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A Carne
Júlio Ribeiro

 

Capítulo XVII

Havia muito que tinha começado a nova moagem: ia ela
já quase em meio, quando se deu um desastre. Um crioulinho
deixou-se prender nos cilindros
do engenho e teve um braço esmagado.
Ao ver a mísera criança segura, atraída pelo revolver
lento, implacável, do mecanismo bruto, o pai dela, o negro
moedor, tomou uma alavanca de aço que achou à mão, entalou
entre os dentes dos rodetes.
Ouviu-se um grande estalo metálico, um tinir sonoro
de ferros partidos, o engenho parou.
Salvou-se a vida do negrinho, mas as moendas
inutilizaram-se; rodetes, pescoços, mancais, tudo ficou
arrebentado.
Que fora uma caipora, que fora o diabo aquele
desastre em meio da moagem, disse o coronel arreliado. Lá
pelo crioulinho, não: era ingênuo, era 28 de setembro,
ficasse aleijado, pouco prejuízo havia. Que o azar era a
interrupção da moagem, quando ia tudo correndo tão bem, em
um tempo como se não havia de ter outro. Que remendos no
engenho não queria, que de longa data andava. com idéias
de reformar tudo aquilo, e que ia reformar, embora levasse
a casqueira a safra.
E ficou assentado que, no outro dia, Barbosa havia de
seguir para o Ipanema, a entender-se com o Dr. Mursa,
sobre planos e dimensões para a nova máquina que urgia
ficasse pronta dentro de poucos dias.
Lenita, ao saber da viagem, teve um sobressalto,
ficou pálida, quase desmaiou: lembrava-lhe o muito que
sofrera com a ida de Barbosa a Santos, quando ele não era
ainda seu amante, quando ela nem sabia sequer ao certo que
o amava.
Como havia de ser então, que as coisas se achavam em
pé diversíssimo? Uma tortura inenarrável, impossível, o
inferno.
E não foi.
Lenita ajudou a Barbosa nos seus aspectos de viagem,
sem sentir por forma alguma o que sentira da vez passada.
As expansões lúbricas, desenfreadas, a que ele se entregou
na despedida noturna, contrariaram-na, mortificaram-na,
mesmo.
Admirava-se da transição brusca, repentina que se lhe
operara no espírito: sentia-se fria, indiferente,
aborrecida quase; achava-o a ele grosseiro, vulgar,
impertinente, ridículo, chato.
Na hora da partida apertou-lhe a mão; viu-o montar a
cavalo, dar de rédeas, seguir vagaroso em uma nuvem de pó
que se levantava da estrada; distinguiu-lhe o gesto de
adeus que lhe fez ele ao transpor o viso da colina, ao
sumir-se-lhe da vista.
E não se entristeceu ; em torno de si não sentiu
vácuo algum: achou-se até mais à vontade por ficar só, em
companhia de si própria, senhora de pensar, de agir em
liberdade, sem sugestão.
Todavia era-lhe grata à vaidade a idéia de que
Barbosa ia cogitar ininterrompidamente nela, só nela; de
que levava a sua imagem estereotipada, viva, na memória;
de que todo o pensamento, todo o ato dele a ela se
reportava, tinha-a por objetivo.
E, analista sutil, não se enganava sobre os seus
próprios sentimentos: no prazer que tinha com a sujeição
de Barbosa, descobria mais a satisfação do orgulho
lisonjeado do que o contentamento do amor correspondido.
Foi ao quarto de Barbosa, começou a pôr em ordem as
coisas dispersas, os livros e jornais que atravancavam a
mesa, o mármore do criado, as cadeiras.
Ninguém em casa, nem mesmo o coronel, estranhava mais
esses cuidados: a amizade estreita a intimidade que
reinava entre ela e Barbosa justificavam-na; todos achavam
muito natural o papel de ecônoma que ela a si chamara.
Nas senzalas, porém, o viver excêntrico e liberdoso
que ela levava com Barbosa já começava a servir de pábulo
à maledicência característica da raça negra: os pretos e
principalmente as pretas murmuravam, comentavam as caçadas
improdutivas, sublinhavam ditos, aventavam torpitudes.
Ao puxar uma gaveta da mesa de Barbosa, para recolher
as miudezas que achara dispersas, Lenita deu com uma
caixinha oblonga de tartaruga, incrustada de metal e
madrepérola.
Abriu-se por abrir, sem curiosidade. Encontrou dentro
quatro papéis dobrados, uma medalha muito oxidada de Nossa
Senhora da Aparecida, flores secas e várias bolinhas de lã
branca, desfiada.
Fez-lhe espécie aquilo: que diabo poderia ser?
Barbosa não era religioso, a medalha não tinha explicação
como coisa dele. E as bolinhas de lã? Com certeza tinham
caído de uma manta de malha, de uma saída de baile, em que
se envolvera, em que se agasalhara uma mulher, para
procurá-lo a ele na sua casa, no seu quarto, no seu leito.
E as flores secas? E os papéis? Ah! os papéis... Os papéis
continham de certo a chave do enigma davam a solução de
tudo aquilo.
Desdobrou o primeiro, encontrou um anel de cabelos
castanhos, quase pretos, cetinosos, muito finos.
Desdobrou o segundo, era um bilhetinho em poucas
linhas: a letra bonita, fina, redonda, de mulher. Dizia:
Espero-o sábado sem falta; se não vier zango-me. Não
o esqueço um só momento. Adeus.
Lenita empalideceu, mordeu os beiços e, trêmula, com
os olhos a despedir chispas, abriu o terceiro papel, uma
folha grande, larga, de almaço Fiume. Estava escrita pela
letra de Barbosa, um cursivo feio, muito legível. Era
evidentemente uma série de impressões lançadas no papel
sur place, no momento mesmo em que se tinham produzido,
inconexas, cortadas de reticências.

Lenita leu:
O trem ia partir.
Ela estava na plataforma da Estação da Luz, com o
marido, em bota-fora de não sei quem.
Olhou-me, eu a olhei; ela baixou os olhos, uns grandes
olhos verdes; corou. O braço esquerdo estava passado no do
marido enfastiadamente, aborrecidamente; o direito, em
abandono, pendia-lhe ao longo do corpo, fome, musculoso,
muito branco. A mão estava sem luva, era pequenina, bem
feita, anho no anelar uma marquesa de muito brilho.
Levantou os olhos, encarou-me, tomou a baixá-los, avançou
o pé direito, um pezinho adorável, bateu com ele
freneticamente, como se estivesse muito contrariada. O
marido disse-lhe o que quer que foi alemão, ela respondeu-
lhe na mesma língua. Saíram, eu segui-os. Tomaram o bonde
que vinha de Santa Cecília... Olhos
Olhos..... verdes.......amor........venusta.....

Tornei a vê-la.
Era no Grande Hotel: ela estava jantando, à mesa do
centro. Dava-me as costas. Recostava-se na cadeira,
pendendo o corpo para a esquerda; a perna direita, passada
por sobre a esquerda, agitava-se com um movimento
sacudido, nervoso; o pé muito pequeno, estreitado em uma
meia de seda carmezim, recurvando-se, descalçava em parte
o sapatinho Clark, mostrava o calcanhar redondo,
diminuto, delicioso. O pé esquerdo assentado firme no
chão. O vestido rodeava, cobria pane da poltrona em fartos
panejamentos, e por sob ele entrevia-se uma orla de saia
muito branca. A aragem que entrava pelas janelas altas
agitava-lhe os crespinhos dourados da nuca. Levantou-se,
rodando para a esquerda, com o busto curvado, em um
movimento gracioso, que pôs em relevo a exuberância dos
seios a avultarem reprimidos no corpete retesado, em
contraste provocador com a exigüida da cintura.
O quarto papel, amarelo, puído nas dobras, continha
uma poesia escrita também por letra de Barbosa.
Lenita leu:
M.I.
Não sei se és feia ou bonita,
Segundo as regras da arte;
Sei, sim, que gosto de ver-te,
Que gosto até de estudar-te.

Nas faces sedosas tuas
Não brilha o rubor das rosas,
Retinge-as a palidez
Das compleições biliosas.

Estranhas cintilações
Mordentes, frias, geladas
Tens nos olhos baços, vítreos,
Azuis, da cor das espadas.

Teu lábio, sempre agitado
De leve tremor nervoso
Parece ressumar sangue
Com sede infrene de gozo.

Contorce-te as mãos pequenas
Espasmo fabricitante
Tem não sei quê de felino
Teu breve corpo ondulante...

Queres então que eu te diga
Meu sentir quando te vejo ?
Amor não te tenho não;
Porém morde-me o desejo.

A moça teve um deslumbramento: em seu espírito,
subitamente iluminado, fez-se vácuo enorme, desmoronou-se
fragorosa a mole das ilusões.
Pensava - Barbosa era casado na Europa, ela o tinha
conhecido como tal, não podia exigir-lhe conta dos afetos
que ele voltara em tempo à esposa, das recordações que
dela porventura conservasse.
Mas ali não se tratava da esposa, tratava-se de três
mulheres pelo menos - a dos cabelos que, escuros, tinham
naturalmente por correlativo olhos pretos ou castanhos; a
do fragmento em prosa, de olhos verdes; a da borracheira
poética, de olhos azuis, cor de aço.
E quem sabe se não seriam seis ou mesmo sete: o
bilhete podia ser de uma outra; a medalha azinhavrada, de
uma outra; as flores secas, de uma outra, as bolinhas de
lã branca, de uma outra ainda.
E que eram aquelas bolinhas de lã branca senão
lembranças, troféus amorosos, colhidos de certo em cama
desfeita, sobre lençóis ainda quentes, após uma noite de
delírios eróticos?
Aquele homem era um devasso; um Dom João de
pacotilha, e ela, Lenita, não passava de uma das suas
muitas amantes.
Quem lhe dizia a ela que uma dádiva sua, que uma
épave qualquer que lhe tivesse pertencido, não iria
aumentar aquela ignominiosa coleção.
Em que dera seu orgulho, o alto conceito que ela
formava do seu sexo, que ela formava de si própria!
Amante de um devasso, barregã de um homem velho,
casado, que guardava troféus das conquistas... Bonito!
Esplêndido!
Estava castigada e achava justo o castigo.
Tinha ido pedir à ciência superioridade sobre as
outras mulheres; e na árvore da ciência encontrara um
verme que a poluíra.
Quisera voar de surto, remontar-se às nuvens, mas a
carne a prendera à terra, e ela tombara, submetera-se;
tombara como a negra boçal do capão, submetera-se como a
vaca mansa da campina. Revoltada contra a metafísica
social, pusera-se fora da lei da sociedade, e a
consciência castigava-a, dando-lhe testemunho de quanto
ela descera abaixo do nível comum da mesma sociedade.
É loucura quebrar de chofre o que é produto de uma
evolução de milhares de séculos. A sociedade tem razão:
ela assenta sobre a família, e a família assenta sobre o
casamento. Amor que não tenda a santificar-se pela
constituição da família, pelo casamento legal, aceito,
reconhecido, honrado, não é amor, é bruteza animal,
desregramento de sentidos. Não, ela não amara a Barbosa,
aquilo não tinha sido amor. Procurara-o, entregara-se a
ele por um desarranjo orgânico, por um desequilíbrio de
funções, por uma nevrose. Como a Fedra da fábula, como as
bíblicas filhas de Jó, como a histórica mulher de Cláudio,
ela caíra sob o látego da carne e, empurrada por um
devasso ilustríssimo, resvalara ao fundo do pego, à última
estratificação da vasa. Não, ela não amara, ela não amava
a Barbosa. O que por ele sentira fora uma atração
paulatina, gradual, viciosa, mórbida. A primeira impressão
que recebera, ao vê-lo, não tinha sido boa; e as primeiras
impressões é que fazem fé, porque são as que se produzem
instintivamente no espírito desprevenido. Nesse momento em
que ficava conhecendo a Barbosa como Barbosa realmente
era, é que ela podia avaliar o báratro em que se
despenhara. Pomba inocente, procurara por seu pé o açor,
metera-se-lhe nas garras, e ele a conspurcara, não somente
lhe arrancando a virgindade, mas debochando-a em práticas
infames para despertarem os sentidos embotados...
Meteu tudo às pressas, desordenadamente, na caixinha,
atirou a caixinha para a gaveta, empurrou com violência a
gaveta, saiu, foi para seu quarto, entrou, fechou-se por
dentro, atirou-se na cama; desatou em pranto.
De repente ergueu-se.
Que era aquilo? perguntou-se a si própria. Pois ela
era mulher para chorar, para carpir-se, como qualquer
criadinha de servir, violentada pelo filho da patroa? Não
! Caíra, mas caíra vencida por si, só por si, por seu
organismo, por seus nervos. O homem não entrava em linha
de conta, não passava de mero instrumento: fora Barbosa;
poderia ter sido o administrador, poderia ter sido o velho
coronel. Enquanto quisera, gozara; estava saciada...
Uma idéia terrível atravessou-lhe o cérebro.
De pouco tempo, de um mês a essa parte, sentia-se
modificar de modo estranho, moralmente, fisicamente:
tomara-se irritadiça, tinha impaciências febris. Uma nuga,
um nada a punha fora de si. Mal se alimentava: à simples
vista da mesa posta, vinham-lhe engulhos, chegava mesmo a
vomitar. Aberrara-se-lhe o apetite, desejava coisas
extravagantes. Uma tarde vira um cacho de caraguatá à
beira de um valo : quisera por força comer, comera,
queimara a boca com o sumo cáustico da fruta da
bromeliácea.
Com pasmo grande, sem poder dar a razão por que, via
que Barbosa já lhe não inspirava admiração. As tiradas, as
dissertações científicas, aliás corretas, que lhe fazia
enfastiavam-na: ela achava-o desajeitado, vulgar,
pretensioso; ganhava-lhe aversão; cria até perceber-lhe no
corpo e na roupa um cheiro esquisito, enjoativo, o que
quer que era como catinga de rato. Repugnavam-lhe as
carícias dele, e, para chegar bem à verdade, elas
incomodavam-na, de fato, topicamente.
Acudiu-lhe o dizer de Rabelais - "Les bêtes sur-leurs
ventrées n'endurent jamais te malê masculant".
Estaria grávida?
Correu à cômoda, puxou uma gaveta, tirou um
calendariozinho de algibeira, percorreu os meses, virando
as folhas com rapidez: estavam a 20 de agosto, e o último
dia marcado com uma cruzinha vermelha era o dia de São
Pedro, 29 de junho. Mediava um espaço de cinqüenta e dois
dias...
Desabotoou o corpinho, desceu o cabeção da camisa,
fez sair o seio esquerdo, globuloso, duro: baixou a cabeça
para vê-lo, estendendo o beiço inferior. O auréolo,
outrora róseo, imperceptível, acentuava-se retrato,
pardacento, constelado de papilas ouriçadas. Não havia
duvidar, estava grávida.
Sentiu ou julgou sentir que uma coisa qualquer se lhe
agitava, se lhe enovelava dentro do útero. No mesmo
instante apoderou-se dela um afeto imenso, indizível, por
esse quer que fosse, que assim ensaiava os primeiros
movimentos na ante-sala da vida. Era o desencadear de uma
tempestade, de uma inundação nevrótica, que a invadia, que
a alagavam como as águas de um açude roto invadem e alagam
a planície. No amor enorme de que se via repassada, Lenita
reconheceu o sentimento tão ridiculamente guindado ao
sublime pelo romantismo piegas, e todavia tão egoístico,
tão humano, tão animal - a maternidade.
- Que iria fazer? perguntou-se a si mesma, e, sem
hesitar, respondeu-se - levar a bom termo a gestação,
parir, criar, educar o filho, ver-se nele, ser mãe.
Dois dias se passaram sem que Lenita saísse do
quarto, senão para ir a uma ou outra refeição.
Ao almoço do terceiro dia, uma quinta-feira, disse ao
coronel que no domingo tencionava seguir para a vila, de
lá para a cidade, e da cidade para São Paulo; que seus
tarecos estavam arranjados, suas malas feitas; que
precisava do carroção para conduzi-los, do trolley para
conduzi-la a ela; que, saindo bem cedo, chegaria a tempo,
teria ainda de esperar pelo trem, talvez uma hora.
- Que nova loucura era aquela? perguntou o coronel.
Que ia Lenita fazer a São Paulo, assim de repente, sem quê
nem para quê?
À insistência de Lenita, que a nada se demoveu, fez
ele sentir que ao menos era preciso esperar ela vir
Barbosa do Ipanema para levá-la; que, só, ela não podia,
não devia ir; que ele, coronel, ameaçado e até já
principiando a sofrer de um insulto de reumatismo, achava-
se incapaz de uma vez para cumprir o dever de acompanhá-
la.
- Que iria muito bem só com o moleque até à vila,
volveu Lenita inabalável; que na estrada de ferro não se
fazia mister companhia; que lhe era impossível deixar de
ir.
As súplicas da entrevada, as instâncias e amuos do
coronel, de nada aproveitaram.
O carroção coma bagagem partiu no sábado de tarde, e,
no domingo cedo, Lenita de guarda-pó e chapéu de abas
largas, abraçou, chorando a velha; abraçou o coronel que
soluçava como uma criança, subiu para o trolley, seguiu.
- Rapariga, gritou-lhe de longe o coronel, limpando
os olhos, engasgado, você tem má cabeça, mas seu coração é
bom, e eu quero-lhe bem deveras. Em toda e qualquer
emergência lembre-se de que eu e seu avô fomos como
irmãos, de que eu tive sempre a seu pai na conta de filho.
Para tudo, mas mesmo para tudo, aqui fica o velho.
E acrescentou consigo:
- Nalguma coisa haviam mesmo de dar as físicas e as
botânicas e as caçadas: foi nisto. Antes nunca esta
rapariga se lembrasse de ter vindo aqui para a fazenda, ou
antes Manduca lá se tivesse deixado ficar pelo
Paranapanema. Agora é pegar-lhe com um trapo quente.
CapítuloI
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII