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A Capital Federal
Artur Azevedo


Ato III

Quadro VIII
A saleta de Lola

- Cena I -
Eusébio, Lola

(Eusébio, ridiculamente vestido à moda, prepara um enorme cigarro mineiro. Lola, deitada no sofá, lê um jornal e fuma.)

Eusébio - Isto tá o diabo! Não sei de Dona Fortunata... não sei de Quinota... não sei de
Juquinha... não sei de seu Gouveia... Não tenho corage de entrá em casa!... Se eu me
confessá, não encontro um padre que me absorva!... - Lola, Lola, que diabo de feitiço foi este?... tu fez de mim o que tu bem quis!
Lola - Estás arrependido?
Eusébio - Não, arrependido, não tou, porque a coisa não se pode dizê que não seje oba...
Mas minha pobre muié deve está furiosa!... E então quando ela me vi assim, todo janota, co'esta roupa de arfaiate francês, feito monsiú da Rua do Ouvidô... Oh! Lola! Lola! As muié é os tormento dos home! ... (Local que se tem levantado e que tem ido, um tanto inquieta, até à porta da esquerda, volta ao proscênio e vem encostar-se ao ombro de Eusébio.)
Lola - O tormento! Oh! Não...

Coplas
- I -
Meu caro amigo, esta vida
Sem a mulher nada vai!
É sopa desenxabida,
Sem uma pedra de sal!
Se a dor torna um homem triste,
Tem ele cura, se quer;
A própria dor não resiste
Aos beijos de uma mulher!

- II -
Ao lado meu, queridinho,
Será ditoso e feliz;
Terás todo o meu carinho,
É o meu amor que to diz.
Se tu me amas como eu te amo,
Se respondes aos meus ais,
Nada mais de ti reclamo,
Não te peço nada mais!

Eusébio - Mas... me diz uma coisa, diabo, fala tua verdade... Tu tá inteiramente curada de seu Gouveia?
Lola - Não me fales mais nisso ! Foi um sonho que passou. (Pausa.) A propósito de
sonho... foste ver na vitrine do Luís de Resende o tal broche com que eu sonhei?
Eusébio (Coçando a cabeça.) - Fui... sabe quanto custa?
Lola (Com indiferença.) - Sei... uma bagatela... um conto e oitocentos... (Sobe e vai de novo observar à porta da esquerda.)
Eusébio (À parte.) - Sim, é uma bagatela... a espanhola gosta de mim, é verdade, mas em
tão poucos dias já me custa cinco contos de réis! E agora o colar!...
Lola (À parte.) - Que demora! (Alto, descendo.) Mas enfim? O colar? Se é um sacrificío, não
quero!
Eusébio - O home ficou de fazê um abartimento e me mandá a resposta.
Lola (À parte.) - É meu!
Eusébio - Se ele deixá por um conto e quinhento, compro! Não dou nem mais um vintém.
Lola (À parte.) - Sobem a escada. É ele!...
Eusébio - Parece que vem gente. (Batem com força à porta.) - Quem é?
Lola - Deixa. Eu vou ver. (Vai abrir a porta. Lourenço entra arrebatadamente. Traz
óculos azuis, barbas postiças, chapéu desabado e veste um sobretudo com a gola erguida. Lola finge-se assustada.)

- Cena II -
Os mesmos, Lourenço

Lourenço - Minha rica senhora, folgo de encontrá-la!
Eusébio - Que é isso?
Lourenço - Fui entrando para não lhe dar tempo de me mandar dizer que não estava em
casa! É esse o seu costume!
Lola - Senhor!
Eusébio - Quem é este home danado?
Lourenço - Quem sou?.. Um credor que quer o seu dinhero! Quer saber também quem é
esta senhora? Quer saber? É uma caloteira!
Lola - Que vergonha! (Cai sentada e cobre o rosto com as mãos.)
Eusébio - O sinhô é um grande marcriado! Não se insurta assim uma fraca muié que está
em sua casa! Faça favô de saí!...
Lourenço - Sair? Eu não saio daqui sem o meu rico dinheiro! O senhor, que tem cara de
homem sério, naturalmente há de julgar que sou um grosseirão, um bruto; mas não imagina a paciência que tenho tido até hoje! (Batendo com a bengala no chão.) Venho disposto a receber o meu dinheiro!...
Eusébio - Mas dinheiro de quê?
Lourenço - De quê? Como de quê... Dinheiro que me deve esta senhora! Dinheiro limpo,
que me pediu há quatorze meses para pagar no fim de trinta dias!
Lola ( Descobrindo o rosto muito chorosa.) - Com juros de sessenta por cento ao ano.
Lourenço - Eu dispenso os juros! Isto prova que não sou nenhum agiota! O que eu quero,
o que eu exijo, é o meu capital, os meus dois contos de réis, que me saíram limpinho da algibeira e seriam quase o dobro com juros acumulados!
Lola (Suplicante.) - Senhor, eu pagarei esse dinheiro logo que puder... Poupe-me tamanha
vergonha diante deste cavalheiro que estimo e respeito!
Lourenço - ora deixe-se de partes! Se a senhora não se quisesse sujeitar a estas cenas,
solveria os seus compromissos! Mas não passa, já disse, de uma reles caloteira!...
Eusébio - Home, o sinhô arrepare que eu tou aqui! Faça favô de vê como fala!...
Lourenço - Quem é o senhor? É marido desta senhora? É seu pai? É seu tio? É seu
padrinho? É seu irmão? É seu parente? Com que direito intervém? Eu tenho ou não tenho razão? Fui ou não fui caloteado?
Eusébio - Home, o sinhô se cale! Olhe que eu sou mineiro!
Lourenço - Não me calo, ora aí está! E declaro que não me retiro daqui sem estar pago e
satisfeito! (Senta-se.)
Eusébio - Seu home, olhe que eu...!
Lourenço (Erguendo-se.) - Eh! Lá! Eh! Lá! Agora sou eu que lhe digo que se cale! O
senhor não tem o direito de abrir o bico!...
Lola (Chorando.) - Que vergonha! Que vergonha!
Eusébio (À parte.) - Coitadinha!...
Lourenço - A princípio supus que o senhor fosse o amante desta senhora. Vejo que me
enganei... Se o fosse, já teria pago por ela, e não consentiria que eu a insultasse!...
Eusébio - Hein?
Lola (Erguendo-se correndo a Eusébio.) - Não! Não! Sou eu que não consinto que tu
apagues!... Não! Não tires a carteira! Eu mesma pagarei esta dívida!
Lourenço - Mas há de ser hoje, porque eu não me levanto desta cadeira (Torna a sentar-
se.)
Eusébio - Mas eu...
Lola - Não! Não pagues! Esse dinheiro pedi-o para mandá-lo a minha mãe, que está em
Valladolid... Eu é que devo pagá-lo (Voltando suplicante para Lourenço.) ... mas não hoje!...
Lourenço (Batendo com a bengala.) - Há de ser hoje!...
Lola - Não posso! Não posso!...
Lourenço - Não pode?... Dê-me esse par de bichas que traz nas orelhas e ficarei satisfeito!
Lola - Essas bichas custaram três contos!
Lourenço - São os juros.
Lola - Pois bem! (Vai tirar as bichas.)
Eusébio (Pegando-lhe no braço.) - Não tira as bichas, Lola!... (Ao credor.) - Seu
desgraçado, não tenho dois conto aqui no borso, mas me acompanha na casa do meu correspondente, na Rua de São Bento... vem recebê o teu mardito dinheiro!
Lourenço (Batendo com a bengala.) - Já disse que daqui não saio!
Lola (Abraçando Eusébio.) - Não, Eusébio, meu querido Eusébio! Não...
Eusébio (Sem dar ouvidos a Lola.) - Pois não sai, não sai, desgraçado! (Desvencilhando-se
de Lola.) Espera aí sentado, que eu vou buscá teu dinheiro! (Sai arrebatadamente. Lola, depois de certificar-se de que ele realmente saiu, volta, e desata a rir às gargalhadas. Lourenço levanta-se, tira os óculos, as barbas e o chapéu, e também ri às gargalhadas.)

- Cena III -
Lola, Lourenço

Lola - Soberbo! Soberbo! Foi uma bela idéia! Toma um beijo! (Dá-lhe um beijo.)
Lourenço - Aceito o beijo, mas olhe que não dispenso os vinte por cento.
Lola - Naturalmente.
Lourenço - Você há de convir que sou um grande artista!
Lola - E então eu?
Lourenço -Você também, mas se eu me houvesse feito cômico em vez de fazer cocheiro,
estava a estas horas podre de rico!

Tango
- I -
Ai! Que jeito pro teatro!
Que vocação!
Eu faria o diabo a quatro
Num dramalhão!
Mas às rédeas e ao chicote
Jungido estou!
Sou cocheiro de cocote! (1)
Nada mais sou!
Cumprir o nosso destino
Nem eu quis nem você quis!
Fui ator desde menino
E você foi sempre atriz!

- II -
Quando eu era mais mocinho
(Posso afiançar!)
Fiz furor num teatrinho
Particular!
Talvez outro João Caetano
Se achasse em mim.
Mas o fado desumano
Não quis assim!
Cumprir o nosso destino, etc...

Lola - Mas por que não acompanhaste o fazendeiro? Era mais seguro!
Lourenço - Pois eu lá me atrevia a andar por essas ruas de barbas postiças! Nada, que não
queria dar com os ossos no xadrez!
Lola - Tens agora que esperar aqui a pé firme!
Lourenço - Estou arrependido de ter perdoado os juros. (Batem à porta.)
Lola - Quem será?
Lourenço (Depois de espreitar.) - É o filho-família.
Lola - Ah! O tal Duquinha? Tomaste as necessárias informações? Que me dizes desse
petiz?
Lourenço (Abanando a cabeça com ares de competência.) - Digo que no seu gênero não
deixa de ser aproveitável... O pai é muito severo, mas a mãe, que é rica, satisfaz todos os seus caprichos... Não digo que você possa dali mundos e fundos, mas é fácil obrigá-lo a contrair dívidas, se for preciso, para dar alguns presentes, e ouro é o que ouro vale.
Lola - Manda-o entrar.
Lourenço - Não se demore muito, porque o fazendeiro foi a todo o vapor e não tarda por
aí.
Lola - Temos tempo. A Rua de S. Bento é longe. (Sai. Lourenço tira o sobretudo, a que
junta as barbas, os óculos e o chapéu, e vai abrir a porta a Duquinha.)


- Cena IV -
Duquinha, Lourenço

(Duquinha tem dezoito anos e é muito tímido.)

Duquinha - A senhora Dona Lola está em casa?
Lourenço (Muito respeitoso.) - Sim, meu senhor... e pede a V. Exa. Que tenha o obséquio
de esperar alguns instantes.
Duquinha - Muito obrigado. (À parte.) É o cocheiro... não sei se deva...
Lourenço - Como diz V. Exa.?
Duquinha - Se não fosse ofendê-lo, pedia-lhe que aceitasse... (Tira a carteira.)
Lourenço - Oh! Não!... Perdoe V. Exa... não é orgulho; mas que diria a patroa se soubesse
que eu...
Duquinha - Ah! Nesse caso... (Guarda a carteira.)
Lourenço (Que ia sair, voltando.) - Se bem que eu estou certo que V. Exa. Não diria nada
à Senhora Dona Lola...
Duquinha ( Tirando de novo a carteira.) - Ela nunca o saberá. (Dá-lhe dinheiro.)
Lourenço - Beijo as mãos de V. Exa. A Senhora Dona Lola é tão escrupulosa! (À parte.)
Uma de trinta! O franguinho promete... (Sai com muitas mesuras, levando o sobretudo e demais objetos.)

- Cena V -
Duquinha - Estou trêmulo e nervoso... É a primeira vez que entro em casa de uma destas
mulheres... Não pude resistir!.... A Lola é tão bonita, e o outro dia, no Braço de Ouro, me lançou uns olhares tão meigos, tão provocadores, que tenho sonhado todas as noites com ela! Até versos lhe fiz, e aqui lhos trago... Quis comprar-lhe uma jóia, mas receoso de ofendê-la, comprei apenas estas flores... Ai, Jesus! Ela aí vem! Que lhe vou dizer?...


- Cena VI -
Duquinha e Lola

Lola - Não me engano: é o meu namorado do Braço de ouro! (Estendendo-lhe a mão.)
Como tem passado?
Duquinha - Eu... sim... bem, obrigado; e a senhora?
Lola - Como tem as mãos frias!
Duquinha -Estou muito impressionado. É uma coisa esquisita: todas as vezes que fico
impressionado.. fico também com as mãos frias...
Lola - Mas não se impressione! Esteja à vontade! Parece que não lhe devo meter medo!
Duquinha - Pelo contrário.
Lola (Arremedando- o .) - Pelo contrário! (Outro tom.) São minhas essas flores?
Duquinha - Sim.. eu não me atrevia... (Dá-lhe as flores.)
Lola - Ora essa! Por quê? (Depois de aspirá-las.) Que lindas são!
Duquinha - Trago-lhe também umas flores poéticas.
Lola - Uma quê?...
Duquinha - Uns versos.
Lola - Versos? Bravo! Não sabia que era poeta!
Duquinha - Sou poeira sim, senhora; mas poeta moderno, decadente...
Lola - Decadente? Nessa idade?
Duquinha - Nós somos todos muito novos.
Lola - Nós quem?
Duquinha - Nós, os decadentes. E só podemos ser compreendidos por gente da nossa
idade. As pessoas de mais de trinta anos não nos entendem.
Lola - Se os senhor se demorasse mais algum tempo, arriscava-se a não ser compreendido
por mim.
Duquinha - Se dá licença, leio os meus versos. (Tirando um papel da algibeira.) Quer
ouvi-los?
Lola - Com todo o prazer.
Duquinha (Lendo.)

Ó flor das flores, linda espanhola!
Como eu te adoro, como eu te adoro!
Pelos teus olhos, ó Lola, ó Lola!
De dia canto, de noite choro,
Linda espanhola, linda espanhola!

Lola - Dir-se-ia que o trago de canto chorado!
Duquinha - Ouça a segunda estrofe!

És uma santa, santa das santas!
Como eu te adoro, como eu te adoro!
Meu peito enlevas, minhalma encantas!
Ouve o meu triste canto sonoro,
Santa das santas, santa das santas!

Lola - Santa? Eu!... Isto é que é liberdade poética!
Duquinha - A mulher amada pelo poeta é sempre santa para ele! Terceira e última
estrofe...
Lola - Só três? Que pena!
Duquinha (Lendo.)

Ó flor das flores! Bela andaluza!
Como eu te adoro, como eu te adoro!
Tu és a minha pálida musa!
Desses teus lábios um beijo imploro,
Bela andaluza, bela andaluza!

Lola - Perdão, mas eu não sou da Andaluzia; sou de Valladolid.
Duquinha - Pois há espanholas tão bonitas que não sejam andaluzas?
Lola - Pois não! O que não há são andaluzas bonitas que não sejam espanholas.
Duquinha - Hei de fazer uma emenda.
Lola - E que mais?
Duquinha - Como?
Lola - O senhor trouxe-me flores... trouxe-me versos... e não me trouxe mais nada?
Duquinha - Eu?
Lola - Sim... Os versos são bonitos... as flores são cheirosas... mas há outras coisas de que
as mulheres gostam muito.
Duquinha - Uma caixinha de marrons glacés?
Lola - Sim, não digo que não... é uma boa gulodice... mas não é isso...
Duquinha - Então que é?
Lola - Faça favor de me dizer para se inventaram os ourives.
Duquinha - Ah! Já percebo... Eu devia trazer-lhe uma jóia!
Lola - Naturalmente. As jóias são o "Sésamo, abre-te" destas cavernas de amor.
Duquinha - Eu quis trazer-lhe uma jóia, quis; mas receei que a senhora se ofendesse...
Lola - Que me ofendesse?... Oh! Santa ingenuidade!... Em que é que uma jóia me poderia
ofender? Querem ver que o meu amiguinho me toma por uma respeitável mãe de
família? Creia que um simples grampo de chapéu, com um bonito brilhante, produziria mais efeito que todo esse:

Como te adoro, como te adoro,
Linda espanhola, linha espanhola,
Santa das santas, santa das santas!

Duquinha - Vejo que lhe não agrada a Escola Decadente....
Lola - Confesso que as jóias exercem sobre mim uma fascinação maior que a literatura, e
demais, não sou mulher a quem se ofereçam versos... Vejo que o senhor não é de
opinião de Bocage...
Duquinha - Oh! Não me fale em Bocage!
Lola - Que mania essa de não nos tomarem pelo que somos realmente! Guarde os seus
versos para as donzelinhas sentimentais, e, ande, vá buscar o "Sésamo, abre-te" e
volte amanhã. ( Empurra-o para o lado da porta. Entra Lourenço.)
Duquinha - Mas...
Lola - Vá,vá! Não me apareça aqui sem uma jóia. ( A Lourenço.) Lourenço conduza este
senhor até a porta. (Sai pela direita.)
Duquinha - Não, não é preciso, não se incomode. (À parte.) Vou pedir dinheiro a mamãe.
(Sai.)

- Cena VII -

Lourenço - Às ordens de Vossa Excelência. (Só.) - A Lola saiu-me uma artista de
primeiríssima ordem! - Bem! Vou caracterizar-me de credor, que o fazendeiro não
tarda por aí. Quatrocentos mil-réis cá para o degas! Que bom! Hão de grelar esta noite no Belódromo, onde conto organizar uma mala onça! (Sai cantarolando o tango. Mutação.)


Quadro I
Quadro II
Quadro III e IV

Quadro V
Quadro VI
Quadro VII


Quadro VIII
Quadro IX
Quadro X
Quadro XI e XII