A
Normalista
Adolfo Caminha
CAPÍTULO IX
Foi num sábado, à noite, que se realizou cerimoniosamente,
com toda a pompa de uma festa de província, o casamento da
Lídia com o guarda-livros, na Igreja de N. S. do Patrocínio.
Às sete horas parou à porta da viúva Campelo
um carro e saltou o Loureiro todo de preto, gravata branca, o cabelo
lustroso, repartido ao meio em trunfas, empunhando o seu famoso
claque. Estava glorioso dentro da sua casaca de pano fino mandada
fazer especialmente para o ato.
Que festa na rua do Trilho!
No quarteirão compreendido entre a rua das Flores e a do
Senador Alencar notava-se um movimento desusado de gente que se
debruçava às janelas e parava na calçada e
nas esquinas para esperar a saída dos noivos. Uma curiosidade
flagrante estampava-se na fisionomia dos moradores que assistiam
basbaques à chegada dos carros comunicando a sua ruidosa
alegria àquele pedaço de rua habitualmente silenciosa
e sossegada.
Havia folhas tapetando o chão defronte da casa da viúva
onde reinava agora uma estranha aglomeração de pessoas
de ambos os sexos, compactas, abafadas, espremidas entre as quatro
paredes da pequena sala de visitas.
A noiva estava acabando de colocar a grinalda quando entrou o Loureiro
muito teso com um riso amável e desconfiado que lhe arrebitava
o bigode espesso. Dois sujeitos, também encasacados, de luvas,
foram recebê-lo à porta - "Chegou o homem"
anunciou uma voz, e a estas palavras cresceu o zunzum propagando-se
por ali fora entre os curiosos que se acotovelavam à porta,
na rua.
E logo toda a gente repetiu transmitindo-se a grande notícia
- "chegou o noivo!" - e todos os olhares caíram
de chofre sobre o guarda-livros transfigurado em herói de
comédia.
D. Amanda, muito azafamada, tomou-o pelo braço e conduziu-o
à sala de jantar para lhe oferecer um calicezinho de Porto.
Loureiro queixou-se do calor sacando fora as luvas, rubro, com a
testa reluzente de óleo, metido num colarinho em folha, todo
ele rescendendo opópanax. Nunca ninguém o vira tão
bem-disposto, tão lépido, com um ar ao mesmo tempo
condescendente e soberano de capitalista sem débito. - "A
noiva estava pronta?" - perguntou. E, sem esperar resposta,
começou a contar um incidente que lhe sucedera no hotel no
momento em que se vestia. Nada, uma infâmia que não
lhe atingia a sola dos sapatos. Uma carta anônima contra a
reputação da Lídia, coisas do Ceará,
coisas dessa terra...
Incomodara-se a princípio, o sangue subira-lhe à cabeça
ao ler semelhantes torpezas, mas acalmara-se logo, porque não
valia a pena a gente incomodar-se por uma carta anônima escrita
em péssima letra e, o que era mais, acrescentou convicto
o Loureiro, "sem assinatura!"
A viúva não se inquietou, atarefada, suando, muito
apertada na sua toalete de seda escarlate, os grandes seios ameaçando
romper o corpete, e uma rosa no cabelo. - Calúnias, nada
mais, observou servindo o vinho. O guarda-livros emborcou o cálice
à saúde da noiva, gabando a boa qualidade do Porto.
A pequena sala de jantar, caiadinha de novo, tinha agora outro aspecto
mais asseado e alegre, sem manchas de gordura nas paredes amareladas
como dantes, com vasos de flores no aparador, iluminada a vela de
espermacete. Sobre a mesa do centro, coberta com um pano novo de
riscadinho encarnado, pousavam duas lanternas antigas em forma de
sino, jarros, pratos com bolos e garrafas intactas dispostas em
simetria. O chão de tijolo ainda estava meio úmido
da baldeação que se fizera na véspera. De resto
os mesmos móveis de costume: um lavatório de ferro
com espelho defronte do corredor, a mesa de jantar, o aparador de
nogueira e o guarda-louça, uma velha peça que fora
do tempo do marido de D. Amanda.
A verdadeira casa do Loureiro, o ninho em que ele ia passar a lua-de-mel
com a Lídia era no Benfica, uma casinha também de
porta e janela, mas muito fresca e alegre, nova, ainda cheirando
à tinta. Resolvera não fazer festa. Um "copito"
de vinho aos amigos, um taco de bolo e o deixassem em paz com a
sua "querida". Tinha feito muitas despesas com o casamento.
Da igreja iria diretamente "para a chácara" onde
ficava à disposição dos amigos. Isso de pândega
em noite de núpcias não era próprio, achava
uma formidável maçada. Demais não era nenhum
milionário para não contar o dinheiro que gastava.
Uma miniatura, a casinha de Benfica, um sonho de poeta lírico,
assobradada, com a sua fachada azul ainda fresca, recebendo em cheio
até o meio-dia toda a luz do nascente. Logo à entrada
havia uma escadinha de três degraus, de onde se via, lá
dentro, nitidamente, como por um cristal muito límpido, a
sala de jantar e as bananeiras do quintalejo, de um verde tenro...
Sala de visitas, alcova, comunicando com um quarto, casa de jantar,
varanda, despensa, quarto para criado, cozinha e quintal, tudo asseado
e confortável, com uns tons aristocráticos matizando
a compostura graciosa dos móveis, papel claro nas paredes
e lustre na sala de visitas.
Concluídas as obras da casa, o trabalho de renovação,
Loureiro dera-se pressa em mobiliá-la a seu jeito, conforme
as suas posses e os seus hábitos de empregado zeloso e metódico.
Não pedira conselhos a ninguém: escolhera ele mesmo
os móveis e os objetos decorativos, tudo novo e lustroso,
como se tivesse saído da fábrica naquele instante.
Mandara vir dos Estados Unidos, por intermédio da Casa Confúcio,
um piano americano e uma máquina de costura. E, uma vez tudo
pronto, tudo no seu lugar, passou uma revista geral na casa, desde
a sala de visitas até o fundo do quintal, admirando com a
alma cheia de satisfação a espécie de paraíso
que ele próprio criara para si.
- "Sim, senhor, tinha cumprido rigorosamente o seu dever. Estava
tudo que nem um brinco! Agora, sim, podia casar."
Lídia pasmou diante daquele novo mundo que se lhe oferecia
à vista. Nunca pensara que o guarda-livros soubesse preparar
uma casa com tanta graça. Pela primeira vez na sua vida o
Loureiro revelara-se um homem moderno e civilizado. Estava encantada!
Já agora não invejava a sorte de Maria do Carmo: o
Loureiro podia competir com o Zuza em bom gosto! Quem diria? Supunha
o guarda-livros mais tolo, mais ignorante e sensaborão. Agora
estava convencida de que o seu homem era capaz de fazer figura em
qualquer sociedade. Percorreu todos os aposentos, revistando os
móveis, admirando a qualidade fina dos objetos, com exclamações
de íntima alegria. Sentou-se ao piano e ensaiou uma escala,
achando-o excelente.
- Esplêndido, hein, mamãe? Melhor que o das Cabrais!
Mirou-se ao espelho, numa peça magnífica, de cristal,
que o guarda-livros comprara num leilão particular por um
preço exorbitante. Subia de ponto a satisfação
da rapariga. Esteve quase se atirando ao pescoço do noivo
e beijando-o agradecida; conteve-se, porém. A viúva,
essa acompanhava a filha, embasbacada, dando graças a Deus
por ter encontrado semelhante genro - "Olha isto, menina, olha,
aquilo!" dizia, muito gorda, chamando a atenção
da Lídia.
Da sala de visitas passaram à alcova. O guarda-livros guiava-as,
na frente, explicando os menores detalhes, a procedência dos
objetos, o seu valor. - "Oh! a cama!", saltou a Lídia,
sentando-se no belo leito de ferro azul com esmaltes de ouro, armado
à inglesa em forma de dossel."
Achava muito elegante as camas que se estavam usando. Experimentou
o enxergão de arame calcando-o com o corpo. Magnífico!
A viúva também se sentou um instantinho, e continuaram
a visita.
Era quase noite quando se retiraram.
Agora, uma semana depois, num sábado, toda a gente falava
no casamento da Campelinho como de um acontecimento extraordinário.
A Campelinho, hein? Quem diria!... Uma felizarda! E todos comentavam
o fato com ruído, recapitulando a vida inteira da viúva
e da filha, lembrando episódios, cochichando malícias,
prognosticando o futuro da rapariga, admirando a boa fé do
Loureiro. Coitado, ele talvez ignorasse mesmo certos pormenores
da vida da Lídia...
Daí quem sabia? talvez fossem muito felizes. Conheciam-se
moças malcomportadas que, depois, casando-se, tinham-se tornado
verdadeiras mães de família.
O Guedes, da Matraca, esse logo às seis horas começou
a beber no Zé Gato mais o Perneta, vomitando todo o seu despeito
contra a Lídia que ele cobria de impropérios aguardentados.
Debalde, o Perneta procurava acalmá-lo, o Guedes estava fora
de si, com os olhos ensangüentados, esbravejando como uma fera.
- Deixa-te disto, ó Guedes, aconselhava o Perneta. Olha que
te podem ouvir, homem!
- Que ouçam, que ouçam, cambada de infames!
E batendo no peito orgulhoso:
- Esse aqui beijou muito aquela tipa, sabes? Não preciso
dela para coisíssima alguma, estás ouvindo? Aquilo
é uma sem-vergonha muito grande, aquela fêmea!
- Cala a boca, menino...
- Cala a boca, por quê? Pensa você que tenho medo de
caretas? Hei-de dizer o que eu muito bem quiser, fique você
sabendo!
- Quem te diz o contrário, homem de Deus? O que não
é bonito é estares aí a dizer asneiras.
De vez em quando aproximava-se o Zé Gato e suplicava que
não falassem tão alto, que na rua se estava ouvindo.
Mas o Guedes não atendia a coisa alguma, com o pensamento
na Lídia, transbordando cólera, possesso.
Escureceu e ele ainda lá estava no fundo da bodega esvaziando
cálices de aguardente, a falar desesperadamente.
Às sete horas dois foguetes queimados defronte da casa da
viúva Campelo, no Trilho, deram sinal de que os noivos iam
sair. Com efeito, daí a pouco surgiu na calçada Campelinho,
caracterizada em noiva, afogada em seda branca, com uma auréola
de imortalidade, cabisbaixa, pisando devagar, de braço com
a firma Carvalho & Cia.
E àquela aparição levantou-se um rumor em todo
o quarteirão. "Já vem, já vem!" era
a voz geral.
Logo após vinha o Loureiro com a viúva, em seguida
Maria do Carmo e um rapaz empregado no comércio, D. Terezinha,
o Castrinho, e outras pessoas de mais ou menos intimidade, duas
a duas.
O cortejo desfilou a pé, ante a curiosidade indiscreta da
vizinhança que se debruçava nas janelas para ver melhor
a noiva - "Como aquilo ia orgulhosa!" disse a Justina
Proença, uma paraense equívoca, vizinha de João
da Mata. - Tão besta é um quanto o outro - murmurou
a mulher do barbeiro com um muxoxo.
Moleques com tabuleiros de doces na cabeça acompanhavam o
préstito.
De repente houve um fecha-fecha na esquina onde iam dobrar os noivos.
Que é? Que foi? Recomeçou o zunzum mais forte, como
um zumbido de abelhas num cortiço e os boatos circularam
vertiginosamente. Toda a gente queria saber o que era, o que tinha
sucedido. A verdade é que ao aproximar-se o "casamento"
da venda do Zé Gato, saltou de dentro o Guedes, bêbedo
como uma cabra, espumando, sem chapéu e pôs-se no meio
da rua a vociferar obscenidades contra a Campelinho mais o guarda-livros.
Um escândalo. Soaram apitos; compareceram guardas de polícia;
o Zé Gato saiu à rua para acalmar o borracho; foi
alterada a ordem do préstito; a Lídia ficou muito
branca debaixo do véu e ia tendo uma síncope; o Loureiro
quis avançar contra o desordeiro, mais foi detido por João
da Mata...
Afinal de contas, depois de alguns segundos, fez-se a ordem e o
"casamento" seguiu em paz, direito à igreja do
Patrocínio.
O Guedes forcejava por evadir-se dos braços do Zé
Gato e do outro sujeito, que procuravam conduzi-lo à venda.
- Sou eu quem te pede, ó Guedes, vamos. Deixa de tolices
rapaz; estás dando escândalo, homem!
- Não vou, porque não quero, está ouvindo?
Não vou, porque não quero. Eu hoje faço o diabo!
E agachava-se, e caía para trás e tombava para os
lados, sem gravata, os olhos esbugalhados, os cabelos em desordem,
como um doido. Foi uma luta para acalmá-lo.
Por fim o Zé Gato mandou vir uma xícara de café
sem açúcar, deu-lhe a cheirar limão, e, em
pouco, o redator da Matraca dormia beatificamente, debruçado
sobre a mesa de ferro onde eram servidas as bebidas.
- Coitado! lamentou o vendeiro. Um talento famoso! É um segundo
tomo de Barbosa de Freitas...
Cerca de uma hora depois voltaram os noivos com o seu bizarro cortejo
de amigos e amigas, mas agora vinham os dois na frente abrindo caminho,
conversando baixinho, com um belo ar de velha familiaridade. Nas
fileiras do préstito havia um rumor de franca liberdade.
Falava-se um pouco alto, ouviam-se risadinhas gostosas, tinha-se
perdido a cerimônia grave de momentos antes. A volta não
se parecia com a ida. A alegria dos noivos comunicava-se instintivamente
aos circunstantes como se na verdade estes compartilhassem da íntima
felicidade daqueles.
Outra vez a casinhola da viúva encheu-se que nem um ovo.
No meio dos convidados havia estranhos que invadiam a sala sem cerimônia,
imiscuindo-se no tumulto de gente como se fossem amigos velhos,
de paletó-saco e gravatas de cores espaventosas.
Ninguém os conhecia, mas ninguém ousava despedi-los,
deixando-os ficar, por uma condescendência razoável.
Curiosos de ambos os sexos se debruçavam da parte de fora
da janela para dentro, espremidos uns contra os outros.
Os noivos tinham-se sentado no sofá, defronte da janela,
aconchegados, prelibando as delícias do matrimônio
na casinha de Benfica.
Loureiro limpava devagar com o lenço rescendendo opópanax
o suor que lhe corria em gotas da testa, encarando com supremo orgulho
a curiosidade pulha dos circunstantes.
Pousava os pés sobre o tapete deixando ver as meias de seda
cor de carne com pintas de ouro.
Lídia estava divina com a sua suntuosa "toalete"
de noiva comprimindo-lhe os quadris rijos e carnudos, muito séria,
o rosto afogueado.
O guarda-livros contemplava-a de instante a instante com um profundo
olhar apaixonado, de dono que acaricia um objeto querido, sentindo-se
mais do que nunca irresistivelmente atraído pela formosura
sensual da Campelinho.
D. Amanda, sempre muito solícita, veio convidá-los
para a ceia: que estava pronto o chá, e logo toda a gente
enfiou pelo corredor atrás dos noivos sequiosa de cerveja
e vinho do Porto.
Um rubor de ocasião solene tomou as faces do Castrinho disposto
já a brindar os noivos num grande rasgo de eloqüência
demostênica.
A saleta de jantar resplandecia à luz dos dois castiçais
de vidro com mangas em forma de sino, colocados nas extremidades
da mesa. A um canto, sobre uma mesinha de pinho, uma bateria de
garrafas de cerveja desafiava a ganância dos convidados. Houve
um assalto à mesa. Todos acercaram-se dela com a avidez de
gastrônomos, e, antes que os noivos tomassem assento à
cabeceira, já havia alguém sentado no extremo oposto.
O Castrinho não pôde reprimir um - oh! de indignação,
que felizmente passou despercebido. "- Sentem-se, sentem-se",
ordenava a viúva, inquieta como uma barata à volta
da mesa, indicando as cadeiras. Todos se sentaram com ruído,
acotovelando-se. Ao lado dos noivos os padrinhos, Carvalho &
Cia e a esposa tinham o ar modesto de quem se vê cercado de
honras imerecidas. O Castrinho, que não faltava a festa alguma
dessa ordem, sentou-se ao centro com uma comoção visível
no olhar agitado.
Os curiosos da rua tinham invadido o corredor e assistiam em pé,
ao redor da mesa, àquela cena banal, de doze pessoas que
comiam bolo à guisa de pirão de farinha; ao todo eram
quatorze, mas o Loureiro e a Lídia, por um escrúpulo
mal-entendido, apenas provaram o delicioso manjar e cruzaram o talher.
O Castrinho não se fez demorar muito. Quando menos se esperava,
ei-lo de pé empunhando o cálice.
- Silêncio, silêncio! advertiu uma voz.
O poeta das Flores Agrestes pigarreou solenemente abrangendo com
um olhar vitorioso toda a saleta, e enfiando a mão direita
no bolso da calça, com um grande ar de tribuno acostumado
a falar às massas, começou:
- Meus senhores e minhas senhoras.
Fez-se um silêncio grave e recolhido, em que destacava apenas,
muito de leve, o ruído dos talheres que continuaram a funcionar
ativamente.
- Eu faltaria ao mais sagrado dos deveres...
Uma voz: - Não apoiado.
- ...Se neste momento solene, em que toda a natureza veste-se de
galas para receber em seu vastíssimo seio os noivos presentes...
eu, o mais humilde amigo desta casa...
- Não apoiado...
- ...Não erguesse a minha fraca voz para... para saudar...
para saudar o himeneu destas duas criaturas (apontando para os noivos)
nascidas "no mesmo galho, da mesma gota de orvalho"...
como diria o nosso Casimiro de Abreu...
- Bravo! murmurou o mesmo apartista dos não apoiado numa
voz cava, com a boca cheia.
O orador, visivelmente inquieto, sem tirar a mão de dentro
do bolso, endireitou a gravata com pancadinhas suaves, e, mergulhando
o olhar na fruteira, continuou:
- Sim, meus senhores... e minhas senhoras, o casamento é
a base de toda sociedade civilizada; o casamento, como dizia certo
escritor, cujo nome não vem ao caso citar... o casamento
é a mais nobre de todas as instituições, e
o homem que se casa dá um passo para o infinito, isto é,
para Deus!...
Uma salva de palmas cobriu as palavras do Castrinho, que agradeceu
comovido. No peito de sua camisa, muito alva e lustrosa, reluzia
uma pedra duvidosa.
Crescia a animação da festa. Os talheres batiam nos
pratos com mais força e as palavras do liceísta comunicavam
ao auditório certo entusiasmo sereno que se traduzia em apetite
voraz e insaciável secura nas gargantas. Ouviam-se trabalharem
as mandíbulas.
Houve uma pausa depois da qual o Castrinho, tomando o cálice
cheio, concluiu com ênfase:
- ...Portanto, eu brindo ao ditoso par, desejando-lhe um futuro
de rosas banhado pelos eflúvios do amor conjugal...
E, escorropichando o cálice:
- Aos noivos!
- Hip, hip, hurra!
Todos se levantaram.
- Loureiro...
- D. Lídia...
- Sr. Castro não quer se servir de um pedacinho de bolo de
mandioca? ofereceu a viúva por trás do poeta.
- Agradecido, minha senhora, agradecido... Estou satisfeito.
- Então, mais um pouco de vinho...
Aceitava, pois não.
- Não façam cerimônia, minha gente, observou
D. Amanda. Já acabou, Sr. João da Mata? Um pinguinho
de doce de caju, Sr. Alferes... E você, menina, coma sem cerimônia.
Maria do Carmo não podia disfarçar a tristeza, a ponta
de inveja concentrada que lhe tomava de assalto a alma inteira.
Sentara-se à mesa por civilidade, para corresponder aos reclamos
da viúva, mas o seu único desejo era ir-se embora
para casa; a festa da amiga fazia-lhe mal aos nervos, e, demais,
o Zuza proibia-lhe de ir a qualquer parte onde ele não estivesse.
Fora ao casamento da Lídia, porque o padrinho a obrigara,
não por sua espontaneidade. E agora ali estava casmurra,
silenciosa, com um arzinho recolhido de filha de Maria, vendo sem
ver, ouvindo sem ouvir as pessoas e os ruídos, numa abstração
infinita, no meio de toda aquela gente que festejava o casamento
da amiga. Agora, mais do que nunca, por um excesso de sensibilidade
nervosa, doía-lhe no coração de pomba desolada
não poder, como a Lídia e como outras tantas raparigas
felizes, amar livremente, sem ter que obedecer aos caprichos de
um padrinho atrabiliário e despótico como João
da Mata. Enquanto os outros divertiam-se sorvendo cálices
de vinho, saudando aos noivos, ela, toda entregue a seus pensamentos,
permanecia muda e bisonha como quando pela primeira vez apresentara-se
à sociedade, logo ao chegar de Campo Alegre, menina ainda,
matutinha. Ah! naquele tempo ela tinha o seu papai e a sua mamãe
perto de si, não era como agora, anos depois, uma simples,
uma pobre, uma desprezada órfã, assistindo com uma
grande tristeza egoísta derramada nalma à felicidade
alheia triunfante...
- Atenção, meus senhores! Atenção!
Desta vez ia falar o alferes Coutinho, quartel-mestre do batalhão,
um moreno, de costeletas, cabelo penteado em pastinhas, certo ar
arrogante de pelintra acostumado a todas as festas desde os sambas
do Outeiro, aos bailes do Clube Iracema; magricela, olhos cavados.
Nas horas de ócio dava-se ao luxo de fabricar sonetos no
gênero piegas dos últimos trovadores de salão.
Arrastava ao piano as valsas em moda e dizia-se exímio tocador
de flauta.
Convidado a toda parte, não perdia ocasião de exibir-se
na poesia ou na música. Tinha fama de primeiro recitador
do Ceará, ninguém como ele sabia marcar uma quadrilha,
todo enfezado, sempre de lenço na mão, metido invariavelmente
na sua farda de alferes com colete branco.
Houve um silêncio profundo. Todas as vistas caíram
de chofre sobre o militar como se de sua boca fossem sair preciosas
revelações.
Era o alferes Coutinho? Oh! magnífico! Psiu!... psiu!...
Silêncio!...
- Meus senhores. Respeitabilíssimas senhoras... Não
dispondo de dotes oratórios, tão úteis nas
ocasiões solenes como esta, eu, que tenho a honra de pertencer
à falange dos discípulos de Castro Alves, Casimiro
de Abreu, Varela e tantos outros astros de primeira grandeza, que
brilham no firmamento da poesia brasileira, eu vou ler uns versos
de minha lavra, que tomei a liberdade de dedicar aos donos desta
festa inolvidável...
Nem um aparte. O mesmo silêncio cauteloso e recolhido. A noiva
abaixou a cabeça afetando modéstia e Loureiro fixou
o olhar atrevidamente no orador. Mas o Coutinho, calmo e desembaraçado,
sacou do bolso da farda um papel, e lendo:
- Noite de Núpcias é o título dos pobres versos...
- Não apoiado...
- ... que tenho a honra de oferecer à Exa. Sra. D. Lídia,
uma das estrelas mais fulgurantes que ornam o céu da sociedade
cearense...
Lídia estremeceu com um belo sorriso de agradecimento.
- ... e ao Sr. Dias Loureiro, inteligente e zeloso guarda-livros
da nossa praça, ambos, portanto, dignos um do outro e da
nossa eterna amizade...
- Apoiadíssimo, confirmou Carvalho & Cia., palitando
os dentes.
Sem mais preâmbulos o alferes entrou a declamar com uma convicção
admirável os tais versos de sua lavra, uma enfiada de palavrões
antigos e bolorentos, que ele procurava animar com a sua voz de
trovão, seca e cavernosa, brandindo o papel com a mão
esquerda e a direita gesticulando como se estivesse a marcar compasso
de música.
Ao terminar o último verso.
"Chovam bênçãos de amor sobre os que casam!"
Uma salva de palmas forte e prolongada ecoou na pequenina sala.
- Bravo! muito bem! muito bem!
E o poeta sentou-se agradecendo com repetidos movimentos de cabeça
às manifestações de que era alvo. Diversas
pessoas levantaram-se e foram cumprimentá-lo de perto. Um
velho calvo, que se sentava a seu lado, lembrou-se de perguntar-lhe
ao ouvido "se o Sr. Alferes era cearense".
- Não senhor, respondeu o Coutinho, voltando-se gravemente;
sou guasca, nasci na cidade de Porto Alegre.
E contou quando viera para o Ceará, disse a sua grande simpatia
por essa província e que pretendia se casar com uma cearense.
O "brinde de honra" feito em duas palavras por Carvalho
& Cia., à D. Amanda, "encarnação de
todas as virtudes domésticas, senhoras de incomparável
brandura e sisudez".
- Hip! hip! hip! hurra!
Foi um delírio esse final de banquete nupcial, em que tomavam
parte o exército representado pelo alferes Coutinho, a poesia
na pessoa do autor das Flores Agrestes e o comércio em grosso
simbolizado no ventre obeso de Carvalho & Cia. Esgotaram-se
as botelhas de vinho do Porto e de cerveja com um açodamento
de quem não bebia água há três dias e
depara uma piscina abundante do precioso líquido. E, ao levantarem-se
da mesa, os convidados olhavam com soberano desdém a toalha
manchada de nódoas de vinho sobre a qual havia uma confusão
grotesca de copos e pratos em desordem, abandonados ali como restos
de um festim sardanapalesco. Uma coisa tinha sido respeitada e conservava-se
no mesmo lugar em que fora colocada pela mão zelosa de D.
Amanda, era o paliteiro de prata representando um alcaide com chapéu
de três bicos e aspecto napoleônico, de braços
cruzados, numa imobilidade de objeto de luxo que se receia tocar
por escrúpulo.
Os espectadores intrusos evacuaram o corredor com a mesma facilidade
e ligeireza com que se tinham introduzido, e depressa a sala de
jantar ficou entregue à viúva e ao criado, que se
ocuparam de cobrir os restos dos bolos recolhendo-os ao guarda-comidas.
O troço dos comensais, homens e senhoras, enchia a sala de
visitas, cujas cadeiras estavam todas ocupadas, e palrava agora
desembaraçadamente numa atmosfera pesada de fumaça
e heliotrópio - umas abanando-se com os grandes leques de
cetim, outros com os lenços, porque o calor crescia. Transpirava-se
por todos os poros, o que fazia o alferes Coutinho trazer constantemente
o lenço no pescoço, resguardando o colarinho onde
já havia sinal de suor. A janela estava tomada por algumas
pessoas que formavam roda ao redor do Loureiro, em pé. Senhoras
entravam e saíam da alcova com o ar desconfiado, compondo
discretamente os vestidos.
Deram dez horas no relógio da Sé, cujas badaladas
faziam-se ouvir, graves e sonolentas, em todo o âmbito da
cidade.
Dez horas! Carvalho & Cia. consultou o relógio. Havia
uma pequena diferença de dez minutos. Safa! o tempo voava!
E, alto, levantando-se:
- Vamos, Quininha?
- É muito cedo ainda! acudiu a Lídia que conversava
com Maria do Carmo, no sofá.
- É verdade, minha gente! saltou D. Terezinha saindo da alcova.
Os noivos precisam descansar. Dez horas!
- Estávamos tão distraídos! disse o alferes
Coutinho puxando os punhos.
- Vamos, vamos, repetiram muitas vozes.
- É cedo, minha gente! implorava a Lídia muito amável,
com um sorriso de irresistível faceirice.
Imediatamente todos se levantaram impulsionados pela mesma idéia
à procura dos chapéus, num rebuliço crescente,
aos encontrões, enfiando pela alcova e pelo corredor.
Estrondou um bocejo senil e demorado, que se propagou por ali afora
- era o velho calvo, de óculos, que se tinha encafuado a
um canto da sala cochilando, e que despertara agora num espreguiçamento,
como se estivesse em sua própria casa.
As senhoras agasalhavam-se nos fichus, defronte do espelho.
Amanda, de um lado para outro, de dentro para fora da alcova, não
descansava as pernas.
Começaram as despedidas.
Que de beijos estalados à queima-roupa! Em pé no meio
da sala, os noivos competentemente formalizados, agradeciam reconhecidos
a chuva de felicitações que caíam sobre eles
à guisa de flores desfolhadas sobre suas cabeças,
ao mesmo tempo que Lídia ia distribuindo a uns e outros botões
de laranjeira.
Que fossem muito felizes; que tivessem uma eterna lua-de-mel; que
fossem muito unidos sempre como dois irmãos; que não
esquecessem as velhas amizades...
- Olhe, minha filha, aconselhou D. Terezinha com a mão no
ombro da Lídia, depois de a ter beijado. Olhe, seja sempre
boa para seu maridinho, faça o que ele quiser, o que ele
mandar. O homem é que faz a mulher e a mulher é que
faz o homem. Adeus, ouviu?
Todos tiveram mais ou menos o que dizer aos noivos.
- Não esqueça o que lhe pedi, ouviu Lídia?
recomendou de fora uma voz de mulher.
- Boa-noite!
- Sejam felizes!
- Durmam bem!...
Em pouco todos tinham-se retirado. Havia ainda alguns curiosos fora,
na calçada. Loureiro mandou aproximar o carro que o esperava.
A rua estava silenciosa e escura como se fosse alta noite. Defronte,
em casa de João da Mata, fecharam-se as portas apagando-se
completamente a última luz que clareava aquele trecho da
rua do Trilho.
Amanda chamou a filha à alcova onde estiveram conversando
alguns minutos, e depois, abraçando-a ternamente com os olhos
úmidos:
- Deus os conduza em paz...
Lídia beijou comovida a mão da viúva e, dando
o braço ao Loureiro, entrou no carro que rodou em direção
de Benfica, com a sua luzinha amarela tremeluzindo no escuro.
Minutos depois D. Amanda recebia, como de costume, o Batista da
Feira Nova.
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