O
BISPO NEGRO (1130)
Alexandre Herculano
NOTA
A lenda precedente
é tirada das crónicas de Acenheiro, rol de mentiras
e disparates publicado pela nossa Academia, que teria procedido
mais judiciosamente em deixá-las no pó das bibliotecas,
onde haviam jazido em paz por quase três séculos. A
mesma lenda tinha sido inserida pouco anteriormente na crónica
de Afonso Henriques por Duarte Galvão, formando a substância
de quatro capítulos, que foram suprimidos na edição
deste autor, e que mereceram da parte do académico D. Francisco
de S. Luís uma grave refutação. Toda a narrativa
das circunstâncias que se deram no facto, aliás verdadeiro,
da prisão de D. Teresa, das tentativas oposicionistas do
bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro, da vinda
do cardeal, e da sua fuga contrastam a história daquela época.
A tradição é falsa a todas as luzes; mas também
é certo que ela se originou de alguma acto de violência
praticado nesse reinado contra algum cardeal legado. Um historiador
coevo e, posto que estrangeiro, bem informado geralmente acerca
dos sucessos do nosso país, o inglês Rogério
de Hoveden, narra um facto, acontecido em Portugal, que, pela analogia
que tem com o conto do bispo negro, mostra a origem da fábula.
A narrativa do cronista está indicando que o acontecimento
fizera certo ruído na Europa, e a própria confusão
de datas e de indivíduos que aparece no texto de Hoveden
mostra que o sucesso era anterior e andava já alterado na
tradição. O que é certo é que o achar-se
esta conservada fora de Portugal desde o século duodécimo
por um escritor que Ruy de Pina e Acenheiro não leram (porque
foi publicado no século décimo sétimo) prova
que ela remonta entre nós, por maioria de razão, também
ao século duodécimo, embora alterada, como já
a vemos no cronista inglês. Eis a notável passagem
a que aludimos, e que se lê a página 640 da edição
de Hoveden, por Savile:
"No mesmo ano (1187) o cardeal Jacinto, então legado
em toda a Espanha, depôs muitos prelados (abbates), ou por
culpas deles ou por ímpeto próprio, e como quisesse
depor o bispo de Coimbra, o rei Afonso (Henrique) não consentiu
que ele fosse deposto e mandou ao dito cardeal que saísse
da sua terra, quando não cortar-lhe-ia um pé.
O Bispo Negro,
de Alexandre Herculano
Fonte:
HERCULANO, Alexandre. O Bispo Negro e Arras por Foro de Espanha.
Lisboa : Livraria Bertrand e editorial Verbo, 1971. (Biblioteca
Básica Verbo)
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