava tudo no seu lugar e depois, dando mais luz ao bico do gás,
e tirando um folheto da algibeira, disse-lhe com um sorriso:
- Sempre te vou mostrar os versos...
Amâncio, já meio despido, estremeceu, mas não opôs
a menor consideração, e meteu-se debaixo dos lençóis.
O outro, em pé, ao lado da cama, folheava amorosamente o seu caderno
de versos, à procura do que deveria ler em primeiro lugar.
Descobriu afinal e, com a voz clara e sonora, principiou:
"Estamos em plena Roma. Os Césares devassos..."
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