AMERICANAS
Machado de Assis
A CRISTÃ-NOVA
...essa mesma foi
levada
cativa para uma terra estranha.
NAHUM, cap. III, v. 10
PARTE I
I
Olhos fitos no céu,
sentado à porta,
O velho pai estava. Um luar frouxo
Vinha beijar-lhe a veneranda barba
Alva e longa, que o peito lhe cobria,
Como a névoa na encosta da montanha
Ao destoucar da aurora. Alta ia a noite,
E silenciosa: a praia era deserta,
Ouvia-se o bater pausado e longo
Da sonolenta vaga - único e triste
Som que a mudez quebrava à natureza.
II
Assim talvez nas solidões
sombrias
Da velha Palestina
Um profeta no espírito volvera
As desgraças da pátria. Quão remota
Aquela de seus pais sagrada terra,
Quão diferente desta em que há vivido
Os seus dias melhores! Vago e doce,
Este luar não alumia os serros
Estéreis, nem as últimas ruínas,
Nem as ermas planícies, nem aquele
Morno silêncio da região que fora
E que a história de todo amortalhara.
Ó torrentes antigas! águas santas
De Cédron! Já talvez o sol que passa,
E vê nascer e vê morrer as flores,
Todas no leito vos secou, enquanto
Estas murmuram plácidas e cheias,
E vão contando às deleitosas praias
Esperanças futuras. Longo e longo
O devolver dos séculos
Será, primeiro que a memória do homem
Teça a mortalha fria
Da região que inda tinge o albor da aurora.
III
Talvez, talvez no
espírito fechado
Do ancião vagueavam lentamente
Estas idéias tristes. Junto à praia
Era a austera mansão, donde se via
Desenrolarem-se as serenas vagas
Do nosso golfo azul. Não a enfeitavam
As galas da opulência, nem os olhos
Entristecia co'o medonho aspecto
Da miséria; não pródiga nem surda
A fortuna lhe fora, mas aquela
Mediana sóbria, que os desejos
Contenta do filósofo, lhe havia
Dourado os tetos. Guanabara ainda
Não era a flor aberta
Da nossa idade, era botão apenas,
Que rompia do hastil, nascido à beira
De suas ondas mansas. Simple e rude,
Ia brotando a juvenil cidade,
Nestas incultas terras, que a lembrança
Recordava talvez do antigo povo,
E o guau alegre, e as ríspidas pelejas,
Toda essa vida que morreu.
IV
Sentada
Aos pés do velho estava a amada filha,
Bela como a açucena dos Cantares,
Como a rosa dos campos. A cabeça
Nos joelhos do pai reclina a moça,
E deixa resvalar o pensamento
Rio abaixo das longas esperanças
E namorados sonhos. Negros olhos
Por entre os mal fechados
Cílios estende à serra que recorta
Ao longe o céu. Morena é a face linda
E levemente pálida. Mais bela,
Nem mais suave era a formosa Ruth
Ante o rico Boaz, do que essa virgem,
Flor que Israel brotou do antigo tronco,
Corada ao sol da juvenil América.
V
Mudos viam correr
aquelas horas
Da noite, os dois: ele voltando o rosto
Ao passado, ela os olhos ao futuro.
Cansam-lhe enfim ao pensamento as asas
De ir voando, através da espessa treva,
Frouxas as colhe, e desce ao campo exíguo
Da realidade. A delicada virgem
Primeiro volve a si; os lindos dedos
Corre-lhe ao longo da nevada barba,
E - "Pai amigo, que pensar vos leva
Tão longe a alma?" Estemecendo o velho:
- "Curiosa! - lhe disse -, o pensamento
E como as aves passageiras: voa
A buscar melhor clima. - Oposto rumo
Ias tu, alma em flor, aberta apenas,
Tão longe ainda do calor da sesta,
Tão remota da noite... Uma esperança
Te sorria talvez? Talvez, quem sabe,
Uns namorados olhos que me roubem,
Que te levem... Não córes*, filha minha!
Esquecimento, não; lembrança ao menos
Ficar-te-á do paterno afeto; e um dia,
Quando eu na terra descansar meus ossos,
Haverás doce bálsamo no seio
Da afeição juvenil... Sim; não te acuso;
Ama: é a lei da natureza, eterna!
Ama: um homem será da nossa raça..."
VI
Estas palavras tais
ouvindo a moça,
Turbada os olhos descaiu na terra,
E algum tempo ficou calada e triste,
Como no azul do céu o astro da noite,
Se uma nuvem lhe empana a meio a face.
Súbito a voz e o rosto alevantando,
Com dissimulação - pecado embora,
Mas inocente: - "Olhai, a noite é linda!
O vento encrespa molemente as ondas,
E o céu é todo azul e todo estrelas!
Formosa, oh! quão formosa a terra minha!
Dizei: além desses compridos serros,
Além daquele mar, à orla de outros,
Outras como esta vivem?"
VII
Fresca e pura
Era-lhe a voz, voz d'alma que sabia
Entrar no coração paterno. A fronte
Inclina o velho sobre o rosto amado
De Ângela. - Na cabeça ósculo santo
Imprime à filha; e suspirando, os olhos
Melancolicamente ao ar levanta,
Desce-os e assim murmura:
"Vaso é digno de ti, lírio dos vales,
Terra solene e bela. A natureza
Aqui pomposa, compassiva e grande,
No regaço recebe a alma que chora
E o coração que túmido suspira.
Contudo, a sombra pesarosa e errante
Do povo que acabou pranteia ainda
Ao longo das areias,
Onde o mar bate, ou no cerrado bosque
Inda povoado das relíquias suas,
Que o nome de Tupã confessar podem
No próprio templo augusto. Última e forte
Consolação é esta do vencido
Que viu tudo perder-se no passado,
E único salva do naufrágio imenso
O seu Deus. Pátria não. Uma há na terra
Que eu nunca vi... Hoje é ruína tudo,
E viuvez e morte. Um tempo, entanto,
Bela e forte ela foi; mas longe, longe
Os dias vão de fortaleza e glória
Escoados de todo como as águas
Que não volvem jamais. Óleo que a unge,
Finas telas que a vestem, atavios
De ouro e prata que o colo e os braços lhe ornam,
E a flor de trigo e mel de que se nutre,
Sonhos, são sonhos do profeta. É morta
Jerusalém! Oh! quem lhe dera os dias
Da passada grandeza, quando a planta
Da senhora das gentes sobre o peito
Pousava dos vencidos, quando o nome
Do que há salvo Israel, Moisés..."
"- Não! Cristo,
Filho de Deus! Só ele há salvo os homens!"
Isto dizendo, a delicada virgem
As mãos postas ergueu. Uma palavra
Não disse mais; no coração, entanto,
Murmurava uma prece silenciosa,
Ardente e viva, como a fé que a anima
Ou como a luz da alâmpada
A que não faltou óleo.
VIII
Taciturno
Esteve longo tempo o ancião. Aquela
Alma infeliz nem toda era de Cristo
Nem toda de Moisés; ouvia atento
A palavra da Lei, como nos dias
Do eleito povo; mas a doce nota
Do Evangelho não raro lhe batia
No alvoroçado peito
Soleníssima e pura... Descambava
No entanto a lua. A noite era mais linda,
E mais augusta a solidão. Na alcova
Entre a pálida moça. Da parede
Um Cristo pende; ela os joelhos dobra
Os dedos cruza e reza - não serena,
Nem alegre também, como costuma,
Mas a tremer-lhe nos formosos olhos
Uma lágrima.
IX
A lâmpada acendida
Sobre a mesa do velho, as largas folhas
Alumia de um livro. O máximo era
Dos livros todos. A escolhida lauda
Era a do canto dos cativos que iam
Pela ribas do Eufrates, relembrando
As desgraças da pátria. A sós, com eles,
Suspira o velho aquele salmo antigo:
Junto os rios da terra
amaldiçoada
De Babilônia, um dia nos sentamos,
Com saudades de Sião amada.
As harpas nos salgueiros
penduramos,
E ao relembrarmos os extintos dias
As lágrimas dos olhos desatamos.
Os que nos davam cruas
agonias
De cativeiro, ali nos perguntavam
Pelas nossas antigas harmonias.
E dizíamos
nós aos que falavam:
Como em terra de exílio amargo e duro
Cantar os hinos que ao Senhor louvavam?...
Jerusalém,
se inda num sol futuro,
Eu desviar de ti meu pensamento
E teu nome entregar a olvido escuro,
A minha destra a frio
esquecimento
Votada seja; apegue-se à garganta
Esta língua infiel, se um só momento
Me não lembrar
de ti, se a grande e santa
Jerusalém não for minha alegria
Melhor no meio de miséria tanta.
Oh! lembra-lhes, Senhor,
aquele dia
Da abatida Sião, lembra-lhos aos duros
Filhos de Edom, e à voz que ali dizia:*
Arruinai-a, arruinai-a;
os muros
Arrasemo-los todos; só lhe baste
Um montão de destroços mal-seguros.
Filha de Babilônia,
que pecaste,
Abençoado o que se houver contigo
Com a mesma opressão que nos mostraste!
Abençoado o
bárbaro inimigo
Que os tenros filhos teus às mãos tomando,
Os for, por teu justíssimo castigo,
Contra um duro penedo esmigalhando!
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