A
Normalista
Adolfo Caminha
CAPÍTULO III
O velho mostrador da sala de jantar deu meia-noite, uma hora, e
Maria do Carmo ainda estava acordada, a pensar no Zuza, arquitetando
frases para responder ao futuro bacharel em ciências jurídicas.
Porque o estudante, como suspeitou o amanuense, achara meio de comunicar-se
com a rapariga, atirando-lhe uma cartinha por baixo da mesa, quando
jogavam o víspora.
Era a primeira vez que o Zuza lhe escrevia numa letra caligráfica,
de mulher, miudinha, igual e redonda. Ao apanhar o envelope, com
um movimento disfarçado, Maria sentiu o sangue afluir todo
para o rosto, como se todo o mundo a tivesse surpreendido em flagrante
às barbas do padrinho. Ela mesmo, depois, admirou a sua coragem,
ela que nunca desrespeitara o amanuense, temendo-o como a seu pai.
Não pôde reprimir um susto, ficou fria, com os olhos
baixos, sem prestar atenção ao jogo. Pareceu-lhe ver
através dos óculos escuros do padrinho um lampejo
de cólera concentrada. Tremia com o papel na mão,
sem saber o que fizesse. Mas o víspora continuava animado
e ela pôde cautelosamente guardar o objeto querido, pretextando
sede e levantando-se para beber água no interior da casa.
Guardou-o bem guardado, no fundo de uma caixinha de fitas, sem ler,
e voltou imediatamente ao seu lugar com um alívio, muito
lépida.
Quando o amanuense entrou a esbravejar contra o Zuza, esmurrando
a mesa, batendo portas, colérico, medonho, Maria ficou lívida!
Ta, ta, ta, ta, ia tudo águas abaixo, o seu "crime"
ia ser descoberto, não havia fugir. Estava irremediavelmente
perdida! Enfiou pelo corredor com as mãos na cabeça,
aflita. Decididamente o padrinho ia expulsá-la de casa...
seu primeiro ímpeto foi voltar, atirar-se aos pés
de João da Mata e pedir-lhe, suplicar-lhe por amor de Deus,
por quem era que a perdoasse, que fora uma fraqueza, uma criancice...
Isto, porém, seria complicar a situação, confessar-se
culpada, entregar-se à cólera do amanuense. E ao sentar-se
à mesa de jantar foi acometida por uma convulsão de
choro mudo, com a cabeça entre as mãos, cotovelos
fincados na mesa, olhos fixos na luz moribunda da velinha de carnaúba.
O padrinho berrou, jurou acabar com "a bandalheira", disse
horrores do Zuza, e, afinal, que felicidade para a rapariga! foi
se deitar com a mulher. Maria suspirou forte como se lhe tivessem
tirado um grande peso do coração; e agora, só
no seu quarto, lia e relia a carta do acadêmico, muito à
fresca, sentindo um bem-estar confortável na sua rede de
varandas, branca e sarapintada de encarnado.
Fazia calor.
Maria costumava dormir com a vela acesa, numa palmatória
de flandres. Noutro quarto, defronte, ressonava a cozinheira, uma
tirando para velha, chamada Mariana, e, no corredor, o Sultão
abanava as orelhas sacudindo as pulgas. De quando em quando havia
um barulho de asas na sala de jantar: era a sabiá debatendo-se
na gaiola, assombrada.
Agora, sim, Maria estava só, completamente só, podia
ler à vontade, uma, duas, três... quantas vezes quisesse,
a carta do Zuza. Nada como a noite para os namorados! Era só
quando ela gozava a sua liberdade, à noite, no seu quarto,
em camisa, fazendo o que bem entendesse...
"Minha senhora", dizia o futuro bacharel, muito respeitoso.
"Tomo a liberdade de me dirigir a V. Exa. confiado na sua infinita
bondade, nessa bondade que se revela em seus esplêndidos olhos
de madona e na brandura meiga de sua voz cujo timbre faz-me lembrar
toda a melodia duma harpa eólia tangida por mãos de
serafins... Tomo esta liberdade para dizer-lhe simplesmente que
a amo! e que este amor só podia ser inspirado pela incomparável
luz de seu olhar e pela música sentimental de sua voz...
Amo-a deveras... Só me resta esperar que V. Exa. aceite este
amor como tributo sincero de um coração avassalado
por sua beleza encantadora, e então serei o mais feliz dos
homens.
D. V. Exa. adm. e
escravo
José de Souza
Nunes"
Isto numa letrinha
microscópica, indecifrável quase.
Maria esteve meditando muito tempo sobre a resposta que devia dar ao estudante,
com os olhos na parede onde esbatia a sombra da rede ao comprido. Para
não responder ficava-lhe mal, era uma falta de consideração.
Devia responder fosse o que fosse. E, nessa dúvida, lia e relia
a carta numa inquietação que lhe tirava o sono. Realmente!
começava cedo a sua carreira amorosa e começava por um aspirante
a bacharel! Seria verdade aquilo ou o rapaz queria divertir-se à
sua custa? O Zuza parecia-lhe um bom moço, muito bem-educado, incapaz
de seduzir uma rapariga honesta, de costumes irrepreensíveis, refratário
a pagodeiras... Às vezes, porém, tinha cara de pedante com
os seus óculos de ouro, com a sua flor na botoeira, dizendo que
dê, dê-me você isto, faça você aquilo,
ora sebo!
Maria implicava com certos modos do rapaz.
É verdade que tinha fortuna, era filho dum homem de bem, dum coronel...
Mas...
E lá vinha o mas, e a dúvida não se desfazia.
Imaginava-se ao lado do Zuza, numa casinha muito bem mobiliada, com cortinas
de cretone na sala de jantar e um viveiro de pássaros - ele, de
chambre e gorro sentado na escrivaninha a fazer versos, feliz, despreocupado;
ela com um robe-de-chambre todo branco, fitinhas na frente de alto a baixo,
cabelo solto, a ler o último romance da moda, recostada na espreguiçadeira,
sem filhos... Que vida!
Ao mesmo tempo lembrava-se de que o Zuza podia lhe sair um marido muito
besta e casmurro, cuidando somente da papelada de autos e requerimentos,
um advogado com escritório e tabuleta à porta para fazer...
nada! Ela, por outro lado, a cuidar dos filhos, muito besuntada, da sala
para a cozinha numa azáfama de burguesinha reles. Boas!
E não assentava idéias, a mente que nem um rodopio, fantasiando
situações disparatadas, coisas impossíveis.
Leu outra vez a carta, analisando-a palavra por palavra, repetindo as
frases à meia voz. Aquela linguagem alambicada e dengosa quis-lhe
parecer tosca demais para ter sido do punho dum estudante de direito.
- Que idiota! pensava; comparar seus olhos com olhos de madona e sua voz
com uma harpa eólia! - E, num arrebatamento, levantou-se e guardou
a carta na caixinha de fitas. - "Qual olhos de madona! Qual harpa
eólia, qual nada, seu besta!"
Daí a pouco também ressonava com a respiração
leve como uma carícia.
O dia seguinte era domingo. Todos em casa do amanuense acordaram muito
bem-dispostos. Havia missa cantada na Sé. Espocavam foguetes e
repicavam sinos. Meninos apregoavam numa voz cantada a Matraca a 40 réis!
- um jornaleco imundo que falava da vida alheia e que por duas vezes trouxera
sujidades contra João da Mata. Maria do Carmo quis ver o que dizia
a Matraca, apesar de o padrinho ter proibido expressamente a entrada do
pasquim em sua casa. Ali só lhe entrava a Província, dissera
ele; isso mesmo porque o José Pereira não exigia pagamento
de assinatura. O mais era uma súcia de papéis nojentos que
só serviam para... - Maria deu um pulo até a casa da viúva
Campelo e aí pôde comprar a Matraca. O padrinho estava no
banho. - O Namoro do Trilho de Ferro! gritavam os vendedores. Maria teve
um palpite. Certo aquilo era com ela. Que felicidade o padrinho estar
no banho! Pagou ao menino, pedindo-lhe pelo amor de Deus que não
gritasse mais o Namoro do Trilho de Ferro. Abriu o jornal ansiosa. Que
horror! Havia, com efeito, uma piada sobre ela e o Zuza. Mais que depressa
correu a mostrar à Lídia.
- Estás vendo, menina? Lê isto aqui. E apontou com o dedo.
Eram uns versos de pé de viola que contavam o recente namoro do
Zuza:
"A normalista
do Trilho,
ex-irmã de caridade,
está caída pelo filho
dum titular da cidade.
O rapazola é
galante
e usa flor na botoeira:
D. Juan feito estudante
a namorar uma freira...
Eis por que, caros
leitores,
eu digo como o Bahia:
- Falem baixo, minhas flores,
Senão... a chibata chia!..."
......................................................................................
Lídia achou
graça na versalhada. Ela também já saíra na
Matraca.
- Um desaforo, não achas? perguntou a normalista indignada.
- Que se há de fazer, minha filha? Ninguém está livre
destas coisas no Ceará moleque. Não se pode conversar com
um rapaz, porque não faltam alcoviteiros. Olha, eu aposto em como
isto que aqui está saiu da cachola do Guedes.
- Que Guedes?
- Ó mulher, o Guedes, um do Correio... Dizem até que está
feito redator principal da Matraca.
- E que mal fiz eu a esse Guedes que nem sequer me conhece?
- Eu te digo. O Guedes andou a querer namorar-me. Chegou a escrever-me
uma carta muito errada e piegas, pedindo uma entrevista... Que fiz eu?
Ri-me muito das asneiras do bicho, troceio-o a valer e mandeio-o pastar
bem... Ora, o Guedes sabe que nós somos muito amigas e talvez queira
vingar-se indiretamente. Aí está o que é, menina.
Manda-o plantar couves e rasga esta baboseira, que isto não vale
senão nada.
- Não vale nada, mas toda a gente lê e acredita, é
o que é.
- Sabem lá qual é a "normalista do Trilho"!
A propósito Maria contou as ocorrências da véspera,
a carta do Zuza, a cólera do padrinho, muito vexada.
Estavam à janela, em pé, frente a frente. D. Amanda andava
para os fundos da casa a mourejar. No fim da rua, do lado da Estrada de
Ferro, uma locomotiva fazia manobras, chiando, a deitar vapor fora. Chegou
até a frente da casa da viúva, soltou um guincho rápido
e voltou estralejando sobre os trilhos.
...E os sinos a repicarem na Sé e girândolas de foguetes
estourando no ar. Chegavam espaçados sons de música que
o vento trazia.
- Não sei se deva responder, disse Maria dando a carta à
amiga. Ele com certeza vem hoje para o víspora...
- De forma que tens um compromisso a satisfazer...
- Compromisso?
- Sim, porque quem cala consente. Aceitaste a carta, agora é responder.
Diz-lhe que o amas também e que desde já o consideras teu
noivo. Nisso de amor quanto mais depressa melhor. Eu pelo menos o entendo
assim. Queres, eu faço a minuta.
- Eu, escrever para um homem?
- Tola! Que crime há nisso? Eles não escrevem para nós?
Olha, tolinha, não sejas criança. O homem foi feito para
a mulher e a mulher para o homem.
- Mas...
- Não tem mas nem meio mas. Decide-te a namorar o rapaz e deixa-te
de meninices. Tu é que tens a lucrar. O Zuza tem fortuna, está
a formar-se e com mais um ano pode ser teu marido e fazer-te muito feliz.
O que é que esperas de teu padrinho, um sujeito estúpido
e usurário como um urso? Já não tens pai nem mãe
e ele já fala em tirar-te da Escola. É muito homem para
botar-te a cozinhar. Não sejas tola!...
Lídia interrompeu-se para cumprimentar um cavaleiro que passava.
Era o Zuza montado num alazão reluzente ao sol, de cauda aparada
e arreios de prata. O estudante trajava flanela e meias-botas de polimento,
chapéu castor desabado, uma grande rosa branca no peito, luva,
rebenque, muito vistoso com seus óculos de ouro e seu bigodinho
retorcido para cima.
Fazia o costumado passeio matinal e lembrara-se de passar à porta
do amanuense. Cumprimentou rasgadamente a Campelinho. Maria ocultou-se
envergonhada atrás do postigo olhando por entre as gretas.
- Adorável! fez Lídia. E tu ainda queres mais, hein, minha
tola?
Como sentia não ser ela a querida do Zuza! Ambos com vinte anos
de idade, encarando a vida por um mesmo prisma: passeios a cavalo, toaletes
de verão e de inverno, como nos figurinos, com chácara no
Benfica, um faetonte para virem à cidade, vacas de leite... Um
maná!
Tinha "o seu", o Loureiro, mas o guarda-livros parecia-lhe muito
casmurro, muito indiferente a essas coisas de bom gosto, aos requintes
da vida aristocrática que ela ambicionava tanto. Queria-o mais
por um capricho, porque não encontrava outro homem em melhores
condições que desejasse casar com ela. Sabia de sua má
fama e agarrava-se ao Loureiro como a uma tábua de salvação.
Tudo menos ficar para tia. Verdade, verdade, o Loureiro não era
um sujeito ignorante e pobre que lhe fizesse vergonha; mas não
tinha certo aprumo, certa elegância no trajar; aferrava-se à
calça e ao colete branco, invariavelmente, e ninguém o demovia
daquele velho hábito. Entretanto possuía seu cabedal em
casas e apólices da dívida pública. Ao passo que
o outro, o Zuza, sabia empregar seu dinheiro divertindo-se, trajando bem,
passeando como um príncipe. Uma simples questão de temperamento.
- Atira-te, minha tola. Aproveita enquanto o Brás é tesoureiro...
- Que queres tu que eu faça?
- Escreva logo essa carta e faze como eu: marca o dia do casamento. Assim
é que se faz. Quem pensa não casa, lá diz o ditado,
e é muito certo.
A voz de D. Terezinha chamou a Maria do outro lado da rua. Era hora do
almoço. O amanuense estava apressado porque tinha de ir à
praia, ao embarque do conselheiro Castro e Silva que seguia para o Rio
de Janeiro.
João da Mata almoçou às carreiras, como quem vai
tomar o trem, e abalou, enfiando-se no inseparável e já
velho chapéu-chile.
Seriam onze horas pouco mais ou menos. Um mormação de fornalha
abafava os transeuntes que desciam e subiam a rua de Baixo a pé,
esbaforidos.
No porto havia grande lufa-lufa de gente que embarcava e desembarcava
simultaneamente, bracejando, falando alto. A maré de enchente,
crispada pela ventania de sudoeste, num contínuo vaivém,
alagava o areal seco e faiscante. Gente muita ao embarque do conselheiro.
Curiosos de todas as classes, trabalhadores aduaneiros de jaqueta azul,
guardas de Alfândega e oficiais de descarga com ar autoritário,
de fardeta e boné, marinheiros da Capitania, confundiam-se numa
promiscuidade interessante. Jangadeiros, arregaçados até
aos joelhos, chapéu de palha de carnaúba, mostrando o peito
robusto e cabeludo, iam armando a vela às jangadas. A cada fluxo
do mar havia gritos e assobios. Um alvoroço! Jangadas iam e vinham
em direção do Nacional, que tombava como um ébrio,
aproado ao vento. Apenas quatro navios mercantes fundeados e uma canhoneira
argentina. Reluzia em caracteres garrafais, pintadinhos de fresco na popa
duma barca italiana - "Civita Vecchia".
O vapor apitou pedindo mala. Era uma maçada ir a bordo com a maré
cheia e um vento como aquele. Demais o sol estava de rachar. Um carro
parou à porta da Escola de Aprendizes marinheiros: era o conselheiro,
metido numa sobrecasaca muito comprida, cheia de atenções.
Já o esperavam os amigos receosos de que o vapor não suspendesse
sem "o homem".
A música da Polícia, formada à porta do quartel,
gaguejou o Hino Nacional e o conselheiro, cheio de si, cortejando à
direita e à esquerda, muito ancho, seguiu a tomar o escaler da
Alfândega.
- Pílulas! fez João da Mata limpando a testa. Não
vale a pena a gente se sacrificar com um calor deste!
Lá adiante encontrou o Loureiro, que vinha de despachar uma fatura
no Trapiche, muito apressado com a sua calça branca lustrosa de
gomas sem uma dobra.
- "Por ali?" - "É verdade, tinha ido a negócio."
- Que há de novo? tornou o Loureiro.
- Nada. Vou aqui ao embarque do conselheiro.
- Hás de ganhar muito com isto...
- Que queres, filho? A política, a política...
- Qual política, homem! Com um solão deste não havia
quem me fizesse ir a embarque de filho da mãe nenhum.
Uma lufada de poeira redemoinhou a dois passos dos interlocutores derribando
bruscamente o chapéu do amanuense, pondo-lhe a calva à mostra.
- Com os diabos! vociferou João da Mata abaixando-se mais que depressa
para apanhar o seu chile que rodava sobre as abas numa disparada vertiginosa
por ali afora.
- Fiau! fiau! Pega! pega! prorrompeu a garotada numa vaia estrepitosa
de gritos e assobios.
- Canalha! resmungava o homem, enquanto o Loureiro escafedia-se daquela
situação grotesca, sacudindo com a ponta dos dedos a poeira
do paletó, muito calmo.
O conselheiro tinha chegado ao trapiche com o seu préstito oficioso
de amigos.
O amanuense encavacou deveras - "Diabos levem conselheiros e tudo!"
dizia ele mal-humorado, piscando os olhos desesperadamente por trás
dos óculos escuros, cobrindo a calva com um lenço para não
constipar. E dali mesmo voltou à casa maldizendo-se por haver deixado
os seus cômodos por uma estopada inútil daquela.
Dava meio-dia. À porta do quartel de linha um soldado soprava a
todo pulmão numa corneta muito bem areada.
João da Mata caminhava devagar, automático, como quem vai
com uma idéia fixa. Que séca! Podia muito bem estar em casa
àquela hora, metido na sua camisola fresca, de papo para o ar na
rede, ao aconchego morno da afilhada, saboreando-lhe o cheiro bom das
carnes; entretanto ali vinha ofegante como um boi e suado como dois burros,
todo emporcalhado de poeira, furioso. Não lhe contassem para outra.
Já tinha pensado mesmo em abandonar para sempre a política.
Pílulas! Mal lhe chegava o tempo para pensar na Maria do Carmo,
naquela deliciosa boquinha fresca e rosada, boa para a gente levar a vida
inteira a beijar...
O Zuza tinha-lhe acordado o instinto; receava agora que a menina se deixasse
levar pelas gabolices do estudante e então lá se iam os
seus belos projetos águas abaixo.
Nunca se preocupara tanto com Maria do Carmo. Desde que o Zuza começou
a freqüentar a rua do Trilho não lhe saía mais da cabeça
a afilhada. A própria D. Terezinha por vezes tinha estranhado os
seus modos para com a menina.
Achava a Teté uma mulher gasta: queria uma rapariga nova e fresca,
cheirando a leite, sem pecados torpes, a quem ele pudesse ensinar certos
segredos do amor, ocultamente, sem que ninguém soubesse... Estava
farto do "amor conjugal". Nunca experimentara o contato aveludado
de um corpo de mulher educada, virgem das impurezas do século.
E quem melhor que Maria do Carmo, uma normalista exemplar e recatada,
poderia satisfazer os caprichos de seu temperamento impetuoso? Era sua
afilhada, mas, adeus! não havia entre ele e a menina o menor grau
de consangüinidade, portanto, não podia haver crime nas suas
intenções... Se Maria houvesse de cair nas garras de algum
bacharelete safado fosse ele, João da Mata, o primeiro a abrir
caminho...
Demais, argumentava de si para si, podia arranjar tudo sem que ninguém
soubesse. O segredo ficaria entre ele e a afilhada, inviolável
como a sepultura de um santo.
E ia parafusando num meio simples e natural de conquistar o coração
de Maria. - Toda a questão era de oportunidade.
Àquela hora a normalista arrastava ao piano a valsa Minha esperança,
cuja cadência punha uma monotonia irritante na quietação
morna da rua do Trilho.
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