O
Cabeleira
Franklin Távora
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Capítulo I
A história de Pernambuco oferece-nos exemplos de heroísmo
e grandeza moral que podem figurar nos fastos dos maiores povos
da antigüidade sem desdourá-los. Não são
estes os únicos exemplos que despertam nossa atenção
sempre que estudamos o passado desta ilustre província, berço
tradicional da liberdade brasileira. Merecem-nos particular meditação,
ao lado dos que aí se mostram dignos da gratidão da
pátria pelos nobres feitos com que a magnificaram, alguns
vultos infelizes, em quem hoje veneraríamos talvez modelos
de altas e varonis virtudes, se certas circunstâncias de tempo
e lugar, que decidem dos destinos das nações e até
da humanidade, não pudessem desnaturar os homens, tornando-os
açoites das gerações coevas e algozes de si
mesmos. Entra neste número o protagonista da presente narrativa,
o qual se celebrizou na carreira do crime, menos por maldade natural,
do que pela crassa ignorância que em seu tempo agrilhoava
os bons instintos e deixava soltas as paixões canibais. Autorizavam-nos
a formar este juízo do Cabeleira a tradição
oral, os versos dos trovadores e algumas linhas da história
que trouxeram seu nome aos nossos dias envolto em uma grande lição.
A sua audácia e atrocidades deve seu renome este herói
legendário para o qual não achamos par nas crônicas
provinciais. Durante muitos anos, ouvindo suas mães ou suas
aias cantarem as trovas comemorativas da vida e morte desse como
Cid, ou Robin Hood pernambucano, os meninos, tomados de pavor, adormeceram
mais depressa do que se lhes contassem as proezas do lobisomem ou
a história do negro do surrão muito em voga entre
o povo naqueles tempos.
Com a simplicidade irrepreensível que é o primeiro
ornamento das concepções do espírito popular,
habilitam-nos esses trovadores a ajuizarmos do famoso valentão
pela seguinte letra:
Fecha a porta, gente,
Cabeleira aí vem,
Matando mulheres,
Meninos também.
O Cabeleira chamava-se José Gomes, e era filho de um mameluco
por nome Joaquim Gomes, sujeito de más entranhas, dado à
prática dos mais hediondos crimes.
De parceria com um pardo de nome Teodósio, que primou na
astúcia e nos inventos para se apossar do que lhe não
pertencia, percorriam José e Joaquim o vasto perímetro
da província em todas as direções, deixando
a sua passagem assinalada pelo roubo, pelo incêndio, pela
carnificina.
Um dia assentaram dar um assalto à própria vila do
Recife.
As populações do interior, em sua maioria destituídas
de bens da fortuna, e então muito mais espalhadas do que
atualmente, pouco tinham já com que cevar a voracidade dos
três aventureiros a quem desde muito pagavam um triplo imposto
consistente em víveres, dinheiro e sangue. O assalto foi
resolvido em secreto conciliábulo dentro das matas de Pau
d'Alho onde mais uma vez se haviam reunido para concertos idênticos.
Na mesma hora aperceberam-se para a temerária tentativa,
e, com o arrojo que lhes era natural, puseram-se a caminho contando
de antemão com o feliz sucesso em que tinham posto a mira.
A notícia da sua aproximação a maior parte
dos moradores, deixando os povoados, então muito fracos por
não terem ainda a densidão que só um século
depois tornou alguns deles respeitáveis, emigrou para os
matos, único abrigo com que lhos era permitido contar, embora
se achassem a poucas léguas do Recife; tais houve que, não
tendo tempo ou recursos para fugir aos cruéis visitantes,
lhes deram hospedagem como meio de não incorrerem no seu
desagrado.
Ao declinar do dia seguinte eram eles na Estância. Sentaram-se
no adro da capela de taipa que fora aí levantada por Henrique
Dias, para recordar aos vindouros que nesse lugar tivera ele o seu
posto militar pelas guerras da restauração. Esse posto
era dentre todos o que ficava mais vizinho ao inimigo. Eloqüente
testemunho de bravura do troço da gente preta a quem a pátria
reservou distinta menção nas maiores páginas
da história colonial.
- É muito cedo para entrarmos na vila - disse o Cabeleira.
- E não será até melhor que o Teodósio
vá primeiro que nós para assentar ainda com dia no
meio mais certo de realizar a empresa?
- Tens razão, José Gomes, - acrescentou Joaquim; -
o Teodósio, que é macaco velho, deve ir adiante a
sondar as coisas. Para bater o pé ao inimigo e fazer frente
a qualquer dunga, vocês sabem muito bem que eu sou cabra decidido;
agora, para espertezas não contem comigo; isso é lá
com o Teodósio que é mestre em saberetes; e ninguém
lhe vai ao bojo.
Os três malfeitores traziam consigo bacamartes, parnaíbas,
facas e pistolas.
Cabeleira podia ter vinte e dois anos. A natureza o havia dotado
com vigorosas formas. Sua fronte era estreita, os olhos pretos e
lânguidos, o nariz pouco desenvolvido, os lábios delgados
como os de um menino. É de notar que a fisionomia deste mancebo,
velho na prática do crime, tinha uma expressão de
insinuante e jovial candidez.
Joaquim, que contava o duplo da idade de seu filho, era baixo, corpulento
e menos feito que o Teodósio, o qual, posto que mais entrado
em anos, sabia dar, quando queria, à cara romba e de cor
fula, uma aparência de bestial simplicidade em que só
uma vista perspicaz, e acostumada a ler no rosto as idéias
e os sentimentos íntimos, poderia descobrir a mais refinada
hipocrisia.
- Entendo que é bem lembrado o que dizes, Cabeleira - acrescentou
o cabra levantando-se; -corro sem demora armar o laço para
apanhar o passarinho; ainda que, a bem dizer, já cá
tenho o meu plano que há de cair tão certinho como
São João a vinte e quatro.
- E onde depois nos encontraremos? - perguntou Joaquim, vendo que
o Teodósio se achava já de marcha para a vila.
- Não será o mais custoso. Esperarei por vocês
debaixo da ingazeira da ponte.
Teodósio, não estando mais para conversa, conchegou
o chapéu de palha à cabeça para que o vento
não lho arrebatasse, e desapareceu em rápido marche-marche,
por detrás dos matos que naquele tempo enchiam ainda em sua
maior parte a zona onde hoje se ostenta com suas graciosas habitações
entre risonhos verdores a Passagem da Madalena.
Antes que o sol descesse ao horizonte e as trevas envolvessem de
todo a natureza, meteram-se o pai e o filho pelo caminho onde um
quarto de hora atrás havia desaparecido o outro companheiro,
alma do negócio e principal responsável pelos perigos
a que todos eles iam expor talvez a própria vida.
A solidão estava sombria e triste.
Contavam-se então as casas por aquelas paragens. Em torno
delas o deserto começava a aumentar antes de pôs-se
o sol. Uma lei cruel, a lei da necessidade, obrigava os moradores
a trancar-se cedo por bem da própria conservação.
Os roubos e assassinatos reproduziam-se com incrível freqüência
nos caminhos e até nas beiradas dos sítios.
Sólidas habitações não tinham em muitos
casos assegurado às famílias inelutável obstáculo
ao assalto dos malfeitores. Triste época em que o despotismo
tudo podia contra os cidadãos pacíficos e bons, nada
contra a parte cancerosa da sociedade!
A vila estava em festa. Foi no primeiro domingo de dezembro de 1773.
Era governador Manuel da Cunha de Meneses, depois conde de Lumiar,
jovem fidalgo a quem a igreja pernambucana deve distintos benefícios.
Com a data do 1.° daquele mês tinha ele feito publicar
um bando pelo qual ordenara aos moradores que pusessem luminárias
em demonstração da alegria que causara à nação
portuguesa a abolição dos jesuítas em todo
o orbe cristão, pelo santo padre Clemente XIV.
No lugar onde hoje existe a formosa ponte Sete de Setembro que liga
o bairro do Recife ao de Santo Antônio, via-se nessa época
uma ponte de madeira, a qual fora mandada construir em 1737 sobre
os sólidos pilares de pedra e cal da primitiva ponte, obra
de Maurício de Nassau, por Henrique Luís Vieira Freire
de Andrade, um dos governadores que mais honrada e benemérita
memória deixaram de si em Pernambuco.
Era uma rica construção, nada menos do que uma rua
suspensa sobre as águas do rio Capibaribe, que passa aí
reunido ao Beberibe, depois de um curso de oitenta léguas
por entre matas, por sobre pedras e ao pé de pitorescas vilas,
povoações e arrabaldes. De um e outro lado, exceto
na parte central, que fora guarnecida de bancos para recreio do
público, viam-se pequenos armazéns de taipa de sebe
em que se vendiam miudezas e ferragens, que logo depois de prontos
acharam alugadores, começaram a render a quantia de oitocentos
mil-réis anuais, a qual no começo do século
corrente se havia elevado à de quatro contos de réis.
Com a fundação das casinhas sobreditas teve por fim
o governador de criar uma fonte de rendas destinada à conservação
das pontes da província, quase todas nesse tempo em deplorável
ruína. Destas obras com que dotou Pernambuco o gênio
desse ilustre governador, não resta hoje o menor vestígio.
Tudo desapareceu, tudo, até as arcadas holandesas que ainda
alcancei. O monumento das idades é mais depressa destruído
pelos homens do que pelo tempo, esse consumidor que, como ser voraz,
não deixa de respeitar a obra da virtude.
A boca da noite os dois aventureiros chegaram à parte do
bairro da Boa Vista que é de nós conhecida por Ponte
Velha. Raras casas mostravam-se então aí.
A pouca distancia para o sul do lugar onde existira a antiga ponte,
nesse tempo já substituída pela da Boa Vista mandada
construir por Henrique Luís a quem já nos referimos,
levantava-se na margem uma ingazeira idosa e ramalhuda. Abrindo
sobre o rio a copa à semelhança de chapéu-de-sol,
formava esta árvore uma vasta camarinha que servia de porto
de abrigo aos canoeiros quando o vento era teso, e as marés
puxavam com velocidade. Debaixo desse teto protetor as águas
corriam sempre mansas e bonançosas, e, sem primeiro descer
ao pé do gigantesco vegetal, era difícil descobrir,
pela densidão da sua folhagem, qualquer objeto ou ente que
à sombra desta se acolhesse, ainda que estivesse o sol dardejando
os seus luminosos raios. Fora este o ponto de reunião indicado
por Teodósio aos companheiros.
Dar com as primeiras casas iluminadas foi para os dois valentões
motivo de justo espanto e receio. Não sabendo do regozijo
oficial, e tendo bem presentes na consciência os crimes que
haviam cometido, logo lhes pareceu que seriam descobertos ao clarão
das luzes, não se demorando o clamor público, se assim
acontecesse, a denunciá-los às justiças de
el-rei.
Pelo voto de Cabeleira tinha-se verificado no mesmo instante a volta
ao deserto. Mas Joaquim, cuja temeridade não conhecia limites,
desprezando os conselhos do filho sobre o qual exercitava a tirania
do déspota primeiro que a autoridade do pai, foi fazer alto
ao pé da ingazeira sobredita, tendo atravessado para chegar
a este ponto as ruas mais públicas do nascente bairro da
Boa Vista.
Profundo silencio reinava no vasto areal que guarnecia o rio por
aquele lado. As águas mal se moviam. Desceram os dois à
margem a ajuntar-se ao Teodósio conforme o convencionado,
mas a sua expectativa foi iludida; não havia aí viva
alma; unicamente se mostrou aos seus olhos um corpo negro, oscilando
debaixo da folhagem, ao brando ondear das águas: era uma
canoa que estava presa por uma corda ao tronco da ingazeira.
Depois de alguns momentos de espera não sem inquietação
para os recém-chegados, um ruído que veio interromper
o silencio reinante na margem obrigou-os a pôr-se em armas
por precaução. A corda rapidamente encurtando atraiu
sem auxílio visível a canoa à margem, e um
corpulento canoeiro, nu da cintura para cima, arrastando uma vara
pela mão, saltou à frente dos malfeitores.
- Sou eu, Cabeleira, sou eu.
- Teodósio ! Meteste-te em boas.
- Eu estava escondido dentro da canoa para fazer um susto a vocês.
- A bom diabo te encomendaste hoje que o meu bacamarte mentiu fogo
duas vezes - disse Cabeleira.
- Não falemos mais nisso - acudiu Teodósio; - celebraremos
depois o caso. Para agora vamos ao que importa.
- Que é que há ?
- Não me estão vendo em figura de canoeiro ? Vamos
a ela enquanto é tempo.
Teodósio inclinou-se para passar aos dois um segredo que
em pouco tempo foi por ambos compreendido, e que entrou no mesmo
instante a ser posto em execução pelos três.
O pai e o filho foram guardar as suas armas de fogo na canoa, e
o cabra saltou novamente dentro dela e fez-se ao largo. Quem visse
um instante depois o lenho resvalando na vasta superfície
do rio à claridade dos astros da noite, juraria que nessa
sombra fugitiva, nesse ponto que se perdeu por fim nos seios da
escuridão, não ia mais que um canoeiro, sabedor das
manhas das águas e senhor dos meios de as vencer. Ia entretanto
aí uma maldade muito mais considerável e perigosa,
porque era hipócrita e estava disfarçada, do que a
malvadez de Joaquim sempre alerta, e a impavidez de José
sempre franco até na estratégia e na emboscada.
Estes dois últimos, tanto que o cabra se afastou da margem,
atravessaram a ponte da Boa Vista e, ladeando o canal que cercava
Santo Antônio pelo lado ocidental e ia encher ao sul as valas
da fortaleza das Cinco Pontas, e ao norte as do forte Ernesto, hoje
inteiramente desaparecido, passaram em frente do palácio
do governador e por este forte, o qual ficava pouco adiante do convento
de S. Francisco, e entraram na ponte do Recife que apresentava uma
vista majestosa e deslumbrante. Colunas e arcos triunfais profusamente
iluminados tinham sido ali erguidos a iguais distâncias. Ao
som das músicas marciais, o povo percorria o aéreo
passeio entre risos e folgares.
Ainda bem não se haviam os malfeitores confundido com os
passeantes, quando se ouviu um grito arrancado pelo pânico
terror de um matuto que os conhecera.
- O Cabeleira ! O Cabeleira ! Grandes desgraças vamos ter,
minha gente ! - clamou o mal avisado roceiro.
Estas palavras caíram como raios mortíferos no meio
da multidão que se entregava, incuidosa e confiante, ao regozijo
oficial.
A confusão foi indescritível. As expansões
da pública alegria sucederam as demonstrações
do geral terror. Homens, mulheres, crianças atropelaram-se,
correndo, fugindo, gritando, caindo como impelidos por infernal
ciclone. A fama do Cabeleira tinha, não sem razão,
criado na imaginação do povo um fantasma sanguinário
que naquele momento se animou no espírito de todos e a todos
ameaçou com inevitável extermínio.
Ouvindo aquelas palavras e sendo assim surpreendidos por uma ocorrência
com que não contavam, os dois malfeitores instintivamente
bateram mãos das parnaíbas primeiro para se defenderem,
por lhes parecer que corria a sua liberdade iminente perigo, que
para investirem com massa ingente, a qual aliás fugia como
rebanho apavorado pela presença das onças. Os seus
gestos concorreram para aumentar o terror da multidão, a
qual, mal interpretando-os, imaginou que ia ter começo a
carnificina.
- Sim, é o Cabeleira, gente fraca. Ele não vem só,
vem seu pai também - gritou José Gomes, cujo rosto
começou a anuviar-se.
Joaquim; feroz por natureza, sanguinário por longo hábito,
descarregou a parnaíba sobre a cabeça do primeiro
que acertou de passar por junto dele. A cutilada foi certeira, e
o sangue da vítima, espadanando contra a face do matador,
deixou aí estampada uma máscara vermelha através
da qual só se viam brilhar os olhos felinos daquele animal
humano.
José Gomes, por irresistível força do instinto
que muitas vezes o traiu aos olhos do carniceiro pai, voltou-se
de chofre e lhe disse:
- Para que matar se eles fogem de nós
Corram, minha gente Cabeleira aí vem; Ele não vem
só, Vem seu pai também.
- Matar sempre, Zé Gomes - retorquiu o mameluco com as narinas
dilatadas pelo odor do sangue fresco e quente que do rosto lhe descia
aos lábios e destes penetrava na-boca cerval.-Não
temos aqui um só amigo. Todos nos querem mal. É preciso
fazer a obra bem feita.
Este homem era o gênio da destruição e do crime.
Por sua boca falavam as baixas paixões que à sombra
da ignorância, da impunidade e das florestas haviam crescido
sem freio e lhe tinham apagado os lampejos da consciência
racional que todo homem traz do berço, ainda aqueles que
vêm a ser depois truculentos e consumados sicários.
Seu coração estava empedernido, seu senso moral obcecado.
Nenhum sentimento brando e terno, nenhum pensamento elevado exercitava
a sua salutar influência nas ações deste ente
degenerado e infeliz.
- Estás com medo, Zé Gomes, deste poviléu ?
Parece-me ver-te fraquejar. Por minha bênção
e maldição te ordeno que me ajudes a fazer o bonito
enquanto é tempo. Não sejas mole, Zé Gomes;
sê valentão como é teu pai .
Tendo ouvido estas palavras, o Cabeleira, em cuja vontade exercitava
Joaquim irresistível poder, fez-se fúria descomunal
e, atirando-se no meio do concurso de gente, foi acutilando a quem
encontrou com diabólico desabrimento. Como dois raios exterminadores,
descreviam pai e filho no seio da massa revolta desordenadas e vertiginosas
elipses.
A geral consternação teria cessado em poucos instantes
se o povo pudesse escapar pelas duas entradas da ponte. Achavam-se
porém estas já tomadas por piquetes de infantaria
às pressas organizados para embargarem a fuga aos matadores
e reduzi-los à prisão.
A medida que estes piquetes se foram movendo das extremidades para
o centro, à população, obrigada a aproximar-se
dos assassinos, preferiu a este perigo atirar-se ao rio, e a baldeação
não se fez esperar.
Em poucos momentos os perturbadores da ordem acharam-se debaixo
das vistas da força pública. O lugar da cena estava
quase inteiramente desocupado. As colunas militares operaram um
movimento único, indescritível. Carregaram sem demora
sobre os delinqüentes que, à vista da estreiteza do
passo e do cerco, só nas águas puderam, como as suas
vítimas, achar salvação.
Um soldado, impelido talvez primeiro pelo ímpeto da paixão
que pela consciência do dever, o qual em ocasiões iguais
àquela raramente fala mais alto que os instintos animais,
atirou-se de arma em punho após os assassinos com o fim de
apreender um dos dois, ainda que custasse a própria vida.
Não logrou o seu intento este valente defensor da sociedade
e da lei. Quando sua mão tocava em um dos delinqüentes
de cima de uma canoa que nesse momento desatracara da ponte, desfecharam-lhe
com a vara tão forte golpe sobre a cabeça, que o,
infeliz, perdendo os sentidos, foi arrebatado pela corrente. Igual
cena se presenciou em 1821, figurando como vítima João
Souto Maior que procurara salvar-se no rio depois de haver ferido
com um tiro de bacamarte na ponte da Boa Vista o governador Luís
do Rego Barreto.
Assim se passou na vila do Recife a noite do primeiro domingo de
dezembro de 1773, noite memorável, que principiou pela alegria
e terminou pelo terror público.
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