A Capital Federal
Artur Azevedo
Quadro IX
No Belódromo Nacional
- Cena I -
Lemos, Guedes, um Freqüentador do Belódromo, pessoas do povo,
depois amadores, depois S'il vous-plaît, depois Lourenço
(Durante todo este
ato, ouve-se a intervalos o som de uma sineta que chama os compradores
à casa das pules, à esquerda, e uma voz que grita: "Vai
fechar!")
Coro
Não há nada como
Vir ao Belódromo!
São estas corridas
Muito divertidas!
Desgraçadamente
Muito raramente
O povo, coitado!
Não é cá roubado!
Mas o cabeçudo,
Apesar de tudo,
Pules vai comprando,
Sempre protestando!
Tipos aqui pisam,
Mestres em cabalas,
E elas organizam
As famosas malas!
E com artimanha
(Manha mais do que arte)
Quase sempre ganha
Pífio bacamarte! (Entrada dos amadores.)
Coro de Amadores
Aqui estamos os melhores
Amadores
Da elegante bicicleta!
Nós corremos, prazenteiros,
Mais ligeiros,
Mais velozes que uma seta!
A todo o público
Dos belódromos
Muito simpáticos
Se diz que somos
O povo aplaude-nos
Quando vencemos,
Mas também vaia-nos
Quando perdemos!
Aqui estamos os melhores, etc...
O Freqüentador
do Belódromo ( A Lemos e Guedes.) - Parece impossível!..
No páreo
passado joguei no número 17 por ser a data em que minha mulher
morreu, e, por causa das dúvidas, joguei também no número
18, por ser a data em que ela foi enterrada... e ganhou o número
19! Parece impossível!...
Lemos - É verdade! Parece! (A Guedes.) Você já viu
velho mais cabuloso?
Freqüentador - Agora vou jogar no 25... Não pode falhar, porque
a sepultura dela tem o
número 525...
Guedes - É... é isso... vá comprar, vá.
O Freqüentador - Vou jogar uma em primeiro e duas em segundo. (Agasta-se
para o lado
da casa das pules.)
Lemos - E que me dizes a esta, ó Guedes? O S'il-vous-plaît
foi arranjar tudo, e do Lourenço
nem novas nem mandados!
Lemos - E que me dizes a esta, ó Guedes? O S'il-vous-plaît
foi arranjar tudo, e do
Lourenço nem novas nem mandados!
Guedes - Quem sabe se ele teve de levar Lola de carro a algum teatro?...
Lemos - Qual! Não creias! Pois se ele é um cocheiro que
faz da patroa o que bem quer!...
Guedes - Está só pelo diabo! Uma mala segura, e não
há dinheiro para o jogo! ... Olhem
aqui está de volta o S'il-vous-plaît.
S'il-vous-plaît (Aproximando-se, vestido de corredor) - Venho da
pista. Está tudo
combinado.
Lemos - Sim, mas ainda não temos o melhor! O caixa da mala não
aparece!
S'il -vous-plaît - Que diz você? Pois o Lourenço...
Guedes - O Lourenço até agora!
Lourenço (Aparecendo entre eles.) - Que estão vocês
aí a falar do Lourenço?
Os Três - Ora graças!...
Lourenço - Vocês sabem que eu sou de palavra... Quando digo
que venho é porque venho!
Lemos - Estávamos sobre brasas!
Lourenço - Já estão vendendo?
Guedes - Há que tempos!
S'il-vous-plaît - Já se fez a segunda apregoação.
Lourenço - O que está combinado?
S'il-vous-plaît - Ganha o Menelik.
Lourenço - O Félix Faure não corre?
S'il-vous-plaît - Corre.
Lourenço - Se tiver boa máquina, pode ganhar sem querer.
S'il-vous-plaît - Está combinado que ele cairá na
quinta volta.
Lourenço - Quantas voltas são?
S'il-vous-plaît - Oito.
Lourenço -. Quem mais corre?
S'il-vous-plaît - O Garibaldi, o Carnot e o Colibri
Lourenço - Que Colibri é esse?
S'il-vous-plaît - É um pequenote... um bacamarte... não
vale nada... nem eu o meti na
combinação!
Lourenço - Os outros quanto recebem?
S'il-vous-plaît - Quinze mil-réis cada um.
Lourenço - E dez por cento dos lucros para vocês três...
Bom. (Dando dinheiro a Lemos.)
Tome, seu lemos; vá comprar dez pules... (Dando dinheiro a Guedes.)
Tome, seu
Guedes: compre outras dez... Vá cada um por sua vez, para disfarçar...
Senão, o rateio não dá para o buraco de um dente!
Eu compro três cheques. Vamos. (Afastam-se todos.)
- Cena II -
Benvinda, Figueiredo
Benvinda - Me deixe!
Já te disse que não quero mais sabê do sinhô!
Figueiredo - Por quê, rapariga?
Benvinda - O sinhô co'essa mania de querê me lançá
é um cacete insuportave! Tá sempre
me dando lição e raiando comigo! Pra isso eu não
percisava saí de casa de sinhô
Eusébio!
Figueiredo - Mas é para o teu bem que eu...
Benvinda - Quais pera meu bem nem pera nada! Hei de encontrá quem
me queira mesmo
falando cumo se fala na roça!
Figueiredo - Estás bem aviada!
Benvinda - Eu mesmo posso me lançá sem percisar do sinhô!
Figueiredo - Oh! Mulher, olha que tu não tens nenhuma experiência
do mundo. És uma
tola... uma ignorantona... não sabes o que é a Capital Federal!
Benvinda - Como o sinhô se engana! Eu já tou meia capitalista-federalista!
Figueiredo - Bom; Tua alma, tua palma! Estou com a minha consciência
tranqüila. Mas vê
lá: se algum dia precisares de mim, procura-me.
Benvinda - Merci! (Vai-se afastando.)
Figueiredo - Adeus, Fredegonda!
Benvinda (Parando.) - Que Fredegonda! Assim é que o sinhô
me lançô! Me deu logo um
nome tão feio que toda a gente se ri quando ouve ele!
Figueiredo - É porque não sabem a história! Fredegonda
foi uma rainha... era casada com
Chilperico...
Benvinda - Pois eu por minha desgraça não sou casada com
seu Borge. Ó revoá. (Afasta-
se.)
Figueiredo (Só.) - No fundo, estou satisfeito, porque decididamente
não havia meio de
fazer dela alguma coisa... Parece que vai chover... mas já agora
vou assistir à
corrida. (Afasta-se.)
- Cena III -
Lourenço, Lemos, Guedes, depois o Freqüentador do Belódromo
Lourenço - Bom! Venham as pules. (Lemos e Guedes entregam as pules,
que ele
guarda.)
Lemos - A mala não transpirou. Félix Faure é o favorito.
Guedes - Queira Deus que o S'il-vous-plaît não dê com
a língua nos dentes!
O Freqüentador (Voltando.) - Comprei no 25... Mas agora me lembro...
somando o
número da sepultura dá a soma de 12. 5 e 2, 7; e 5, 12.
Ora 12 e 12 são 24.
Lemos - 24 é o tal Colibri. Não deite o seu dinheiro fora!
O Freqüentador - Aceito o conselho... Já cá tenho o
25... e não pode falhar! O diabo é que
parece que vai chover. O tempo está muito entroviscado! (Afasta-se.)
Lourenço (Que tem estado a calcular.) - Se o Félix Faure
é o favorito, o Menelik não pode
dar menos de sete mil-réis.
Guedes - Para cima!
Lourenço - Separemo-nos. Creio que a diretoria já nos traz
de olho... No fim da corrida
esperá-los-ei no lugar do costume para a divisão dos lúcaros.
Até logo!
Lemos e Guedes - Até logo. (Afastam-se. Benvinda volta passeando.)
- Cena IV -
Lourenço e Benvinda
Lourenço (Consigo.)
- Estes malandretes ganham pela certa... não arriscam um nicolau...
(Vendo Benvinda.) Não me engano: é a celeste Aída
do Sábado de aleluia... Reconhecerá ela na minha fisolostria
o cocheiro da Lola? Vejamos! (Passa e acotovela Benvinda.) - Adeus, coração
dos outros!
Benvinda - Vá passando seu caminho e não bula ca gente!
Lourenço - Tão zangada, meu Deus!
Benvinda - Que deseja o sinhô?
Lourenço - Pelo menos saber onde mora.
Benvinda - Moro na rua das casa.
Lourenço - Não seja má! Bem sei que é aqui
mesmo na Rua do Lavradio.
Benvinda - Quem le disse?
Lourenço - Ninguém. Fui eu que lhe vi na janela.
Benvinda - Pois não vá lá que não lhe arrecebo!
Lourenço - Por que não me arrecebe, marvada?
Benvinda - Vou sê franca... Só arrecebo quem quisé
me tirá desta vida. Não nasci pra isto.
Quero vivê em família.
Lourenço - Ah, seu benzinho! Isso é que não pode
ser! Hoje em dia não é possível viver
em família!
Benvinda - Por quê?
Lourenço - Por quê? Ainda me perguntas, amor?
Coplas
Lourenço
- I -
Já não
se encontra casa decente,
Que custe apenas uns cem mil-réis,
E os senhorios constantemente
O preço aumentam dos aluguéis!
Ainda o povinho muito inquieto,
E tem - pudera - toda a razão;
Não aparece nenhum projeto
Que nos arranque desta opressão!
Um cidadão neste tempo
Não pode andar amarrado...
A gente vê-se , e adeusinho:
Cada um vai pro seu lado!
- II -
Das algibeiras some-se
o cobre,
Como levado por um tufão!
Carne de vaca não come o pobre,
E qualquer dia não come pão!
Fósforos, velas, couve, quiabos,
Vinho, aguardente, milho, feijão,
Frutas, conservas, cenouras, nabos,
Tudo se vende pr'um dinheirão!
Um cidadão neste tempo etc...
Benvinda - Tenho sede,
venha pagá um copo de cerveja.
Lourenço - Com muito gosto, mas da Babilônia, que as alamoas
estão pela hora da morte!
Benvinda - Vamo.
Lourenço - Como você se chama, seu benzinho.
Benvinda - Artemisa.
Lourenço - Que bonito nome! Vamos ali no botequim do Lopes. (Saem.)
- Cena V -
Eusébio, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, depois Figueiredo
(Eusébio entra
no meio das mulheres: traz o chapéu atirado para a nuca, e um enorme
charuto. Vêm todos alegres. Acabaram de jantar e lembraram-se de
dar uma volta pelo Belódromo.)
Eusébio - Não,
Lola! Tu hoje há de me deixá i pra casa! Dona Fortunata
deve está furiosa!
Lola - Que Dona Fortunata que nada!
Mercedes - Havemos de acabar a noite num gabinete do Munchen!
Dolores - Não o deixamos!
Blanchette - Está preso!... E, demais, vamos ter chuva!
Eusébio - Na chuva já tou eu, se não me engano. Aquele
vinho é bão, mas é veiaco!
Figueiredo (Aproximando-se.) - Olá! viva a bela sociedade!
Lola - Olha quem ele é! O Figueiredo!
Mercedes - O Radamés!
Dolores - Você no Belódromo!
Figueiredo - Por mero acaso... Não gosto disto... No Rio de Janeiro
não há divertimentos
que prestem! Não temos nada, nada!
Eusébio (Num tom magoado.) - Como vai a Fredegonda, seu Figueiredo?
Figueiredo - A Fredegonda já não é Fredegonda!
Todos - Ah!...
Figueiredo - Tornou a ser Benvinda, como antigamente. Deixou-me!
Todos - Deixou-o?
Figueiredo - Deixou-me, e anda à procura de alguém que saiba
lançá-la melhor do que eu!
Eusébio - Uê!
Figueiredo - Deve estar aqui no Belódromo... Acompanhei-a até
cá para pedir-lhe que
tivesse juízo, mas a sua resolução é inabalável...
Pobre rapariga!...
Eusébio (Muito comovido, para o que concorre o vinho que bebeu.)
- Coitada da
Benvinda!... Podia tá casada e agora... anda atirada por aí
como uma coisa à-toa... sem ninguém que tome conta dela...
(Com lágrimas na voz.) Coitada... não façum caso...
Eu vi ela pequena... nasceu e cresceu lá em casa.. (Chorando.)
Minha fia mamou o leite da mãe dela!
Todos - Que é isso?! Chorando?! Ora esta!...
Eusébio (Com soluços.) - Que chorando que nada! Já
passou!... Não foi nada!... Que qué
vacês! Mineiro tem muito coração!...
Todos - Vamos lá! Que é isso? Então? ...
Lola - Há de passar. São efeitos do Chambertin! - Eusébio,
onde... então?... vá comprar
umas pules para tomar interesse pela corrida.
Eusébio - Eu não entendo disso!
Figueiredo - Escolha um nome daqueles. Olhe, ali, na pedra... Ligúria,
Carnot, Menelik,
Colibri e Félix Faure.
Eusébio - Colibri! Eu quero Colibri!
Figueiredo - Ouvi dizer que não vale nada... É o que aqui
chamam um bacamarte... Não
lhe sorri nenhum dos presidentes da República Francesa?
Eusébio - Não sinhô, não quero outro! Colibri
é o nome de um jumento que tenho lá na
fazenda.
Dolores, Mercedes e Blanchette (Ao mesmo tempo.) - Não faça
isso! Se é bacamarte, não
presta! É dinheiro deitado fora!
Lola - Deixem-no lá! É um palpite! Vá comprar cinco
pules naquele guichê.
Eusébio - Naquele quê?
Figueiredo - Naquele buraco.
Eusébio - Canto custa?
Figueiredo - Cinco pules são dez mil-réis.
Eusébio - Mas como se faz?
Figueiredo - Estenda o braço, meta o dinheiro dentro do buraco,
abra a mão, e diga:
"Colibri".
Eusébio - Sim, sinhô. (Afasta-se.)
Figueiredo - Pois é o que lhes conto: estou livre como o lindo
amor!
Mercedes - Se me quiser tomar sob a sua valiosa proteção...
Dolores - Se quiser fazer a minha ventura...
Blanchette - Se me quiser lançar...
Lola - Vocês estão a ler! Ele só gosta de...
Figueiredo (Atalhando.) - De trigueira! Eu digo trigueiras, por ser menos
rebarbativo...
Acho que as brancas são encantadoras, apetitosas, adoráveis,
lindíssimas, mas que
querem? - tenho cá o meu gênero...
Mercedes - Isso é um crime!
Dolores - Devia ser preso!
Blanchette - Deportado!
Lola - Sim, deportado... para a Costa da África!...
Quinteto
Lola
Ó Figueiredo, eu cá sou franca;
Estou com pena de você!
As outras
Nós temos pena de você!
Figueiredo
Façam favor, digam por quê!
Lola
Por não gostar da mulher branca!
As outras
Por não gostar da mulher branca!
Figueiredo
Meu Deus! Deveras!
Por isso só?
Todas
Somos sinceras!
Causa-nos dó!
Figueiredo
Oh!oh!oh!oh!
Todas
Oh!oh!oh!oh!
Lola
- I -
Pele cândida e rosada,
Cetinosa e delicada
Sempre teve algum valor!
Figueiredo
Que tolice!
Todas
Sim, senhor!
Lola
A cor branca, pelo menos,
Era a cor da loura Vênus,
Deusa esplêndida do amor.
Figueiredo
Quem lhe disse?
Todas
Sim, senhor!
Figueiredo
Se eu da Mitologia
Fosse o reformador!
Vênus transformaria
Numa mulata!
Todas
Horror!...
Figueiredo
- II -
A mimosa cor do jambo
Pede um meigo ditirambo
Cinzelado com primor!
Lola
Que tolice!
Todas
Não, senhor!
Figueiredo
Eu com os ovos, por sistema
Deixo a clara e como a gema,
Porque tem melhor sabor.
Lola
Quem lhe disse?
Todas
Não, senhor!
Figueiredo
Se eu da Mitologia
Fosse o reformador
Vênus transformaria
Numa mulata!
Todas
Horror!...
Juntos
Figueiredo As Cocotes
Gosto do amarelo! Gosta do amarelo!
Que prazer me dá! Maus exemplos dá!
Nada mais anelo, Vara de marmelo
Nem aspiro já! Merecia já!
Eusébio (Voltando.)
- Aqui está cinco papezinho do Colibri. Custou! Toda a gente queria
comprá! Eu meti o dinheiro no buraco, e o home lá de dentro
perguntou: "Onde
leva?" Eu respondi: "Colibri", e ele ficou muito espantado,
e disse: "É o premero que compra nesse bacamarte."
Figueiredo - Vamos ver a corrida lá de cima. Pedirei um camarote
ao Cartaxo.
Todos - Vamos! (Saem.)
- Cena VI -
Benvinda, Lourenço e Povo
Lourenço ( Correndo.) - Correndo ainda apanho; mas olhe que o Menelik...
(Desaparece.)
Benvinda - Não sinhô, não sinhô! Não
quero Menelik! Compre no que eu disse. (Só, no proscênio.)
Não gosto deste home: tem cara de padre... é muito enjoado...
Nem
deste, nem de nenhum... Não gosto de ninguém... O que eu
tenho a fazê de mió é
vortá para casa e pedi perdão a sinhá véia.
(Ouve-se o sinal do fechamento do jogo.)
Pessoas do povo - Fechou! Fechou! Ora, e eu que não comprei (Dirigem-se
todos para o
fundo: vão assistir à corrida.)
Lourenço (Voltando.) - Sempre cheguei a tempo de comprar a pule!
(Dando a pule a
Benvinda.) Mas que lembrança a sua de jogar no Colibri!
Benvinda - É porque é o nome de um burrinho que há
numa fazenda onde eu fui passá
uns tempo.
Lourenço - Ah! É cabula? (Ouve-se um toque de campanhia
elétrica.) Se ele vencesse,
você levava a casa das pules! (Ouve-se um tiro de revólver
e um pouco de música.) Começou a corrida! Vamos ver! (Afastam-se
para o fundo.)
- Cena VII -
Gouveia, Fortunata e Quinota
Fortunata (Entrando apressada à frente de Gouveia e Quinota.) -
Não! Não quero vê meu
fio corrê na tá história! ... E logo que acabá
a corrida, levo ele pra casa, e aqui não vorta!... Que coisa!...
Benvinda desaparece... Seu Eusébio desaparece... Juquinha não
sai do Belódromo... Tou vendo quando Quinota me deixa!
Quinota - Oh! Mamãe! Não tenha esse receio!
Fortunata - Que terra! Eu bem não queria vi no Rio de Janeiro!
Quinota - Que vida tão diversa da vida da roça! ( A Gouveia.)
Não ficaremos aqui depois
de casados.
Gouveia - Por quê?
Quinota - A vida fluminense é cheia de sobressaltos para as verdadeiras
mães de família!
Fortunata - Olhe seu Eusébio, um home de cinqüenta ano, que
teve até agora tanto juízo!
Arrespirou o á da Capitá Federá, e perdeu a cabeça!
Gouveia - Apanhou o micróbio da pândega!
Quinota - Aqui há muita liberdade e pouco escrúpulo... faz-se
ostentação do vício... não se
respeita ninguém... É uma sociedade mal constituída.
Gouveia - Não a supunha tão observadora.
Quinota - Eu sou roceira, mas não tola que não veja o mal
onde se acha.
Fortunata - parece que já está chuviscando... Eu senti um
pingo...
Quinota - O senhor, por exemplo, o senhor, se pensa que me engana, engana-se.
Conheço
perfeitamente os seus defeitos.
Fortunata (À parte.) - Aí!
Gouveia - Os meus defeitos?
Quinota - Oh! São muitíssimos - e o menor deles não
é querer aparentar uma fortuna que
não existe. Desagradam-me esse visíveis esforços
que o senhor faz para iludir os
outros. O melhor partido que o senhor tem a tomar... e olhe que este é
o conselho da tua noiva, isto é, da pessoa que mais o estima neste
mundo... o melhor partido que o senhor tem a tomar é abrir-se com
papai... confessar-lhe que é um jogador arrependido...
Gouveia - Oh! Quinota!...
Fortunata - Não tem - ó Quinota - nem nada! É a verdade!...
Quinota - Irá conosco para a fazenda, onde não lhe faltará
ocupação.
Fortunata - Sim sinhô; é mió trabaiá na roça
que fazê vida de vagabundo na cidade! -
Outro pingo!
Quinota - Papai precisa muito associar-se a um moço inteligente,
nas suas condições.
Sacrifique à sua tranquilidade os seus prazeres; case-se, faça-se
agricultor, e sua esposa, que não será muito exigente e
terá muito bom-senso, todos os anos lhe dará licença
para vir matar saudades daquilo a que o senhor chama o micróbio
da pândega.
Gouveia (À parte.) - Sim, senhor, pregou-me uma lição
de moral mesmo nas bochechas!
Fortunata - Seu Gouveia, é mió a gente i pro lugá
por onde Juquinha tem de saí.
Gouveia - Deve sair por acolá... Vamos esperá-lo na passagem.
(Estendendo o braço.) É
verdade, já está chuviscando.
(Saem. O final da corrida. Um toque de campanhia elétrica. Pouco
depois um pouco de música. Vozeria do povo, que vem todo ao proscênio.)
Coro
Oh! Quem diria
Que ganharia
O Colibri!
Ganhou à toa!
Pule tão boa
Eu nunca vi
Aqui!
- Cena VIII -
Lemos, Guedes, Lourenço, o Freqüentador do Belódromo,
depois Eusébio, Figueiredo, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette,
depois S'il-vous-plaît, Juquinha, depois Fortunata, Quinota, Gouveia,
depois Benvinda, depois Lourenço.
Lemos - Ganhou o Colibri!
Quem diria!
Guedes - O Colibri... que pulão...
Lourenço - Que desgraça!... O Félix Daure caiu de
propósito, mas por cima do Félix Faure
caiu o Menelik, por cima do Menelik o Ligúria, por cima do Ligúria,
o Carnot, e o
Colibri, que vinha na bagagem, não caiu por cima de ninguém
e ganhou o páreo!
Que palpite de mulata! Onde estará ela? Vou procurá-la.
(Desaparece.)
O Freqüentador (A Lemos e Guedes.) - Então? Eu não
dizia? Ganhou o 24! Doze e doze,
vinte e quatro. ( Com uma idéia.) Ah!
Os Dois - Que é?
O Freqüentador - Fui um asno! 24 é a data da missa de sétimo
dia de minha mulher!
(Lemos e Guedes afastam-se rindo.) Ora esta! Ora esta!... E era um pulão!
(Abre o
guarda-chuva.) Chove... Naturalmente não há mais corridas
hoje... (Afasta-se. Há na
cena alguns guarda-chuvas abertos. Aparecem Eusébio, Figueiredo
e as cocotes.
Vêm todos de guarda-chuvas abertos.)
Figueiredo - Bravo! Foi um tiro, seu Eusébio, foi um tiro!... O
Colibri vendeu apenas seis
pules e o senhor tem cinco!
S'il-vous-plaît (Metendo-se na conversa, e abrigando-se no guarda-chuva
de Eusébio.) -
Dá mais de cem mil-réis cada pule!...
Eusébio - Mais de cem mil-réis? Então? Eu não
disse? Co aquele nome, o menino não
podia perdê! O Colibri é um jumento de muita sorte! ( A S'il-vous-plaît.)
O sinhô conhece ele?
S'il-vous-plaît - Quem? O Colibri? Sim senhor!
Eusébio - Vá chamá ele. Quero le dá uma lambuge!
S'il-vous-plaît - Nem de propósito! Ele aí vem. (Chamando
Juquinha que aparece.) Ó
Colibri! Está aqui um senhor que jogou cinco pules em você
e quer dar-lhe uma gratificação.
Juquinha (Aproximando-se muito lampeiro.) - Aqui estou, quê dê
o home?
Eusébio - Era o Juquinha!
Juquinha - Papai (Deixa a correr e foge.)
Eusébio - Ah! Tratante! O Colibri era ele! Alembrou-se do jumento!
... E foge do pai! Ora
espera lá! (Corre atrás do Juquinha e desaparece. A chuva
cresce. O povo corre todo e abandona a cena.)
Lola - Onde vai? Espere! (Corre atrás de Eusébio e desaparece.)
As Mulheres - Vamos também! Vamos também. (Correm atrás
de Lola e desaparecem.)
Figueiredo - Então, minhas filhas? Não corram! (Vai atrás
delas e desaparece.)
Fortunata (Entrando de guarda-chuva.) - É ele! É ele! É
seu Eusébio! (Sai correndo pelo
mesmo lado.)
Quinota (Entrando, idem.) - Mamãe! Mamãe! (Corre acompanhando
Fortunata.)
Gouveia (Idem.) - Minhas senhoras!... Minhas senhoras! (Corre e desaparece.)
Benvinda (Entrando perseguida por Lourenço, ambos de guarda-chuva.)
- Me deixe! Me
deixe!... (Desaparece.)
Lourenço ( Só em cena.) - Dê cá a pule, seu
benzinho, dê cá a pule, que eu vou receber!
(Desaparece. Mutação.)
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