O
ATENEU
Raul Pompéia
CAPÍTULO VI
O futuro tinha reservado para Nearco um feixe de melhores palmas, uma
galhada de louros mais legítimos como tempero de vitória.
O Grêmio Literário Amor ao Saber, instituição
recente, seria o verdadeiro teatro dos seus soberbos alcances.
Duas vezes ao mês congregavam-se os amigos das letras, numa das
salas de cima; a mesma das lições astronômicas de
Aristarco. Havia ainda para iluminar as sessões pedaços
de matéria cósmica pelos cantos, esfrangalhada pela análise
do mestre. Não quer dizer que merecesse as eternas luminárias
da ironia a benemérita associação.
Às suas reuniões comparecia eu timidamente, para nada mais
que simplesmente abusar, por excessivo consumo, de um direito dos estatutos:
podiam os alunos, todos do Ateneu, em silêncio humilde, mariscar
o que fossem deixando os segadores do trigal das literaturas.
Assistente infalível, saía cheio com a retórica espigada,
que ia espalmar, prensando no dicionário conservas de espírito,
relíquia inapreciável do Belo.
A dificuldade que encontrava um estudante para forrar-se ao privilégio
de gremista, fazia-me mais a fundo venerá-lo.
Nearco não teve o menor embaraço. Entrara para o estabelecimento
muito adiantado. Foi imediatamente proposto, aceito e empossado. À
primeira sessão, depois do triunfo ao trapézio, tive ocasião
de apreciá-lo à ginástica do verbo.
Debatia-se este problema, dos inesgotáveis das agremiações
congêneres. Quem foi maior, Alexandre ou César? indagação
histórica difícil evidentemente de levar a cabo sem o auxílio
da trena.
Nearco arranjou a coisa a olho e distinguiu-se com a esperada galhardia.
Falou durante hora e meia com uma fluência que lhe angariava para
sempre o epíteto de facundo. Justapôs com o primor de um
varejista de fazendas - César sobre Alexandre. César protestou
contra a maneira, de barriga para o ar, que nada tinha de artística;
além disso espetava-o a armadura de Alexandre. Aquilo faria rir
a Pompeu no armário das legendas e a maledicência do senado,
comprometendo-se a seriedade secular do homem que foi, viu e venceu...
Nearco manteve-o inexoravelmente durante o percurso do paralelo crítico.
César não podia contar com os legionários do bom
tempo; ali esteve a fazer caretas na sujeição inerme, anima
vilis dos documentos. Alexandre, que afora o capacete, via-se ainda maiorzinho
que o outro, teve mais paciência, deixando-se medir até à
peroração, com a boa vontade de um defunto. Venceu com efeito.
Nearco proclamou-o magno dos magnos, diversas polegadas maior que o temerário
do Rubicon.
O Grêmio esclarecido rejubilou. A discussão encerrou-se,
não havendo mais quem falasse. Também havia cinco sessões
que eram os pobres guerreiros tratados a metro.
Por este memorável dia arvorou-se Nearco em notabilidade firmada.
Esqueceram todos que ele fora matriculado sob o quase compromisso de não
dar um passo que não fosse um salto-mortal, não descansar
senão de pernas para cima em cadeiras equilibradas sobre garrafas,
não ter outro recreio que não fosse a corda bamba, por não
destoar da percorrida fama. Ficou em olvido a estréia acrobática.
O Grêmio Amor ao Saber tomou-o a si, em posse exclusiva, como um
orgulho.
Não faltavam, entretanto, poetas, jornalistas, polemistas, romancistas,
críticos, folhetinistas. A sociedade tinha o seu órgão,
O Grêmio, impresso no Lombaerts, de que podiam ser canudos à
vontade os sócios quites e ainda, por maior riqueza de harmonias,
os honorários.
Entre os honorários figurava Aristarco, presidente, colaborando
sempre no periódico com a transcrição em avulso das
máximas de parede, e mandando sempre para a quarta página
um anúncio garrafal do Ateneu, que pagava para auxiliar à
empresa. Na interessante publicação apareciam quadrinhas
místicas do Ribas e sonetos lúbricos do Sanches. Barreto
publicava meditações, espécie de harpa do crente
em prosa arrebentada.
O rodapé-romance era uma imitação d'O Guarani, emplumada
de vocábulos indígenas e assinada - Aimbiré.
Nearco atirou-se à especialidade dos paralelos. Começou
logo por dois de pancada: Cila e Mário, Tito e Nero. No expediente
prometia-se um terceiro curiosíssimo: Plutarco e os beócios.
Esta queda para as linhas eqüidistantes, talento aliás de
carril urbano e anexos muares, foi mais uma razão de prestígio
para o extraordinário rapaz.
A eloqüência representava-se no Grêmio por uma porção
de categorias. Cícero tragédia - voz cavernosa, gestos de
punhal, que parece clamar de dentro do túmulo, que arrepia os cabelos
ao auditório, franzindo com fereza o sobrolho, que, se a retórica
fosse suscetível de assinatura, acrescentaria ao fim de cada discurso
pesadamente: a mão do finado; Cícero modéstia - formulando
excelentes coisas, atrapalhadamente, no embaraço de um perpétuo
début, desculpando-se muito em todos os exórdios e ainda
mais em todas as confirmações, lágrimas na voz, dificuldade
no modo, seleto e engasgado; Cícero circunspecção
- enunciando-se por frases cortadas como quem encarreira tijolos, homem
da regra e da legalidade, calcando os que e os cujo, longo, demorado,
caprichoso em mostrar-se mais raso do que o muito que realmente é,
amigo dos períodos quadrados e vazios como caixões, atenuando
mais em cada conceito a atenuante do conceito anterior, conservador e
ultramontano, porque as coisas estabelecidas dispensam de pensar, apologista
ferrenho de Quintiliano, retardando com intervalos o discurso impossível
para provar que divide bem a sua elocução, com todos os
requisitos da oratória, pureza, clareza, correção,
precisão, menos uma coisa - a idéia; Cícero tempestade
- verborrágico, por paus e por pedras, precipitando-se pela fluência
como escadas abaixo, acumulando avalanches como uma liquidação
boreal do inverno, anulando o efeito de assombroso destampatório
pelo assombro do destampatório seguinte, eloqüência
suada, ofegante, desgrenhada, ensurdecedora, pontuada a murros como uma
cena de pugilato; Cícero franqueza - positivo, indispensável
para o encerramento das discussões, dizendo a coisa em duas palavras,
em geral grosseiro e malfalante, pronto para oferecer ao adversário
o encontro em qualquer terreno, espécie perigosa nas assembléias;
Cícero sacerdócio - sacerdotal, solene, orando em trêmulo,
alçando a testa como uma mitra, pedindo uma catedral para cada
proposição, calçando aos pés dois púlpitos
em vez de sapatos, espécie venerada e acatada.
Nearco introduziu o tipo ausente do Cícero penetração
- incisivo, fanhoso e implicante, gesticulando com a mãozinha à
altura da cara e o indicador em croque, marcando precisamente no ar, no
soalho, na palma da outra mão o lugar de cada coisa que diz, mesmo
que se não perceba, pasmando de não ser entendido, impacientando-se
até ao desejo de vazar os olhos ao público com as pontas
da sua clareza, ou derreando-se em frouxos de compaixão pela desgraça
de nos não compreendermos, porcos e pérolas.
O gesto incisivo, mais a facúndia desimpedida, mais o talento histórico
dos paralelos, consagrou a primazia do gremista.
O presidente efetivo da sociedade era o Dr. Cláudio, professor
da casa, homem de capacidade, benévolo para os desgarros de tolice
da juventude, que teria desgosto para uma semana, se imaginassem que faltara
a uma sessão por menosprezo. Esta constância do chefe era
o grande elemento de prosperidade do Amor ao Saber. O Dr. Cláudio
conduzia os trabalhos com verdadeira perícia de automedonte, esclarecia
os imbróglios, forjava adjetivos de encômios que ia dando
a cada um por sua vez e a todos os estimáveis consócios,
propunha algumas teses e achava graça em outras. Nas sessões
solenes pronunciava o discurso oficial.
A maior utilidade do Grêmio para mim era a biblioteca. Uma coleção
de quinhentos a seiscentos volumes de variado texto, zelados pela vigilância
cerberesca do Bento Alves, bibliotecário, eleito de voto unânime.
Alves era da associação, como quase todos os alunos do curso
superior. Filiava-se ao grupo simpático dos silenciosos, usufruindo
os lucros da circunstância de não ser do regimento a taramela
obrigatória. Fora da biblioteca, os seus serviços aos intuitos
do Grêmio resumiam-se no apoiado! consciencioso e firme, à
disposição sempre da melhor idéia em questões
elevadas, e do mais sábio alvitre em questões de ordem.
Alguns rapazes, não do Grêmio e que não houvessem,
nas letras, manifestado gramaticalmente notável jeito para a conjugação
sub-reptícia do verbo adquirir, podiam obter do presidente o direito
de ingresso na sala dos livros. Eu, como amigo que era das bonitas páginas
impressas, apresentei candidatura. E como não divertia bastante
o jogo da barra ao sol, nem o rapa-tira-deixa-põe das penas de
aço e das carrapetas, nem o correr à panelinha das bolas
de vidro espiraladas de cores, fez-se-me a biblioteca a recreação
habitual.
Esta freqüência angariou-me dois amigos, dois saudosos amigos
- Bento Alves e Júlio Verne.
Ao famoso contador do Tour du Monde devo uma multidão numerosa
dos amáveis fantasmas da primeira imaginação, excêntricos
como Fogg, Paganel, Thomas Black, alegres como Joe, Passepartout, o negro
Nab, nobres como Glenarvan, Letourneur, Paulina, Barnett, atraentes como
Aouda, Mary Grant. Sobre todos, grande como um semideus, barba nitente,
luminosa como a neblina dos sonhos, o lendário Nemo da Ilha Misteriosa,
taciturno da lembrança das justiças de vingador, esperando
que um cataclismo lhe cavasse um jazigo no seio do Oceano, seu vassalo,
seu cúmplice, seu domínio, pátria sombria do expatriado.
Possuía minha literatura completa de tesouros de meninos, contos
de Schmidt; visitara uma por uma no meu burrinho as feiras da sabedoria
de Simão de Nântua; estudara profundamente pelas aventuras
de Gulliver as vacilações da vida, onde, mal acabamos de
zombar da pequenez extrema, vem sobre nós o ludíbrio da
extrema grandeza, espécie de Pascal de mamadeira entre Liliput
e Brobdignak; chegara à perfeição de duvidar das
empresas de Münchhausen. Isto tudo sem falar nos Lusíadas
do Sanches, no reverendo Bernardes, na refinada pilhéria do Bertoldo
e no Testamento do Galo, símbolo aliás muito filosófico
da odiosidade das sucessões, que por ventura do herdeiro autoriza
o destripamento do galináceo como a tortura skakespeariana de Lear.
Júlio Verne foi festejado como uma migração de novidade.
Onde quer que me levasse o Forward ou o Duncan, o Nautilus ou o balão
Vitória, a columbíada da Flórida ou criptograma de
Saknussen, lá ia eu, esfaimado de desenlaces, prazenteiro, ávido
como os três dias de Colombo antes da América, respirando
no cheiro das encadernações as variantes climatéri-cas
da leitura, desde as areias africanas até aos campos de cristal
do Ártico, desde os grandes frios siderais até a aventura
do Stromboli.
A amizade do Bento Alves por mim, e a que nutri por ele, me faz pensar
que, mesmo sem o caráter de abatimento que tanto indignava ao Rabelo,
certa efeminação pode existir como um período de
constituição moral. Estimei-o femininamente, porque era
grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase
tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo. Para
me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos. A primeira vez que
me deu um presente, gracioso livro de educação, retirou-se
corado, como quem foge. Aquela timidez, em vez de alertar, enternecia-me,
a mim que aliás devia estar prevenido contra escaldos de água
fria. Interessante é que vago elemento de materialidade havia nesta
afeição de criança, tal qual se nota em amor, prazer
do contato fortuito, de um aperto de mãos, da emanação
da roupa, como se absorvêssemos um pouco do objeto simpático.
Na biblioteca, Bento Alves escolhia-me as obras; imaginava as que me podiam
interessar; e propunha a compra, ou as comprava e oferecia ao Grêmio,
para dispensar-se de mas dar diretamente. No recreio não andávamos
juntos; mas eu via de longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como
um cão de guarda.
Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse
apenas em me ofender; seu irmão adotivo! confirmava.
Eu, que desde muito assumira entre os colegas um belo ar de impávida
altania, modificava-me com o amigo, e me sentia bem na submissão
voluntária, como se fosse artificial a bravura, à maneira
da conhecida petulância feminina.
A malignidade do Barbalho e seu grupo não dormia. Tremendo da represália
do Alves, faziam pelos cantos escorraçada maledicência, digna
deles.
Às vezes na biblioteca, enquanto eu lia, Alves olhava-me do outro
lado da mesa central de pano verde, com a mão à fronte e
os dedos mergulhados nos cabelos. Olhava-me e eu o sentia sem levantar
a vista, compreendendo no mais fino refolho de ninada vaidade que aquela
contemplação traduzia o horror do ridículo, proverbial
em Bento Alves, manietando-lhe rijamente uma demonstração
efusiva. Não fosse a crítica uma criatura do tempo, eu poderia
achar cômica a situação dos personagens desta cena
de platonismo. Não havendo a crítica para falsear a psicologia
por desdobramento, limitava-me a ser sincero, como o pobre amigo. Às
vezes vinha-lhe à pálpebra uma lágrima sem origem.
No movimento geral da existência do internato, desvelava-se caprichosamente;
sabia ser, de modo inexprimível, fraternal, paternal, quase digo
amante, tanta era a minudência dos seus cuidados. Não havia
regalo, dessas mesquinhas coisas de preço enorme na carestia perpétua
da prisão escolar, de que se não privasse o Alves, em meu
proveito, desesperando-se, a fazer pena, se eu tentava recusar. À
conversa, falava da família no Rio Grande do Sul; tinha duas irmãs;
falava delas; do tempo passado que não as via, muito claras, de
belos olhos, uma de quinze anos, outra de doze; ele tinha dezoito. Falava
de cuidados higiênicos meus, mudar de cama no salão azul,
que estava muito perto das janelas, e isto havia de ser nocivo... Outras
ninharias, em tom de sentida brandura, como se desejasse decrescer das
proporções sólidas de sua conformação
para reduzir-se à exigüidade balbuciante de uma carcaçazinha
de avó, minguada de velhice, animada, ainda e apenas, pela febre
do último alento, pela necessidade de carregar ainda alguns dias
um coração, um afeto.
Os estatutos do Grêmio marcavam duas ocasiões de solenidades:
as festas anuais de abertura e do encerramento dos trabalhos. Além
destas, as sessões comemorativas que a casa resolvesse.
Para as festas literárias, levava-se ao pavilhão do recreio
um grande estrado, três mesas que se alinhavam para a diretoria,
sob um rico pano cor de vinho, de ramagens negras que lembravam tinteiros
entornados de mau agouro, e uma tribuna familiarmente apelidada caranguejola.
Esta caranguejola, enorme e pesada, que parecia protestar, a cada solavanco,
contra o caráter de móvel que lhe queriam à força
impingir, fazia figura em todas as salas do Ateneu, conforme as exigências
da retórica. Localizada a conferência, a preleção,
a prática solene, abalava-se a mísera e punha-se em caminho,
aos encontrões, seguindo o fadário de mostrador ambulante
de eloqüência. Nestas circunstâncias não era uma
simples tribuna, era um verdadeiro prognóstico. Em se movendo a
caranguejola, discurseira iminente. Teve um dia de razoável orgulho;
dela serviu-se no Ateneu o Professor Hartt, para uma conferência
de Antropologia.
Quando a vimos andar um dia e soubemos que aquilo significava a instalação
do Amor ao Saber, congregou-se o Ateneu, unificado no mesmo impulso de
entusiasmo, e pela primeira vez a tribuna marchou sem o ceri-monial das
topadas. Despedimos os criados; tomamo-la nós aos ombros; levamo-la
em ovação.
A festa inaugural esteve animada. Mais do que se esperava, infelizmente.
Encheu-se de bancos e cadeiras austríacas o vastíssimo salão.
Ao centro, em frente, a mesa da diretoria; à esquerda, os convidados;
à direita, os outros alunos, o resto, como se diz das maiorias
sem voz ativa.
Sobre o pano avinhado de ramagens abria-se a pasta do secretário;
sobre a tribuna cintilava cristalino o copo das urgências instantes.
Poucos oradores. Aristarco, presidente honorário, abriu a sessão
com a chave do peregrino verbo, recomendando a nova associação
como um tentâmen honroso e de muito fruto para os moços aplicados,
que teriam ensejo de se dar ao cultivo da Oratória e das Belas-Letras.
Subiu em seguida à tribuna o presidente efetivo.
Com a facilidade da sua elocução, fez o Dr. Cláudio
a crítica geral da literatura brasileira: a galhofa de Gregório
de Matos e Antônio José, a epopéia de Durão,
o idílio da escola mineira, a unção de Sousa Caldas
e S. Carlos, a influência de Magalhães, os ensaios do romance
nacional, a glória de Gonçalves Dias e José de Alencar.
E passou a estudar a atualidade.
O auditório que escutava, interessado, mas tranqüilo, começou
a agitar-se.
O orador representava a Nação como um charco de vinte Províncias,
estagnadas na modorra paludosa da mais desgraçada indiferença.
Os germens da vida perdem-se na vasa profunda; à superfície
de coágulos de putrefação, borbulha, espaçadamente,
o hálito mefítico do miasma, fermentado ao Sol, subindo
a denegrir o céu, com a vaporização da morte. Os
pássaros calados fogem; as poucas árvores próximas
no ar pesado, debruçam-se uniformes sobre si mesmas num desânimo
vegetativo, que parece crescer, descendo, prosperidade melancólica
de salgueiros. O horizonte limpo, remoto, desfere golpes de luz oblíqua,
reptil, que resvalam, espelhando faixas paralelas, imóveis, sobre
o dormir da lama.
Por entre os raros caniços emergem olhos de sapo, meditando a vantagem
daquela paz sombria, indolência negra, em que chega a ser vigor
de vontade estrebuchar quatro arrancos através da onda grossa em
busca da fêmea. A arte significa a alegria do movimento, ou um grito
de suprema dor nas sociedades que sofrem. Entre nós, a alegria
é um cadáver. Ao menos se sofrêssemos... A condição
da alma é a prostração comatosa de uma inércia
mórbida. Quem nos dera a tonicidade letal de uma vasca. Trituramos
a vida por igual como um osso roemos o, dia, pacientes, de rojo, sobre
o ventre, como cães ao pasto. Fosse manjar o crânio de Rogério,
ao menos teríamos a tragédia... Nada! A condição
é o descanso ininterrupto do aniquilamento no plano infinito da
monotonia. E não é o teto de brasa dos estios tropicais
que nos oprime. Ah! como é profundo o céu do nosso clima
material! Que irradiação de escapadas para o pensamento
a direção dos nossos astros! O pântano das almas é
a fábrica imensa de um grande empresário, organização
de artifício, tão longamente elaborada, que dir-se-ia o
empenho madrepórico de muitos séculos, dessorando em vez
de construir. É a obra moralizadora de um reinado longo, é
o transvasamento de um caráter, alagando a perder de vista a superfície
moral de um império - o desmancho nauseabundo, esplanado, da tirania
mole de um tirano de sebo!...
Calculem agora que estava entre os convidados o Dr. Zé Lobo, pai
de um aluno, devoto jurado e confirmado das instituições,
irmão de não sei quantas ordens terceiras, primo de todos
os conventos, advogado de causas religiosas, conservador em suma, enraivado
e militante. O sebo da tirania caiu-lhe nos melindres como um pingo de
vela benta.
"Protesto!" rugiu, rubro e rouquenho, dilacerando as barbas
e erguendo o punho. Não podia admitir que viessem à sua
vista ensebar as instituições! Por maior desgraça
estava também presente o Senador Rubim, avô de outro aluno,
senador de maus bofes, um pai da pátria padrasto, sem considerações
nem papas na língua.
"Quem protesta contra o sebo da tirania é burro!" redargüiu
ao apartista com a pachorra temível dos velhos insolentes.
"- Burro, não! clamou o outro, empalidecendo sob a vergasta
da injúria, nervoso, perturbado pela atenção da sala
inteira que o encarava. Burro, não! tais expressões são
indignas de V. Ex.ª, um senador e um velho!..."
"- Burro, sim!... repetia o outro vagarosamente, com um arreganho
enfastiado de insulto. Burro, sim!..."
Aristarco conservava-se à presidência, na pasmaceira de pau
dos ídolos afrontados. O salão enorme, alunos e convidados,
tumultuava em vagalhões, fragmentado em partidos opostos, uns pelo
senador e pela anarquia, outros pelo advogado e pela ordem pública.
Muitos gesticulavam de pé; havia estudantes gritando em cima dos
bancos. Os insultos voavam como pelouros; os protestos rangiam como escudos
feridos; havia mãos pelo ar que pediam espadas.Aproveitando-se
do escarcéu, o advogado ousara arremessar uns desaforos ao senador.
O outro, sem ouvir bem, ia replicando com a impertinência do seu
estribilho: "Burro, sim", até que, impaciente, pôs
remate à polêmica com as cinco letras da energia popular
que Waterloo fez heróicas, Vítor Hugo fez épicas
e Zola fez clássicas.
Sob o peso da conclusão, Zé Lobo cedeu.
Aristarco achou que era tempo de funcionar a presidência e sacudiu
sobre o tumulto o badalo da ordem.
O orador na tribuna, ereto e calmo, promontório sobre a tormenta,
esperava que o alvoroço chegasse a termo. Apenas viu arrefecer
o furor dos impropérios: "Corramos um véu sobre o cenário
desolador, continuou; venha em socorro a esperança de um renascimento."
E por aí habilidosamente conduzindo a oração, acabou
por um quadro de futuro, armado em aurora sobre a tribuna, pórtico
de luz, jorrando um deslumbramento que extasiou os ouvintes com o encanto
dos vaticínios felizes, levando o sopro da viração
matutina as nuvens do desânimo esfumadas antes sobre o panorama.
Tiveram a palavra, ainda, dois estudantes, que moeram uma quantidade profusa
de frases comuns a propósito de letras e literatos. O filho do
diretor, o republicanozinho que conhecem, tinha no bolso dez tiras, dez
brulotes de eloqüência incendiária, que resolveu sufocar
depois do escândalo colossal do sebo.
A segunda sessão solene do Grêmio, conquanto mais pacífica,
não foi menos importante.
Realizou-se em princípios de outubro, pelas imediações
das férias. A concorrência foi maior, compareceram senhoras
em grande número, o que não sucedera na de instalação;
houve mais capricho de ornatos nas salas; forrou-se a tribuna de verde
e amarelo; inscreveram-se os mais aproveitados campeões da oratória
do Amor ao Saber. O colégio compareceu fardado; a diretoria, de
casaca.
A conferência do Dr. Cláudio foi subversiva, mas em sentido
diverso da primeira. Versou não mais sobre a literatura no Brasil,
porém sobre a Arte em geral:
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Arte, estética,
estesia é a educação do instinto sexual.
A manutenção da existência indivídua tem a
razão de ser no instinto de vitalidade da espécie. O momento
presente das gerações nada mais é que a ligação
prolífica do passado com a posteridade. E a razão de ser
das espécies? A indagação não perscruta.
Para que o indivíduo perdure, momento genésico da existência
específica no tempo, é indispensável adaptar-se às
imposições do meio universal. O rio a correr não
despreza o detalhe do mais insignificante remanso, nem pode sofismar o
obstáculo do menor rochedo no álveo. O critério inconsciente
do instinto é o guia da adaptação.
O esforço da vida humana, desde o vagido do berço até
o movimento do enfermo, no leito de agonia, buscando uma posição
mais cômoda para morrer, é a seleção do agradável.
Os sentidos são como as antenas salvadoras do inseto titubeante;
vão ao encontro das impressões, avisadores oportunos e cautelosos.
A cada mundo de sensações notáveis corresponde um
sentido. Os sentidos, teoricamente delimitados, são cinco, múltipla
transformação de processo de um único - o tato, exatamente
o sentido rudimentar das antenas.
Faz-se tateando instintivamente a procura dos agradáveis: agradável
visual, agradável auditivo, agradável olfativo, agradável
gustativo, agradável tangível, em suma. O agradável
é essencialmente vital; se é às vezes funesto, é
porque o instinto pode ser atraiçoado pelas ilusões.
A perfectibilidade evolutiva dos organismos em função, manifestando-se
prodigiosamente complexa, no tipo humano, corresponde à revelação,
na ordem animal, do misterioso fenômeno personalidade, capaz de
fazer a crítica do instinto, como o instinto faz a crítica
da sensação.
A informação de reportagem de cada sentido não desperta,
portanto, no homem a atividade cerebral dos impulsos de preferência,
de repugnância, simplesmente, como nos outros animais; mas ampliada
pela psicologia inteira dos fenômenos espirituais, a variedade infinita
das comparações, permutadas de mil modos na unidade do espírito
como as peças de um jogo maravilhoso sobre o mesmo pano.
Duas são as representações elementares do agradável
realizado: nutrição e amor.
Os animais inferiores, não favorecidos por um razoável coeficiente
de progresso, produzem secularmente a condição da inferioridade:
olham, tocam, farejam, ouvem, não provam com demasiado escrúpulo
e devoram grosseiramente para depois amar, como sempre fizeram.
O homem, por desejo de nutrição e de amor, produziu a evolução
histórica da humanidade.
A nutrição reclamou a caçada fácil - inventaram-se
as armas; o amor pediu um abrigo, - ergueram-se as cabanas. A digestão
tranqüila e a perfilhação sem sobressaltos precisaram
de proteção contra os elementos, contra os monstros, contra
os malfeitores, - os homens tacitamente se contrataram para o seguro mútuo,
pela força maior da união: nasceu a sociedade, nasceu a
linguagem, nasceu a primeira paz e a primeira contemplação.
E os pastores viram pela vez primeira que havia no céu a estrela
Vésper, expandida e pálida como o suspiro.
Mas era preciso que fossem leitos de amor as crinas de ouro e fogo dos
leões, e que houvesse marfim, metais luzentes, pedraria, sobre
a alvura láctea da carne amada, que não bastavam beijos
para vestir; era preciso deliciar a gustação, com o requinte
das estranhezas. E os homens levaram a conquista aos reis da floresta,
ao ventre do solo; foram colher aos ares os íncolas mais raros,
emplumados de luz como criações canoras do Sol, e foram
buscar às ondas os mais esquivos viajores do abismo, singrando
céleres, fantásticos, na sombra azul, em cauda um reflexo
vago de escamas, - para morder-lhes a vida.
Urgiu ainda a fome, urgiu mais o amor e veio a guerra, a violência,
a invasão. Curvaram-se os cativos ao látego vencedor e foram
abatidas as escravas sob a garra da lascívia sanguinária,
faminta de membros avulsos, olhos sem alma, lábios sem palavra,
formas sem vontade, pretexto miserável de espasmos. Formaram-se
os ódios de raça, as opressões de classe, as corrupções
vingadoras e demolidoras.
Mas a cisma evoluiu também, aquela cisma poética da pastoral
primeva que buscara os astros no céu para adereço dos idílios.
O fundo tranqüilo e obscuro das almas, aonde não chega o tumultuar
de vagas da superfície, inflamou-se de fosforescências; geraram-se
as auréolas dos deuses, coalharam-se os discos das glórias
olímpicas: as religiões nasceram.
Mas era preciso que fosse palpável o espectro da divindade: as
rochas descascaram-se em estátuas, os metais se fizeram carne e
houve templos, houve cultos, houve leis, vieram profetas e pontífices
ambiciosos. E esta evolução da cisma que fora amante, feita
instrumento da tirania, deu lugar às práticas do terror,
aos apostolados do morticínio.
Mas uma lira ficara da geração primeira de cismadores, e
as cordas cantavam ainda e os sons falaram no ar as epopéias do
Oriente e da Grécia. Roubou-se aos sacerdotes tiranos o monopólio
dos deuses para jungi-los à atrelagem do metro; que levassem, através
dos séculos, o carro triunfal da estrofe, onda sonora de vibrações
imortais.
E os esculpidores dos ídolos legaram o segredo da fábrica,
revelando que vinham de um molde de barro aquelas arrogâncias de
bronze e que se fazem deuses como as ânforas. E os artistas modernos
recomeçaram, chamando a religião ao atelier, como um modelo
de hora paga; e gravaram em tinta, pelos muros, as visões místicas
da crença.
A nitidez artística das formas fizera crer aos homens que morava
realmente um espírito sagrado na porosidade do mármore e
que realmente havia em proporções infinitas uma tela de
olimpos e paraísos, onde as cores do antropomorfismo artístico
viviam soberanas, olhando o mundo lá embaixo, vazando a urna providencial
das penas e das alegrias.
Decaídas as fantasias sentimentais, reformou-se o aspecto do mundo.
Os deuses foram banidos como efeitos importunos do sonho. Depois da ordem
em nome do Alto, proclamou-se a ordem positivamente em nome do Ventre.
A fatalidade nutrição foi erigida em princípio: chamou-se
indústria, chamou-se economia política, chamou-se militarismo.
Morte aos fracos! Alçando a bandeira negra do darwinismo espartano,
a civilização marcha para o futuro, impávida, temerária,
calcando aos pés o preconceito artístico da religião
e da moralidade.
Sobrevive, porém, o poema consolador e supremo, a eterna lira...
Reinou primeiro o mármore e a forma; reinaram as cores e o contorno;
reinam agora os sons, - a música e a palavra. Humanizou-se o ideal.
O hino dos poetas do mármore, do colorido, que remontava ao firmamento,
fala agora aos homens, advogado enérgico do sentimento.
Sonho, sentimento artístico ou contemplação, é
o prazer atento da harmonia, da simetria, do ritmo, do acordo das impressões,
com a vibração da sensibilidade nervosa. É a sensação
transformada.
A história do desenvolvimento humano nada mais é do que
uma disciplina longa de sensações. A obra de arte é
a manifestação do sentimento.
Dividindo-se as sensações em cinco espécies de sentidos,
devem os sentimentos corresponder a cinco espécies e igualmente
as obras de arte.
Da sensação acústica vem a estesia acústica:
sentimento nos sons, nas palavras - eloqüência e música;
da sensação da vista, a estesia visual, o sentimento na
forma, no traço e no colorido, - escultura, arquitetura, pintura;
da sensação palatal e olfativa nasce o sentimento do gosto
e do perfume, - artes menos consideradas pela relativa inferioridade dos
seus efeitos. A sensação do tato, secundada por todas as
outras, dá lugar ao sentimento complexo do amor, arte das artes,
arte matriz, razão de ser de todas as espécies de estesia.
O primeiro momento contemplativo de um amoroso foi o advento da estética,
no gozo visual das linhas da formosura, na delícia auditiva de
uma expressão inarticulada, que fosse emitida com expressão,
na comoção de um contato, na aspiração inebriante
do aroma indefinido da carne. A obra de arte do amor é a prole;
o instrumento é o desejo.
Depois da arte primitiva e fundamental do tato, a arte do ouvido. A obra
de arte é a frase sentida, hábil para produzir emoção;
o instrumento é a linguagem.
Esta arte devia mais tarde ramificar-se em eloqüência propriamente
e poesia popular, graças à aproximação híbrida
de terceira arte, do ouvido, a música.
Com o progresso humano, o sentimento artístico da simetria e da
harmonia destacou-se analiticamente da arte de amar. E, depois da arte
primordial, descendente imediata do instinto erótico, da qual se
desprendera, sob a forma selvagem das interjeições primitivas,
a arte da eloqüência, e em seguida, sob a forma de expressões
homométricas, a poesia popular e a primeira música; nasceram
as artes intencionais, de imitação, da escultura, da arquitetura,
do desenho. Depois da poesia popular, amorosa ou heróica, veio
a rapsódia.
Ainda mais, segundo um traçado naturalíssimo de filiação,
o sentimento da simetria, trasladado para a esfera das relações
sociais, serviu de plano à organização das religiões,
filhas do pavor, e das moralidades, invenção das maiorias
de fracos. Com o predomínio insensato das religiões, o amor
deixou de ser artístico, passou a ser sacramental; com o predomínio
das moralidades, deixou de ser um fenômeno, passou a ser um ridículo
ou uma coisa obscena.
Por um raciocínio de retrocesso, se ponderarmos que a moralidade
é a organização simétrica da fraqueza comum,
que a religião é a organização simétrica
do terror, que a simetria, isto é, harmonia e proporção,
é a norma artística das imitações plásticas
da ingênua admiração da criatura primitiva, e que
esta admiração prazenteira, testemunhada por uma tentativa
de desenho ou de estátua, por um canto popular ou por uma interjeição
veemente, nada mais é do que um modo acentuado de um esforço
de atenção, e que a primeira atenção dos homens
do princípio, - a lenda de Adão que o diga, - devia ser
do indivíduo de um sexo para o indivíduo de outro sexo,
teremos averiguado o aforismo paradoxal de que a arte subjetivamente,
o sentimento artístico, nas suas mais elevadas, mais etéreas
manifestações, é simplesmente - a evolução
secular do instinto da espécie.
Esta é a sua grandeza, e por isso vai zombando, através
das idades, das vicissitudes tempestuosas do combate pela nutrição,
dos próprios exasperos homicidas do amor.
A arte é primeiro espontânea, depois intencional.
Manifesta-se primeiro grosseiramente, por erupções de sentimento,
e faz o amor concreto, a interjeição, a eloqüência
rudimentar, a poesia primitiva, o primitivo canto. Manifesta-se mais tarde,
progressivamente, por efeitos de cálculo e meditação
e dá o epos, a eloqüência culta, a música desenvolvida,
o desenho, a escultura, a arquitetura, a pintura, os sistemas religiosos,
os sistemas morais, as ambições de síntese, as metafísicas,
até as formas literárias modernas, o romance, feição
atual do poema no mundo.
As manifestações espontâneas são coevas de
todas as sociedades; a poesia popular, por exemplo, não desaparece,
nem a eloqüência, ainda menos o amor. As manifestações
intencionais, que nada mais são do que transformações,
ampliações, aperfeiçoamentos do modo primitivo de
expressão sentimental, sujeitam-se aos movimentos e vacilações
de tudo que progride.
O coração é o pêndulo universal dos ritmos.
O movimento isócrono do músculo é como o aferidor
natural das vibrações harmônicas, nervosas, luminosas,
sonoras. Graduam-se pela mesma escala os sentimentos e as impressões
do mundo. Há estados de alma que correspondem à cor azul,
ou às notas graves da música; há sons brilhantes
como a luz vermelha, que se harmonizam no sentimento com a mais vívida
animação.
A representação dos sentimentos efetua-se de acordo com
estas repercussões.
O estudo da linguagem demonstra.
A vogal, símbolo gráfico da interjeição primitiva,
nascida espontaneamente e instintivamente do sentimento, sujeita-se à
variedade cromática do timbre como os sons dos instrumentos de
música. Gradua-se, em escala ascendente u, o, a, e, i, possuindo
uma variedade infinita de sons intermediários, que o sentimento
da eloqüência sugere aos lábios, que se não registram,
mas que vivem vida real nas palavras e fazem viver a expressão,
sensivelmente enérgica, emancipada do preceito pedagógico,
de improviso, quase inventada pelo momento.
Há ainda na linguagem o ritmo de cada expressão. Quando
o sentimento fala, a linguagem não se fragmenta por vocábulos,
como nos dicionários. É a emissão de um som prolongado,
a crepitar de consoantes, alteando-se ou baixando, conforme o timbre vogal.
O que move o ouvinte é uma impressão de conjunto. O sentimento
de uma frase penetra-nos, mesmo enunciado em desconhecido idioma.
O timbre da vogal, o ritmo da frase dão alma à elocução.
O timbre é o colorido, o ritmo é a linha e o contorno. A
lei da eloqüência domina na música; colorido e linha,
seriação de notas e andamentos; domina na escultura, na
arquitetura, na pintura: ainda a linha e o colorido.
Na sua qualidade de representação primária do sentimento,
depois do fato do amor, a eloqüência é a mais elevada
das artes. Daí a supremacia das artes literárias, - eloqüência
escrita.
A eloqüência foi a princípio livre, fiel ao ritmo do
sentimento; influenciada pela música monótona dos mais antigos
tempos, cadenciou-se em metro regular e monótono como a música.
Aproveitada como recurso mnemônico, libertou-se da música,
guardando, porém, a forma do metro igual e da quantidade equivalente,
que havia de ser um dia a metrificação da sílaba,
que havia de dar em resultado a monstruosidade da rima, o calembur feito
milagre de perfeição.
A música seguiu à parte a sua evolução.
Na arte da eloqüência da atualidade acentua-se uma reação
poderosa contra o metro clássico; a crítica espera que dentro
de alguns anos o metro convencional e postiço terá desaparecido
das oficinas da literatura. O sentimento encarna-se na eloqüência,
livre como a nudez dos gladiadores e poderoso. O estilo derribou o verso.
As estrofes medem-se pelos fôlegos do espírito, não
com o polegar da gramática.
Hoje, que não há deuses nem estátuas, que não
há templos nem arquitetura, que não há dies irae
nem Miguel Ângelo; hoje que a mnemônica é inútil,
o estilo triunfa, e triunfa pela forma primitiva, pela sinceridade veemente,
como nos bons tempos em que o coração para bem amar e o
dizer não precisava crucificar a ternura às quatro dificuldades
de um soneto.
Qual a missão da arte? Originária da propensão erótica,
fora do amor, a arte é inútil, - inútil como o esplendor
corado das pétalas sobre a fecundidade do ovário. Qual a
missão das pétalas coradas? De que nos serve a primavera
ser verde? As aves cantam. Que se aproveita do cantar das aves? A arte
é uma conseqüência e não um preparativo. Nasce
do entusiasmo da vida, do vigor do sentimento, e o atesta. Agrada sempre,
porque o entusiasmo é contagioso como o incêndio. A alma
do poeta invade-nos. A poesia é a interpretação de
sentimentos nossos. Não tem por fim agradar.
E, depois, reclamar títulos de utilidade às divagações
graciosas de uma energia da alma, que significa em primeira manifestação
a própria perpetuidade da espécie?!
Além de inútil, a arte é imoral. A moral é
o sistema artístico da harmonia transplantado para as relações
da coletividade. Arte sui generis. Se é possível eficazmente
o regime social das simetrias da justiça e da fraternidade, o futuro
há de provar. Em todo caso, é arte diferente e as artes
não se combinam senão em produtos falsos de convenção.
Poema intencionalmente moral é o mesmo que estátua polícroma,
ou pintura em relevo. Apenas uma coisa possível, nada mais; há
também quem faça flores, com asas de barata e pernas.
A verdadeira arte, a arte natural, não conhece moralidade. Existe
para o indivíduo sem atender à existência de outro
indivíduo. Pode ser obscena na opinião da moralidade: Leda;
pode ser cruel: Roma em chamas, que espetáculo!
Basta que seja artística.
Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem,
a arte é a superioridade humana - acima dos preceitos que se combatem,
acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige;
embriaga como a orgia e como o êxtase.
E desdenha dos séculos efêmeros.
À vista da tranqüilidade do auditório, subentende-se
que não estavam presentes os dois heróis da primeira sessão
solene: o Dr. Zé Lobo não viera, para não encontrar
o senador; o Senador Rubim não viera, para não encontrar
o Dr. Zé Lobo: impulsos equivalentes em sentido contrário
anulam-se.
Havia na sala diversos ouvintes que se distraíam de perseguir com
atenção a galopada de hipogrifo, em que se elevava a eloqüência
do orador.
Bento Alves, um; outro o Malheiro, moreno, nervoso, carrancudo, o primeiro
ginasta; outro, Barbalho.
A preocupação de Bento Alves era uma injúria. Entre
ele e Malheiro havia rixa velha de emulação. Malheiro não
lhe perdoava a culpa de ser bravo. Os próprios prodígios
da força e agilidade, aplaudidos e proclamados pelo Ateneu, não
davam para saciar a vaidade. De que valia ser forte, se era impossível
a aplicação do seu esforço para afrouxar uma fibra
à musculatura do Bento? Ah! não ser possível por
sugestão desfiar uma a uma aquelas meadas de arame, reduzir à
infantilidade débil aquela corpulência odiosa! Por que não
iriam os desejos da inveja, como vampiros, sorver o sangue àquela
força, a vida, gota a gota, àquele vigor de ferro?
Bento Alves não dava mostras de perceber a rivalidade. Malheiro
evitava-o. Era impossível conservar-se um momento perto do colega,
que lhe não dessem ímpetos de assaltá-lo.
A façanha da prisão efetuada pelo rival definitivamente
retirava-lhe a glória de valoroso único. Malheiro entrou
em melancolia trancada. O rosto moreno amorenou-se mais; a animação
de um brilho não lhe chegava à janela do olhar; o sorriso
nos lábios não abria a porta. Dir-se-ia um frontispício
de luto.
Ficou a ruminar o projeto de um encontro.
O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor, sempre receoso de importunar-me
com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova
surpresa e agrado. Chegara ao excesso das flores. A princípio,
pétalas de magnólia seca com uma data e uma assinatura,
que eu encontrava entre folhas de compêndio. As pétalas começaram
a aparecer mais frescas e mais vezes; vieram as flores completas. Um dia,
abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo,
achei a imprudência de um ramalhete. Santa Rosália da minha
parte nunca tivera um assim. Que devia fazer uma namorada? Acariciei as
flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.
Mas o Barbalho espiava, ultimamente constituído fiscal oculto dos
meus passos.
As circunstâncias o tinham aproximado do Malheiro, e o açafroado
caolho pretendia manejar a rivalidade dos dois maiores: um conflito entre
Malheiro e Bento podia ser a vergonha para mim.
O Malheiro, com o vozeirão grave de contrabaixo, começou
a infernizar-me por epigramas. Queria incomodar o Alves mortificando-me,
julgando que me queixasse. Eu devorava as afrontas do marmanjo sem desco-brir
o meio de tirar correta desforra. Barbalho lembrou-se de tomar as dores.
Depois de incitar o Malheiro contra mim, incitou o Bento contra o Malheiro.
Procurou-o misteriosamente e informou: "- O Malheiro não passa
pelo Sérgio que não pergunte quando é o casamento...
é preciso casar... Ainda hoje pediu convite para as bodas. O Sérgio
está desesperado."
O furor do Alves não se descreve, furor poderoso dos calados. Uma
onda de apoplexia ruborizou-lhe as faces. Por único movimento de
indignação contraiu os dedos, como estrangulando. Procurou
o Malheiro e com a voz talvez alterada, mas sem ódio, fez intimação:
"amanhã é a sessão de encerramento; em meio
da festa saímos ambos; preciso falar-lhe das bodas".
Malheiro percebeu: era o sonhado encontro!
Apenas desceu da tribuna o presidente efetivo do Grêmio, os adversários
deixaram as cadeiras. Barbalho saiu pouco depois. Notei o movimento e
adivinhei mais ou menos.
Quando saímos do pavilhão, finda a solenidade, um criado
entregou-me um envelope, uma carta do Alves, a lápis. "Estou
preso; antes que te digam que por alguma indignidade, previno: por ter
dado uma lição ao Malheiro."
Minutos depois, Franco, muito satisfeito, contava a todos: "tinham
lutado no jardim o Malheiro e o Alves; que briga dos dois brutos!"
Alves saíra ferido com um golpe no braço, acreditam que
de navalha; Malheiro estava no dormitório. Avisados pelo Alves,
os criados tinham ido buscá-lo sem sentidos, ao fundo de um bosquete
no parque. "Sem sentidos! garantia o Franco; que pândega! que
sopapos! ora o Malheiro malhado!"
Soube-se que Barbalho espreitara o combate através dos arbustos.
Antes de o ver acabado, corria ativo, e concentrando a vesgueira numa
só atenção de intrigante, preparara as coisas de
modo que, ao voltar do jardim, Bento Alves foi surpreendido por uma ordem
de prisão do diretor.
Não denunciar nunca é preceito sagrado de lealdade no colégio.
Os contendores recusaram-se a explicações. Bento Alves negou
o braço a exame e a curativo; Malheiro, em panos de sal, fingindo-se
muito prostrado, oferecia o mais impenetrável silêncio às
indagações de Aristarco e protestava esborrachar as ventas
a quem caísse na asneira de insinuar o bedelho no que não
era da sua conta.
"Ora o malhado!..." resmungavam os colegas; mas tratavam de
esquecer o caso.
Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das
damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela gradeada
de um cárcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o
fim único de propor assunto às trovas e aos trovadores medievos.
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