CASA
DE PENSÃO
Aluísio
Azevedo
CAPÍTULO VI
Foi justamente três
anos depois disso que Amâncio chegou ao Rio de Janeiro.
A casa de Mme. Brizard estava então no seu apogeu; de todos os
lados choviam hóspedes, entre os quais se notavam pessoas de importância.
Pelo tempo das câmaras reuniam-se ali alguns deputados da província,
homens sérios, em geral gordos, o ar discreto, um sorriso infantil
à superfície dos lábios e um fraseado imaginoso,
cheio de poesia. Fazia-se política no salão, depois da comida,
em chinelas de tapete, ao remansado soprar do fumo da Bahia.
A dona da casa gozava para eles de muita consideração; só
um ou outro, mais atirado à pilhéria, ousava atribuir a
algum dos seus "nobres colegas" os sorriso de Mme. Brizard.
Outros entusiasmavam-se por ela.
- Não! diziam. - Aquela mulher devia ter sido um pancadão
no seu tempo! Tudo que era pescoço e ombros ainda se podia ver!
Quem dera a muitas novas um colo daqueles!...
De uma feita, um deputado de Minas, criatura baixa, socada, rosto curto,
poucas palavras e muita barba, empalmou-lhe a cintura, quando a pilhou
sozinha na sala de jantar.
A francesa abaixou os olhos, afastou-se dignamente e foi logo dizer ao
marido que era necessário por aquele homem na rua.
- O Moura! Por quê?
- Não te posso dizer por que... mas afianço que o Moura
não nos convém!...
- Fez-te alguma coisa?
- Faltou-me ao respeito!
- Hein?!
- Agarrou-me a cintura e ter-me-ia beijado o pescoço, se eu lho
permitisse.
Esta última parte da queixa fazia mais uma honra ao espírito
inventivo de Mme. Brizard do que ao seu espírito de verdade; ela,
porém, não resistia ao gostinho de falar no seu rico pescoço
sempre que se oferecia ocasião.
E o Moura teria posto os ossos na rua, se a própria Mme. Brizard
não intercedesse por ele no dia seguinte, alegando que o pobre
homem havia na véspera carregado um pouco mais no virgem.
Também foi só. Nunca mais, que constasse, palpitou ali sombra
de escândalo, e a famosa casa de pensão continuava a sustentar
a melhor aparência deste mundo. Até se dizia à boca
cheia que, por mais de uma vez, já se hospedaram verdadeiras celebridades,
e eram todos de acordo em que no Rio de Janeiro ninguém fazia espetada
de camarão tão saborosa como as da simpática irmãzinha
do João Coqueiro, a Amelita. Uma verdadeira especialidade. Constava
até que vinha gente de longe ao cheiro daqueles camarões.
A casa tinha dois andares e uma boa chácara no fundo. O salão
de visitas era no primeiro. - Mobília antiga, um tanto mesclada;
ao centro, grande lustre de cristal, coberto de filó amarelo. Três
largas janelas de sacada, guarnecidas de cortinas brancas, davam para
a rua; do lado oposto, um enorme espelho de moldura dourada e gasta, inclinava-se
pomposamente sobre um sofá de molas; em uma das paredes laterais,
um detestável retrato a óleo de Mme. Brizard, vinte anos
mais moça, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava
fronteiro; por cima dos consolos vasos bonitos de louça da Índia,
cheios de areia até à boca.
Imediato à sala, com uma janela igual àquelas outras, havia
um gabinete, comprido e muito estreito, onde o Coqueiro tinha a sua biblioteca
e a sua banca de estudos. Via-se aí uma pasta cheia de papéis,
um tinteiro e um depósito de fumo, representando o busto de um
barbadinho; ao fundo, uma conversadeira de palhinha, encostada à
parede, por debaixo de um pequeno caixilho de madeira com o retrato de
Vítor Hugo em gravura.
Seguia-se o aposento de Mme. Brizard e mais do marido, onde também
dormia o menino, o César, que teria então doze anos; logo
depois estava o quarto de Amelinha e da tal viúva histérica,
Léonie, a quem a família só tratava por "Nini".
Vinha depois a grande sala de jantar, forrada de papel alegre; nas paredes
distanciavam-se pequenos cromos amarelados, representando marujos de chapéu
de palha, tomando genebra, e assuntos de conventos - frades muito nédios
e vermelhos refestelados à mesa ou a brincarem com mulheres suspeitas.
Um guarda-louça expunha, por detrás das vidraças,
os aparelhos de porcelana e os cristais; defronte - um aparador cheio
de garrafas, ao lado de outro em que estavam os moringues.
Ainda havia um corredor, a despensa, a cozinha, uma escada que conduzia
à chácara, outra ao segundo andar e mais três alcovas
para hóspedes, todas do mesmo tamanho e numeradas.
A numeração dos quartos principiava aí nesses três
para continuar em cima. Em cima é que estava o grande recurso da
casa, porque Mme. Brizard dividira todo o segundo pavimento em oito cubículos
iguais, ficando quatro de cada lado e o corredor no centro. Os da frente
davam janelas para a rua e os do fundo para a chácara. As paredes
divisórias eram de madeira e forradas de papel nacional.
João Coqueiro, quando saiu do Hotel dos Príncipes na manhã
do almoço, ia preocupado; Simões, que caminhava à
sua esquerda um pouco sacudido pelos vinhos, em vão tentou, repetidas
vezes, puxá-lo à palestra; o outro respondia apenas por
monossílabos e, na primeira esquina, despediu-se e correu logo
para casa.
Ao chegar foi direto à mulher, dizendo-lhe em voz baixa, antes
de mais nada:
- Olha cá, Loló...
E encaminhou-se para o quarto. Mme. Brizard largou o que tinha entre as
mãos e seguiu-o atentamente.
- Sabes? disse ele, sem transição, assentando-se ao rebordo
da cama. - É preciso arranjarmos cômodo para um rapaz que
há de vir por aí domingo.
- Um rapaz! Mas tu sabes perfeitamente que os quartos acham-se todos ocupados.
Se tivesses prevenido... o n.º 2 ainda ontem estava vazio... Mas
quem é?
- Há de se arranjar, seja lá como for! disse o Coqueiro.
- Mas quem é?... insistiu Mme. Brizard.
- É um achado precioso! Ainda não há dois meses que
chegou do Norte, anda às apalpadelas! Estivemos a conversar por
muito tempo: - é filho único e tem a herdar uma fortuna!
Ah! Não imaginas: só pela morte da avó, que é
muito velha, creio que a coisa vai para além de quatrocentos contos!...
Mme. Brizard escutava, sem despregar os olhos de um ponto, os pés
cruzados e com uma das mãos apoiando-se no espaldar da cama.
- Ora, continuou o outro gravemente. - Nós temos de pensar no futuro
de Amelinha... ela entrou já nos vinte e três!... se não
abrirmos os olhos... adeus casamento!
- Mas daí... perguntou a mulher, fugindo a participar da confiança
que o marido revelava naquele plano.
- Daí - é que tenho cá um palpite! explicou ele.
- Não conheces o Amâncio!... A gente leva-o para onde quiser!...
Um simplório, mas o que se pode chamar um simplório.
Mme. Brizard fez um gesto de dúvida.
- Afianço-te, volveu Coqueiro - que, se o metermos em casa e se
conduzirmos o negócio com um certo jeito, não lhe dou três
meses de solteiro!
A francesa torcia e destorcia em silêncio uma de suas madeixas de
cabelo preto, que lhe caíam na testa.
- E ele terá fraco pelas mulheres? perguntou afinal.
O estudante respondeu com um gesto de convicção, e acrescentou:
- Negócio decidido! A questão é arranjar-lhe o cômodo,
e já! Tu - fala com franqueza à Amelinha; a mim não
fica bem... Olha, até me lembrou dar-lhe o gabinete... Hein? Por
pouco tempo... é só enquanto não se desocupa algum
dos quartos...
- O gabinete?... mas tão atravancado... e tão apertadinho!...
- Dá-se-lhe um jeito! Arranja-se! contanto que o nosso homem não
deixe de vir; porque, Loló, lembra-te de que é "um
filho único, com muito dinheiro e tolo!" Hoje não se
encontra disso a cada passo!... Se perdermos a ocasião, duvido
que apareça outra tão boa! Enfim, resumiu ele - eu já
fiz o que tinha a fazer; o resto é contigo! Fala à Amelinha,
mas fala-lhe com jeito, tu sabes! - pinta-lhe a coisa como ela é!...
e não te esqueça de arranjar o gabinete. Até logo,
tenho ainda que ir à rua, mas volto daqui a pouco.
Nessa mesma tarde Mme. Brizard entendeu-se com a cunhada. Falou-lhe sutilmente
no "futuro", disse-lhe que "uma menina pobre, fosse quanto
fosse bonita, só com muita habilidade e alguma esperteza poderia
apanhar um marido rico".
E tocando-lhe intencionalmente no queixo:
- Anda lá, minha sonsa, que sabes disso tão bem como eu!...
Amélia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que estivesse
no seu alcance, para agradar ao tal sujeitinho.
Ardia, com efeito, por achar marido, por se tornar dona de casa. A posição
subordinada de menina solteira não se compadecia com a sua idade
e com as desenvolturas do seu espírito. Graças ao meio em
que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era pão e o que era
queijo; por conseguinte as precauções e as reservas, que
o irmão tomava para com ela, faziam-na sorrir.
Às vezes tinha vontade de acabar com isso. "Que diabo significavam
tais cautelas?... Se a supunham uma toleirona, enganavam-se - ela era
muito capaz de os enfiar a todos pelo ouvido de uma agulha!"
- Agora, por exemplo, neste caso do tal Amâncio, que custava ao
Coqueiro explicar-se com ela francamente?... Por que razão, se
ele precisava de seu auxílio, não a procurou e não
lhe disse às claras: "Fulana, domingo vem aqui um rapaz, nestas
e nestas condições: vê se o cativas, porque ali está
o noivo que te convém!" Mas, não senhor! - meteu-se
nas encolhas e entregou tudo nas mãos da mulher!
- Ora! disse consigo a rapariga. - Isto até nem sei que me parece!
Ou bem que somos, ou bem que não somos!... Se Janjão queria
alguma coisa de mim, era falar com franqueza e deixar-se de recadinhos
por detrás da cortina!
E Amélia, quanto mais refletia no caso, tanto mais se revoltava
contra a reserva do irmão.
- Ele já devia conhecê-la melhor! pelo menos já devia
saber que aquela que ali estava era incapaz de cair em qualquer asneira;
aquela que não " dava ponto sem nó". Outra, que
fosse, quanto mais - ela, que conhecia os homens, como quem conhece a
palma das próprias mãos! - Ela, que vira de perto, com os
seus olhos de virgem, toda a sorte de tipos! - ela, que lhes conhecia
as manhas, que sabia das lábias empregadas pelos velhacos para
obter o que desejam e o modo pelo qual se portam depois de servidos! -
Ela! tinha graça!
- Ela, que até ali dera as melhores provas de sagacidade e de esperteza;
já "convencendo" tal freguês remisso que não
queria pagar, nem a mão de Deus Padre, o aluguel do quarto pelo
preço cobrado; já respondendo a tal credor, que em tal época,
veio receber tal conta; já sofismando tal compromisso; já
resolvendo tal aperto, uma vez em que nem a própria Mme. Brizard
sabia que fazer! E ainda a suporiam criança?... ainda teriam medo
de qualquer asneira de sua parte?... Pois então que se lembrassem
da questão do Pereirinha!
Pereirinha foi um dos primeiros hóspedes de Coqueiro. Rapaz bonito,
perfumado, muito prosa. Amélia representava para ele a mesma inocência
em pessoa, só lhe falava de olhos baixos, voz sumida, o ar todo
candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma paixão sem bordas,
fazia-lhe versos, tocava-lhe nos pés por baixo da mesa, e, depois
do jantar, quando os mais se alheavam no egoísmo da saciedade,
ele a fitava tristemente, pedindo, com os olhos fosse lá o que
fosse. Pois bem, ela a tudo isso correspondia com muito agrado, submetia-se
resignadamente a todos esses requisitos do namoro vulgar, mas... um belo
dia em que o pedaço de asno do Pereirinha quis ir adiante, Amélia
aconselhou-o sorrindo a que primeiro a fosse pedir em casamento ao irmão.
E, quando se convenceu de que o tipo não queria casar, disse-lhe
abertamente: "Ora, meu amigo, outro ofício!"
E Coqueiro sabia de tudo isso, tão bem como a própria Amélia
- para que, pois, aqueles escrúpulos ridículo e amoladores?...
* * *
Só à noite, à costumada palestra em torno da mesa
de jantar, lembraram-se de que o dia seguinte era de grande gala.
- Ó diabo! considerou Coqueiro. - E eu que podia ter dito ao Amâncio
para vir amanhã! Escusávamos de esperar até domingo.
- Ora, senhores! onde diabo tinha eu a cabeça!...
- Queres saber de uma coisa? disse, tomando a mulher de parte. - Vai tu
e mais Amelinha arranjar o gabinete, que eu escrevo uma carta ao nosso
homem; pode ser que amanhã mesmo o tenhamos por cá. Anda,
vai! O segredo das grandes coisas está às vezes nestas pequenas
deliberações!
E enquanto Mme. Brizard aprontava com Amélia o gabinete, escreveu
ele a carta que Amâncio encontrou sobre a cômoda.
Não descansaram mais um instante. Desde pela manhã do dia
seguinte andava a casa em grande alvoroço. Foi preciso varrer,
escovar, remover do gabinete os móveis que o atravancavam. Preparou-se
uma bela caminha, coberta de lençóis claros e cheirosos;
estendeu-se um tapete no chão; colocou-se a um canto o lavatório,
encheu-se o jarro que ficou dentro da bacia, ao lado da toalha. E feito
isto, puseram-se todos à espera de Amâncio.
Ele, até aquelas horas, não havia declarado por escrito
se iria ou não, logo - era provável que fosse.
E com efeito, pela volta do meio-dia, um tílburi parou à
porta, e Amâncio, muito intrigado com a numeração
das casas, entrou no corredor, a olhar para todos os lados.
Um moleque, que ficara de alcatéia à espera dele correu
logo ao primeiro andar, gritando que "o moço já estava
aí".
- Cala a boca, diabo! respondeu Mme. Brizard em voz abafada e discreta.
Coqueiro ergueu-se prontamente do lugar onde se achava e atirou-se com
espalhafato para o corredor, alegre e expansivo, como se recebera, depois
de longa ausência, um velho amigo da infância.
- Bravo! exclamava, sacudindo os braços e correndo ao encontro
de Amâncio. - Bravo! Assim é que entendo os amigos! Não
te perdoaria se faltasses!
E com muita festa, a apressá-lo:
- Vem entrando para a sala de jantar! Estás em tua casa! Entra!
Entra!
Amâncio deixava-se conduzir, em silêncio. Já não
tinha o mesmo tipo mal ajeitado com que se apresentara ao Campos; agora,
um terno de casimira cinzenta, comprado nessa mesma manhã a um
alfaiate da Rua do Ouvidor, dava-lhe ares domingueiros de janotismo. Vinha
de barba feita, as unhas limpas, os dentes cintilantes, o cabelo dividido
ao meio, formando sobre a testa duas grandes pastas lustrosas e do feitio
de uma borboleta de asas abertas. Os olhos não denunciavam os incômodos
da véspera, e de todo ele respirava um cheiro ativo de sândalo.
- Estimei bem que me escrevesses... disse atravessando o corredor, ao
lado do Coqueiro. Não tinha para onde ir hoje. Campos está
de passeio com a família lá para o tal Jardim Botânico.
- Pois eu estimei ainda mais que viesses. Entra!
Penetraram na sala de jantar. Estava tudo muito bem arrumado e muito limpo;
não se podia desejar melhor aspecto de felicidade caseira; em tudo
- a mesma aparência austera e calma de uma velha paz inquebrantável
e honesta. Mme. Brizard, assentada à cabeceira da mesa, parecia
ler atentamente um livro que tinha aberto defronte dos olhos; mais adiante
trabalhava Amelinha em uma máquina de costura, a cabeça
vergada, os olhos baixos, numa expressão tranqüila de inocência.
Logo que Amâncio apareceu na varanda, Mme. Brizard desviou os olhos
do livro, deixou cair as lunetas do nariz e foi recebê-lo solicitamente;
a outra limitou-se a cumprimentá-lo com um modesto e gracioso movimento
de cabeça.
- Dr. Amâncio de Vasconcelos! gritou o Coqueiro, empurrando o colega
para junto das senhoras. E acrescentou, designando-as: - Minha mulher
e minha irmã...O amigo já sabe que são duas criadas
que aqui tem às suas ordens!
Amâncio agradecia, desfazendo-se em reverências e apertando
as mãos de ambas, todo vergado para a frente, as faces incendiadas
pela comoção daquela primeira visita.
- Põe-te à vontade, filho! disse-lhe Coqueiro, com ar quase
de censura. - Olha uma cadeira. Senta-te!
E tirando-lhe a bengala e o chapéu das mãos: - Aqui estás
em tua casa! Minha gente não é de cerimônias!
Entretanto Mme. Brizard o tomava a si com perguntas: - Há quanto
tempo havia chegado; de que província era filho; se tinha saudades
da família; se gostava do Rio de Janeiro; que tal achava as fluminenses,
e se já estava embeiçado por alguma?
E vinham os risos exagerados e sem pretexto, de quando se deseja agradar
visitas.
O provinciano respondia a tudo, inclinando a cabeça, procurando
armar bem a frase e fazendo esforços para se mostrar de boa educação.
Ia-lhe já fugindo o primitivo acanhamento e as palavras acudiam-lhe
à ponta da língua, sonoras e fáceis.
- Não tenho desgostado da Corte, dizia a brincar com a sua medalha
da corrente - mas, confesso, esperava melhor... Lá de fora, sabe
V. Excia? a coisa parece outra. Fala-se tanto do Rio!... Pintam-no tão
grande, tão bonito, que o pobre provinciano, ao chegar aqui, logo
sofre uma terrível decepção!... Pelo menos comigo
foi assim!
- O Sr. Vasconcelos já visitou os arrabaldes?... perguntou Mme.
Brizard muito delicadamente.
- Ainda não, minha senhora. Apenas fui a Botafogo, de passagem,
para entregar uma carta; mas, tenciono percorrê-los, todos, na primeira
ocasião.
E Amâncio olhava a espaços Amélia, que parecia muito
preocupada com o trabalho.
- Pois suspenda esse juízo a respeito do Rio, até que conheça
os arrabaldes, acrescentou a dona da casa. - Só por eles se poderá
julgar o quanto é bela e grandiosa esta cidade! Oh! A natureza
do Brasil! não há coisa nenhuma que se lhe possa comparar!...
E fitando-o, depois de um gesto de entusiasmo:
- Para um espírito contemplativo e apaixonado, essa esplêndida
natureza vale por todas as maravilhas da velha Europa!
- V. Excia. parece gostar muito do Brasil...
- Habituei-me a isso com o meu segundo marido... ele era louco por este
país! Quantas vezes, depois que caiu doente e que os médicos
lhe recomendaram que viajasse, quantas vezes não o aconselhei a
que liquidasse aqui os seus negócios e fôssemos viver para
a Europa... Já não havia sombra de perseguição
política (porque foi uma perseguição política
que o atirou no Brasil), não havia razões, por conseguinte,
para não voltar à pátria, não havia razões
para se deixar morrer aqui, como morreu!... Pois bem: sabe o senhor o
que ele me respondia sempre? Dizia-me:"Bebê." (Era assim
que me tratava). "Bebê, compreendes um homem apaixonado por
uma mulher, a ponto de não a poder deixar um só instante?
compreendes um escravo, um cão?... assim sou eu por esta natureza.
Não a posso abandonar! - estou apaixonado, louco!" Entretanto,
- veja o Dr.! - Hipólito, aqui nunca foi devidamente apreciado
e compreendido; nunca recebeu a mais insignificante prova de gratidão
do governo deste país, que ele idolatrava daquele modo! Trabalhou
muito para o Brasil, e de graça! Estão aí as empresas,
os jornais, as sociedades que fundou! Pois o governo - nem uma palavra,
nem uma consideração, nem um "muito obrigado!".
Se o pobre homem não tivesse posto de parte algum dinheiro, ficava
eu na miséria, perfeitamente na miséria!
Amâncio principiava a desconfiar que aquela francesa era nada menos
que um formidável "cacete".
- Uma verdadeira paixão!... insistiu ela. - Uma paixão que
o prendia aqui! porque, senhores, Hipólito, se quisesse, podia
representar um invejável papel na Europa! Tinha lá o seu
lugar seguro, e...
Foi interrompida pelo César que entrara de carreira mas estacara
de repente ao dar com Amâncio. Coqueiro havia se afastado para mandar
servir alguma coisa.
- Este é o meu César, meu último filho, elucidou
Mme. Brizard, e gritou logo: - Vem cá, César! Vem falar
com este moço!
César aproximou-se, vagarosamente, com o silêncio de quem
observa um estranho.
- Lindo menino! considerou Amâncio, puxando-o para junto de si.
- E não calcula o senhor que talento! afirmou a mãe, em
voz baixa e grave, estendendo a cabeça para o lado da visita: -
Uma coisa extraordinária!
- Já fez uma poesia! Acrescentou João Coqueiro que, nessa
ocasião, junto ao aparador, enchia copos de cerveja.
- Mas, coitado! prosseguiu Mme. Brizard - não se pode puxar por
ele; sofre muito do peito! O médico recomendou que não o
fatigassem por ora; é preciso esperar que ele se desenvolva mais
um pouco.
- É pena! disse Amâncio com tristeza, afagando a cabeça
de César.
- Nunca vi uma criatura para aprender as coisas com tanta facilidade!
Nada vê, nada ouve que não decore logo! que não repita
- tintim por tintim!
- Sim?... perguntou Amâncio, com um gesto cerimonioso de pasmo.
- E então para a música?... Aprendeu a escala em um dia!
E já toca variações ao piano... tudo de ouvido!
- É admirável! repetia Amâncio, para dizer alguma
coisa. Deve estar muito adiantado nos estudos!...
- Ah! estaria decerto, se pudesse estudar, mas, coitado, ainda não
sabe ler!
- Ah! fez Amâncio, sem achar uma palavra.
- Mas, também, quando principiar...
- Irá longe! concluiu Amâncio, satisfeito por ter enfim uma
frase. - Deve ir muito longe!
E afiançava que, pela fisionomia de César, logo se lhe adivinhava
a inteligência.
- Esta fronte não engana! Dizia a suspender-lhe o cabelo da testa.
- E é travesso?...
Mme. Brizard soltou uma exclamação: - Não lhe falasse
nisso! Só ela sabia o capetinha que ali estava!
César abaixou o rosto com uma risada, e Amâncio declarou
que "a travessura era própria daquela idade!".
E, porque o moleque se aproximava com uma bandeja na mão, cheia
de copos, ergueu-se para oferecer um a Mme. Brizard e outro a Amélia.
- Muito agradecida, disse esta, sorrindo. - Sou um pouco nervosa; a cerveja
faz-me mal.
- Ah! V. Excia. é nervosa?
- Um pouco. E quem neste mundo não sofre mais ou menos dos nervos?...
E riu de todo, mostrando a sua dentadura provocadora.
Amâncio considerou intimamente que a achava deliciosa. - Um mimo!
E, de fato, Amélia nesse dia estava encantadora. Vestia fustão
branco, sarapintado de pequenas flores cor-de-rosa. O cabelo, denso e
castanho, prendia-se-lhe no toutiço por um laço de seda
azul, formando um grande molho flutuante, que lhe caía elegantemente
sobre as costas. O vestido curto, muito cosido ao corpo, eluvava-lhe as
formas, dando-lhe um ar esperto de menina que volta do colégio
a passar férias com a família.
Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como estava
naquele momento, a volta enérgica da cintura e a suave protuberância
dos seios, produziam nos sentidos de quem a contemplava de perto uma deliciosa
impressão artística.
Sentia-se-lhe dentro das mangas do vestido a trêmula carnadura dos
braços; e os pulsos apareciam nus, muito brancos, chamalotados
de veiazinhas sutis, que se prolongavam serpeando. Tinhas as mãos
finas e bem tratadas, os dedos longos e roliços, a palma cor-de-rosa
e as unhas curvas como o bico de um papagaio.
Sem ser verdadeiramente bonita de rosto, era muito simpática e
graciosa. Tez macia, de uma palidez fresca de camélia; olhos escuros,
um pouco preguiçosos, bem guarnecidos e penetrantes; nariz curto,
um nadinha arrebitado, beiços polpudos e viçosos, à
maneira de uma fruta que provoca o apetite e dá vontade de morder.
Usava o cabelo cofiado em franjas sobre a testa, e, quando queria ver
ao longe, tinha de costume apertar as pálpebras e abrir ligeiramente
a boca.
Amâncio, bebendo aos goles distraídos a sua cerveja nacional,
via e sentia tudo isso, e, sem perceber, deixava-se tomar das graças
de Amélia. Já lhe preava a carne o mordente calor daquele
corpo; já o invadiam o perfume sombroso daquele cabelo e a luz
embriagadora daqueles olhos; já o enleava e cingia a doce sensibilidade
elástica daquela voz, quebrada, curva, cheia de ondulações,
como a cauda crespa de uma cobra.
E, enquanto palavreava abstraído com Mme. Brizard e com Coqueiro,
percebia que alguma coisa se apoderava dele, que alguma coisa lhe penetrava
familiarmente pelos sentidos e aí se derramava e distendia, à
semelhança de um polvo que alonga sensualmente os seus langorosos
tentáculos. E, sempre dominado pelos encantos da rapariga, alheava-se
de tudo que não fosse ela; queria ouvir o que lhe diziam os outros,
prestar-lhes atenção, mas o pensamento libertava-se à
força e corria a lançar-se aos pés de Amélia,
procurando enroscar-se por ela, à feição do tênue
vapor do incenso, quando vai subindo e espiralando, abraçado a
uma coluna de mármore.
Coqueiro fazia não dar por isso e, ao topar com os olhos os da
mulher, entre eles corria um raio de satisfação, mais ligeiro
que um telegrama.
Amâncio, entretanto, quase nada conversou com Amélia; apenas
trocaram palavras frias de assuntos sem interesse. Mas seus olhares também
se encontravam no ar, e logo se entrelaçavam, prendiam-se e confundiam-se
no calor do mesmo desejo.
Naquela mulher havia incontestavelmente o que quer que fosse, difícil
de determinar, que não obstante, se entranhava pela gente e, uma
vez dentro, crescia e alastrava. O seu modo de falar, as reticências
de seus sorrisos, o langor púdico e ao mesmo tempo voluptuoso de
seus olhos que espiavam, inquietos, através do franjado das pestanas;
a doçura dos seus movimentos ofídicos e preguiçosos,
o cheiro de seu corpo; tudo que vinha dela zumbia em torno dos sentidos,
como uma revoada de cantáridas.
Vinham-lhe preocupações. Começava a imaginar como
seria a sua existência naquela casa, se ele, porventura, resolvesse
a mudança; calculava situações; encontros inesperados
com Amélia nos corredores desertos; manhãs frias, de chuva,
em que fosse preciso gazear as aulas, e deixar-se ficar ali, a "prosar"
naquela varanda, ao lado dela, a encher o tempo, a dizer "tolices".
- Que tal seria tudo isso?... Seria tão bom que valera a pena suportar
às caceteações de Mme. Brizard e sofrer a convivência
do tal Coqueiro?... Seria tão bom que merecera a renúncia
de sua liberdade, tão sacrificada ali quanto em casa do Campos?
Não! não valia a pena!... Mas... Amélia?... quem
sabe lá o que daria de si aquele ladrãozinho?...
E pensando deste modo, ergueu-se disposto a acompanhar Coqueiro, que insistia
em lhe mostrar a casa.
Principiaram pela chácara.
- Olha. Isto aqui é como vês!... dizia o proprietário.
- Boa sombra, caramanchões de maracujá, flores, sossego!...
Bom lugar para estudo! E vai até o fundo. Vem ver!
Amâncio obedecia calado.
- Parece que se está na roça!... acrescentou o outro. -
De manhã é um chilrear de passarinhos, que até aborrece!
Quando aqui não houver fresco, não o encontrarás
também em parte alguma! Cá está o terraço.
- Sobe!
Subiram três degraus de pedra e cal.
- Vês?!... exclamou Coqueiro, parando em meio do pequeno quadrado
de velhos tijolos. E, depois com as pernas abertas e um braço estendido:
- Creio que não se pode desejar melhor!
Desceram, em seguida, para visitar o banheiro, o tanque, o repuxo e outras
comodidades que havia no quintal, e a cada uma dessas coisas - novas exclamações
e novos elogios.
Subiram outra vez ao primeiro andar, pela cozinha. Um preto, de avental
e boné de linho branco, à moda dos cozinheiros franceses,
trabalhava ao fogão. Coqueiro exigiu que o amigo olhasse para aquele
asseio; atentasse para a nitidez das caçarolas de metal areado,
para a limpeza das panelas, para a fartura de água na pia.
- A Madame, dizia ele a rir-se, com ar interessado de quem deseja convencer
- a Madame traz isto num brinco! Pode-se comer no chão!
E continuaram a revista da casa. Amâncio, porém, ia distraído,
tinha a cabeça cheia de Amélia.
- Que dentes! pensava - e que cintura! que olhos!...
- É excelente! segredou-lhe Coqueiro, pondo mistério na
voz. - Um serviço admirável!
- Hein?! exclamou o provinciano, voltando-se rapidamente para o colega.
- Cozinheiros daquela ordem encontram-se poucos no Rio! respondeu este
ainda em segredo.
- Ah! o cozinheiro... disse Amâncio.
- Divino! acrescentou o outro.
E, mudando logo de tom:
- Cá está a despensa. Compramos tudo em porção
do mais caro, mas também podes ver a fazenda! Tudo de primeira!
Ah! Eu cá sou assim - mostro! Meus hóspedes não podem
se queixar!
E destapava vivamente a lata das farinhas e dos feijões, mostrava
o vinho engarrafado em casa, as mantas de carne-seca ressumbrando sal,
o arroz, o café, e o resto.
- Tudo de primeira! repetia com entonação mercantil, a passar
ao colega um punhado de feijões. - Tudo de primeira!
-É exato, resmungo Amâncio, sem ver.
Isto agora são quartos de hóspedes, enunciou Coqueiro seguindo
adiante. - Aqui embaixo só temos três. Neste, disse mostrando
o n.º 1, está Dr. Tavares, um advogado de mão-cheia;
caráter muito sério!
No segundo declarou que morava o Fontes:
- Não era mau sujeito, coitado! Fora infeliz nos negócios:
quebrara havia dois anos e ainda não tinha conseguido levantar
a cabeça.
E abafando a voz:
- Dizem que ficou arranjado... não sei!... Paga pontualmente as
suas despesas, mas é um "unha-de-fome", regateia muito,
chora - vintém por vintém - o dinheiro que lhe sai das mãos!
Está sempre com uma cara muito agoniada, sempre se queixando. E
agora, vão ver: - furão como ele só; especula com
tudo; tem o quarto cheio de fazendas, fitas e tetéias de armarinho;
vende essas miudezas pelas casas particulares, e dizem que faz negócio.
A mulher, uma francesa coxa, é empregada na Notre Dame e só
vem a casa para dormir.
E, indicando o n.º 3.
- Aqui é o Piloto.
- Que Piloto? perguntou logo Amâncio.
- O Piloto, homem! Aquele repórter da Gazeta!
Amâncio não conhecia.
- Ora quem não conhece o Piloto! um rapaz tão popular. Um
que anda sempre muito ligeiro, olhando para os lados, aos pulinhos, como
um calango. Não conheces?!
Amâncio disse que saiba quem era - para acabar com aquilo.
- Bom hóspede! acrescentou o outro. - Também só aparece
à noite: não incomoda pessoa alguma.
- Bem... disse Amâncio com um bocejo. São horas de ir-me
chegando.
- Quê?! bradou Coqueiro. - Tu jantas conosco! Minha gente conta
contigo... não te dispensamos! E demais, quero mostrar-te o resto
da casa. Vem cá ao segundo andar.
O provinciano lembrou timidamente que isso podia ficar para outra ocasião;
mas Coqueiro respondeu puxando-o pelo braço na direção
da escada:
- Venha cá! Não seja preguiçoso!
Depois de subir, acharam-se em corredor estreito e oprimido pelo teto.
Ao fundo uma janela de grades verdes coava tristemente a luz que vinha
de fora. Lia-se nas portas, em algarismos azuis, pintados sobre um pequeno
círculo branco, os números de 4 a 11.
- Aquilo tinha aspecto de casa de saúde... pensou Amâncio,
com tédio. - Não devia ser muito agradável morar
ali. Todos os quartos, entretanto, estavam tomados.
Coqueiro principiou logo, em voz soturna, a denunciar os competentes moradores:
- N.º 4 - Campelo, um esquisitão, porém bom sujeito,
de comércio; não comia em casa senão aos domingos
e isso mesmo só de manhã. N.º 5 - Paula Mendes e a
mulher; casal de artistas, davam lições e concertos de piano
e rabeca; muito conhecidos na Corte. N.º 6 - Um guarda-livros; bom
moço; tinha o quarto sempre muito asseadinho e à noite,
quando voltava do trabalho, estudava clarineta. O n.º 7 era de um
pobre rapaz português; doente: vivia embrulhado em uma manta de
lã, por cima do sobretudo, e saía todas as manhãs
a passeio para as bandas da Tijuca.
A porta do n.º 8 estava aberta e Amâncio viu, de relance, a
cauda de uma saia que fugia para o interior do quarto. E logo uma voz
aflautada, de mulher, gritou:
- Cora! Fecha essa porta!
- É uma tal Lúcia Pereira... segredou Coqueiro - mora aí
com o marido, um tipo!
Estavam na casa há muito pouco tempo. Coqueiro não podia
dizer ainda que tais seriam, porque só formava o seu juízo
depois de paga a primeira conta.
O n.º 9 era do Melinho - uma pérola! Empregado na Caixa de
Amortização; não comia em casa, mas, às vezes,
trazia frutas cristalizadas para Mme. Brizard e Amelinha. Belo moço!
Coqueiro não se lembrava como era ao certo o nome do sujeito que
ocupava o n.º 10: "Lamentosa ou Latembrosa, uma coisa por aí
assim!" Ele tinha o nome escrito lá embaixo. - Mas que homem
fino! delicadíssimo! um verdadeiro gentleman! E tocava violão
com muito talento.
O n.º 11, que ficava justamente encostado à janela do corredor,
pertencia a um excelente médico, Dr. Correia; estava, porém,
quase sempre fechado, visto que o doutor só se utilizava do quarto
para certos trabalhos e certos estudos, que, por causa das crianças,
não podia fazer em casa da família. Vinha às vezes
com freqüência e às vezes não aparecia durante
um mês inteiro; mas pagava sempre, e bem.
Esse quarto, como o outro que ficava na extremidade oposta do corredor,
tinha saída para a chácara.
Amâncio propôs a Coqueiro que descessem por aí.
- De sorte que, foi-lhe dizendo este pela escada - à mesa só
temos diariamente os seguintes: Dr. Tavares, Paula Mendes e a mulher,
Lúcia e o marido, e o tal sujeito de nome esquisito. Só!
Aos domingos, então, fica-se em completa liberdade, porque jantam
fora quase todos. - Vês, pois, que em parte alguma estarias melhor
do que aqui!...
- Mas, filho, observou Amâncio - teus quartos estão todos
ocupados!...
O outro respondeu com um risinho. E, depois de ligeiro silêncio,
passando-lhe um braço nas costas:
- Tu, aqui, não quero que sejas um hóspede, mas um amigo,
um colega, um filho da família, uma espécie de meu irmão,
compreendes? São dessas coisas que se não explicam - questão
de simpatia! Conhecemo-nos de ontem e é como se tivéssemos
sido criados juntos; em mim podes contar com um amigo para a vida e para
a morte!
E, estacando defronte de Amâncio, olhou para ele muito sério,
dizendo em tom grave:
- E acredita que isto em mim é raro! Pergunta aí aos meus
colegas se sou de muitas amizades; todos eles te dirão que ninguém
há mais concentrado e metido consigo. Mas, quando simpatizo deveras
com uma pessoa, é assim, como vês, trago-a para o seio de
minha família e trato-a como irmão!
E, descaindo no tom primitivo da conversa:
- Se ficares aqui, como espero, verás com o tempo a sinceridade
do que te estou dizendo! É que gostei de ti, acabou-se.
Amâncio jurava corresponder àquela amizade, mas, no íntimo,
ria-se de Coqueiro, que agora lhe parecia tolo, e cujo casamento com a
francesa velhusca o tornava, a seus olhos cada vez mais ridículo.
Ao passarem pelo salão concordaram que aquilo era uma excelente
lugar para um "boa prosa".
Amâncio teria tudo isso às suas ordens; podia dispor!...
acrescentou o outro. E, abrindo cuidadosamente a porta do gabinete que
ficava ao lado, disse, com a entonação de um guarda de museu
que vai mostrar uma raridade:
- Eis o ninho que te destino! É o lugar mais catita de toda a casa;
isto, porém, não quer dizer que os outros cômodos
não estejam à tua disposição!... Se, mais
tarde, te apetecer trocar de quarto...
E, logo que entraram, foi-lhe mostrando a caminha cheirosa, o pequeno
lavatório de pedra-mármore; fê-lo notar o bom estado
da cômoda, a elegância do velador, o artístico das
escarradeiras.
- E ali, o grande mestre! exclamou com ênfase, apontando para a
gravura da parede.
- "Vítor Hugo", leu Amâncio debaixo do retrato.
- Bom poeta! acrescentou.
- Creio que não ficarás mal, hein?... disse o outro.
- Ah! não! respondeu o provinciano, assentando-se fatigado em uma
cadeira. E o preço?
- Ah! Isso depois... minha mulher é quem sabe dessas coisas, mas
não havemos de brigar!...
E riu.
- Ficas aqui muito bem! Serás tratado como um filho; quando precisares
de qualquer cuidado, numa moléstia, numa dor de cabeça,
hás de ver que te não faltará nada! Além disso
- podes entrar e sair à vontade, livremente, às horas que
entenderes; se gostas de teu chazinho à noite, com torradas, hás
de encontrá-lo, abafado, à tua espera sobre aquela mesa...
De manhã, se quiseres o café na cama, também terás
o teu café e, quando estiveres aborrecido do quarto, tens o salão,
tens a sala de jantar, a chácara, o jardim; finalmente, tens tudo
às tuas ordens!
- Agora, quanto a certas visitas... concluiu João Coqueiro, fazendo-se
muito sisudo e abaixando a voz - isso, filho, tem paciência... Lá
fora o que quiseres, mas daquela porta para dentro...
- Decerto! apressou-se a declarar o outro, com escrúpulo.
- Sim! Sabes que isto é uma casa de família e, para a boa
moral...
- Mas certamente, certamente! repetiu Amâncio.
E acendeu um cigarro.
|