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A Carne
Júlio Ribeiro

 

Capítulo III

Realizou-se o prognóstico do médico.
Lenita, após um comprido sono, acordou calma, com os
nervos sossegados, com os músculos distendidos, soltos.
Mas estava abatida, mole, queixava-se de peso na cabeça,
de grande cansaço. Passou dois dias na cama, e só ao
terceiro pôde levantar-se.
O apetite foi voltando aos poucos, e suas refeições
foram sendo tomadas com prazer, a horas regulares.
Podia-se dizer que entrara em convalescença do
cataclismo orgânico produzido pela morte do pai.
E Lenita sentia-se outra, feminizava-se. Não tinha
mais gostos viris de outros tempos, perdera a sede de
ciência: de entre os livros que trouxera procurava os mais
sentimentais. Releu Paulo e Virgínia, o livro quarto da
Eneida, o sétimo do Telêmaco. A fome picaresca de
Lazarilho de Tortnes fê-la chorar.
Tinha uma vontade esquisita de dedicar-se a quem quer
que fosse, de sofrer por um doente, por um inválido. Por
vezes lembrou-lhe que, se casasse, teria filhos,
criancinhas que dependessem de seus carinhos, de sua
solicitude, de seu leite. E achava possível o casamento.
A imagem do pai ia-se esbatendo em uma penumbra de
saudade que ainda era dolorosa, mas que já tinha encanto.
Passava horas e horas junto da entrevada, conversava
com o coronel, por vezes ria.
- Isto vai melhor, muito melhor, dizia o bom do
homem. É pôr-se você por aí alegre, filhinha. O mundo é
assim mesmo: o que não tem remédio remediado está.

Uma tarde, achando-se só em sua sala, Lenita sentiu-
se tomada de uma languidez deliciosa, sentou-se na rede,
fechou os olhos e entregou-se à modorra branda que
produzia o balanço.
Em frente, sobre um console, entre outros bronzes que
trouxera, estava uma das reduções célebres de Barbedienne,
a da estátua de Agasias, conhecida pelo nome de Gladiador
Borghese.
Um raio mortiço de sol poente, entrando por uma
frincha da janela, dava de chapa na estátua, afogueava-a,
como que fazia correr sangue e vida no bronze mate.
Lenita abriu os olhos. Atraiu-lhe as vistas o brilho
suave do metal ferido pela luz.
Ergueu-se, acercou-se da mesa, fitou com atenção a
estátua: aqueles braços, aquelas pernas, aqueles músculos
ressaltantes, aqueles tendões retesados, aquela
virilidade, aquela robustez, impressionaram-na de modo
estranho.
Dezenas de vezes tinha ela estudado e admirado esse
primor anatômico em todas as suas minudências cruas, em
todos os nadas que constituem a perfeição artística, e
nunca experimentara o que então experimentava.
A cerviz taurina, os bíceps encaroçados, o tórax
largo, a pélvis estreita, os pontos retraídos das
inserções musculares da estátua, tudo parecia corresponder
a um ideal plástico que lhe vivera sempre latente no
intelecto, e que despertava naquele momento, revelando
brutalmente a sua presença.
Lenita não se podia arredar, estava presa, estava
fascinada.
Sentia-se fraca e orgulhava-se de sua fraqueza.
Atormentava-a um desejo de coisas desconhecidas,
indefinido, vago, mas imperioso, mordente. Antolhava-se-
lhe que havia de ter gozo infinito se toda a força do
gladiador se desencadeasse contra ela, pisando-a,
machucando-a, triturando-a, fazendo-a em pedaços.
E tinha ímpetos de comer de beijos as formas
masculinas estereotipadas no bronze. Queria abraçar-se,
queria confundir-se com elas. De repente corou até à raiz
dos cabelos.
Em um momento, por uma como intussuscepção súbita,
aprendera mais sobre si própria do que em todos os seus
longos estudos de fisiologia. Conhecera que ela, a mulher
superior, apesar de sua poderosa mentalidade, com toda a
sua ciência, não passava, na espécie, de uma simples
fêmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade
orgânica do macho.
Invadiu-a um desalento imenso, um nojo invencível de
si própria.
Robustecer o intelecto desde o desabrochar da razão,
perscrutar com paciência, aturadamente, de dia, de noite,
a todas as horas, quase todos departamentos do saber
humano, habituar o cérebro a demorar-se sem fadiga na
análise sutil dos mais abstrusos problemas da matemática
transcendental, e cair de repente, com os arcanjos de
Milton, do alto do céu no lodo da terra, sentir-se ferida
pelo aguilhão da carne, espolinhar-se nas concupiscências
do cio, como uma negra boçal, como uma cabra, como um
animal qualquer... era a suprema humilhação.
Fez um esforço enorme, arrancou-se do feitiço que a
dementava, e, vacilante, encostando-se aos móveis e às
paredes, recolheu--se ao seu quarto, fechou com
dificuldade as janelas, atirou-se vesti sobre a cama.
Jazeu imóvel largo espaço.
Uma umidade morna, que se lhe ia estendendo por entre
as coxas, fê-la erguer-se de súbito, em reação violenta
contra a modorra que a prostrara.
Com movimentos sacudidos, nervosos, atirou o xale,
desabotoou rápida o corpete, arrebentou os coses da saia
preta e das anáguas, ficou em camisa.
Uma larga mancha vermelha, rútila, viva, maculava a
alvura da cambraia.
Era a onda catamenial, o fluxo sangüíneo da
fecundidade que ressumava de seus flancos robustos como da
uva esmagada jorra o mosto nubente.
Mais de cem vezes já a natureza se tinha assim nela
manifestado, e nunca lhe causara o que ela então estava
sentindo.
Quando aos quatorze anos, após um dia de quebramento
e cansaço, se mostrara o fenômeno pela primeira vez ela
ficara louca de terror, acreditara-se ferida de morte, e,
com a impudícia da inocência, correra em gritos para o
pai, contara-lhe tudo.
Lopes Matoso procurara sossegá-la - que não era nada;
que isso se dava com todas as mulheres; que evitasse
molhadelas, sol, sereno, que dentro de três dias, ou de
cinco ao mais tardar, havia de estar boa, que se não
assustasse da repetição todos os meses.
Com o tempo, os livros fisiologia acabaram de a
edificar. em Püss aprendera que a menstruação é uma muda
epitelial do útero, conjunta por simpatia com a ovulação,
e que o terrível e caluniado corrimento é apenas uma
conseqüência natural dessa muda.
Resignara-se, afizera-se a mais esta imposição do
organismo, assim como já estava afeita a outras. Somente,
para estudo de si própria, começara de marcar, com
estigmas de lápis vermelho, em calendariozinhos de
algibeira, as datas dos aparecimentos.
Anoiteceu.
A mulata a veio chamar para a ceia. Encontrou-a
deitada, encolhida, aconchegando-se nas roupas.
Perguntou-lhe se estava doente, ao saber que
efetivamente o estava, saiu, avisou o senhor, trouxe as
suas cobertas e travesseiros, arranjou uma cama no tapete,
ao pé do leito, quedou-se solícita para o que fosse
preciso.
O coronel, cheio de cuidados, veio à porta do quarto
interrogar Lenita.
Que não era nada, respondeu ela, que aquilo não
passava de uma indisposição sem conseqüências, que havia
de acordar boa no dia seguinte.
- Menina, você sabe que agora seu pai sou eu. Se
precisar de alguma coisa, franquezinha, mande-me chamar a
qualquer hora, não receie me incomodar. A pobre da velha
lá está aflita, amaldiçoando o tolhimento que a faz não
prestar para nada. Não quererá você um chá de salva, um
pouco de vinho quente?
- Obrigada, não quero coisa nenhuma.
- Bem, bem, já a deixo em paz. Até amanhã. Procure
dormir.
E saiu.
Lenita adormeceu. A princípio foi um dormitar
interrompido, irrequieto, cortado de pequenos gritos.
Depois apoderou-se dela um como langor, um êxtase que não
era bem vigília, e que não era bem sono. Sonhou ou antes
viu que o gladiador avolumava-se na sua peanha, tomava
estatura de homem, abaixava os braços, endireitava-se,
descia, caminhava para o seu leito, parava à beira,
contemplando-a detidamente, amorosamente.
E Lenita rolava com delícias no eflúvio magnético do
seu olhar, como na água deliciosa de um banho tépido.
Tremores súbitos percorriam os membros da moça; seus
pêlos todos hispidavam-se em uma irritação mordente e
lasciva, dolorosa e cheia de gozo.
O gladiador estendeu o braço esquerdo, apoiou-se na
cama, sentou-se a meio, ergueu as cobertas, e sempre a
fitá-la, risonho, fascinador, foi-se recostando suave até
que se deitou de todo, tocando-lhe o corpo com a nudez
provocadora de suas formas viris.
O contato não era o contato frio e duro de uma
estátua de bronze; era o contato quente e macio de um
homem vivo.
E a esse contato apoderou-se de Lenita um sentimento
indefinível; era receio e desejo, temor e volúpia a um
tempo. Queria, mas tinha medo.
Colaram-se-lhe nos lábios os lábios do gladiador,
seus braços fortes enlaçaram-na, seu amplo peito cobriu-
lhe o seio delicado.
Lenita ofegava em estremeções de prazer, mas de
prazer incompleto, falho, torturante. Abraçando o fantasma
de sua alucinação, ela revolvia-se como uma besta-fera no
ardor do cio. A tonicidade nervosa o erotismo, o orgasmo,
manifestava-se em tudo, no palpitar dos lábios túmidos,
nos bicos dos seios cupidamente retesados. Em uma
convulsão desmaiou.
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Capítulo XVI
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