AS
CASADAS SOLTEIRAS
MARTINS PENA
PERSONAGENS
BOLINGBROK, negociante.
JOHN, seu sócio.
JEREMIAS.
NARCISO, pai de
VIRGÍNIA e
CLARISSE.
HENRIQUETA, mulher de Jeremias.
Um criado e
Diferentes pessoas de ambos os sexos.
A cena se passa, o
primeiro ato, em Paquetá; o segundo, na Bahia, e o terceiro, no
Rio de Janeiro.
COMÉDIA
EM TRÊS ATOS.
ATO PRIMEIRO
O teatro representa o Campo de São Roque, em Paquetá. Quatro
barracas, iluminadas e decoradas, como costumam ser nos dias de festa,
ornam a cena de um e outro lado; a do primeiro plano, à direita,
terá transparentes fantásticos, diabos, corujas, feiticeiras,
etc. No fundo, vê-se o mar. Diferentes grupos, diversamente vestidos,
passeiam de um para outro lado, parando, ora no meio da cena, ora diante
das barracas, de dentro das quais se ouve tocar música. Um homem
com um realejo passeia por entre os grupos, tocando. A disposição
da cena deve ser viva.
CENA I
Jeremias e o povo.
JEREMIAS - Bem fiz
eu em vir à festa de São Roque. Excelente dia passei e melhor
noite passarei - e vivam as festas! Perca-as quem quiser, que eu não.
Para elas nasci, e nelas viverei. Em São Roque, na Penha, na Praia
Grande, na Armação... Enfim, em todos os lugares aonde houver
festa, se estiverem duas pessoas, uma delas serei eu. Que belo que isto
está! Barracas, teatrinho de bonecas, onças vivas, fogo
de artifício, máquinas, realejo e mágicos que adivinham
o futuro... Logo teremos um nesta barraca... Ora, esses estrangeiros são
capazes das maiores extravagâncias para nos chuparem os cobres!
Se há tanta gente que acredita neles... Estou que não caibo
na pele!
VOZES - Aí vem a barca! Aí vem a barca!
JEREMIAS - A barca! (Correm todos para a borda do mar, exceto Jeremias.)
Vejamos, primeiro, quem vem da cidade, para depois aparecer. Tenho cá
minhas razões... (Sai pela direita. Nesse momento aparece a barca
de vapor, que atraca à praia e toca a sineta. Principiam a saltar
os passageiros, e entre eles, John e Bolingbrok, que se encaminham para
a frente.)
CENA II
John, Bolingbrok e o povo.
JOHN - Enfim, chegamos.
BOLINGBROK - Oh, yes, enfim! É uma vergonhe estes barques de vapor
do Bresil. Tão porque, tão, tão, tão...
JOHN - Ronceira.
BOLINGBROK - Ronceire? Que quer dize ronceire?
JOHN - Vagarosa.
BOLINGBROK - Yes, vagarosa. John, tu sabe mais portuguesa que mim.
JOHN - Bem sabes, Bolingbrok, que ainda que sou filho de ingleses, nasci
no Brasil e nele fui criado; assim, não admira que fale bem a língua...
Mas vamos ao que serve.
BOLINGBROK - Yes, vamos a que serve.
JOHN - Primeiro, correremos tudo para ver se encontramos nossas belas.
BOLINGBROK - Oh, God! Encontre nosses beles... Mim fica contente se encontre
nosses beles. Oh, God!
JOHN - Já vejo, meu caro Bolingbrok, que estás completamente
subjugado. Admira-me! Um homem como sois, tão frio e compassado...
BOLINGBROK - Oh, non, my dear! Este é um error muito... fundo...
muito oco... non, non! Muito profundo... yes... muito profundo. Minha
peito é uma volcão, uma barril de pólvora... Faltava
só a faísca. Miss Clarisse é faísca, e minha
peito fez, fez, fez bum!
JOHN - Explosão.
BOLINGBROK - Yes, yes! Explosão! Mim está incêndio.
JOHN - Podias ter-te atirado ao mar.
BOLINGBROK - Oh, non, non! Mar non! Primeiro quero casa com my Clarisse,
senão eu mata a mim.
JOHN - Devagar com isso, homem, e entendamo-nos.
BOLINGBROK - Oh, God!
JOHN - Há dois anos que chegaste de Inglaterra e estabeleceste,
na Bahia, uma casa de consignação, de sociedade comigo.
Temos sido felizes.
BOLINGBROK - Yes!
JOHN - Negócios de nossa casa obrigaram-nos a fazer uma viagem
ao Rio de Janeiro. Há quinze dias que chegamos...
BOLINGBROK - Yes!
JOHN - E há oito que nossos negócios estão concluídos,
e estaríamos já de volta, se não fosse o amor que
nos prende.
BOLINGBROK - Oh, my Clarisse, my Clarisse!
JOHN - Por um feliz acaso, que servirá para mais estreitar nossa
sociedade, amamos a duas irmãs.
BOLINGBROK - Oh, duas anjos, john! Duas anjos irmãos...
JOHN - Antes de ontem fomos, pessoalmente, pedi-las ao pia, que teve o
desaforo de negar o seu consentimento, dizendo que não criou suas
folhas para casá-las com ingleses.
BOLINGBROK - Oh, goddam! Atrevida!
JOHN - Mas deixa-o. Estamos de inteligência com elas, e hoje nos
há de ele pagar.
BOLINGBROK - Oh, yes! Paga, atrevida, paga!
JOHN - Elas aqui estão desde manhã para assistirem à
festa. Logo haverá fogo de artifício... Sempre há
confusão... a falua estará na praia às nossas ordens,
e mostraremos ao velho o que valem dois ingleses...
BOLINGBROK - Yes! Vale muito, muito! Goddam!
CENA III
Jeremias e os ditos
JEREMIAS, entrando
cauteloso - Nesta não veio ninguém que me inquiete.
JOHN, para Bolingbrok - Silêncio! (Passeiam pela frente do tablado.)
JEREMIAS, à parte - Quem serão estes dois? (Aproximando-se
deles.) Perecem-me ingleses... Há de ser, há de ser... É
fazenda que não falta por cá. Não gostam do Brasil,
Brésil non preste! Mais sempre vão chegando para lhe ganharem
o dinheiro...
BOLINGBROK, para John - Yes.
JEREMIAS, à parte - Não disse? São ingleses. Conheço
um inglês a cem léguas; basta que diga: yes! Façamos
conhecimento... (Chegando-se para os dois:) Good night.
BOLINGBROK - Good night. (Continua a passear.)
JEREMIAS, seguindo-o - Os senhores, pelo que vejo, são ingleses.
BOLINGBROK - Yes. (Continua a passear.)
JEREMIAS - Eu os conheci logo por causa do yes; e o senhor... Mas que
vejo? John? Não me engano...
JOHN, reparando nele - Jeremias!
JEREMIAS - Tu, no Rio de Janeiro, e em Paquetá, John? Quando chegaste?
JOHN - Há quinze dias, e já te procurei em tua antiga casa,
e disseram-me que tinhas casado e mudado de domicílio.
JEREMIAS - Disseram-te a verdade.
BOLINGBROK - Quem é este?
JOHN - Bolingbrok, apresento-te meu amigo Jeremias. Andamos no mesmo colégio
aqui no Rio de Janeiro; fomos sempre amigos.
BOLINGBROK - Muita honra, senhor. (Dá-lhe a mão e aperta
com força e sacode.)
JOHN - Jeremias, meu sócio, Mister Bolingbrok.
JEREMIAS, sacudindo a mão de Bolingbrok com violência - Muita
honra.
BOLINGBROK - Oh, basta, basta!
JEREMIAS, para John - Teu sócio fala português?
JOHN - Muito mal.
JEREMIAS - Nesse caso, falarei eu inglês.
JOHN - Sabes inglês.
JEREMIAS - De curiosidade... Tu vais ver. (Para Bolingbrok:) Good morning.
How do you do? Very well! Give me some bread. I thank you. Gato come frango.
I say...
BOLINGBROK, com frieza - Viva, senhor! (Dá-lhe as costas e passeia.)
JOHN, rindo-se - Estás muito adiantado...
JEREMIAS - Não falo tal qual um inglês, mas arranjo meu bocado.
JOHN - Está o mesmo Jeremias; sempre alegre e folgazão.
JEREMIAS - Alegre, John? Não. Já te não lembras que
estou casado?
JOHN - E isto te entristece?
JEREMIAS - Como não imaginas.
JOHN - Onde está tua mulher?
JEREMIAS - Eu sei lá?
JOHN - Oh, excelente marido!
JEREMIAS - Soube ontem que hoje era festa de São Roque. De manhã
muito cedo meti-me na barca e safei-me sem dizer nada. Que queres? Não
posso resistir a uma festa.
JOHN - E deixaste tua mulher só?
JEREMIAS - Tomara eu também que ela me deixasse só. O que
eu estou a temer é que ela arrebente por aqui mais minutos, menos
minutos... É muito capaz disso! John, Deus te livre de uma mulher
como a minha.
BOLINGBROK, correndo para John - John, John,! Vem ela, vem ela!
JEREMIAS, assustando-se - Minha mulher?
BOLINGBROK - Olha, John, olha! God! Mim contente!
CENA IV
Entram pela direita Virgínia e Clarisse.
JOHN - São
elas!
JEREMIAS - Que susto tive eu! Pensei que era minha mulher.
JOHN - Virgínia!
BOLINGBROK - My Clarisse!
VIRGÍNIA - John!
CLARISSE - Bolimbroque!
BOLINGBROK - By God!
JEREMIAS, à parte - Ué! As filhas do Narciso... Bravo!
VIRGÍNIA - O senhor Jeremias!
CLARISSE - Ah!
JEREMIAS - Minhas senhoras, bravíssimo!
JOHN, para Jeremias - Conheces estas senhoras?
JEREMIAS - Se as conheço! São minhas vizinhas.
JOHN - Jeremias, espero que tu não nos trairás. Estas meninas
devem ser nossas esposas... E como o pai não consente em nosso
casamento, aqui estamos para roubá-las, e as roubaremos.
JEREMIAS - Olá! Isto vai à inglesa... Dito e feito...
JOHN - Podemos contar com a tua cooperação?
JEREMIAS - Vocês casar-se-ão com elas?
JOHN - Juramos!
BOLINGBROK - Yes! Jura!
JEREMIAS - Conta comigo. Tenho cá minhas quizílias particulares
com o pai, e boa é a ocasião para vingar-me. Que queres
de mim?
JOHN - Vai-te pôr de vigia para que ele não nos surpreenda.
JEREMIAS - Pronto! Dona Virgínia, Dona Clarisse, adeusinho. (À
parte.) Ah, meu velhinho, tu agora me pagarás o nome de extravagante
que sempre me dás... (Sai pela direita.)
CENA V
CLARISSE - Nós
os procurávamos.
BOLINGBROK - Yes! Nós está aqui.
JOHN - Há meia hora que desembarcamos, e não sabíamos
para onde dirigirmo-nos a fim de encontrar-vos.
VIRGÍNIA - Estávamos passeando bem perto daqui e os vimos
passar por diante desta barraca. Metemo-nos por entre o povo, fizemo-nos
de perdidas e corremos ao vosso encontro. O velho, a estas horas, estará
a nossa procura.
BOLINGBROK - Está muito contente, Miss, de fala a vós. Muito
contente, Miss, muito satisfeita.
CLARISSE - Creia que também de minha parte.
BOLINGBROK - Yes! Minha parte muito satisfeita! Goddam!
JOHN - Minha querida Virgínia, quanto sofro longe de ti.
BOLINGBROK - My dear Clarisse, eu fica doente longe de ti.
JOHN - Não há para mim satisfação sem a tua
companhia.
VIRGÍNIA - Sei quanto me ama.
BOLINGBROK - Eu está triste como uma burro sem tua companhia.
CLARISSE - Conheço o quanto me estima.
JOHN - O sono foge de meus olhos, e se alguns instantes durmo, contigo
sonho.
BOLINGBROK - Mim não dorme mais... Leva toda a noite espirrando.
CLARISSE - Espirrando?
BOLINGBROK - No, no, suspirando. Yes, suspirando.
JOHN - Quando me lembro que talvez viva sem ti, quase enlouqueço...
desespero.
BOLINGBROK - Quando mim lembra vive sem ti... Oh goddam, mim fica danada.
By God! Yes, fica muito... muito... Yes.
VIRGÍNIA - Meu caro John, não duvido um instante de vosso
amor.
JOHN - Querida Virgínia!
CLARISSE - Certa de vosso amor, com amor vos pago.
BOLINGBROK - My Clarisse, my Clarisse!
JOHN - Mas isto assim não pode durar.
BOLINGBROK - No, no, non pode dura.
JOHN - Teu pai ainda se opõe à nossa união?
VIRGÍNIA - Ainda. Ele diz que odeia aos ingleses pelos males que
nos têm causado, e principalmente agora, que nos querem tratar como
piratas.
BOLINGBROK - Piratas, yes. Piratas. As brasileiras é piratas...
Enforca eles...
CLARISSE, afastando-se - Ah, somos piratas?
VIRGÍNIA - Muito obrigada...
BOLINGBROK - No, no, Miss... Eu fala só das brasileiras machos...
CLARISSE - São meus patrícios.
BOLINGBROK - As machos... mim não gosta deles. As brasileiras,
mulheres, yes... Esta é bela... é doce como sugar...
JOHN - Cala-te, Bolingbrok, que não dizes senão asneiras.
BOLINGBROK - Yes, mim diz asneiras... Mim é cavalo, quando está
junto de vós. (Aqui entra pela direita Narciso.)
VIRGÍNIA - É preciso termos prudência.
NARCISO - Está muito bonito! Muito bonito! (Espanto dos quatro.)
JOHN - Diabo!
BOLINGBROK - Goddam!
VIRGÍNIA e CLARISSE - Meu pai! (Ao mesmo tempo.)
NARCISO - Para isso é que se perderam de mim? Que pouca vergonha!
A conversarem com dois homens...
JOHN - Senhor, isto não teria acontecido se nos tivésseis
dado a mão de vossas filhas.
NARCISO - Ah, são os senhores? É o que me faltava: casá-las
com ingleses! Antes com o diabo!
JOHN - Senhor!
BOLINGBROK - Senhor!
NARCISO - O que é lá? (Para as duas:) Salta! Adiante de
mim! Salta!
JOHN - Virgínia, conta comigo. A despeito deste velho insensato,
serás minha.
BOLINGBROK - My Clarisse, há de ser mulher a mim, quando mesmo
este velho macaco.
NARCISO - Macaco? Inglês de um dardo!
BOLINGBROK - Macaco fica zangado? Mim está contente de chama macaco.
NARCISO, tomando as moças pelos braços - Vamos, senão
faço algum desatino. (Sai levando as duas.)
CENA VI
BOLINGBROK, seguindo
a Narciso - Mim está contente chama macaco. (Gritando:) Macaco!
JOHN - Deixa-o, Bolingbrok.
BOLINGBROK, voltando - Mim está satisfeita. Macaco!
JOHN - Vejamos o modo de ensinarmos a este velho, e vingarmo-nos.
BOLINGBROK - Yes.
JOHN - Não tive tempo de dizer a Virgínia que tínhamos
uma falua às ordens. Agora será difícil fazermo-la
saber esta circunstância. Maldito Jeremias, que não soube
vigiar o velho!
BOLINGBROK - Mim dá uma roda de soco nele quando aparece.
CENA VII
Jeremias entrando.
JEREMIAS - John? John?
JOHN - Nós te estamos muito agradecidos.
BOLINGBROK - Mim quer joga soco.
JEREMIAS - Hem? O que é isso?
JOHN - Deixaste que o velho nos surpreendesse.
BOLINGBROK - Mim quer jogar soco, senhor.
JEREMIAS - Não tive culpa. Estava alerta, com todo o cuidado no
velho, quando passou por junto de mim, e sem me ver, uma mulher... E assim
que a pilhei a três passos longe de mim, deitei a fugir...
BOLINGBROK, gritando - Mim quer joga soco, senhor!
JEREMIAS - Pois tome! (Dá-lhe um soco.)
BOLINGBROK - Goddam! (Atira um soco a Jeremias, que lhe responde.)
JOHN, metendo-se de permeio - Então, o que é isso? Jeremias?
Bolingbrok?
BOLINGBROK - Deixa, John!
JEREMIAS - Maluco! I say... drink the rum... Chega, que arrumo-te um tabefe!
JOHN - Não sejam crianças! (Para Jeremias:) Não faças
caso. (Para Bolingbrok:) Aquieta-te...
BOLONGBROK - Mim não quer mais joga soco.
JEREMIAS - Mim também não quer jogo mais... (Bolingbrok
passeia de um lado para outro.)
JOHN - Teu descuido muito nos prejudicou.
JEREMIAS - Já te disse que estava alerta, mas a mulher...
JOHN - Mas quem é a mulher?
JEREMIAS - A minha! A minha! Pensei ver o diabo, e isto fez-me perder
a cabeça... Abandonei o posto, e foste surpreendido.
JOHN - E assim foi nosso plano completamente desarranjado.
JEREMIAS - Por quê?
JOHN - Não tivemos tempo de comunicar às meninas o nosso
plano.Agora ser-nos-á difícil falar-lhes. O velho está
desesperado!
JEREMIAS - Lembro-me um expediente...
JOHN - Qual é?
JEREMIAS - Nesta barraca há um francês que, para lograr ao
público e ganhar dinheiro, vestir-se-á de mágico
a fim de predizer o futuro, fazer adivinhações e sortes,
etc. Entra tu lá, dá-lhe dinheiro - esta gente faz tudo
por dinheiro - , veste-te com as suas roupas, e assim disfarçado,
talvez consigas poder falar com a moça.
JOHN - Excelente amigo! (Abraça-o)
JEREMIAS - Que te parece? Não é bem lembrado? Ó diabo!
(Olhando para a esquerda, fundo.)
JOHN - O que é?
JEREMIAS, escondendo-se por detrás de John - Minha mulher que ali
vem! Não lhe digas nada, nada... (Vai levando a John para o lado
direito, encobrindo-se com seu corpo.)
JOHN - Espera, homem; onde me levas?
JEREMIAS, junto dos bastidores - Adeus. (Sai.)
CENA VIII
John, Bolingbrok e depois Henriqueta.
JOHN - Ah, ah! Que
medo tem o Jeremias da mulher! Bolingbrok, vem cá. Estamos salvos!
BOLINGBROK - Salva? (Aqui aparece no fundo Henriqueta, e encaminha-se
para a frente.)
JOHN - Jeremias ensinou-me o meio de comunicar-nos com nossas amantes.
BOLINGBROK - Agora mim tem pena de ter dado o soco... (Henriqueta vem-se
aproximando.)
JOHN - O plano não pode falhar. Jermias teve uma lembrança
magnífica.
HENRIQUETA, à parte - Falam em Jeremias...
BOLINGBROK - Quando encontra ele dá um abraço.
HENRIQUETA - Uma sua criada...
BOLIGBROK - Viva!
JOHN - Minha senhora...
HENRIQUETA - Desculpem-me, meus senhores, se os interrompo, mas como ouvi
que falavam no Sr. Jeremias...
JOHN - Conhece-o?
HENRIQUETA - Sim senhor. É meu marido.
JOHN, à parte - É ela! (Alto:) Muita honra tenho em a conhecer...
Seu marido é um belo moço.
HENRIQUETA - É verdade. (À parte:) Patife, se o encontro...
BOLINGBROK - Ah, a good boy.
HENRIQUETA - O que diz o senhor?
BOLINGBROK - Eu fala de sua marido... A good boy.
HENRIQUETA, à parte - Ora! (Para John:) Se quisesse ter a bondade
de dizer-me onde o poderei encontrar...
JOHN - Pois não, minha senhora; ainda há pouco aqui esteve
e dirigiu-se para este lado. (Aponta para a esquerda.)
BOLINGBROK - No, no, John!
JOHN - Sim sim, foi para este lado. (Para Bolingbrok:) Take your tongue.
BOLINGBROK - Yes, foi esta lado... (Henriqueta sai.)
CENA IX
JOHN - Agora tratemos
de nós; ponhamos em execução o plano de Jeremias.
Toma sentido no que se passar, enquanto eu entro na barraca.
BOLINGBROK - Para quê, John?
JOHN - Saberás (Entra na barraca.)
CENA X
BOLINGBROK, só
- John vai fazer asneira... Mim não sabe o que ele quer... Não
importa; rouba my Clarisse e fica contente. Velho macaco está zangado.
By God! Inglês faz tudo, pode tudo; está muito satisfeita.
(Esfregando as mãos:) Inglês não deixa brinca com
ele, no! Ah, Clarisse, my dear, mim será tua marida. Yes!
VOZES, dentro - Lá vai a máquina, lá vai a máquina!
BOLINGBROK - Máquina? Oh, este é belo, lá vai a máquina!
CENA XI
Entra Narciso, Clarisse, Virgínia e povo, olhjando para uma máquina
que atravessa no fundo do teatro.
TODOS - Lá
vai a máquina, lá vai a máquina!
BOLINGBROK, correndo para o fundo - Máquina, máquina! (A
máquina desaparece e todos ficam em cena como olhando para ela.)
CENA XII
Entra pela barraca John, vestido de mágico, trazendo na mão
uma buzina. John toca a buzina.
TODOS - O mágico!
O mágico!
JOHN - Aproximai-vos! Aproximai-vos! (Todos se aproximam.) O futuro é
de Deus! O céu é a página de seu imenso livro, e
os astros os caracteres de sua ciência; e quem lê nos astros
conhece o futuro... o futuro! Homens e mulheres, moços e velhos,
não quereis conhecer o vosso futuro?
TODOS - Eu quero! Eu quero!
JOHN - Silêncio! A inspiração se apodera de mim, a
verdade brilha a meus olhos, e o porvir se desdobra diante de mim!
NARCISO, à parte - Tenho vontade de o confundir. (Alto:) Senhor
mágico, desejava saber se pela minha fisionomia podeis saber quem
eu sou.
JOHN - Aproxima-te. Este olhar de porco... estas orelhas de burro pertencem
a Narciso das Neves.
TODOS - Oh!
NARCISO - Sabe meu nome e sobrenome!
JOHN - Nenhuma qualidade boa descubro em ti; só vícios vejo...
És avarento, grosseiro, cabeçudo, egoísta...
TODOS, riem-se - Ah, ah, ah!
NARCISO - Basta, basta, diabo!
JOHN, para Clarisse - E vós, minha menina, nada quereis saber?
CLARISSE - Eu, senhor?
VIRGÍNIA - Vai, não tenhas medo.
JOHN - Mostrai-me vossa mão. (Examinando sua mão e falando-lhe
mais baixo:) Esta linha me diz que teu coração não
está livre. Aquele que amas não é da tua nação,
mas é um homem honrado e leal; dele te podes fiar.
CLARISSE - E vêde tudo isto em minha mão?
JOHN - Céus!
CLARISSE - Senhor!
JOHN - Esta outra linha faz-me conhecer que existe um grande obstáculo
à vossa união; é preciso superá-lo, seguir
aquele que amas; do contrário, acabarás em um convento.
CLARISSE - Em um convento? Morrer solteira?
JOHN - O destino fala por meus lábio; pensa e decide.
CLARISSE - Meu Deus!
VIRGÍNIA - Clarisse, que tens, que te disse ele?
CLARISSE - A mim? Nada, nada. (À parte:) Meu Deus!
JOHN, para Henriqueta - E tu, pobre abandonada, queres que te diga o futuro?
HENRIQUETA - Abandonada? A primeira palavra é uma verdade... Dize-me
o que devo esperar no mundo.
JOHN - Não querei primeiro que te diga aonde está o infiel?
HENRIQUETA - Oh, dizei-me!
JOHN - Dentro de uma hora o encontrarás aqui.
HENRIQUETA - Aqui?
JOHN - Sim.
HENRIQUETA - Mil graças, senhor mágico. (À parte:)
Ah, Jeremias da minha alma, se te pilho...
VIRGÍNIA - Agora eu.
JOHN, tomando pela mão e conduzindo-a à parte - Sim, agora
tu, minha Virgínia, minha Virgínia a quem amo...
VIRGÍNIA - Ah, que ouço?
NARCISO - E lá! Que é lá isso?
JOHN - Silêncio!
NARCISO - Isso é demais, é...
JOHN - Silêncio!
TODOS - Silêncio!
JOHN - Cala-te, velho insensato! Vês aquela estrela? (Olham todos.)
Preside ao destino desta jovem. Olhai todos se empalidece, olhai! (Narciso
fica olhando para a estrela.)
JOHN, à parte - Minha Virgínia!
VIRGÍNIA - És tu, John?
JOHN - Enquanto estiverem entretidos com o fogo, vem ter comigo, que aqui
estarei à tua espera.
VIRGÍNIA - Sim.
NARCISO, olhando para a estrela - Qual empalidece! Olá, nada! Isto
não está bom... Virgínia salta para cá; parece-me
maroteira.
JOHN - Quem mais quer saber do futuro?
VOZES - Eu! Eu! Eu!
JOHN - Aproxime-se cada um por sua vez. (Aqui ouve-se dentro o estrondo
de bomba.)
VOZES - O fogo principiou! Vamos ver o fogo! (Saem todos correndo pela
direita, em confusão.)
NARCISO, levando as filhas pela mão - Vamos, vamos ver o fogo!
(Saem.)
CENA XIII
John e Bolingbrok.
JOHN - Bravo, tudo
está arranjado!
BOLINGBROK - John, mim não entende nada. Que quer isto dize?
JOHN - Espera um instante, que tudo saberás. (Entra na barraca.)
CENA XVI
BOLINGBROK, só
- John é diabo. Eu está vendida. John? John? Goddam! Oh,
minha coração está muito fraco, muito queimado por
minha Clarisse... Eu vai ataca foguetes para ela ver. John? John?
JOHN, entrando, já sem a roupa de mágico - Silêncio,
Bolingbrok, elas não tardam.
BOLINGBROK - Elas?
JOHN - Sim, nossas amantes; para fugirem conosco.
BOLINGBROK Oh, Oh! By God! Mim está muito satisfeita.
CENA XV
Entram pela direita Virgínia e Clarisse.
VIRGÍNIA -
John!
CLARISSE, ao mesmo tempo - Bolingbrok!
JOHN, indo ao encontro de Virgínia - Minha Virgínia!
BOLINGBROK, indo ao encontro de Clarisse - My Clarisse!
VIRGÍNIA - Lá ficou entretido com o fogo!
JOHN - A falua está perto daqui; vamos...
VIRGÍNIA - A ti me entrego.
BOLINGBROK - My dear, let us go... (Saem pelo fundo à esquerda.)
CENA XVI
Entra pela esquerda baixa Jeremias.
JEREMIAS - Já
não estou muito bem aqui; temo encontrar a fúria de minha
mulher por toda parte. Quero ver se me safo com John para a cidade. John?
John?
HENRIQUETA, entra pela direita alta - Aqui o devo encontrar, que me disse
o mágico...
JEREMIAS, sem ver Henriqueta - Onde estará o maldito?
HENRIQUETA, vendo-o - Ei-lo! Oh, patife! (Vem-se aproximando de Jeremias
sem ser vista.)
JEREMIAS - Se encontra-me, leva-me o diabo; que ela anda em minha procura,
não há dúvida. Ah, centopéia do diabo! (Aqui
atacam bombas dentro e o teatro fica iluminado pelo clarão do fogo.
Henriqueta, que nesse tempo está junto de Jeremias, dá-lhe
uma bofetada que o atira no chão.) Oh, que bomba!
HENRIQUETA - É uma girândola, patife! (Jeremias levanta-se
apressado e deita a correr para o fundo, e Henriqueta o segue. Henriqueta,
correndo:) Espera, patife, espera! (Saem correndo e desce o pano.)
Fim do primeiro ato.
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