CASA
DE PENSÃO
Aluísio
Azevedo
CAPÍTULO V
João Coqueiro
era fluminense e fluminense da gema. Nascera na Rua do Parto em uma das
casas de seus pais, quando estes eram ricos.
Que o foram. Viera-lhes a fortuna do avô materno, um português
ambicioso e econômico, que a conquistara no tráfico dos negros
africanos; ao morrer legou à filha, ainda criança, para
cima de quinhentos contos de réis. Esta, mais tarde, foi solicitada
em casamento pelo homem a quem pertenceu para sempre - Lourenço
Coqueiro, os maiores bigodes que nesse tempo negrejavam na Corte do Império.
Lourenço, todavia, era já um destroço quando casou.
Do que fora e do que possuíra, apenas lhe restava, além
do bigode, o hábito de não fazer coisa alguma; nos melhores
grupos citava-se, entretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se
com boa vontade de seus dotes pessoais e do seu belo espírito eternamente
galhofeiro.
O casamento representou para ele uma tábua de salvação.
A mulher adorava-o; tinha-o na conta de um ente superior; jamais vira
homem tão lindo de rosto, tão insinuante no falar, tão
delicado de maneiras.
Mas, pouco depois de casado, Lourenço começou a desgostá-la:
era um nunca terminar de festas; a casa vivia num rebuliço constante;
os intervalos das pândegas não davam sequer para a trazer
arrumada e limpa. Quando não fossem bailes, eram passeios, piqueniques,
manhãs no campo, dias passados na Tijuca ou no Jardim Botânico.
Lourenço, às vezes, voltava ébrio, a cachimbar no
fundo do carro, e a fazer carícias piegas à mulher, que
ao lado, chorava silenciosamente. Ela, coitada! tinha muito medos sempre
que o via nesse gosto, porque o demônio do homem dava então
para brigar, mexia com quem passava, metia a bengala nos cocheiros e quebrava
com os pés tudo que encontrasse no caminho.
Tiveram o primeiro filho - Janjão. Criancinha feia, dessangrada,
cheia de asma. Até aos cinco anos parecia idiota: passavam os dois
a babar-se debaixo da mesa de jantar ao pé de um moleque encarregado
de vigiá-la.
A mãe desfazia-se em mil cuidadozinhos com a criança; era
esta o seu enlevo, a sua vida. Mas o pai não estava por isso: -
temia que o rapaz lhe saísse um maricas. Desejava-o forte, decidido!
E, com enormes sobressaltados da mulher, tomava-o pelas perninhas magras
e suspendia-o no ar.
- Os homens assim é que se fazem, minha filha! dizia ele a rolar
o pequeno entre as mãos.
E não admitia igualmente que o menino tivesse outra cama que não
fosse um enxergão. Não o queria calçado, nem vestido
e, em vez de estar ali a babar-se defronte do moleque, seria muito melhor
que fosse correr para a chácara.
- Ele pode machucar-se, Lourenço, cair! observava a esposa timidamente.
- Pois deixa-o cair! deixa-o machucar-se! Quanto mais trambolhões
levar em pequeno, melhor, depois se agüentará nas pernas!
- Mas ele é tão fraquito, coitadinho!
- Por isso mesmo! por isso mesmo precisamos torná-lo forte! E previno-te
de que já é mais que tempo de acabar com esse insuportável
tratamento de "Janjão!" Aqui não há janjões!
Meu filho chama-se João! Tem o nome do avô, um herói,
um fidalgo! Não desses que hoje se fazem aí a três
por dois, mas dos legítimos, dos bons! - Entendes tu? - dos bons!
E inflamava-se, como sempre que se referia à sua procedência.
Vinha, com efeito, de fidalgos: era sobrinho bastardo de um conde português.
À mesa exigia que o filho lhe ficasse ao lado e obrigava-o a comer
bifes sangrentos e tomar vinho sem água.
Um dia a esposa revoltou-se:
- Pois tu vais dar conhaque ao menino, Lourenço?! exclamou ela
escandalizada.
- Deixa-o cá comigo, senhora! Eu sei o que faço!
- Olha que isso pode sufocá-lo, homem de Deus!
- Qual sufocar o quê! Por essas e outras é que, para os estrangeiros,
não passamos de "uns macacos"!
A mulher que se desse ao trabalho de saber como se fazia na Europa a educação
física das crianças! Queria que ela visse a criação
que tiveram D. Pedro e D. Miguel! E eram príncipes! - Entendia?
- eram príncipes legítimos!
E, voltando-se para o filho, gritou, arregalando os olhos e soprando os
bigodes, que já então se faziam cinzentos:
- Tu não queres ser um homem forte, João?! Queres ser um
descendente degenerado de teus avós?!
Janjão olhou o pai com medo, e abriu a chorar.
- Aí tens o que procuravas! disse a mulher, correndo para junto
do filho. - Assustar desse modo a pobre criança!
Janjão chorava mais.
- Isso! Isso é o que há de pôr pra diante! berrou
Lourenço encolerizando-se. Beba já esse conhaque, menino!
- Deixa a criança!... suplicava a mãe. - Olha como treme
o pobrezinho!... o coração parece que lhe quer saltar!...
E tomou-o ao colo.
- É melhor mesmo que leves daí esse mono! Tira-mo dos olhos!
Já estou vendo a boa lesma que isso há de dar! - Mães
ignorantes!...
Quando Janjão principiou a crescer, o pai levava-o a toda a parte,
dava-lhe charutos, obrigava-o a tomar cerveja nos cafés. Foi, porém,
uma campanha conseguir uma vez que o pequeno se assentasse por dois minutos
na sela de um cavalo em que Lourenço havia chegado do seu passeio
favorito a Botafogo.
Janjão, trêmulo da cabeça aos pés, agarrava-se
com ambas as mãos nas crinas do animal e berrava pela mãe
de toda a força de que era capaz. Tiveram de desmontá-lo
para não o verem rebentar ali mesmo.
- Ora, como diabo havia de sair este mono! lamentava o pai desesperado.
- Ninguém acreditaria que aquele choramingas era seu filho!
Não foram mais felizes com as primeiras tentativas de natação
ou as primeiras experiências de atirar ao alvo: Janjão, só
com a vista do mar ou a presença de um revólver, desatava
a soluçar e a berrar pela mãe.
- Não! Isso agora hás de ter paciência! resmungava
Lourenço. - Tu ao menos ficarás sabendo dar um tiro! Sou
eu quem te assegura!
E, com muita sutileza, comprou para o filho uma bela pistolinha de brinquedo
que estalava fulminantes, e depois uma outra, mais séria, que admitia
carga de pólvora.
Janjão era, porém, cada vez mais refratário a tudo
isso. Preferia ficar a um canto da sala, entretido a vestir os seus bonecos
ou a fazer de cozinheiro. A mãe por esse tempo dava-lhe uma irmãzinha,
que se ficou chamando Amélia, e desde aí o maior encanto
do menino era tomar conta do caixão em que estava a pequerrucha
toda envolvida em panos, e não consentir que as moscas lhe pousassem
na moleira.
Um dia, o pai, descendo ao quintal, encontrou-o muito empenhado com o
moleque a armar um oratório. Iam fazer procissão: o andor
e o santo estavam prontos; uma sombrinha enfeitada de franjas, faria as
vezes de pálio.
Lourenço ficou desesperado, e com dois pontapés reduziu
tudo aquilo a frangalhos.
- Era o que lhe faltava! - que o basbaque do filho, além de tudo,
lhe saísse carola!
E quando subiu, disse terminantemente à mulher que não admitia
que o filho corrompesse o espírito com as patacoadas daquela ordem.
- Se me constar, bradou ele ao pequeno - que me tornas a fazer igrejinhas,
racho-te de meio a meio, pedaço de uma lesma! Ora vamos a ver!
Cai noutra, e terás uma sapeca que te deixa a paninhos de sal!
Experimenta e verás!
Ele queria lá filhos devotos! Era só o que lhe faltava!
Era só! Aquele menino parecia o seu castigo! parecia a sua maldição!
Aos doze anos Janjão entrou para o internato de Pedro II. A princípio
custou-lhe bastante compreender as lições, mas, como era
muito estudioso e muito paciente, os professores em breve o elogiavam.
Tinham-no em boa estima pelo seu espírito católico, pela
docilidade de seu gênio e pelo irrepreensível de sua conduta.
João Coqueiro, de fato, fora sempre um menino sossegado metido
consigo, respeitador dos mestres e dos preceitos estabelecidos, devoto
e extremamente cuidadoso de seus livros e de suas obrigações.
Ninguém lhe ouvia palavra mais áspera ou gesto menos conveniente,
e às vezes entrava pela hora do recreio grudado aos livros sem
os querer deixar.
O pai via-o então com orgulho. Profetizava já que ali estivesse
um sábio.
Tirou distinção nos primeiros exames. A mãe quase
morre de alegria. Lourenço quis solenizar o acontecimento com um
banquete correlativo; mas as suas condições de fortuna já
não eram as mesmas; o dinheiro ia minguando de um modo assustador.
Se lhe viesse a falhar uma especulação, em que se havia
lançado ultimamente, como recurso extremo - Adeus! estaria tudo
perdido! a ruína seria inevitável!
Fez-se a festa, não obstante, e o menino voltou aos estudos.
Mas Lourenço principiava a sofrer gravemente de uma lesão
cardíaca. Tinha ataques nervosos, sufocações, e caía,
de vez em quando, em fundas melancolias, durante as quais se enterrava
no quarto, sem poder suportar a presença de ninguém, muito
frenético, cheio de apreensões, com grande medo de morrer.
A mulher assustava-se: o marido não lhe parecia o mesmo homem.
Estava acabado; crescera-lhe o ventre, o nariz tomara uma vermelhidão
gordurosa, o cabelo encanecera totalmente, a cabeça despira-se,
a pele do rosto fizera-se opaca e suja. Comprazia-se agora ir à
noite pelas igrejas, embrulhado na sua sobrecasaca russa, apoiando-se
à grossa bengala de cana-da-índia, os pés à
vontade em sapatos rasos. Ajoelhava-se a um canto da nave, em cima das
pedras, e aí permanecia longamente, a ouvir os sons lamentosos
do órgão, com o rosto descansado sobre as mãos que
se cruzavam no castão da bengala.
Às vezes chorava.
Seu estômago irritado já não queria os alimentos;
era preciso enganá-lo de instante a instante com um pouco de noz-vômica
ou carbonato de magnésia. Não se lhe podia suportar o hálito.
Quando recebeu a notícia de que a sua especulação
falhara, estava no quarto, não conseguiu sair do lugar em que se
achava. Uma onda vermelha subira-lhe à cabeça: os objetos
principiaram a dançar-lhe em torno dos olhos; o chão fugia-lhe
debaixo dos pés. Tentou ainda dar alguns passos, mas cambaleou
e caiu afinal sobre as pernas embambecidas - como uma trouxa.
Morreu no dia seguinte.
A família ficou pobre. Foi preciso vender o melhor de dois prédios
que restavam, para saldar as dívidas do defunto.
A viúva principiou então a tomar encomendas de costura e
de engomagem.
Isso, porém, não bastava; era necessário, a todo
o transe, que o menino continuasse nos estudos. Em tal aperto, lembrou-se
a pobre mãe de admitir hóspedes; a casa que ficou tinha
bastante cômodos e prestava-se admiravelmente para a coisa.
Vieram os primeiros inquilinos; arranjaram-se fregueses para o almoço
e jantar, e o órfão prosseguiu nas suas aulas.
Dentro de pouco tempo, o sobrado da viúva de Lourenço era
a mais estimada e popular casa de pensão do Rio de Janeiro.
Foi nela que Janjão se fez homem. Aí o viram bacharelar-se
e aí se matriculou na Escola Central. A irmã respeitava-o
como a um pai.
Amélia, por conseguinte, cresceu em uma - casa de pensão.
Cresceu no meio da egoística indiferença de vários
hóspedes, vendo e ouvindo todos os dias novas caras e novas opiniões,
absorvendo o que apanhava da conversa dos caixeiros e estudantes irresponsáveis;
afeita a comer em mesa redonda, a sentir perto de si, ao seu lado, na
intimidade doméstica - homens estranhos, que não se preocupavam
com lhe aparecer em mangas de camisa, chinelas e peito nu.
Ainda assim deram-lhe mestres. Aprendera a ler e a escrever, tocava já
o seu bocado de piano e - se Deus não mandasse o contrário
- havia de ir muito mais longe.
Um novo desastre, veio, porém, alterar todos esses planos: a viúva
de Lourenço, depois de dois meses de cama, sucumbiu a uma pneumonia.
João Coqueiro estava então no segundo ano da Politécnica;
Amélia a fazer-se mulher por um daqueles dias; parentes - não
os tinham... capitais - ainda menos... Como, pois, sustentar a casa de
pensão?... Oh! Era preciso despedir os hóspedes, alugar
o prédio, abandonar os estudos e obter um emprego.
Arranjou-o de fato - na estrada de ferro de Pedro II. Coqueiro dissolveu
logo a casa de pensão e foi mais a irmã residir em companhia
de uma francesa, muito antiga no Brasil, e que durante longo tempo se
mostrou amiga íntima da defunta.
Chamava-se Mme. Brizard.
Era mulher de cinqüenta anos, viúva de um afamado hoteleiro,
que lhe deixara muitas saudades e dúzia e meia de apólices
da dívida pública.
* * *
Estava ainda bem disposta, apesar da idade. Gorda, mas elegante com uns
vestígios assaz pronunciados de antiga formosura. Tinha os olhos
azuis e os cabelos pretos, no tipo peculiar ao meio-dia da França.
Carne opulenta e quadril vigoroso.
Notava-se-lhe a boca, com um desses lábios superiores que formam
como duas camadas; o que aliás não obstava a que Mme. Brizard
tivesse um sorriso gracioso, e ainda tirasse partido da brancura privilegiada
de seus dentes. Mas a sua riqueza e a sua vaidade era o pescoço,
um grande pescoço pálido, cheio de ondulações
macias a fartas.
Nascera em Marselha.
Depois de certa idade tornara-se muito caída para o romantismo:
desde então apreciava uma noite de luar; dava-se à leitura
prolongada de poetas tristes; fazia-se mais infeliz do que era de fato,
e contava a todos a sua história. - Um romance!
"Aos quinze anos saíra da família pelo braço
de um diplomata russo, que a idolatrava; - ia casada. O russo tresandava
a genebra e recendia sarro de cachimbo; ela abominou-o logo, abominou-o
entre uma enorme corte de adoradores fascinados por sua beleza e sequiosos
por um de seus sorrisos; era, porém, honesta: - conservou-se pura
e fiel ao marido."
Mme. Brizard quando chegava a este ponto de romance, abaixava os olhos,
levando lentamente o leque à boca para disfarçar um suspiro.
"Enviuvou aos vinte anos; o russo não lhe deixara filhos;
- voltou à família. Aí lhe apareceu então
Mr. Brizard, homem de talento, político e escritor, grande republicano.
A subida de Luís Felipe ao trono atirou com ele ao Brasil, onde
se fez hoteleiro.
Tiveram aqui três filhos; duas mulheres e um homem. Este era o último
e muito se distanciava das irmãs em idade; quando lhe faltou o
pai tinha apenas sete anos.
A filha mais velha representava a glória da família: unira-se
a um ministro plenipotenciário; a outra, coitada, não casou
mal, porém com a morte do marido e de um filhinho que lhe ficara,
tornou-se muito nervosa, histérica, e até meio pateta; agora
vivia e mais o irmão em companhia da mãe."
* * *
Nessas condições, a proposta de João Coqueiro pareceu
vantajosa a Mme. Brizard - Ele que trouxesse a irmã, a bela Amelita,
e tudo se arranjaria pelo melhor.
Juntaram-se. Mme. Brizard revelou pronto interesse pelos dois hóspedes,
principalmente pelo "Coqueirinho", como lhe chamavam em família.
Fazia-se muito carinhosa com ele, queria ser a sua "segunda mãe",
apreciava-lhe o talento, e andava a mostrar os versos do rapaz a todas
as pessoas que apareciam à noite, para as torradas.
Reuniam-se em volta da mesa de jantar; iam buscar o loto e jogavam. Coqueiro
lia a um canto, ou ficava no quarto, a cachimbar soturnamente, olhando
o fumo e cismando na vida.
Mme. Brizard fazia perfeitamente as honras da casa; dava-se por mulher
de muito espírito e de uma educação peregrina. Se
havia então alguém que a visitasse pela primeira vez - a
coisa ia mais longe. Desenfiava os seus melhores ditos, contava, como
por incidente, as suas anedotas de mais efeito, falava gravemente de sua
filha casada com o ministro e exibia todos os seus conhecimentos literários.
Que os tinha, inegavelmente. Lamartine lá estava no quarto dela,
sobre o velador, encadernado com esmero. Mas não desdenhava os
poetas brasileiros e lia Camões. Uma sua amiga, muito chegada,
dizia que lhe ouvira páginas inéditas de um livro sobre
o Brasil - livro para fazer "sensação"!
Mme. Brizard confirmava este boato, sorrindo com modéstia.
João Coqueiro, esse, não sorria, ao contrário, parecia
cada vez mais triste; passava tempos sem aparecer a ninguém, depois
que largava o trabalho. Por mais de uma vez houve quem lhe visse lágrimas
nos olhos.
A francesa, que se achava então no seu período mais agudo
de sentimentalismo, respeitava muito as melancolias do pobre moço,
falava a respeito dele com a voz baixa, cheia de um acatamento religioso.
Só lhe passava pelo quarto na pontinha dos pés, e, quando
o triste hóspede saía para o emprego, ela corria a lhe arrumar
a mesa, com desvelo, ordenando os livros, reunindo os papéis esparsos,
lendo, sobre a pasta, os versos começados na véspera.
Uma tarde, acharam-se os dois um defronte do outro, assentados sozinhos
na varanda da sala de jantar, que dava para um lugar plantado de bananeiras.
O sol descia lentamente no horizonte por uma escadaria de fogo; as cigarras
estridulavam no fundo da chácara; a noite ia emanando.
Coqueiro olhava à toa para isso, absorto e mudo; depois, suspirou
e escondeu o rosto nas mãos, Mme. Brizard passou-lhe um braço
no ombro.
- Coqueirinho! que é isso?...
Queria saber o motivo daquelas tristezas. Começou a interrogá-lo,
com a voz untuosa, cheia de amor.
Ele então falou abertamente de suas aspirações, de
seus estudos interrompidos, de sua incompatibilidade com o emprego que
exercia.
- Sou muito caipora! exclamava. - Sou muito caipora!
E chorava.
Mme. Brizard procurou consolá-lo, falou do futuro, lembrou a idade
de Coqueiro e aconselhou-o a que não desanimasse.
Foi daí que lhes veio a idéia do casamento.
Mme. Brizard era muito mais velha do que ele, mas talvez por isso mesmo,
fosse a esposa que melhor lhe convinha.
- Ah! ela estava no caso de fazê-lo feliz, porque o amava! Oh! se
o amava! Seria talvez uma loucura; talvez viessem a censurá-la;
- ela mesma não sabia explicar o que aquilo era, como aquilo acontecera!
Mas dava a sua palavra de honra, jurava pela memória de seu pai
- em como nunca sentira por ninguém o que então sentia por
Coqueiro! Ah! sabia perfeitamente que bem poucos compreenderiam a sua
paixão! Sabia que muitos haveriam de ridicularizá-la, haveriam
de escarnecê-la; ela própria, até ali, nunca imaginara
que se pudesse amar tanto!... Durante a sua vida nunca se sentiu tão
possuída por uma idéia, tão escrava, tão vencida,
como naquele instante! Contudo, se desejava o casamento não era
decerto pelo fato de possuir um homem. - Oh! não! - deixava isso
para as almas grosseiras... e Coqueiro bem sabia o quanto seu coração
tinha de espiritual e de puro!... Desejava aquele enlace para licitamente
poder aplicar todo o seu esforço, toda a sua coragem, todas as
suas diligências, na conquista de um bom futuro para o esposo. Queria
casar-se, porque entendia que isso se tornava necessário à
felicidade de Coqueiro. Toda a sua vida, todos os seus recursos, dela,
seriam empregados para o mesmo fim: - facultar ao marido os meios de estudar,
os meios de crescer, desenvolver-se, luzir. Alcançasse ele um nome,
uma posição brilhante, uma atitude gloriosa, e tudo o mais
lhe seria indiferente. Que lhe importava o resto?... Se ela, porventura,
fosse esquecida fosse desprezada, se viesse mesmo a falecer dali a pouco
tempo - que valia tudo isso, se o objeto de seus extremos era ditoso e
vivia cercado de admiração e de aplauso?...
E Mme. Brizard, depois de falar na posteridade e depois de convencer ao
Coqueiro de que aquele casamento era um dever sagrado, pois que não
realizá-lo equivalia a privar o Brasil de uma de suas glórias
futuras e ao século um de seus vultos talvez mais grandiosos, Mme.
Brizard, depois disso, entrou nos pormenores de seu plano.
- Uma vez casados, ressuscitariam a antiga casa de pensão. Ela
dispunha de algum dinheiro; o outro dispunha de um prédio: - era
restaurá-lo e dar começo à vida! Coqueiro abandonaria
o emprego e voltava de novo aos estudos; ela encarregava-se da gerência
da casa e, nesse ponto, deixando de parte a modéstia, supunha-se
mais habilitada que ninguém.
Até já tinha projetos, já tinha as suas idéias
sobre a instalação da casa!... Sentia-se disposta a trabalhar
por vinte!... Coqueiro havia de ver! Seu estabelecimento seria uma casa
de pensão modelo! Coisa para dar "uma fortuna e render à
Amelinha um bom casamento. - Um casamentão!" Ah! Ela, a francesa,
sabia perfeitamente como tudo isso se arranjava no Brasil.
E concluiu, jurando ainda uma vez, que - para si não queria nada!
que só desejava a felicidade do Coqueiro e de sua irmã,
dele.
Era assim que entendia o amor!
Três meses depois estavam casados.
Boquejou-se alegremente sobre isso na Escola Politécnica. Os amigos
de Coqueiro acharam ocasião de rir, e a tal mulher do ministro
plenipotenciário, a glória da família, escreveu à
mãe uma carta carregada de recriminações, declarando
que nunca lhe perdoaria semelhante loucura. - Loucura de que para o futuro
haveria Mme. Brizard de se arrepender muito seriamente.
Os recém-casados fecharam, porém, ouvidos a tais palavras
e cuidaram de ir pondo em prática os seus novos planos de vida.
Meteram mãos à obra. Coqueiro deixou o emprego, contratou
um empreiteiro para restaurar o seu velho prédio da Rua do Resende,
e a casa de pensão de Mme. Brizard (como teimosamente insistiam
em lhe chamar a mulher), surgiu ameaçadora, escancarando para a
população do Rio de Janeiro a sua boca de monstro.
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