A Capital Federal
Artur Azevedo
- Quadro X-
A Rua do Ouvidor
1º Literato, 2º Literato, Pessoas do Povo, depois
Fortunata, Quinota, Juquinha
Coro
Não há rua como a Rua
Que se chama do Ouvidor!
Não há outra que possua
Certamente o seu valor!
Muita gente há que se mace
Quando, seja por que for,
Passe um dia sem que passe
Pela Rua do Ouvidor!
1º Literato -
Tens visto o Duquinha?
2º Literato - Qual! Depois que se meteu com a Lola, ninguém
mais lhe põe a vista em
cima!
1º Literato - É pena! Um dos primeiros talentos desta geração...
2º Literato - Apaixonado por uma cocote!
1º Literato - Felizmente a arte lucra alguma coisa com isso... O
Duquinha faz magníficos
versos à Lola. Ainda ontem me deu uns, que são puros Verlaine.
Vou publicá-los no segundo número da minha revista.
2º Literato- Que está para sair há seis meses?
1º Literato - Oh! Vê que linda rapariga ali vem!
2º Literato- Parece gente da roça. (Ficam de longe, a examinar
Quinota, que entra com a
mãe e o irmão. Vêm todos três carregados de
embrulhos.)
Fortunata - Vamo, minha fia, vamo tomá o bonde no largo de São
Francisco. As nossa
compra está feita. Amenhã de menhã vamos embora!
Quinota - E... seu Gouveia?
Fortunata - Não me fale de seu Gouveia! Há oito dia não
aparece! Fez cumo teu pai! Foi
mió assim... Havia de sê muito mau marido!
Juquinha - Eu não quero i pra fazenda!
Fortunata - Eu te amostro se tu vai ou não vai! Anda pra frente!
(Vão saindo. )
1º Literato (À Quinota.) - Adeus, tetéia!
Fortunata - Quem é que é tetéia? Arrepita a gracinha,
seu desavergonhado, e verá com le
parto este chapéu-de-sol no lombo!... (Risadas.) - Vamo! Vamo!...
Que terra!... Eu
bem não queria vi no Rio de Janeiro! (Saem entre risadas.)
- Cena II -
1º Literato, 2º Literato, Pessoas do Povo, depois Duquinha
2º Literato -
Tu ainda um dia te sais mal com esse maldito costume de bulir com as
moças!
1º Literato - Nada disse que a ofendesse. "Adeus, tetéia"
não é precisamente um insulto.
2º Literato - Pois sim, mas que farias tu se dissessem o mesmo à
tua irmã?
1º Literato - Não é a mesma coisa! Minha irmã
e....
2º Literato - Não é melhor que as irmã dos outros.
(Entra Duquinha, vem pálido e com
grandes olheiras.)
Duquinha - Ah! Meus amigos! Meus amigos! Se soubessem o que me aconteceu?
Os Dois - Fala!
Duquinha - O fazendeiro... aquele fazendeiro de quem lhes falei?...
Os Dois - Sim!
Duquinha - Apanhou-me com a boca na botija!...
1º Literato - Mas que tem isso?
Duquinha - Como que tem isso? Aquele homem é rico! Dava tudo à
Lola!
2º Literato - Tu também não lhe davas pouco!
Duquinha (Vivamente.) - Dinheiro nunca lhe dei, - nem ela o aceitaria...
1º Literato - Pois sim!
Duquinha - Jóias.... vestidos... pares de luvas... leques... chapéus...
Dinheiro nem vintém.
Quem sempre me apanhava algum era o Lourenço, o cocheiro.
2º Literato - És um pateta! Mas conta-nos isso!
Duquinha - Estávamos - ela e eu - na saleta e o bruto dormia na
sala de jantar. Eu tinha
levado à Lola umas pérolas com que ela sonhou... Vocês
não imaginam como
aquela rapariga sonha com coisas caras!
1º Literato - Imaginamos! Adiante!
Duquinha - Eu lia para ela ouvir os meus últimos versos... aqueles
que te dei ontem para a
revista....
Depois que te amo, depois que és minha,
Nado em delícia, nado em delícia...
1º Literato -
Eu sei, Verlaine puro.
Duquinha - Obrigado. - No fim de cada estrofe, eu dava-lhe um beijo...
um beijo quente e
apaixonado... um beijo de poeta... Pois bem, depois da terceira estrofe:
Oh! Se algum dia,
destino fero
Nos separasse, nos separasse...
1º Literato (Continuando.)
- O que faria contar não quero...
Duquinha
Que se o contasse, que se o contasse...
No fim dessa estrofe,
Lola, que esperava a deixa, estende-me a face, eu beijo-a e o
fazendeiro, de pé, na porta da saleta, com os olhos esbugalhados
dá este grito: Ah! Seu pelintreca!...
2º Literato - E tu?
Duquinha - Eu?... Eu... eu cá estou. Não sei o que mais
aconteceu. Quando dei por mim
estava dentro de um bonde elétrico, tocando a toda para a cidade!
1º Literato - Fizeste uma bonita figura, não há dúvida!
Podes limpar a mão à parede!
Duquinha - Por quê?
1º Literato - Essa mulher não te perdoará nunca tal
covardia!
2º Literato - Olha, o melhor que tens a fazer é não
voltares lá!
Duquinha - Ah! Meu amigo! Isso é bom de dizer, mas eu estou apaixonado...
2º Literato - Tu estás mas é fazendo asneiras! Onde
vais tu buscar dinheiro para essas
loucuras?
Duquinha - Mamãe tem me dado algum.. mas confesso que contraí
algumas dívidas, e não
pequenas. - Ora adeus! Não pensemos em coisas tristes, e vamos
tomar alguma coisa alegre!
Os Dois - Vamos lá!
(Afastam-se pela direita,
cumprimentando Mercedes, Dolores e Blanchette, que entram por
esse lado e se encontram com Lola, que entra da esquerda, muito nervosa
e agitada. Figueiredo entra da direita, observa as cocotes, pára,
e, colocado por trás, ouve tudo quanto elas dizem.)
- Cena III -
Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Figueiredo,
Pessoas do Povo, depois Duquinha
Lola - Ah! venham cá. Estou aflitíssima. Não calculam
vocês que série de desgraças!
As Outras - Que foi? Que foi?
Lola
Rondó
Com o Duquinha a pouco eu estava
Na saleta a conversar,
E o Eusébio ressonava
Lá na sala de jantar.
O Duquinha uns versos lia,
Mas não lia sem parar,
Que a leitura interrompia
Para uns beijos me furtar;
Mas ao quarto ou quinto beijo,
Sem se fazer anunciar,
Entra o Eusébio, e o poeta vejo
Dar um grito e pôr-se a andar!
Pretendi novos inganos,
Novas tricas inventar,
Mas o Eusébio pôs-se a panos:
Não me quis acreditar!
Vendo a sorte assim fugir-me,
Vendo o Eusébio se escapar,
Fui ao quarto pra vestir-me
E sair para o apanhar.
Mas no quarto vi, de chofre,
- 'Stive quase a desmaiar! -
Vi as portas do meu cofre
Abertas de par em par!
O ladrão foi o cocheiro!
Nada ali me quis deixar!
Levou jóias e dinheiro!
Que nem posso avaliar!
Blanchette - O cofre
aberto!
Dolores - Jóias e dinheiro!
Mercedes - O cocheiro!
Lola - Sim, o cocheiro, o Lourenço, que desapareceu!
Blanchette - Mas como soubeste que foi ele.
Lola - Por esta carta, a única coisa que encontrei no cofre! Ainda
por cima escarneceu de mim! (Tem tirado a carta da algibeira.)
Mercedes - Deixa ver.
Lola - Depois! Agora vamos à polícia.Não! À
polícia não!
As Três - Por quê?
Lola - Não convém. Logo saberão por quê. Vamos
a um advogado! (Julga guardar a
carta, mas está tão nervosa que deixa-a cair.) Vamos!
As Três - Vamos! ( Vão saindo e encontram com Duquinha.)
Duquinha - Lola!
Lola (Dando-lhe um empurrão.) - Vá para o diabo!
As Três - Vá para o diabo! (Saem as cocotes. Figueiredo disfarça
e apanha a carta que
Lola deixou cair.)
Duquinha (Consigo.) - Estou desmoralizado! Ela não me perdoa o
ter saído, deixando-a
entregue à fúria do fazendeiro! Sou um desgraçado!
Que hei de fazer?... Vou desabafar em verso... Não! Vou tomar uma
bebedeira!...(Sai.)
- Cena IV -
Figueiredo, Pessoas do Povo
Figueiredo - Ora aqui está como uma pessoa, sem querer, vem ao
conhecimento de tanta
coisa! Vejamos o que o cocheiro lhe deixou escrito. (Põe a luneta
e lê.)- "Lola. - Eu sou um pouco mais artista que tu. Saio
da tua casa sem me despedir de ti, mas levo, como recordação
da tua pessoa, as jóias e o dinheiro que pude apanhar no teu cofre.
Cala-te; se fazes escândalo, ficas de mal partido, porque eu te
digo: 1º, que de combinação, representamos uma comédia
pra extorquir dinheiro ao Eusébio; 2º, que induziste um filho-família
a contrair dívidas para presentear-te com jóias; 3º,
que nunca foste espanhola, e sim ilhoa; 4º, que foste a amante do
teu ex-cocheiro - Lourenço." Sim, senhor, é de muita
força a tal senhora Dona Lola!... Não há, juro que
não há mulata capaz de tanta pouca vergonha! (Sai.)
- Cena V -
Gouveia, Pessoas do Povo, depois Pinheiro
(Gouveia traz as botas
rotas, a barba por fazer, um aspecto geral de miséria e desânimo.)
Gouveia - Ninguém,
que me visse ainda há tão pouco tempo tão cheio de
jóias, não
acreditará que não tenho dinheiro nem crédito para
comprar um par de sapatos! Há oito dias não vou à
casa de minha noiva, porque tenho vergonha de lhe aparecer neste estado!
Pinheiro (Aparecendo.) - Oh! Gouveia! Como vai isso?
Gouveia - Mal, meu amigo, muito mal...
Pinheiro - Mas que quer isto dizer? Não me pareces o mesmo! Tens
a barba crescida, a
roupa no fio... Desapareceu do teu dedo aquele esplêndido e escandaloso
farol, e tens uma botas que riem da tua esbodegação!
Gouveia - Fala à vontade. Eu mereço os teus remoques.
Pinheiro - E dizer que já me quiseste pagar, com juros de cento
por cento, dez mil-réis que
eu te havia emprestado!
Gouveia - Por sinal, que disseste, creio, que esses dez mil-réis
ficavam ao meu dispor.
Pinheiro - E ficaram. (Tirando dinheiro do bolso.) Cá estão
eles. Mas, como um par de
botinas não se compra com dez mil-réis, aqui tens vinte...
sem juros. Pagarás quando quiseres.
Gouveia - Obrigado, Pinheiro; bem se vê que tens uma alma grande
e nunca jogaste a
roleta.
Pinheiro - Nada! - Sempre achei que o jogo, seja ele qual for, não
leva ninguém para
diante. - Adeus, Gouveia... aparece! Agora, que estás pobre,
isso não te será difícil!... (Sai.)
- Cena VI -
Gouveia, depois Eusébio
Gouveia - Como este tipo faz pagar caro os seus vinte mil-réis!
Ah! Ele apanhou-me
descalço! Enfim vamos comprar os sapatos! (Vai saindo e encontra-se
com Eusébio, que entra cabisbaixo.) Oh! O Sr. Eusébio!...
Eusébio - Ora! Inda bem que le encontro!...
Gouveia ( À parte.) - Naturalmente já voltou à casa...
Como está sentido! ... Vai falar-me
de Quinota!...
Eusébio - Hoje de menhã encontrei ela beijando um mocinho!
Gouveia - Hein?
Eusébio - É levada do diabo! Não sei como o sinhô
pôde gosta dela!
Gouveia - Ora essa! A ponto de querer casar-me!
Eusébio - Era uma burrice!
Gouveia - Custa-me crer que ela...
Eusébio - Pois creia! Beijando um mocinho, um pelintreca, seu Gouveia!...
Veja o sinhô
de que serviu gasta tanto dinheiro com ela!...
Gouveia - Sim, o senhor educou-a bem... ensinou-lhe muita coisa...
Eusébio (Vivamente.) - Não, sinhô! Não ensinei
nada!... Ela já sabia tudo! O sinhô, sim! Se
arrugam ensinou foi o sinhô e não eu! Beijando um pelintreca,
seu Gouveia!...
Gouveia - Dona Fortunata não viu nada?
Eusébio - Dona Fortunata?... Uê!... Como é que havera
de vê?... Olhe, eu lá não vorto!
Gouveia - Não volta! Ora esta!
Eusébio - Não quero mais sabê dela.
Gouveia - Deve lembrar-se que é pai!
Eusébio - Por isso mesmo! Ah! Seu Gouveia, se arrependimento sarasse...
Bem; o sinhô
vai me apadrinha, como noutro tempo se fazia cm preto fugido... Não
me atrevo a entrá In casa sozinho depois de tantos dias de ofensa!
Gouveia - Em casa? Pois o senhor não me acaba de dizer que lá
não volta porque Dona
Quinota...
Eusébio - Quem le falou de Quinota?
Gouveia - Quem foi então que o senhor encontrou aos beijos com
o pelintreca? - Ah,
agora percebo! A Lola!...
Eusébio - Pois quem havera de sê?
Gouveia - E eu supus... Onde tinha a cabeça? ... Perdoa, Quinota,
perdoa! Vamos, Senhor
Eusébio... Eu apadrinharei, mas com uma condição:
o senhor por sua vez me há de apadrinhar a mim, porque eu também
não apareço à minha noiva há muitos dias!
Eusébio - Por quê?
Gouveia - Em caminho tudo lhe direi. (À parte.) - Aceito o conselho
de Quinota: vou
abrir-me. (Alto.) Tenho ainda que comprar um par de sapatos e fazer a
barba.
Eusébio - Vamo, seu Gouveia! (Saem. Ao mesmo tempo aparece Lourenço
perseguido por
Lola, Mercedes, Dolores e Blanchette.)
- Cena VIII -
Lourenço, Lola, Mercedes, Dolores, Blanchette, Pessoas do Povo
Lola e os Outros - Pega ladrão! (Lourenço é agarrado
por pessoas do povo e dois
soldados que aparecem. Grande vozeria e confusão. Apitos. Mutação.)
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