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A Capital Federal
Artur Azevedo

Hóspedes e criados do Grande Hotel da Capital Federal, vítimas de uma agência de alugar casas, amadores de bicicleta, convidados, pessoas do povo, soldados, etc.

Ação: no Rio de Janeiro, no fim do século passado.

Ato I

Quadro I

(Suntuoso vestíbulo do Grande Hotel da Capital Federal. Escadaria ao fundo. Ao levantar o pano, a cena está cheia de hóspedes de ambos os sexos, com malas nas mãos, e criados e criadas que vão e vêm. O gerente do hotel anda daqui para ali na sua faina.)

- Cena I -
Um Gerente, um Inglês, uma Senhora, um Fazendeiro e um Hóspede

Coro e Coplas
Os Hóspedes
De esperar estamos fartos
Nós queremos descansar!
Sem demora aos nossos quartos
Faz favor de nos mandar!

Os Criados
De esperar estamos fartos!
Precisamos descansar!
Um hotel com tantos quartos
O topete faz suar!

Um Hóspede - Um banho quero!
Um Inglês - Aoh! Mim quer come!
Uma Senhora - Um quarto espero!
Um Fazendeiro - Eu estou com fome!

O Gerente
Um poucochinho de paciência!
Servidos todos vão ser, enfim!
Eu quando falo, fala a gerência!
Fiem-se em mim!

Coro
Pois paciência,
Uma vez que assim quer a gerência!

Coplas
- I -

O Gerente
Este hotel está na berra!
Coisa é muito natural!
Jamais houve nesta terra
Um hotel assim mais tal!
Toda a gente, meus senhores,
Toda a gente, ao vê-lo, diz:
Que os não há superiores
Na cidade de Paris!
Que belo hotel excepcional
O Grande Hotel da Capital
Federal!

Coro
Que belo hotel excepcional, etc...

- II -
O Gerente
Nesta casa não é raro
Protestar algum freguês:
Acha bom, mas acha caro
Quando chega o fim do mês.
Por ser bom precisamente,
Se o freguês é do bom-tom
Vai dizendo a toda a gente
Que isto é caro mas é bom.
Que belo hotel excepcional!
O grande Hotel da Capital
Federal!

Coro
Que belo hotel excepcional, etc...

O Gerente (Aos criados.) - Vamos!Vamos! Aviem-se! Tomem as malas e encaminhem estes senhores! Mexam-se! Mexam-se!... ( Vozeria. Os hóspedes pedem quarto, banhos, etc... Os criados respondem. Tomam as malas, saem todos, uns pela escadaria, outros pela direita.)


- Cena II -
O Gerente, depois, Figueiredo
O Gerente (Só) - Não há mãos a medir! Pudera! Se nunca houve no Rio de Janeiro um Hotel assim! Serviço elétrico de primeira ordem! Cozinha esplêndida, música de câmara durante as refeições da mesa-redonda! Um relógio pneumático em cada aposento! Banhos frios e quentes, duchas, sala de natação, ginástica e massagem! Grande salão com um plafond pintado pelos nossomeiros artistas! Enfim, uma verdadeira novidade! - Antes de nos estabelecermos aqui, era uma vergonha! Havia hotéis em S. Paulo superiores aos melhores do Rio de Janeiro! Mas em boa hora foi organizada a Companhia do Grande Hotel da Capital Federal, que dotou essa cidade com um melhoramento tão reclamado! E o caso é que a empresa está dando ótimos dividendos e as ações andam por empenhos! (Figueiredo aparece no topo da escada e começa a descer.) Ali vem o Figueiredo. Aquele é o verdadeiro tipo do carioca: nunca está satisfeito. Aposto que vem fazer alguma reclamação.

- Cena III -
O Gerente, Figueiredo

Figueiredo - Ó seu Lopes, olhe que, se isto continuar assim, eu mudo-me!
O Gerente (À parte) - Que dizia eu?
Figueiredo - Esta vida de hotel é intolerável! Eu tinha recomendado ao criado que me
levasse o café ao quarto às sete horas, e hoje...
O Gerente - O meliante lhe apareceu um pouco mais tarde.
Figueiredo - Pelo contrário. Faltavam dez minutos para as sete... Você compreende que
isso não tem lugar.
O Gerente - Pois sim, mas...
Figueiredo - Perdão ;eu pedi o café para as sete e não para as seis e cinqüenta!
O gerente - Hei de providenciar.
Figueiredo - E que idéia foi aquela ontem de darem lagostas ao almoço?
O Gerente - Homem, creio que lagosta...
Figueiredo - É um bom petisco, não há dúvida, mas faz-me mal!
O Gerente - Pois não coma!
Figueiredo - Mas eu não posso ver lagostas sem comer!
O Gerente - Não é justo por sua causa privar os demais hóspedes.
Figueiredo - Felizmente até agora não sinto nada no estômago... É um milagre! E Sexta-
feira passada? Apresentaram-me ao jantar maionese. - Maionese! Quase
atiro com o prato à cara do criado!
O Gerente - Mas comeu!
Figueiredo - Comi, que remédio! Eu posso lá ver maionese sem comer? Mas foi uma coisa
extraordinária não ter tido uma indigestão!...

- Cena IV -
Os mesmos, Lola

Lola( Entrando arrebatadamente da esquerda.) - Bom dia! (Ao gerente.) Sabe me dizer se
o Gouveia está?
O Gerente - O Gouveia?
Lola - Sim, o Gouveia - um cavalheiro que está aqui morando desde a semana passada.
O Gerente ( Indiscretamente) - Ah! O jogador... (Tapando a boca) Oh!... Desculpe!...
Lola - O jogador, sim, pode dizer! Por ventura o jogo é hoje um vício inconfessável?
O Gerente - Creio que esse cavalheiro está no seu quarto; pelo menos ainda o não vi
descer.
Lola - Sim, o Gouveia é jogador, e essa é a única razão que me faz gostar dele.
O Gerente - Ah! A senhora gosta dele?
Lola - Se gosto dele? Gosto, sim, senhor! Gosto, e hei de gostar, pelo menos enquanto der
a primeira dúzia!
O gerente (Sem entender) - Enquanto der...
Lola - Ele só aponta nas dúzias - ora na primeira, ora na segunda, ora na terceira,
conforme o palpite. Há perto de um mês que está apontando na primeira.
Figueiredo (À parte.) - É um jogador das dúzias!
Lola - Enquanto der a primeira, amá-lo-ei até o delírio!
Figueiredo - A senhora é franca!
Lola - Fin de siècle, meu caro senhor, fin de siècle.

Valsa
Eu tenho uma grande virtude:
Sou franca, não posso mentir!
Comigo somente se ilude
Quem mesmo se queira iludir!
Porque quando apanho um sujeito
Ingênuo, simplório, babão,
Necessariamente aproveito,
Fingindo por ele paixão!

Engolindo a pílula,
Logo esse imbecil!
Põe-se a fazer dívidas
E loucuras mil!
Quando enfim, o mísero
Já nada mais é,
Eu sem dó aplico-lhe
Rijo pontapé!

Eu tenho uma linha traçada,
E juro que não me dou mal...
Desfruto uma vida folgada
E evito morrer no hospital.

Descuidosa,
Venturosa,
Com folias
Sem amar,
Passo os dias
A folgar!

Só conheço as alegrias,
Sem tristezas procurar!
Eu tenho uma grande virtude, etc...

Mas vamos, faça o favor de indicar-me o quarto do Gouveia.

O Gerente - Perdão, mas a senhora não pode lá ir.
Lola - Por quê?
O Gerente - Aqui não há disso...
Figueiredo - (À parte) - Toma!
O Gerente - Os nossos hóspedes solteiros não podem receber nos quartos senhoras que
não estejam acompanhadas.
Lola - Caracoles! Sou capaz de chamar o Lourenço para acompanhar-me.
O Gerente - Quem é o Lourenço?
Lola - O meu cocheiro. Ah! Mas que lembrança a minha! Ele não pode abandonar a
caleça!
O Gerente - O que a senhora deve fazer é esperar no salão. Um belo salão, vai ver, com
um plafond pintado pelos nossos primeiros artistas!
Lola - Onde é?
O Gerente (Apontando para a direita.) - Ali.
Lola - Pois esperá-lo-ei. Oh! Estes prejuízos! Isto só se vê no Rio de Janeiro!... (Vai a sair
e lança um olhar brejeiro a Figueiredo.)
Figueiredo - Deixe-se disso, menina! Eu não jogo na primeira dúzia! (Lola sai pela
direita.)


- Cena V -
O Gerente, depois o Chasseur

O Gerente - Oh! Sr. Figueiredo! Não se trata assim uma mulher bonita!...
Figueiredo - Não ligo importância a esse povo.
O Gerente - Sim, eu sei... é como a lagosta... Faz-lhe mal, talvez, mas atira-se-lhe que...
Figueiredo - Está engasgado. Essas estrangeiras não têm o menor encanto para mim.
O Gerente - Não conheço ninguém mais pessimista que o senhor.
Figueiredo - Fale-me de uma trigueira... bem trigueira, bem carregada...
O Gerente - Uma mulata?
Figueiredo - Uma mulata, sim! Eu digo trigueira por ser menos rebarbativo. Isso é que é
nosso, é o que vai com o nosso temperamento e o nosso sangue! E quanto
mais dengosa for a mulata, melhor! Ioiô, eu posso? Entrar de caixeiro, sair
como sócio?... Você já esteve na Bahia, seu Lopes?
O Gerente - Ainda não. Mas com licença: vou mandar chamar o tal Gouveia. (Chamando.)
Chasseur. (Entra da direita um menino fardado.) Vá ao quarto nº 135 e diga
ao hóspede que está uma senhora no salão à sua espera. ( O menino sai a
correr pela escada.)
Figueiredo - Chasseur! Pois não havia uma palavra em português para...
O Gerente - Não havia, não senhor. Chasseur não tem tradução.
Figueiredo - Ora essa! Chasseur é...
O Gerente - É caçador, mas chasseur de hotel não tem equivalente. O Grande Hotel da
Capital Federal é o primeiro no Brasil que se dá ao luxo de ter um chasseur! -
Mas como ia dizendo... a Bahia?...
Figueiredo - Foi lá eu tomei predileção pelo gênero. Ah, meu amigo! É preciso conhecê-
las! Aquilo é que são mulatas! No Rio de Janeiro não as há!
O Gerente - Perdão, mas eu tenho visto algumas que...
Figueiredo - Qual! Não me conte histórias. - Nós não temos nada! Mulatas na Bahia!...

Coplas
- I -

As mulatas da Bahia
Têm de certo a primazia
No capítulo mulher;
O sultão lá na Turquia
Se as apanha um belo dia,
De outro gênero não quer!
Ai gentes! Que bela,
A fada amarela
De trunfa enroscada,
De manta traçada,
Mimosa chinela
Levando calçada
Na ponta do pé!...

- II -
As formosas georgianas,
As gentis circassianas
São as flores dos haréns;
Mas, seu Lopes, tais sultanas,
Comparadas às baianas,
Não merecem dois vinténs!
Ai! Gentes! Que bela, etc...

Seu Lopes, você já viu a Mimi Bilontra?

O Gerente - Isso vi, mas a Mimi Bilontra não é mulata.
Figueiredo - Não, não é isso. Na Mimi Bilontra há um tipo que gosta de lançar mulheres.
Você sabe o que é lançar mulheres?
Lopes - Sei, sei.
Figueiredo - Pois eu também gosto de lançá-las. Mas só mulatas! Tenho lançado umas
poucas!
Lopes - Deveras?
Figueiredo - Todas as mulatas bonitas que têm aparecido por aí arrastando as sedas foram
lançadas por mim. É a minha especialidade.
O Gerente - Dou-lhe os meus parabéns.
Figueiredo - Que quer? Sou solteiro, aposentado, independente: não tenho que dar
satisfações a ninguém. (Outro tom.) Bom: vou dar uma volta antes do jantar. Não
se esqueça de providenciar para que o criado não continue a levar-me o café às
seis e cinqüenta!
O Gerente - Vá descansado. A reclamação é muito justa.
Figueiredo - Até logo! (Sai.)
O Gerente (Só.) - Gabo-lhe o gosto de lançar mulatas! Imaginem se um tipo assim tem
capacidade para apreciar o Grande Hotel da Capital Federal!


- Cena VI -
O Gerente, Lola, depois Gouveia, depois O Gerente

Lola (Entrando.) - Então? Estou esperando há uma hora!...
O Gerente - Admirou o nosso plafond?
Lola - Não admirei nada! O que eu quero é falar ao Gouveia!
O Gerente - Já o mandei chamar. (Vendo o Gouveia que desce a escada.) E ele aí vem
descendo a escada. (À parte.) Pois a esta não se me dava de lançá-la. (Sai.)
Gouveia (Que tem descido.) - Que vieste fazer? Não te disse que não me procurasses aqui?
Este hotel...
Lola - Bem sei: não admite senhoras que não estejam acompanhadas; mas tu não me
apareceste ontem nem anteontem, e quando tu não me apareces, dir-se-ia que eu
enlouqueço! Como te amo, Gouveia! (Abraça-o.)
Gouveia - Pois sim, Mas não dês escândalo! Olha o chasseur. ( O chasseur tem
efetivamente descido a escada, desaparecendo por qualquer um dos lados.)
Lola - Então? A primeira dúzia?
Gouveia - Tem continuado a dar que faz gosto! 5...11...9...5... Ontem saiu o 5 três vezes
seguidas!
Lola - Continuas então em maré de felicidade?
Gouveia - Uma felicidade brutal!... Tanto assim, que tinha já preparado este envelope para
ti...
Lola - Oh! dá cá! dá cá!...
Gouveia - Pois sim, mas com uma condição: vai para casa, não estejas aqui.
Lola (Tomando o envelope.) - Oh! Gouveia, como eu te amo! Vais hoje jantar comigo,
sim?
Gouveia - Vou, contanto que saia cedo. É preciso aproveitar a sorte! Tenho certeza de que
a primeira dúzia continuará hoje a dar!
Lola (Com entusiasmo.) - Oh! Meu amor!... (Quer abraçá-lo.)
Gouveia - Não! Não!... Olha o gerente!...
Lola - Adeus! (Sai muito satisfeita.)
O Gerente (Que tem entrado, à parte.) - Vai contente! Aquilo é que deu a tal primeira
dúzia! (Inclinando-se diante de Gouveia.) Doutor...
Gouveia - Quando aqui vier esta senhora, o melhor é dizer-lhe que não estou. É uma boa
rapariga, mas muito inconveniente.
O Gerente - Vou transmitir essa ordem ao porteiro, porque eu posso não estar na ocasião.
(Sai.)


- Cena VII -

Gouveia (Só) - É adorável esta espanhola, isso é... não choro uma boa dúzia de contos de réis gastos com ela, e que, aliás, não me custaram a ganhar... mas tem um defeito: é muito colante... Estas ligações são o diabo... Mas como acabar com isto? Ah! Se a Quinota soubesse! Pobre Quinota! Deve estar queixosa de mim... Oh! Os tempos mudaram... Quando estive em Minas era um simples caixeiro de cobranças... É verdade que hoje nada sou, porque um jogador não é coisa nenhuma... mas ganho dinheiro, sou feliz, muito feliz! A Quinota, no final das contas, é uma roceira... mas tão bonita! E daí, quem sabe? - talvez já se tivesse esquecido de mim.


- Cena VIII -
Gouveia, Pinheiro, depois o Gerente

Pinheiro ( Entrando.) - Oh! Gouveia!
Gouveia - Oh! Pinheiro! Que andas fazendo?
Pinheiro - Venho a mandado do patrão falar com um sujeito que mora neste hotel... Mas
que luxo! Como estás abrilhantado! Vejo que as coisas têm te corrido às mil
maravilhas!
Gouveia (Muito seco.) - Sim... deixei de ser caixeiro... Embirrava com isso de ir a qualquer
parte a mandado de patrão... Atirei-me a umas tantas especulações ...Tenho
arranjado para aí uns cobres...
Pinheiro - Vê-se ... Estás outro, completamente outro!
Gouveia - Devo lembrar-te que nunca me viste sujo.
Pinheiro - Sujo não digo... mas vamos lá, já te conheci pau de laranjeira! Por sinal que...
Gouveia - Por sinal que uma vez me emprestaste dez mil-réis. Fazes bem em lembrar-me
essa dívida.
Pinheiro - Eu não te lembrei coisa nenhuma!
Gouveia - Aqui tens vinte mil-réis. Dou-te dez de juros.
Pinheiro - Vejo que tens a esmola fácil, mas - que diabo! - guarda o teu dinheiro e não o
dês a quem to não pede. Fico apenas com os dez mil-réis que te emprestei com
muita vontade - e sem juros. Quando precisares deles, vem buscá-los. Cá ficam.
Gouveia - Oh! Não hei de precisar, graças a Deus!
Pinheiro - Homem, quem sabe! O mundo dá tantas voltas!
Gouveia - Adeus, Pinheiro. (Sai pela esquerda.)
Pinheiro - Adeus, Gouveia. (Só.) Umas tantas especulações... Bem sei quais são elas... Pois
olha, meu figurão, não te desejo nenhum mal, mas conto que ainda hás de vir
buscar estes dez mil-réis, que ficam de prontidão.
O Gerente (Entrando.) - Deseja alguma coisa?
Pinheiro - Sim, senhor, falar a um hóspede... Eu sei onde é, não se incomode. (Sobe a
escada e desaparece.)
O Gerente (Só.) - E lá vai sem dar mais cavaco! Esta gente há de custar-lhe habituar-se a
um hotel de primeira ordem como é o Grande Hotel da Capital Federal!


- Cena IX -
O Gerente, Eusébio, Fortunata, Quinota, Benvinda,
Juquinha, Dois Carregadores da Estrada de Ferro com malas,
depois o chasseur, Criados e Criadas.
(A família traz maletas, trouxas, embrulhos, etc.)

O Gerente - Olá! Temos hóspedes! (Chamando.) Chasseur. Vá chamar gente! ( O
chasseur aparece e desaparece, e pouco depois volta com alguns criados e
criadas.)
Eusébio (Entrando à frente da família, fechando uma enorme carteira.) - Ave Maria !
Trinta mil-réis pra nos trazê da estação da estrada de ferro até aqui. Esta gente
pensa que dinheiro se cava! (Aperta a mão ao gerente. O resto da família imita-
o, apertando também a mão ao chasseur e à criadagem.) Deus Nosso Sinhô
esteje nesta casa!... (Vai pagar aos carregadores, que saem.)
Fortunata - É um casão.
Quinota - Um palácio!
Juquinha - Eu tou com fome! Quero jantá!
Benvinda - Espera, nhô Juquinha!
Fortunata - Menino, não começa a reiná!
O Gerente - Desejam quartos?
Eusébio - Sim sinhô!... Mas antes disso deixe dizê quem sou.
O Gerente - Não é preciso. O seu nome será escrito no registro dos hóspedes.
Eusébio - Pois sim, sinhô, mas ouça...

Coplas-Lundu
Eusébio
- I -
Sinhô, eu sou fazendeiro
Em São João do Sabará,
E venho ao Rio de Janeiro
De coisas graves tratá.

Ora aqui está!

Tarvez leve um ano inteiro
Na Capitá Federá!

Coro
Ora aqui está! etc...

Eusébio
- II -
Apareceu um janota
Em São João do Sabará;
Pediu a mão de Quinota
E vei'se embora pra cá.

Ora aqui está!

Hei de achá esse janota
Na Capitá Federá!

Coro
Ora aqui está, etc...

Esta é minha muié, Dona Fortunata.

Fortunata - Uma sua serva. (Faz uma mesura.)
O Gerente - Folgo de conhecê-la, minha senhora. E esta maça? É sua filha?
Eusébio - Nossa.
Fortunata - Nome dela é Quinota... Joaquina... mas gente chama ela de Quinota.
Quinota - Cala a boca, mamãe. O senhor não perguntou nada.
Eusébio - É muito estruída. Teve três professô... Este é meu filho... (Procurando
Juquinha.) Onde está ele? Juquinha! (Vai buscar pela mão o filho, que
traquinava ao fundo.) Tá aqui ele. Tem cabeça - qué vê? Diz um verso,
Juquinha!
Juquinha - Ora, papai!
Fortunata - Diz um verso, menino! Não ouve teu pai tá mandando?
Juquinha - Ora, mamãe!
Quinota - Diz o verso, Juquinha! Você parece tolo!...
Juquinha - Não digo!
Benvinda - Nhô Juquinha, diga aquele de lá vem a lua saindo!
Juquinha - Eu não sei verso!
Fortunata - Diz o verso, diabo! (Dá-lhe um beliscão, Juquinha faz grande berreiro.)
Eusébio (Tomando o filho e acariciando-o.) - Tá bom! chora! não chora! (Ao gerente) Tá
muito cheio de vontade... Ah! Mas eu hei de endireitar ele!
O Gerente - Não será melhor subirem para os seus quartos?
Eusébio - Sim, sinhô. (Examinando em volta de si.) O hotelzinho parece bem bão.
O Gerente - O hotelzinho? Um hotel que seria de primeira ordem em qualquer parte do
mundo! O grande Hotel da Capital Federal!
Fortunata - E diz que é só de família.
O Gerente - Ah! Por esse lado podem ficar tranqüilos.

- Cena X -
Os mesmos, Figueiredo

(Figueiredo volta; examina os circunstantes e mostra-se impressionado por Benvinda, que repara nele.)

O Gerente (Aos criados.) - Acompanhem estas senhoras e estes senhores... para
escolherem os seus quartos à vontade. (Vai saindo e passa por perto de
Figueiredo.)
Figueiredo (Baixinho.) - Que boa mulata, seu Lopes! ( O gerente sai.)
Os Criados e Criadas (Tomando as malas e os embrulhos.) - Façam favor!... Venham!...
Subam!...
Eusébio (Perto da escada.) Suba, Dona Fortunata! Sobe, Quinota! Sobe, Juquinha! (Todos
sobem.) Vamo! (Sobe também.) Sobe, Benvinda! (Quando Benvinda vai subindo,
Figueiredo dá-lhe um pequeno beliscão no braço.)
Figueiredo - Adeus, gostosura!
Benvinda - Ah! Seu assanhado! (Sobe.)
O Gerente (Que entrou e viu.) - Então, que é isso, Sr. Figueiredo? Olhe que está no
Grande Hotel da Capital Federal!
Figueiredo - Ah! Seu Lopes, aquela hei de eu lançá-la! (Sobe a escada.)
O Gerente (Só.) - Queira Deus não vá arranjar uma carga de pau do fazendeiro! (Sai,
Mutação.)


Quadro I
Quadro II
Quadro III e IV

Quadro V
Quadro VI
Quadro VII


Quadro VIII
Quadro IX
Quadro X
Quadro XI e XII