A Capital Federal
Artur Azevedo
Quadro XI
( O sótão ocupado pela família de Eusébio.)
- Cena I -
Juquinha, depois Fortunata, depois Quinota
Juquinha (Entrando a correr da esquerda.) - Mamãe! Mamãe!
Fortunata (Entrando da direita.) - Que é, menino?
Juquinha - Papai tá i!
Fortunata - Tá i?
Juquinha - Eu encontrei ele ali no canto e ele me disse que viesse vê
se va'mecê tava
zangada, que se tivesse, ele não entrava.
Fortunata - Oh! Aquele home, aquele home o que merecia! Vai, vai dizê
a ele que não tô
zangada!
Juquinha - Seu Gouveia tá junto co ele.
Fortunata - Bem! Venha todos dois. (Juca sai correndo.) Quinota, Quinota!
A voz de Quinota - Senhora?
Fortunata - Vem cá, minha fia. - Eu não ganho nada me consumindo.
Já tou véia; não
quero me amofiná. (Entra Quinota.) - Quinota, teu pai vem aí...
mas o que está arresolvido está: amenhã de menhã
vamo embora.
Quinota - E seu Gouveia?
Fortunata - Também vem aí.
Quinota (Contente.) - Ah!
Fortunata - Não quero mais ficá numa terra onde os marido
passa dias e noite fora de
casa...
- Cena II -
Fortunata, Quinota, Juquinha, Eusébio, depois Gouveia
Juquinha (Entrando.) - Tá i papai!
Eusébio (Da porta.) - Posso entrá? Não temo briga?
Quinota - Estando eu aqui, não há disso!
Fortunata - Sim, minha fia, tu é o anjo da paz.
Quinota (Tomando o pai pela mão.) - Venha cá. (Tomando Fortunata
pela mão.) Vamos!
Abracem-se!...
Fortunata (Abraçando-o .) - Diabo de home, véio sem juízo!
Eusébio - Foi uma maluquice que me deu! Raie, raie, Dona Fortunata!
Fortunata - Pai de fia casadeira!
Eusébio - Tá bom! Tá bom! Juro que nunca mais! Mas
deixe le dizê...
Fortunata - Não! não diga nada! Não se defenda! É
mió que as coisa fique como está.
Juquinha - Seu Gouveia tá no corredô.
Quinota - Ah! (Vai buscar Gouveia pela mão. Gouveia entra manquejando.)
Eusébio - Assim é que o sinhô me apadrinhou?
Gouveia - Deixe-me! Estes sapatos novos fazem-me ver estrelas.
Fortunata - Seu Gouveia, le participo que amenhã de menhã
tamo de viagem.
Eusébio - Já conversei co ele.
Gouveia (A Quinota.) - Eu abri-me.
Eusébio - Ele vai coa gente. Não tem que fazê aqui.
Tá na pindaíba, mas é o memo. Casa
com Quinota e fica sendo meu sócio na fazenda.
Quinota - Ah! Papai! Quanto lhe agradeço!
Juquinha - A Benvinda tá i.
Todos - A Benvinda!
Fortunata - Não quero vê ela! Não quero vê ela!
(Quinota vai buscar
Benvinda, que entra a chorar, vestida como no 1º quadro, e ajoelha-se
aos pés de Fortunata.. )
- Cena III -
Os mesmos, Benvinda
Benvinda - Tô
muito arrependida! Não valeu a pena!
Fortunata - Rua, sua desavergonhada!
Eusébio - Tenha pena da mulata.
Fortunata - Rua!
Quinota - Mamãe, lembre-se de que eu mamei o mesmo leite que ela.
Fortunata - Este diabo não tem descurpa! Rua!
Gouveia - Não seja má, Dona Fortunata. Ela também
apanhou o micróbio da pândega.
Fortunata - Pois bem, mas se não se comportá dereto... (Benvinda
vai para junto de
Juquinha.)
Eusébio (Baixo à Fortunata.) - Ela há de casá
com seu Borge... Eu dou o dote...
Fortunata - Mas seu Borge...
Eusébio - Quem não sabe é como quem não vê.
(Alto.) A vida da capitá não se fez para
nós... E que tem isso?... É na roça, é no
campo, é no sertão, é na lavoura que está
a vida e o progresso da nossa querida pátria. (Mutação.)
Quadro XII
(Apoteose à vida rural.)
Toda a música
desta peça é composta pelo Senhor Nicolino Milano, à
exceção das coplas do Ato I - quadro I, cena I e quadro
III, cena III , do coro do quadro III, cena I, do duetino do quadro II,
cena IV e do quarteto do quadro III, cena IV que foram compostas pelo
Senhor Doutor Pacheco, e da valsa do ato I, cena IV, composição
do Senhor Luís Moreira.
A Capital Federal, de Artur Azevedo
Fonte:
AZEVEDO, Artur A capital federal , O badejo , A jóia , Amor por
anexins. [Estabelecimento de texto: Prof. Antonio Martins de Araújo].
Rio de Janeiro: Ediouro. (Prestígio).
Texto proveniente
de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado
por:
Selma Suely Teixeira, Curitiba - PR
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