A
Normalista
Adolfo Caminha
CAPÍTULO
I
João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João
da Mata, habitava, há anos, no Trilho, uma casinhola de porta
e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela
fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e de
onde se avistava a Estação da linha férrea
de Baturité. Era amanuense, amigado, e gostava de jogar víspora
em família aos domingos.
Nessa noite estavam reunidas as pessoas do costume. Ao centro da
sala, em torno de uma mesa coberta com um pano xadrez, à
luz parca de um candeeiro de louça esfumado, em forma de
abajur, corriam os olhos sobre as velhas coleções
desbotadas, enquanto uma voz fina de mulher flauteava arrastando
as sílabas numa cadência morosa: - Vin...te e quatro!
Sessen...ta e nove!... Cinqüen...ta e seis!...
Havia um silêncio morno e concentrado em que destacava o rolar
abafado das pedras no saquinho da baeta verde.
A sala era estreita, sem teto, chão de tijolo, com duas portas
para o interior da casa, paredes escorridas pedindo uma caiação
geral. À direita, defronte da janela, dormia um velho piano
de aspecto pobre, encimado por um espelho não menos gasto.
O resto da mobília compunha-se de algumas cadeiras, um sofá
entre as duas portas do fundo, a mesa do centro, e uma espécie
de console, colocada à esquerda, onde pousavam dois jarros
com flores artificiais.
De onde em onde zunia o falsete do amanuense:
- Quadra! Ou caçoava: - Os anos de Cristo!... Os óculos
do Padre Eterno!
Risadinhas explodiam a espaços, gostosas, indiscretas - uma
pilhéria ricocheteava nos quatro ângulos da mesa.
- É boa! É boa! fazia João da Mata erguendo
a cabeça, mostrando a dentuça.
Depois voltava o silêncio, e a voz fina de mulher continuava
a cantar os números solenemente.
- Víspora! saltou de repente um rapazola de óculos,
bigodinho fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara.
Toda gente o conhecia - era o Zuza, quintanista de direito, filho
do coronel Souza Nunes.
- Podem conferir, disse erguendo-se, risonho - segunda linha.
E estendeu o braço, passando o cartão para o amanuense.
- Não desmarquem, não desmarquem, recomendou este
espalmando a mão. Pode ter sido engano. Errare humanum est...
Houve um ligeiro sussurro de vozes e de caroços rolando sobre
a mesa com um surdo ruído de contas desfiadas. Todos desfizeram
as marcações.
Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó
de fazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua.
À direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos,
metida num casaco frouxo de rendas, cabelo penteado em cocó,
estampa insinuante, bons dentes: era a mulher do amanuense, que
passava por sua legítima esposa não obstante as insinuações
malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos
na vida privada de D. Terezinha. Contudo, era tida em conta de excelente
dona-de-casa, honesta, dizendo-se relacionada com as principais
famílias de Fortaleza.
Ninguém ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto,
uma pilhéria calculada. Inventava-se - calúnias do
populacho - que se correspondia ocultamente com o presidente da
província. Ela, porém, gabava, batendo no peito com
orgulho, que tinha uma vida limpa, graças a Deus; que isso
de patifarias não lhe entrava em casa, não, mas era
o mesmo. Estava ali o Janjão que não a deixava mentir.
Ao pé de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada
de João, uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de
noviça, morena-clara, olhos cor de azeitonas, carnes rijas,
e cuja atenção volvia-se insistentemente para o Zuza.
As outras pessoas eram também da intimidade: o Loureiro,
guarda-livros da firma Carvalho & Cia., o Dr. Mendes, juiz municipal,
mais a senhora, a Lídia Campelo, filha da viúva Campelo,
e o estudante. Às vezes ia mais gente e o víspora
prolongava-se até meia-noite.
João da Mata era um sujeito esgrouvinhado, esguio e alto,
carão magro de tísico, com uma cor hepática
denunciando vícios de sangue, pouco cabelo, óculos
escuros através dos quais boliam dois olhos miúdos
e vesgos. Usava pêra e bigode ralo caindo sobre os beiços,
tesos como fios de arame; a testa ampla confundia-se com a meia
calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesticulando
bruscamente, e, quando ria, punha em evidência a medonha dentuça
postiça. Noutros tempos fora mestre-escola no sertão
da província, de onde se mudara para a capital por conveniências
particulares. Era então simplesmente o professor Gadelha,
o terror dos estudantes de gramática. O sertão foi-lhe
aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos, era preciso fazer
pela vida noutro meio mais vasto onde as suas qualidades, boas ou
más, fossem aquilatadas com justiça. Estava perdendo-se,
inutilizando-se e fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário
seboso e pernóstico e um delegado de polícia ignorante:
- "Não era um águia, um Abílio Borges,
um Macedo... mas reconhecia que também não era burro.
Até podia fazer figura em Fortaleza."
E abalou com tanta felicidade que não tardou ser nomeado
comissário de socorros ao tempo da grande seca de 77, dois
anos depois de sua chegada à capital. Desde logo tornou-se
conhecido, suas façanhas corriam impressas nos pasquins domingueiros.
De uma feita escapou milagrosamente de ser preso por crime de defloramento
numa menor, criada do Dr. Moraes e Silva; de outra feita apanhou
de rebenque na cara por haver caluniado um capitão de infantaria
propalando uma infâmia. Toda a gente o conhecia muitíssimo
bem, por sinal tinha uma cicatriz oblonga e funda na têmpora
esquerda, e não largava o mau vezo de roer o canto das unhas.
Depois da seca entregou-se de corpo e alma à polícia,
à intriguinha partidária, à rabulice, à
cabala eleitoral, à chicana. Toda a vez que se anunciava
um pleito, punha em jogo as mil e uma sutilezas que só o
seu espírito sagaz podia conceber. Ninguém como ele
sabia copiar uma chapa em letra firme e aprumada. Aquilo a pena
cantava no papel que nem o lápis de um taquígrafo.
E que letra, que esplêndido talhe! Dir-se-ia traçada
a nanquim, delicadamente, com a paciência de um chinês.
Ninguém como ele sabia tirar proveito duma vitória
alcançada pelo partido. Discutia, falava alto, berrava...
impunha-se!
- Extraordinário homem! diziam os chefes políticos;
destes é que nós precisamos, destes é que precisa
o partido.
Mas João sabia vender caro seu peixe. Fazia política
por uma espécie de ambição egoísta,
visando sempre tirar resultados positivos de suas artimanhas, embora
com prejuízo de alguém.
Dinheiro é o que ele queria, não lhe fossem falar
em política sem interesse pessoal.
"- Histórias, homem, histórias! Isso de patriotismo
é uma patranha, um rótulo falso! O que se quer é
dinheiro, o santo dinheirinho, a mamata. Qual pátria, qual
nada! Patacoadas!" Ele, João, trabalhava, lá
isso era inegável: dava o seu voto, cabalava, servia de testa-de-ferro,
mas... tivessem paciência - era mão pra lá mão
para cá... Porque - argumentava - a política é
uma especulação torpe como outra qualquer, como a
de comprar e vender couros de bode na praia, a mesmíssima
coisa; pois não é? Pra tudo é preciso jeito,
muito jeitinho...
Agora, porém, andava meio retraído, dava o seu voto,
calado, e - passe muito bem! - A política só lhe trouxera
desenganos e inimigos. Não estava mais para servir de degrau
a figurão algum. Que se fomentassem! É boa! Trabalhara
que nem besta de carga para no fim de contas ganhar o quê?
Um pingue lugar de amanuense? Um miserável emprego que se
anda oferecendo aí a qualquer vagabundo? Decididamente não
o pilhavam mais para a canga... Estava experimentado, meus senhores,
experimentadíssimo.
E agora, com efeito, ninguém o via mais nas redações,
entre os jornalistas da terra, a esbravejar contra os adversários,
nem nos cafés, quanto mais em dia de eleição,
sentado, como dantes, na sua cadeira de mesário, carrancudo,
circunspecto, a contar votos, a lavrar atas. Estava outro homem,
completamente outro: amigo de casa, vivendo para si, com poucas
amizades, metódico, econômico, às voltas com
a sua atrabílis crônica, sem ambições,
sem dívidas.
A sua grande paixão, o seu fraco era a Maria do Carmo, a
menina de seus olhos, a afilhadinha; queria um bem extraordinário
à rapariga e tratava-a com um carinho lânguido de amante
apaixonado no supremo grau do amor incondicional. Criara-a desde
pequena, era como se fosse pai, tinha direitos sobre ela; podia
mesmo beijá-la - sem malícia, já se deixa ver
- nas faces, na testa, nos braços e até, por que não?
na boca.
Às vezes, quando Maria voltava da Escola Normal, ele mandava-a
sentar-se na rede, a seu lado. A pequena guardava os livros e lá
ia, sem fazer beiço, deitar-se com o padrinho, amarfanhando
o rico vestidinho de cretone passado a ferro pela manhã.
Obedecia-lhe cegamente, nunca lhe dissera uma palavra áspera;
ao contrário, - eram carinhos, cafunés no alto da
cabeça, cócegas, histórias de alma do outro
mundo e gracinhas para ele rir... Tinha sempre um sorriso fresco
e luminoso para "o seu padrinho". E João da Mata
sentia um bem-estar incomparável, uma delícia, um
gozo inefável ante aquele esplêndido tipo de cearense
morena, olhos cor de azeitona onde boiava uma névoa de ingenuidade,
cabelos compridos descendo até a altura dos quadris, desmanchando-se
em ondas de seda finíssima... Quantas vezes, quantas! punha-se,
por trás dos grandes óculos escuros, a olhá-la
como um pateta, sem que ela sequer percebesse a fixidez de seu olhar
cheio de desejo!
Maria estava-se pondo moça, entrava nos seus quinze anos,
e o padrinho a adorá-la cada vez mais!
João começou a enquizilar-se com as freqüentes
visitas do Zuza. Por fim notara certas tendências do estudante
para a pequena, certo quebrar de olhos, uma como insistência
atrevida em dizer as coisas por metáforas... Isso o incomodava,
punha-lhe pruridos na calva, enraivecia-o. Quanto ao Loureiro não
havia risco, o guarda-livros estava para casar com a Campelinho,
era um rapaz sério. Mas o senhor Zuza?... Ali andava namoro,
apostava. Tinha idéia de ter lido na Província uns
versos dedicados a M. C. e assinados por Z.*** Naquela noite, sobretudo,
pareceu-lhe ver o mariola passar uma carta, um papel a Maria. Boas!
Era preciso pôr um termo ao descaramento, sob pena de ele,
João, desmoralizar-se no conceito da gente séria.
Lá por ser filho do Sr. coronel não fosse pensar que
faria o que entendesse. Alto lá! Tudo, menos patifaria dentro
de sua casa.
E, enquanto ia enchendo os cartões automaticamente sem olhar
para os números, pensava em Maria do Carmo, mordendo com
desespero as guias do bigodaço.
Quando o Zuza, todo gabola e amaneirado, vermelho do calor da luz,
gritou - víspora! numa voz triunfante e clara, João
esteve quase atirando-lhe com o cartão. Vieram-lhe desejos
imoderados de estourar, de dar escândalo, trêmulo, nervoso,
a semicalva reluzente de suor.
- Sim senhor, disse secamente devolvendo o cartão. Vamos
à última...
E o jogo continuou. Fez-se novo silêncio. Agora era o Zuza,
o futuro bacharel que cantava pausadamente, tirando as pedras com
a ponta dos dedos e colocando-as devagar, cauteloso.
Davam nove horas na Sé quando todos se ergueram. A Campelinho
suplicou mais uma partida, o Loureiro também foi de opinião
que se jogasse ainda uma vez, todos, enfim, desejavam con- tinuar,
mas João da Mata opôs-se tenazmente: que era tarde,
tinha muito que escrever.
- Uma só, meu padrinho, rogou Maria do Carmo tomando-lhe
as duas mãos e fitando-o com os seus magníficos olhos
cor de azeitona.
O amanuense estremeceu. Agora era a própria afilhada, a Sra.
D. Maria do Carmo que lhe pedia com um sorriso extraordinário
que jogassem! E na sua imaginação acentuava-se a suspeita
do namoro com o estudante.
Curvou-se e proferiu um palavrão ao ouvido da rapariga. Estava
desesperado, não se continha.
- Não senhora, por hoje basta de víspora!
Todos admiraram a súbita mudança na sua fisionomia
a princípio tão alegre.
A mulher do Dr. Mendes, muito afetada, acotovelou o marido e despediu-se
"até a primeira vista".
Zuza foi o último a retirar-se, fitando em Maria um olhar
embebido de ternura.
A noite estava muito escura e calma. As estrelas tinham um brilho
particular, altas, minúsculas como cabeças de alfinetes
em papel de seda escuro. Ouvia-se distintamente, como por um tubo
acústico, a toada dos soldados rezando à Virgem da
Conceição, no quartel de linha e o marulhar da praia,
distante. A rua do Trilho, deserta, com a sua iluminação
incompleta, naqueles confins da cidade, parecia um túnel
subterrâneo. Fazia medo transitar ali a desoras.
Assim que se foram os habitués do víspora, João
da Mata desabafou: - "Uma patifaria! O Sr. Zuza pretendia sem
dúvida abusar da sua confiança, plantar a desordem
no seio da família, mas estava muito enganado. Ali era casa
de gente pobre e honesta. Estava muito enganadinho, seu pelintra!"
- Mas eu sei quem é a culpada, acrescentou furioso, a culpada
é a Sra. D. Maria do Carmo, porque se atreve a olhar para
ele!
Aquilo não podia continuar, o Sr. Zuza não lhe punha
mais os pés em casa sob pretexto algum. Não se portava
sério? Pois então - fora! pra rua!
Estavam fazendo de sua casa um alcouce! A Sra. D. Lídia vinha
namorar o outro às suas barbas; já uma vez caíra-lhe
porta dentro uma imundície de carta anônima denunciando
certos abusos...
E colérico, soprando o bigode, sacudindo os braços,
esmurrando a mesa, berrava, com os olhos na alcova onde sumira-se
D. Terezinha.
Maria desaparecera pelo corredor e chorava debruçada sobre
a mesa de jantar, onde ardia uma vela de carnaúba.
- Que sujeito! gania o amanuense. Pensa ele que não tem mais
do que enfronhar-se num fato de casimira clara, com uma flor no
peito, com modos de safardana, e zás! plantar-se na pequena,
mas está muito enganado! Aqui estou eu (e batia com força
no peito ossudo) para impedir escândalos em minha casa!
Debalde D. Terezinha aconselhava, aflita, que não desse escândalo,
que fosse dormir - "As paredes têm ouvidos, dizia ela
dentro da alcova. O moço era filho de gente graúda,
e ele, Janjão, um simples empregado público. Tivesse
modos. Se houvesse má intenção por parte do
Zuza, ela, Teté, seria a primeira a não consentir
que ele pisasse o chão de sua casa. Mas, não senhor,
a gente deve pensar antes de fazer as coisas. Pra que todo aquele
espalhafato, por que semelhante barulho?"
João da Mata, porém, estava fora de si, tinha a cabeça
a arder como uma brasa. Seu temperamento excessivamente irritável
expandia-se com desespero ao mesmo tempo que seu coração
de homem gasto sentia pela primeira vez um quer que era, uma agonia,
uma sufocação ante a possibilidade de um namoro entre
o estudante e a afilhada. Não era precisamente receio de
que o Zuza pudesse iludir a rapariga desonrando-a e atirando-a por
aí ao desprezo; era como revolta do instinto, uma espécie
de egoísmo animal que o torturava, acendendo-lhe todas as
cóleras, dominando-o, como se Maria fosse propriedade sua,
exclusivamente sua por direito inalienável. Via-a caída
pelo acadêmico, toda voltada para ele, amando-o talvez, preferindo-o
a todos os outros homens, entregando-se-lhe. E o que seria dele,
João, depois? Nem mais uma beijoca na boquinha rubra e pequenina,
nem mais um abraço ao voltar da escola, cansadinha, o rosto
afogueado pelo calor; nem mais uns cafunés, nem um sorriso
daqueles que ela sempre tinha para o padrinho... Isto é que
o desesperava!
Desde a saída de Maria do colégio das Irmãs
de Caridade tinha se operado uma mudança admirável
nos hábitos de João da Mata. Ela já não
era para ele como uma filha; estava quase moça, incomparavelmente
mais bonita e fornida de carnes. Já não era, que esperança!
aquela Maria do Carmo da Imaculada Conceição, toda
santidade, magrinha, com uma cor esbranquiçada e mórbida
de cera velha, o olhar macilento, a falar sempre no padre Reitor
e na Superiora e na Irmã Filomena e noutras pieguices. Uma
tontinha a Maria naquele tempo. Quando ia passar o domingo em casa,
uma vez no mês, metia-se para os fundos do quintal ou pelas
camarinhas, muito calada, muito sonsa, a ler a Imitação;
não chegava à janela, não aparecia às
visitas, doida por voltar ao colégio. Aquilo punha o padrinho
de mau humor. Uma coisa assim fazia até vergonha a ele, que
detestava tudo quanto cheirasse a sacristia. Porque João
da Mata dizia-se pensador livre; não acreditava em santos,
e maldizia os padres. Jesus, na sua opinião, era uma espécie
de mito, uma como legenda mística sem utilidade prática.
Isso de colégios internos à guisa de conventos não
se acomodava com o seu temperamento. Também fora professor,
olé! e sabia muito bem o que isso era - "um coito de
patifarias". Queria a educação como nos colégios
da Europa, segundo vira em certo pedagogista, onde as meninas desenvolvem-se
física e moralmente como a rapaziada de calças, com
uma rapidez admirável, tornando-se por fim excelentes mães
de família, perfeitas donas-de-casa, sem a intervenção
inquisitorial da Irmã de Caridade. Não compreendia
(tacanhez de espírito embora) como pudesse instruir-se na
prática indispensável da vida social uma criatura
educada a toques de sineta, no silêncio e na sensaboria de
uma casa conventual, entre paredes sombrias, com quadros alegóricos
das almas do purgatório e das penas do inferno; com o mais
lamentável desprezo de todas as prescrições
higiênicas, sem ar nem luz, rezando noite e dia - ora pro
nobis, ora pro nobis... Era da opinião do José Pereira
da Província: Irmãs de Caridade foram feitas para
hospitais. O diabo é que no Ceará não havia
colégios sérios. A instrução pública
estava reduzida a meia dúzia de conventilhos: uma calamidade
pior que a seca. O menino ou menina saía da escola sabendo
menos que dantes e mais instruído em hábitos vergonhosos.
As melhores famílias sacudiam as filhas na Imaculada Conceição
como único recurso para não vê-las completamente
ignorantes e pervertidas. Afinal, para não contrariar o Mendonça
que queria a filha para santa, metera Maria do Carmo no "convento".
D. Terezinha participava das mesmas idéias do Janjão:
Uma menina inteligente como Maria devia educar-se no Rio de Janeiro
ou num colégio particular, mas um colégio onde ela
pudesse aprender o "traquejo social". Pode ser que as
Irmãs sejam umas mulheres virtuosíssimas e castas,
mas filha sua não punha os pés em colégio de
freiras...
João da Mata detestava a padraria. Dava-se apenas com um
padre, o cônego Feitosa, porque, dizia ele, era um sacerdote
sem hipocrisia, um padre como ele entendia que deviam ser todos
os padres: asseado, inimigo da batina, com afilhadas em casa...
E por que não? Os padres são fisicamente (e sublinhava
a palavra), anatomicamente, fisiologicamente homens como os outros:
têm coração, órgãos sexuais, nervos
como os outros homens. Portanto, assiste-lhes o mesmíssimo
direito de procriação, direito natural e até
consagrado pela Escritura. O contrário é contrafazer
a natureza humana que, afinal, não obedece a preceitos de
castidade. Daí, concluía João, daí o
desregramento das classes religiosas condenadas a eterno celibato.
O próprio Cristo dissera numa parábola cheia de senso
e de experiência: "Crescei e multiplicai-vos."
"Por amor de Deus" não lhe falassem em padres.
A educação moderna, a educação livre,
sem intervenção da batina - eis o que ele queria e
apregoava alto e bom som.
Havia meses que Maria do Carmo cursava a Escola Normal. Sua vida
traduzia-se em ler romances que pedia emprestados a Lídia,
toda preocupada com bailes, passeios, modas e tutti quanti... Ia
à Escola todos os dias vestidinha com simplicidade, muito
limpa, mangas curtas evidenciando o meio-braço moreno e roliço,
em cabelo, o guarda-sol de seda na mão, por ali afora - toque,
toque, toque - até à praça do Patrocínio,
como uma grande senhora independente.
Agora, sim, pensava o amanuense, Maria estava uma mocetona digna
de figurar em qualquer salão aristocrático.
A fama da normalista encheu depressa toda a capital. Não
se compreendia como uma simples retirante saída há
pouco das Irmãs de Caridade fosse tão bem-feita de
corpo, tão desenvolta e insinuante. As outras normalistas
tinham-lhe inveja e faziam-lhe pirraças. Nas reuniões
do Club Iracema era ela a preferida dos rapazes, todos a procuravam.
João da Mata inflava. Certo não a entregaria por preço
algum a qualquer rapazola como o filho do coronel Souza Nunes.
Entretanto, o Zuza era um rapaz da moda. Montava a cavalo, fazia
versos, assinava a Gazeta Jurídica, freqüentava o palácio
do presidente...
João conhecera-o uma noite no baile do Dr. Castro. Havia
meses que se achava em Fortaleza estudando o quinto ano de direito
e gozando a sua fama de rapaz rico. Às seis horas da tarde
já lá estava ele, no Trilho, em casa do amanuense,
queixando-se da monotonia da vida cearense e gabando, com ares de
fidalgo, a capital de Pernambuco. Ali, sim, a gente pode viver,
pode gozar. Muito progresso, muito divertimento: corridas de cavalos,
uma sociedade papa-fina muitíssimo bem-educada, magníficos
arrabaldes, certo bom gosto nas toaletes, nos costumes, certas comodidades
que ainda não havia no Ceará...
- Ao que parece o Sr. Zuza não gosta do Ceará... disse-lhe
um dia D. Terezinha.
- Absolutamente não, minha senhora. Sou meio exigente em
matéria de civilização; isto me parece ainda
uma terra de bugres...
- De bugres?!
- ...Sim, uma terra em que só se fala nas secas e no preço
da carne verde. V. Exª compreende, não pode corresponder
à expectativa de um rapaz de certa ordem, por assim dizer
educado na Veneza Americana...
- Deste modo o Sr. Zuza ofende os seus conterrâneos, os seus
parentes...
- Absolutamente não.
O que dizia é que o Recife está num plano muito superior
a Fortaleza. Apenas estabelecia um paralelo.
João da Mata achava-o pedante, desequilibrado, tolo. - "Não,
o Sr. Zuza não lhe punha mais os pés em casa por forma
alguma!" bradava naquela noite.
Maria continuava a chorar lá dentro, na sala de jantar, inconsolável,
triste, com um grande desgosto na alma. De repente ouviu a voz do
padrinho que a chamava. Ergueu-se com um movimento brusco e rápido,
o lenço nos olhos, soluçando devagar.
João quis saber onde estava "a carta que o Zuza lhe
havia entregue". Botasse-a pra ali, já!
Trêmula, abafando a cólera que lhe oprimia a respiração,
Maria não podia falar.
- Vamos, vamos!
- Não tenho carta alguma, disse num acento doloroso.
João da Mata sentiu atear-se-lhe o fogo da concupiscência.
Teve ímpetos de tomar entre as mãos a cabeça
da afilhada e beijá-la, beijá-la sofregamente, com
a fúria de um selvagem, no pescoço, na boca, nos olhos...
ímpetos de beijá-la toda inteira, como um doido. Maria
dominava-o, fazia-lhe perder a tramontana.
- Então aquele bandido não lhe entregou uma carta
por debaixo da mesa, no víspora? Entregou, sim senhora, dê-ma!
- Não senhor, não me entregou coisa alguma, tornou
a normalista, sem levantar a cabeça fungando.
Estavam em frente um do outro, ao pé da mesa. As portas da
sala já se tinham fechado; ele com o paletó aberto
mostrando a camisa de meia cor de carne, o olhar fixo em Maria;
ela com o seu vestidinho claro de chita, cabelos penteados numa
trança, acaçapada, submissa ante a cólera rude
do padrinho.
- Pois bem, concluiu este moderando a voz. Tome sentido: vossemecê
não me aparece mais àquele cabrocha, está ouvindo?
E depois duma pausa, com ternura:
- Vá dormir, ande...
Soprou o gás e foi deitar-se com a mulher, na alcova.
- Pois não achas, Teté, dizia ele em camisa de dormir,
aconchegado à D. Terezinha, na larga cama de jacarandá:
não achas que é um desaforo aquele patife vir à
nossa casa para namorar?
- Não, que tolice! O Zuza até é um rapaz sério...
Vem, coitado, porque nos estima...
- É boa! - fez João. Então vem porque nos estima,
hein? Esta cá me fica, Sra. D. Teté, esta cá
me fica!
- Homem, trate das suas hemorróidas que é melhor...
- Ora, sabe que mais? Você é outra!
E deram-se as costas fazendo ranger a cama.
Com pouco ambos roncavam no discreto silêncio da alcova.
Sobre a cômoda, ao pé do oratório, ardia uma
lamparina de azeite.
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