AMERICANAS
Machado de Assis
A CRISTÃ-NOVA
XI
Ó mocidade,
ó baluarte vivo
Da cara pátria! Já perdida é ela,
Quando em teu peito entusiasmo santo
E puro amor se extingue, e àquele nobre,
Generoso despejo e ardor antigo
Sucede o frio calcular, e o torpe
Egoísmo, e quanto há aí no humano peito,
Que a natureza não criou nem ama,
Que é fruto nosso e podre... Muitos caem
Mortos ali. Que importa? Vão seguindo
Avante os bravos, que a invasão caminha
Implacável e dura, como a morte,
A pelejar e a destruir. Tingidas
Ruas de estranho sangue
E sangue nosso, lacerados membros,
Corpos de que há fugido a alma cansada,
E o denso fumo e os fúnebres lamentos,
Quem nessa confusão, miséria e glória
Conhecerá da juvenil cidade
O aspecto, a vida? Aqui da infância os dias
Nuno vivera, à vicejante sombra
Do seu pátrio arvoredo, ao som das vagas
Que inda batendo vão na amada areia;
Risos, jogos da verde meninice,
Esta praia lhe lembra, aquela pedra,
A mangueira do campo, a tosca cerca
De espinheiro e de flores enlaçadas,
A ave que voa, a brisa que suspira,
Que suspira como ele há suspirado,
Quando rompendo o coração do peito
Ia-lhe empós dessa visão divina,
Realidade agora... E há de perdê-las
Pátria e noiva? Esta idéia lhe esvoaça
Torva e surda no cérebro do moço,
E ao contraído espírito redobra
Ímpeto e forças. Rompe
Por entre a multidão dos seus, e investe
Contra o duro inimigo; e as balas voam,
E com elas a morte, que não sabe
Dos escolhidos seus a terra e o sangue,
E indistintos os toma; ele, no meio
Daquele horrível turbilhão, parece
Que a faísca do gênio o leva e anima,
Que a fortuna o votara à glória.
XII
Soam
Enfim os gritos de triunfo; e o peito
Do povo que lutou respira à larga,
Como ao que, após árdua subida, chega
Ao cimo da montanha, e ao longe os olhos
Estende pelo azul dos céus, e a vida
Bebe nesse ar mais puro. Farto sangue
A vitória custara; mas, se em meio
De tanta glória há lágrimas, soluços,
Gemidos de viuvez, quem os escuta,
Quem as vê essas lágrimas choradas
Na multidão da praça que troveja
E folga e ri? O sacro bronze que usa
Os fiéis convidar à prece, e a morte
Do homem pranteia lúgubre e solene,
Ora festivo canta
O comum regozijo; e pela aberta
Porta dos templos entra a frouxo o povo
A agradecer com lágrimas e vozes
O triunfo - piedoso instinto da alma,
Que a Deus levanta o pensamento e as graças.
XIII
Tu, mancebo feliz,
tu bravo e amado,
Voa nas asas rútilas e leves
Da fortuna e do amor. Como ao indiano,
Que, ao regressar das porfiadas lutas,
Por estas mesmas regiões entrava,
A encontrá-lo saía a meiga esposa,
- A recente cristã, entre assustada
E jubilosa coroará teus feitos
Co'a melhor das capelas que hão pousado
Em fronte de varão - um doce e longo
Olhar que inteiro encerra a alma que chora
De gosto e vida! Voa o moço à estância
Do ancião; e ao pôr na suspirada porta
Olhos que traz famintos de encontrá-la,
Frio terror lhe empece os membros. Frouxo
Ia o sol transmontando; lenta a vaga
Melancolicamente ali gemia,
E todo o ar parecia arfar de morte.
Qual se pálida a vira, já cerrados
Os desmaiados olhos,
Frios os doces lábios
Cansados de pedir aos céus por ele,
Nuno estacara; e pelo rosto em fio
O suor lhe caiu da extrema angústia;
Longo tempo vacila;
Vence-se enfim, e entra a mansão da esposa.
XIV
Quatro vultos na câmara
paterna
Eram. O pai sentado,
Calado e triste. Reclinada a fronte
No espaldar da cadeira, a filha os olhos
E o rosto esconde, mas tremor contínuo
De um abafado soluçar o esbelto
Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;
Ia a falar, quando a formosa virgem,
Os lacrimosos olhos levantando,
Um grito solta do íntimo do peito
E se lhe prostra aos pés: "Oh! vivo, és vivo!
Inda bem... Mas o céu, que por nós vela,
Aqui te envia... Salva-o tu, se podes,
Salva meu pobre pai!" Estremecendo
Nela e no velho fita Nuno os olhos,
E agitado pergunta: "Qual ousado
Braço lhe ameaça a vida?" Cavernosa
Uma voz lhe responde: "O santo ofício!"
Volve o mancebo o rosto
E o merencório aspecto
De dois familiares todo o sangue
Nas veias lhe gelou.
XV
Solene o velho
Com a voz, não frouxa, mas pausada, fala:
"- Vês? Todo o brio, todo o amor no peito
Te emudeceu. Só lastimar-me podes,
Salvar-me, nunca. O cárcere me aguarda,
E a fogueira talvez; cumpri-la, é tempo,
A vontade de Deus. Tu, pai e esposo
Da desvalida filha que aí deixo,
Nuno, serás. A relembrar com ela
Meu pobre nome, aplacareis a imensa
Cólera do Senhor..." Sorrindo irônico,
Estas palavras últimas lhe caem
Dos lábios tristes. Ergue-se: "Partamos!
Adeus! Negou-me Aquele que no campo
Deixa a árvore anciã perder as folhas
No mesmo ponto em que as nutriu viçosas,
Negou-me ver por estas longas serras
Ir-se-me o último sol. Brando regaço
A filial piedade me daria
Em que eu dormisse o derradeiro sono,
E em braços de meu sangue transportado
Fora em horas de paz e de silêncio
Levado ao leito extremo e eterno. Vive
Ao menos tu..."
XVI
Um familiar lhe corta
O adeus último: "Vamos: é já tempo!"
Resignado o infeliz, ao seio aperta
A filha, e todo o coração num beijo
Lhe transmitiu, e a caminhar começa.
Ângela os lindos braços sobre os ombros
Trava do austero pai; flores disséreis
De parasita, que enroscou seus ramos
Pelo cansado tronco, estéril, seco
De árvore antiga: "Nunca! Hão de primeiro
A alma arrancar-me! Ou se heis pecado, e a morte
Pena há de ser da cometida culpa,
Convosco descerei à campa fria,
Juntos a mergulhar na eternidade.
Israel tem vertido
Uma mar de sangue. Embora! à tona dele
Verdeja a nossa fé , a fé que anima
O eleito povo, flor suave e bela
Que o medo não desfolha, nem já seca
Ao vento mau da cólera dos homens!"
XVII
Trêmula a voz
do peito lhe saía.
Das mãos lhe trava um dos algozes. Ela
Entrega-se risonha,
Como se o cálix da amargura extrema
Pelos meles da vida lhe trocassem
Celeste e eterna. O coração do moço
Latejava de espanto e susto. Os olhos
Pousa na filha o desvairado velho.
Que ouviu? - Atenta nela; o lindo rosto
O céu não busca jubiloso e livre,
Antes, como travado de agra pena,
Pende-lhe agora ao chão. Dizia acaso
Entre si mesma uma oração, e o nome
De Jesus repetia, mas tão baixo,
Que o coração do pai mal pôde ouvir-lho.
Mas ouviu-lho; e tão forte amor, tamanho
Sacrifício da vida a alma lhe rasga
E deslumbra. Escoou-se um breve tempo
De silêncio; ele e ela, os triste noivos,
Como se a eterna noite os recebera,
Gelados eram; levantar não ousam
Um para o outro os arrasados olhos
De mal contidas e teimosas lágrimas.
XVIII
Nuno enfim, lentamente
e a custo arranca
Do coração estas palavras: "Fora
Misericórdia ao menos confessá-lo
Quando ao fogo do bárbaro inimigo
Me era fácil deixar o derradeiro
Sopro da vida. Prêmio é este acaso
De tamanho lidar? Que mal te hei feito,
Porque me dês tão bárbara e medonha
Morte, como esta, em que o cadáver guarda
Inteiro o pensamento, inteiro o aspecto
Da vida que fugiu?" Ângela os olhos
Magoados ergue; arfa-lhe o peito aflito,
Como o dorso da vaga que intumesce
A asa da tempestade. "Adeus!" suspira
E a fronte abriga no paterno seio.
XIX
O rebelde ancião,
domado entanto,
Afracar-se-lhe sente dentro d'alma
O sentimento velho que bebera
Com o leite dos seus; e sem que o lábio
Transmita a ouvidos de homem
O duvidar do coração, murmura
Dentro de si: "Tão poderosa é essa
Ingênua fé, que inda negando o nome
Do seu Deus, confiada aceita a morte,
E guarda puro o sentimento interno
Com que o véu rasgará da eternidade?
Ó Nazareno, ó filho do mistério,
Se é tua lei a única da vida
Escreve-ma no peito; e dá que eu veja
Morrer comigo a filha de meus olhos
E unidos irmos, pela porta imensa
Do teu perdão, à eternidade tua!"
XX
Mergulhara de todo
o sol no ocaso,
E a noite, clara, deliciosa e bela,
A cidade cobriu - não sossegada,
Como costuma - porém leda e viva,
Cheia de luz, de cantos e rumores,
Vitoriosa enfim. Eles, calados,
Foram por entre a multidão alegre,
A penetrar o cárcere sombrio.
Donde ao mar passarão,
que os leve às praias
Da ancião Europa. Carregado o rosto,
Ia o pai; ela, não. Serena e meiga,
Entra afoita o caminho da amargura,
A custo sofreando internas mágoas
Da amarga vida, breve flor como ela,
Que inda mais breve a mente lhe afigura.
Anjo, descera da região celeste
A pairar sobre o abismo; anjo, subia
De novo à esfera luminosa e eterna,
Pátria sua. Levar-lhe-á Deus em conta
O muito amor e o padecer extremo,
Quando romper a túnica da vida
E o silêncio imortal fechar seus lábios.
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