ARRAS
POR FORO DE ESPANHA (1371-1372)
Alexandre Herculano
CAPÍTULO
V
MESTRE BARTOLOMEU
CHAMBÃO
Frei Roy, saindo
da casa das arcas, atravessara os corredores vizinhos: mas, em vez
de seguir o que dava para o passadiço de S. Martinho, tomara
por uma escadinha escura aberta no topo da estreita passagem anterior
a esse passadiço. Esta escadinha descia para o átrio
do paço. O beguino, habituado, pelo seu ministério,
a entrar na morada real às horas mortas e a sair nas menos
frequentadas, sabia por diuturna experiência que a porta principal
devia estar aberta, mas ainda erma, ao mesmo tempo que a igreja,
por onde entrara, já começaria a povoar-se de fiéis,
porque, como é fácil de supor, as igrejas eram naquela
época mais frequentadas do que hoje. Desceu, pois, com passo
firme, resolvido a encaminhar-se ao rossio e a espalhar entre os
amotinados a notícia da partida de el-rei.
Mas embargou-lhe os passos dificuldade imprevista. Ou fosse que
os acontecimentos da véspera obrigassem a maiores cautelas,
não havendo ainda então exército permanente,
nem guardas pagas para defensão da pessoa real, cuja melhor
protecção estava na própria espada, ou fosse
por qualquer outro motivo, a porta ainda se não abrira. O
beguino hesitou sobre se devia retroceder para sair pela igreja,
se esperar. As considerações que o tinham movido a
seguir este caminho obrigaram-no a ficar. Metido no estreito e escuro
vão da escada, o echacorvos assemelhava-se, envolto nas suas
roupas de burel e reluzindo-lhe os olhos à meia luz que dava
o pátio interior, a um moderno funcionário, que hoje,
nesses mesmos paços e em desvão igual, talvez no mesmo
sítio, mostra aos que entram o rosto banhado na hediondez
da sua alma, esperando que a vindicta pública o convide a
algum banquete de carne humana, e, no esperar atroz, rodeia com
as garras os ferros do seu covil, como o tigre cativo. O espia era
ali, por assim dizer, uma "pre-existência", uma
"harmonia preestabelecida" do algoz.
Passara obra de meia hora, e o beguino começava a impacientar-se
mui sèriamente quando sentiu pés de cavalgadura no
pátio interior do edifício. Daí a pouco, um
donzel, trazendo na mão uma desconforme chave e as rédeas
de valente mula enfiadas no braço, chegou à porta
e começou a abri-la. Era um dos donzéis de el-rei.
Costumado a disfarçar a sua frequente entrada no paço
sob a capa da mendicidade, e habituado a estender a mão à
espera de alguns soldos que devotamente lhe atiravam senhores, cavaleiros
e escudeiros, ao que ele retribuia com alonga lenda das suas orações
em aleijado latim. Frei Roy era aceito a quase todos os moradores
da casa de el-rei, que respeitavam a sua aparente santidade. Por
isso, saindo do seu desvão, encaminhou-se para a porta.
A madre Santa Maria vos guarde de mau olhado, de feitiços
e de ligamentos - disse ele, chegando-se ao donzel e fazendo sobressair
esta última palavra.
- Vós aqui, Frei Rou, por estas horas? - replicou o donzel,
voltando-se admirado.
- Que quereis! - tornou o beguino. - Quando ontem os malditos burgueses
acometeram os paços reais com a sua grita e revolta, estava
eu aqui. Ai que medo tive! Escondi-me naquela desvão, e quando
se fecharam as portas achei-me encurralado cá dentro, como
um emparedado em seu nicho. A minha profissão de paz e de
religião não me consentia passar por meio de homens
possuídos do espírito de cólera e inspirados
por Belzebu, nem o susto me deixava ânimo desafogado para
ir roçar o burel do meu santo hábito pelos trajos
empestados dos filhos de Belial. Também a humildade e mortificação
cristã se opunham a que eu subisse a pedir gasalhado a algum
de vós outros, os moradores da casa de nosso senhor el-rei.
Assim, louvando a Deus por me concedor uma noite de padecimento,
ali me deixei ficar sobre as lajes húmidas, sobre as duras
e agudas aresas dos degraus daquela escada. Agora, que a revolta
é finda, consolado com as dores que me traspassam os ossos
e confiado na providência de Jesus Cristo, vou-me ao meu giro
diário, para ver se obtenho da caridade dos devotos a pitança
usual com que possa matar a foma de vinte e quatro horas, pela qual
dou louvores ao justo juiz, que reina eternamente nos altos céus.
O beguino revirou benignamente os olhos e fez uma visagem entre
aflita e resignada, levando ao mesmo tempo a mão ao joelho,
como se ali sentisse dor agudíssima.
- Venerável Frei Roy! - atalhou o donzel, com as lágrimas
nos olhos -, se tivésseis procurado o aposento dos donzéis,
nós vos daríamos, ao menos, um almadraque para repousar
e repartiríamos convosco da nossa ceia. Mas o mal está
feito, e o pior é que para hoje não vos posso oferecer
abrigo. Vós credes, santo homem que a revolta é finda,
e nunca ela esteve mais acesa. Sua senhoria vai partir já
da cidade...
- Santa Maria vale! Santo nome de Jesus! Acorrei-nos, Virgem bendita!
- interrompeu Frei Roy. - Pois os populares teimam em sua assuada,
e el-rei deixa-nos aos coitados de nós, humildes religiosos
e cidadãos pacíficos, entregues ao furor dos peões?
- E que remédio, bom Frei Roy?! - replicou tristemente o
donzel. - Sem cavaleiros, escudeiros e besteiros não se faz
guerra, nem se desfazem assuadas, e nada disto tem el-rei. Agora
vou eu ao rossio de São Domingos avisar os senhores do conselho,
os privados e fidalgos que lá estão, que sigam caminho
de Santarém, sob pena de incorrerem em caso de traição,
se ficarem em Lisboa: por sinal que el-rei me recomendou procurasse
avisar primeiro que ninguém sua mercê o infante Dom
Dinis.
- No rossio de São Domingos, dizeis vós? - tornou
o beguino, arregalando os olhos. - Confesso que vos não entendo.
Durante este diálogo o donzel tinha acabado de destrancar
a porta do paço, cavalgado na mula que trazia a rédea
e saído ao terreiro seguido de Frei Roy, que coxeava, estorcia-se
e suspirava dolorosamente de quando em quando. Passo a passo e sofreando
a mula, caminho da Sé, o pajem narrou ao beguino todas as
particularidades sucedidas aquela manhã, as quais Frei Roy
sabia melhor do que ele. Chegados defronte dos Paços do Concelho,
o pajem tomou pelo sopé da alcáçova e Frei
Roy pela Porta do Ferro não sem terem primeiro saído
da bolsa do donzel para a manga do beguino alguns pilartes, e da
boca deste para os ouvidos daquele alguns latinórios pios
devidamente escorchados.
Apenas passara o largo da Sé e transpusera a velha e soturna
Porta do Ferro, Frei Roy tinha-se achado perfeitamente são
do seu violento reumatismo. Ligeiro como galgo, desceu por entre
as antigas terecenas reais, e em menos de três credos estava
no pelourinho. Aí viu cousa que o fez parar.
Um homem vestido de valencina, e coberta a cabeça com um
grande feltro, arengava a um troço de besteiros e peões
armados de lanças ou ascumas, de almárcovas ou cutelos:
tinha nas mãos um desconforme montante e na cinta uma espada
curta. A turba ora o escutava atentamente, ora prorrompia em gritos
confusos e estrondosos. Frei Roy chegou-se. O homem do feltro amplo
era o mestre tanoeiro Bartolomeu Chambão, que, entusiasmado,
prosseguia o seu veemente discurso, sem reparar no beguino:
- Já vo-lo disse: daqui ninguém bole pé antes
de el-rei nosso senhor sair para São Domingos. Nada de bulha
fora de sazão, que lá estão os esculcas. Daremos
mostra ao poço quando aí for só a adúltera.
Se, como ontem, nos fecharem as portas, isso é outro caso.
É preciso que isto se desfaça. A cobra peçonhenta
deve sair da toca. Não digo que então não seja
possível esmargar-se-lhe a cabeça... Num brandir de
ascuma... Mas cautela, não haja sangue!... Pelo menos de
inocentes... Leais e esforçados cidadãos desta mui
leal cida... Safa, bruto!
Esta peroração inesperada com que mestre Bartolomeu
interrompera o seu discurso, que se ia elevar ao ápice da
eloquência, procedera de lhe ter descido a grossa e espaçosa
mão do echacorvos sobre o ombro, que lhe vergara, como se
houvessem descarregado em cima dele uma aduela de cuba. A Frei Roy
ocorrera uma ideia abençoada, a de comunicar a mestre Bartolomeu
a nova que Dª Leonor lhe recomendara espalhasse entre os amotinados;
a nova da sua partida de Lisboa com el-rei. O mendicante sabia que
o tanoeiro era de bofes lavados, e que, dentro de meia hora não
só a ser visto no rossio pelo donzel, de quem naquele instante
se apartara, mas também a achar-se envolvido em qualquer
desordem que semelhante notícia pudesse produzir, atenta
a irritação dos ânimos. Além disso, a
lembrança do arrepio dorsal que as últimas palavras
de Dª Leonor lhe tinham causado fazia-lhe quase desejar que
o tanoeiro, encarregado (segundo percebera do fim da sua arenga)
da comissão que, na taberna de Folco Taca, Diogo Lopes incumbira
a Fernão Vasques, pudesse ainda desempenhá-la, atalhando
a fuga de Dª Leonor. Estas considerações, que
lhe haviam passado ràpidamente pelo espírito, e o
ver que mestre Bartolomeu não levava jeito de concluir moveram-no
a falar ao tanoeiro, que só o sentira quando ele lhe descarregara
sobre o ombro a ponderosa, mas amigável, palmada.
- Com mil e quinhentos satanases! - exclamou mestre Bartolomeu,
voltando-se e vendo ao pé de si o beguino. - Sabia que a
mão da Santa Madre Igreja era pesada; mas não pensava
que o fosse tanto! Que me quereis, Frei Roy?
- Dizer-vos que podeis mandar sair vossos esculcas de sua atalaia;
porque poderiam chegar a curtir o Inverno aí, antes de verem
el-rei chegar e passar para São Domingos.
- Frei Roy - replicou o tanoeiro, fazendo-se vermelho de cólera
-, para interromper-me com uma de vossas bufonarias, não
valia a pena de me aleijardes este ombro!
- Tomai como quiserdes as minhas palavras; chamai-me o que vos aprouver,
bufão ou mentiroso, mas a verdade é que não
será hoje que os populares falarão com el-rei.
- Pois quê, morreu dos feitiços da adúltera
ou tornou-o invisível algum encantador seu amigo?!
- Nem uma cousa, nem outra: mas, com estes olhos de grande pecador
(aqui o echacorvos fez o gesto habitual de cruzar as mãos
sobre o peito) eu o vi sair para a banda da Porta da Cruz...
- Frei Roy, olhai que estes honrados cidadãos vos escutam
e que o auto é mui grave para gastar truanices.
- Já disse, mestre Bartolomeu, que falo verdade. Pelo bento
cercilho do santo padre vos juro que, hoje, el-rei não dormirá
em Lisboa, segundo o jeito que lhe vejo. Ele cavalgava uma possante
mula de caminho; noutra ia uma dona coberta com um longo véu:
seguiam-no donzéis, falcoeiros e moços de monte. Ao
passar, ainda lhe ouvi estas palavras: Olhai aqueles vilãos
traidores como se juntavam: certamente prender-me quiseram, se lá
fora!" Não pude perceber mais nada. Que mais, porém,
é preciso? Deixastes fugir a preia: agora catai-lhe o rasto.
- Traidor é ele, que nos há mentido, como um pagão!
- bradou o tanoeiro, sopesando o montante. - Mas que se guarde de
outra vez trazer a Lisboa a adúltera! Rainha ou barregã,
arrancar-lhe-emos os olhos. A arraia-miúda foi escarnida;
mas não o será em vão. Que dizeis vós
outros, honrados burgueses?
- Escarnidos, escarnidos! - respondeu com grande grito o tropel.
- Mas, à fé, que nunca a adúltera será
rainha de Portugal. Morra a comborça!
E no meio do alarido, as pontas das lanças e os largos ferros
das almárcovas agitadas nos ares cintilavam aos raios do
sol oriental, como vasto brasido.
- A São Domingos! - gritou mestre Bartolomeu. - Vamos, rapazes:
já que não fazemos aqui nada, ao menos que o povo
não seja por mais tempo burlado!
E, pondo o montante às costas, mestre Bartolomeu tomou por
uma das ruas que davam para a banda de Frei Roy, que procurava retê-lo,
ponderando que ainda poderia alcançar el-rei e fazê-lo
retroceder. O tanoeiro, porém, não tinha valor para
afrontar-se face a face com D. Fernando, e por isso fingiu não
ouvir o beguino, que dentro de alguns minutos se achou só
no meio do terreiro calado e deserto.
Entretanto, junto a S. Domingos, se bem que a rixa começada
entre os nobres partidários de Dª Leonor e Fernão
Vasques se houvesse desvanecido, a agitação dos populares,
cujo número crescia contìnuamente, não tinha
diminuído. Encostado a um dos pilares do alpendre, o alfaiate,
ora lançava os olhos de revés para os senhores da
Corte e conselho, que, esperando por el-rei, passeavam de um para
outro lado, ora os espraiava por aquele mar de vultos humanos, que
ele sabia poder agitar ou tornar imóveis com uma palavra
ou com um simples aceno. Semelhante à hora que precede a
procela, em que apenas se vêem correr na atmosfera abafada
os castelos encontrados de nuvens densas e negras, e se ouve o estourar
dos trovões roufenhos e prolongados, aquela hora que então
passava era espantosa e ameaçadora de estragos, sobretudo
quando, após um rugido terrível do tigre popular,
se fazia na praça, apinhada de gente, um silêncio ainda
mais temeroso e tétrico.
Foi numa destas interrupções do motim que um pajem,
saindo ao galope do lado da Corredoura, veio apear-se junto do alpendre
e, tirando da cinta um pergaminho aberto, o entregou ao infante
D. Dinis.
Este fitou os olhos na escritura, descorou sùbitamente e
passou o pergaminho a Diogo Lopes, dizendo-lhe ao mesmo tempo em
voz baixa:
- Estamos perdidos!
Diogo Lopes leu o conteúdo daquele escrito fatal e, no mesmo
tom, respondeu ao infante:
- O caminho de salvação que nos resta é o de
Santarém. Obediência e circunspecção!
O pergaminho passou ràpidamente de mão em mão:
os fidalgos, letrados e cavaleiros fizeram um círculo no
meio do alpendre: e, depois de o haverem lido, fitaram uns nos outros
olhos desassossegados. Todos receavam falar. O manhoso Pacheco foi
o primeiro que se atreveu a isso, aproveitando hàbilmente
a hesitação dos outros fidalgos e conselheiros.
- Vistes a ordem de el-rei. Como um dos mais velhos entre vós,
direi meu parecer. Embora o risco seja grande, achando-nos cercados
de povo armado e furioso, o nosso dever é pôr a vida
por obedecer a nosso senhor el-rei.
- Mas - atalhou o doutor Gil d'Ocem, que por mui letrado e prudente,
era ouvido como oráculo pelos cortesãos -, o caso
é grave: o povo, se nos vir retirar, enviar-se-á a
nós; se lhe dizemos o motivo da nossa partida, é capaz
de desconcertos maiores que os já cometidos. Sua senhoria
não devera ter-nos emprazado para este auto, se a sua intenção
era não dar resposta aos populares.
Visìvelmente, o doutor ëm leis e degredos" estava
tomado de medo, no que não levava vantagem à maior
parte dos outros membros do conselho real.
O conde de Barcelos guardava silêncio. Não podia conceber
como Dª Leonor o não avisara a tempo, e por isso preocupava-o
a indignação, ignorando que a resolução
da fuga fora tomada mui tarde. Na véspera ela aconselhara
a el-rei que cedesse a tudo quanto o povo quisesse; porque, dissolvido
o tumulto, fácil era chamar à Corte os senhores e
cavaleiros de mais confiança, acompanhados de gente de guerra,
com que seria sopitado qualquer motim, se os populares ousassem
opor-se aceitara o conselho, que, se não era o mais leal,
era, ao menos, o mais seguro; mas as revelações do
echacorvos, que o conde ignorava, tinham mudado, como o leitor viu,
a situação do negócio.
A reflexão de Gil d'Ocem estava em todas as cabeças
e por isso os cortesãos ficaram outra vez em silêncio,
como buscando um expediente para sair daquele dificultoso passo.
A incerteza, o despeito, o receito pintavam-se nos rostos demudados
de muitos.
E as vagas do oceano que ameaçava tragá-los encapelavam-se
aos pés deles: o povo, vendo os fidalgos erguidos, calados
e em círculo, apinhava-se, cada vez mais basto, ao redor
da alpendrada. Isto fazia crescer o temor, e o temor perturbara
demais os ânimos para não poderem achar um expediente
acertado.
Era por isso que esperava o astuto Pacheco.
- De um lado a cólera do povo: do outro os mandados de el-rei
- disse, apertando com a mão a fronte, o velho conselheiro
de Afonso IV. - Resta-nos só um arbítrio.
- Dizei, dizei! - clamaram a um tempo todos, à excepção
do conde de Barcelos, que fitou nele os olhos desconfiados.
- É necessário que anunciemos a nova da partida de
el-rei e que sejamos os primeiros a afear este procedimento: é
necessário que vamos adiante da indignação
dos peões. Depois, dir-lhes-emos que, burlando como eles,
nada fazemos aqui. Então apartar-nos-emos sem custo e sairemos
da cidade como pudermos, na certeza de que não serei eu o
último, apesar de velho, que cruze as portas da Alcáçova
de Santarém.
- Mas quem há-de falar em nosso nome? - perguntou Gil d'Ocem.
- No vosso, mestre Gil das Leis! - interrompeu o conde de Barcelos.
- Nem o receito das afrontas de alguns milhares de sandeus nem o
da própria morte me obrigariam a cuspir maldições
sobre o nome daquele a quem uma vez jurei preito e leal menagem.
- Vitam impendere vero nemo tenetur replicou Gil d'Ocem -, ou, como
quem o dissesse por linguagem, ninguém é obrigado
a deixar-se matar por amor da verdade ou de seu preito. Vós
fazei o que vos aprouver.
À autoridade de um texto latino, trazido assim a ponto por
tão insigne doutor, não havia resistir. Os fidalgos
e conselheiros aprovaram, unânimemente, o alvitre de Diogo
Lopes.
- Mas quem há-de falar ao povo? - insistiu o mestre em leis,
que não parecia excessivamente inclinado a incumbir-se dessa
gloriosa tarefa.
- Eu, se assim o quiserdes - replicou imediatamente Diogo Lopes.
O manhoso cortesão vira claramente que a partida de el-rei
transtornava todos os seus desenhos: todavia calculara num momento
como, sem suscitar a indignação de Fernão Vasques,
e por consequência alguma revelação perigosa,
podia salvar-se e ao infante. Logo que el-rei se esquivara à
influência do povo, de cuja ousadia o velho esperava tudo,
o casamento de Dª Leonor era inevitável, e ainda supondo,
o que não era de esperar, que o tumulto fosse avante, e que
Lisboa se rebelasse claramente contra D. Fernando, o resultado favorável
a el-rei, senhor do resto de Portugal, que ao povo, desprovido naquela
conjuntura dos principais meios com que poderia sustentar uma luta
intestina. Assim, o alvitre que oferecera para a salvação
dos cortesãos era só para se haver se salvar a si,
conservando ao mesmo tempo a afeição dos cabeças
da revolta, sem que o meio que para isso devia empregar o fizesse
decair da graça de D. Fernando.
Para os cálculos de Diogo Lopes faltara, porém, um
elemento: era a delação do beguino, e era justamente
esta falta que os destruía todos. Assim é a política.
O "sacrifício" de Diogo Lopes foi geralmente recebido
com aprovação e agradecimento. Então ele, saindo
do círculo, aproximou-se `de Fernão Vasques, que,
de quando em quando, volvia os olhos inquietos para a pinha dos
fidalgos e cavaleiros.
- Falhou a traça - disse o velho cortesão em voz sumida
ao alfaiate. - El-rei acaba de sair da cidade.
Fernão Vasques recuou, e pôs-se a olhar espantado para
Diogo Lopes, como quem não acreditava o que ouvia.
- O que vos digo é a verdade - continuou Pacheco. - Mas não
afrouxar! El-rei de Castela é por nós, e bom número
de fidalgos portugueses o são também. Mas: são
por nós a maior parte dos que ora aqui vedes presentes. Conservai
o bom ânimo do povo, fiai o resto de mim e... de quem vós
sabeis.
Ao pronunciar estas palavras, Diogo Lopes lançou de relance
os olhos para D. Dinis.
- Mas el-rei tomará por mulher, Dona Leonor - acudiu o alfaiate
aterrado -, voltará a Lisboa com seus cavaleiros e homens
de armas, e, então, coitados de nós!
- Não temais: o matrimónio adúltero será
condenado pelo papa. Vós já tereis ouvido contar o
que sucedeu a el-rei Dom Sancho: a Dom Fernando pode suceder o mesmo.
Também os fidalgos de Portugal têm homens de armas.
Podeis estar certos de que não vos abandonaremos. Agora resta
uma cousa. Coube-me a mim dar esta triste nova aos bons e leais
burgueses, que tão ousadamente se opuseram à desonra
da sua terra e de seu rei, e eu devo ser ouvido por eles. Mandai-lhes
que façam silêncio.
Fernão Vasques obedeceu: o ruído dos populares, que
não descontinuara durante esta cena, acalmou a um aceno do
alfaiate.
Diogo Lopes fez então um largo discurso, com o qual não
cansaremos os leitores, e cujo assunto fácil é de
adivinhar. Misturando amargas repreensões contra D. Fernando
com lisonjas aos populares, procurou persuadi-los, posto que indirectamente,
de que toda a fidalguia estava cheia de indignação.
Aludiu à resistência por armas que el-rei podia encontrar
entre os ricos-homens de Portugal contra o seu casamento, e, no
caso de vir ste a cabo, a probabilidade de ser anulado pelas censuras
da Igreja. Enfim, sem nunca lhes dizer claramente que insistissem
na revolta e tratassem, se fosse preciso, de defender a cidade contra
o poder real, suscitou todas as ideias que podiam levar os populares
a este excesso. Faltava o ponto dificultoso: o da partida dos fidalgos.
Pacheco soube com a mesma ambiguidade dar esperança aos peões
de que se encaminhavam para as suas alcaidarias e honras, com o
louvável intento de se aperceberem em socorro dos burgueses
de Lisboa, e com tal arte o fez que os senhores e cavaleiros que
se achavam em S. Domingos, sem exceptuar o próprio conde
de Barcelos, não viram nas suas palavras senão uma
feliz inspiração para os salvar da cólera da
arraia-miúda.
Durante aquela larga arenga, esta guardara silêncio, interrompido
a espaços por um desses burburinhos que são como os
anúncios das erupções do vulcão popular.
Pacheco, enfim, concluiu: mas o espectáculo que tinha diante
de si fê-lo ficar imóvel por alguns momentos, e estes
foram terríveis. Aqueles centenares de olhos avermelhados,
cintilantes de furor, cravados nele e nos outros fidalgos; aquelas
bocas semiabertas, prestes a prorromper em brados de morte, eram
como um pesadelo diabólico, como uma vertigem de loucura.
Os populares pareciam ainda escutá-lo, e não puderam
acreditar a deslealdade de D. Fernando de Portugal.
Os fidalgos aproveitaram esse instante de torpor moral que precedia
a procela. Desceram da alpendrada e, montando nas suas possantes
mulas, encaminharam-se vagarosamente para a banda da Corredoura.
No meio da cavalgada, e rodeado dos cavaleiros mais benquistos do
povo, ia o conde de Barcelos, e Diogo Lopes com os seus pajens fechava
o séquito. Se houvessem atravessado a praça, o conde
teria corrido grande risco; porque, ao dobrar o ângulo do
mosteiro, já os doestos grosseiros e violentos voavam contra
ele do meio do povo apinhado, e, até, dois virotes de besta
pareceu sibilarem por cima da sua cabeça. Mas, apertando
os acicates, os cavaleiros seguiram ao longo da Corredoura, enquanto
Diogo Lopes, vitoriado pelas turbas, a quem com sorrisos retribuía
aquelas mostras de afecto, obstava a que as ondas populares rodeassem
o diminuto número de cortesãos, alguns dos quais tinham
fundados motivos para recear a irritação desses animais
ferozes, exaltados pela fuga de el-rei.
A cavalgada havia desaparecido, quando um trocó de besteiros
e peões desembocou do lado da Rua Nova. Eram mestre Bartolomeu
e a sua gente, que vinham confirmar a nova dada por Diogo Lopes
Pacheco.
Mas as palavras que Frei Roy dissera ter ouvido proferir a el-rei,
lançadas entre os amotinados como um facho sobre montão
de lenha por onde lavra há muito fogo oculto, levaram o tumulto
a ponto medonho. As afrontas, que até aí quase só
se encaminhavam contra Leonor Teles e seus parentes, voltaram-se
contra D. Fernando. As maldições, as pragas, os nomes
de traidor e covarde ajuntavam-se às mais violentas ameaças.
Uns juravam que nunca mais ele entraria em Lisboa; outros propunham
que se lançasse fogo aos paços reais. Debalde Fernão
Vasques trabalhava por aquietá-los; nem já escutavam
o seu ídolo. Furiosos, espalhavam-se pelas ruas, que atroavam
com gritos, brandindo as armas; e por certo que, se neste momento
D. Fernando lhes tivesse aparecido, não teriam, talvez, respeitado
a vida do filho do seu tão querido D. Pedro I, o mais popular
de todos os nossos reis, chamados da primeira dinastia.
Este motim sem objecto, sem resistência, e sem resultado,
acalmou nesse mesmo dia. Ao anoitecer, a cidade tinha caído
no seu habitual silêncio, e, pouco a pouco, os fidalgos e
cavaleiros, atravessando as Portas da Cruz, seguiam caminho de Santarém.
O sistema militar dos antigos partos dera a vitória a el-rei:
ele vencera fugindo!
O povo adormeceu: os cabeças da revolta estavam irremediàvelmente
perdidos.
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