Alves
e Cia.
Eça de Queirós
CAPÍTULO
VI
POR FIM, tal
qual como fizera o Machado, agarrou vivamente o chapéu e
abalou do escritório. E tão estonteado is que foi
já na rua do Ouro que se lembrou que não fechara a
porta à chave; voltou atrás, e isto pareceu pôr
alguma ordem nas suas idéias. Agora estava decidido a bater-se
com ele, num duelo de morte, e nenhuma coisa no mundo parecia dever
satisfazê-lo, senão vê-lo aos seus pés,
com uma bala no coração. Pois que! Aquele homem desonra-o,
rouba-lhe o amor da sua mulher, e agora, ainda pôr cima, trata-o
como um insensato, chama-lhe de doido! E isto enfurecia-o sobretudo,
porque ele agora sentia vagamente que naquela idéia do suicídio
à sorte havia alguma coisa de insensato! Talvez houvesse!
Mas o outro não lho devia dizer, devia aceitar tudo, resignar-se
à reparação que ele exigisse! Não quisera,
reclamava uma reparação dum modo regular e sensato.
Pois bem, assim seria, bater-se-iam à pistola, com uma só
pistola carregada tirada ao acaso, apontada à distância
dum lenço! Era ainda o acaso, era ainda a sorte, era deixar
tudo à mão justa de Deus.
No entanto, dirigira-se rapidamente para o Rossio. O seu amigo íntimo,
o Carvalho, aquele que fora diretor da Alfândega de Cabo Verde
e que casara rico, morava lá; e era ele o primeiro a quem
se dirigia, a contar-lhe tudo, a entregar-se à sua velha
amizade; depois iria procurar o outro dos seus grandes amigos, o
Teles Medeiros, homem de fortuna e de sociedade, que tinha panóplias
de floretes na sala, e a experiência do ponto de honra.
Estava dando meio-dia, o sol de julho abrasava as ruas: e as lojas
fechadas, a gente nos seus fatos de Domingo, as carruagens de praça
abrigadas no lado à sombra, tudo dava uma sensação
maior de calma e de inércia. Uma poeira sutil embaciava o
azul; e o mesmo som dos sinos arrastava pesadamente, no ar mole.
Quando Godofredo trepava as escadas do Carvalho - topou justamente
com ele, que descia, satisfeito e fresco, no seu fato novo de cheviot
claro, calçando as luvas gris-perle. A figura esbaforida,
o ar aflito de Godofredo, espantaram-no: e tornou a subir, abriu
ele mesmo a cancela com o trinco, fê-lo entrar num pequeno
gabinete, onde havia uma estante e uma longa cadeira de vime, em
forma de leito de campanha. Ao lado na sala, tocava-se piano, um
tom de valsa rápido, que fazia vibrar a casa.
E o Carvalho correu o reposteiro, fechou a janela aberta, antes
de perguntar o que era?
Godofredo pusera o chapéu a um canto da mesa e imediatamente
desabafou, dum jato.
Às primeiras palavras de sofá, de braço pela
cinta, Carvalho, que tirava lentamente as luvas, ficou petrificado,
no meio do gabinete: e foi correr ainda mais o reposteiro, como
se receasse que a história daquela traição
lançasse uma exalação indecente através
do seu prédio. Mas, na atrapalhação com que
o Godofredo contara a história, na sofreguidão com
que a escutou, não percebera bem quem era o homem, apenas
compreendendo que o Machado estava presente: e quando soube que
era ele que estava no sofá, bateu as mãos uma contra
a outra, teve uma exclamação de horror.
- Que infâmia!
- Um homem que era como um irmão para mim - exclamava Godofredo,
baixando a voz, brandindo os punhos. - E paga-me assim... Não,
é necessário haver morte de homem. Quero um duelo
de morte!
Então todo o rosto barbudo do Carvalho exprimiu uma inquietação.
Agora percebia. Godofredo não viera ali só desabafar,
viera arranjar uma testemunha: e tomava-o logo um susto de burocrata,
um medo da lei, o receio de se comprometer. E o seu egoísmo
revoltou-se diante das coisas violentas e perturbadoras que pressentia.
Quis atenuar, logo procurou explicações. Enfim, se
Godofredo não vira mais nada... Se era só estarem
na sala... Podia ser uma brincadeira, uma tolice...
Godofredo, febrilmente, procurava nas algibeiras. O piano dentro
caíra agora a sons vagos, como de dedos que tenteiam, procuram
uma melodia esquecida. De repente um bocado do Rigoletto rompeu,
com um arranque gemido e soluçante. E Godofredo, que achara
enfim a carta, pô-la diante dos olhos de Carvalho. O outro
leu a meia voz:
-"Ai Riquinho da minha alma, que beijinhos tão bons..."
E, como se aquelas palavras, ouvidas na voz do outro, lhe parecessem
mais infames que quando ele as lera, não se conteve, elevou
a voz, gritou:
- Não, isso com sangue, é necessário um duelo
de morte...
Carvalho, inquieto, fez-lhe sinal que se calasse. E como o piano
parou, um momento ficou escutando, receando que o grito do outro
tivesse sido ouvido:
- É a Mariana - disse ele indicando a sala... - Pôr
ora é melhor que ela não saiba...
Depois voltou a ler a carta, lentamente: e palpou o papel, revirou-o,
conservando-o nos dedos com uma curiosidade excitada, como se sentisse
ali o calor dos beijinhos...
E Godofredo procurou ainda mais pelas algibeiras, descontente de
Ter esquecido as outras cartas. Porque havia ainda outras piores!
E citou frases, exibiu toda a tolice, todo o descaro de Ludovina,
tomado agora apenas do desejo de vencer bem o Carvalho que sua mulher
era uma prostituta.
- De resto ele não negou, disse a tudo que sim!
- O que, vocês falaram?
Então, depois duma hesitação, Godofredo acabou
a confidência, a sua idéia de um suicídio à
sorte, o encontro que tivera com o Machado. O Carvalho, que caíra
para cima do sofá, como que brado, esmagado pôr todas
aquelas revelações, abria uns grandes olhos na sua
face queimada de África, espantado de que aquelas coisas
violentas, terríveis, se estivessem realmente passado, e
fossem ditas ali, no seu tranqüilo prédio do Rossio...
Quando Godofredo contou que o Machado achara aquilo insensato, Carvalho
não se conteve.
- De doido! De puro doido! - exclamou erguendo-se.
E, gesticulando pelo estreito gabinete, procurava uma frase para
classificar aquilo, falava ainda de doidice, terminou pôr
dizer que semelhantes coisas só se viam no Rocambole:
- Vem das na mesma - disse Godofredo. - Porque eu exijo que o duelo
seja à pistola, uma só carregada, e tirada ao acaso...
Carvalho deu um pulo.
- Uma só pistola, ao acaso? Mas isso é um assassinato.
Não, escusas de contar comigo. Não há motivo
para isso... Mas nem que houvesse numa dessas não me metia
eu!
Vendo-se abandonado, Godofredo revoltou-se. Então, naquela
crise terrível, ele, o seu melhor amigo, deixava-o assim
ficar mal? De quem melhor amigo, deixava-o assim ficar mal? De quem
se havia de valer? A quem havia de confiar a sua honra?
O outro despropositou. Falou outra vez de assassinato, de crime
e de prisão; terminou pôr dizer:
- Se tu me viesses convidar para ir deitar fogo ao Banco de Portugal
achas que eu devia aceitar?...
Godofredo queria explicar que não era a mesma coisa: as duas
vozes elevavam-se, entremeadas - e subitamente um silêncio
do piano fê-los calar a eles também. Uma conversação
elevou-se dentro na sala: depois as vozes elevaram-se tmbém,
e havia uma alteração, em que as palavras de "saia
branca", "sua porca", "a senhora não
disse nada" chegaram com um som irritado. Um momento Carvalho
escutou. Depois, encolheu os ombros; havia de ser algum novo desleixo
da criada, uma desavergonhada, que tinham havia um mês, e
que não fazia nada com jeito. Depois sentindo bater uma porta,
dentro, não se conteve, foi ver.
Godofredo, só um momento, sentiu como um cansaço invadi-lo.
Desde a véspera os seus nervos vibravam, retesados, como
as cordas duma rabeca muito afinada. Tudo até ali lhe pareceu
fácil, e a sua vingança segura. Mas agora, um depois
do outro, recebia dois choques. O outro não quisera o suicídio
à sorte; este não queria duelo de morte - e alguma
coisa dentro dele começava a afrouxar, como se a sua alma
se fosse cansando de estar há tantas horas, numa atitude
sombria de vingança e massacre. E vinha-lhe um começo
de enxaqueca, a enxaqueca que desde a véspera o ameaçava.
Sentou-se no sofá, com a cabeça entre as mãos;
um suspiro levantou-lhe o peito.
Carvalho entrou, vermelho, excitado. Tinha havido uma cena, ele
pusera a criada fora. E então destemperou, queixou-se daquela
sorte que o não deixava Ter uma criada decente, tudo uma
súcia de desavergonhadas, porcas, e que o roubavam. Tinha
saudades das pretas, não havia nada como criadas pretas...
- E então, dize lá, que pensas tu, de tudo isso? -
exclamou com um ar desanimado Godofredo.
Carvalho encolheu os ombros.
- O melhor é deixar tudo como está, tua mulher em
casa do pai, tu na tua, e o que lá vai, lá vai...
Mas um remorso tomou-o, quis mostrar coração, acrescentou:
- Em todo o caso conta comigo para tudo...
Lá um duelo regular, a espada, ou à pistola mesmo,
para salvar a honra, sim senhor. Cá estou. Lá coisas
trágicas não.
Godofredo disse então tomando o chapéu:
- Vamos ver o que diz o Medeiros, vamos à casa do Medeiros.
Carvalho ficou contrariado. Nesse dia ia passar o dia a Pedrouços
com a mulher, à casa do sogro. Eram os anos do cunhado....
Mas enfim, num caso daqueles, era necessário fazer alguma
coisa pelos amigos.
- Vamos lá, deixa-me avisar a Mariana que não posso
ir...
Daí a pouco voltou, calçando as luvas com um ar desagradável.
E já no meio da escada, parou, voltou-se para o Godofredo
que seguia:
- Sabes que minha mulher está de esperanças, hein?...
Um susto pode ser fatal, e se ela sabe que eu sou testemunha. Não
é brincadeira... Enfim, vamos lá... Os amigos é
para as ocasiões,
Embaixo tomaram uma carruagem, porque o Medeiros morava lá
no inferno, adiante da Estrela. Era um coupé quase novo,
fofo e asseado, que rolava sem ruído. Isto pôs Carvalho
de melhor humor: e recostou-se, acabando de abotoar as luvas. Durante
algum tempo não trocaram uma palavra. Depois, quando o coupé
atravessava o Loreto, subitamente uma grande curiosidade pareceu
invadir o Carvalho. Godofredo não lhe dera detalhes nenhuns.
Que tinha dito Ludovina? Como soubera ele do caso? O que dissera
o Neto? Godofredo, com um ar fatigado e em palavras curtas, completou
a sua história. O outro desaprovava a mesada de trinta mil
réis. Era uma gratificação dada à infâmia...
E vendo Godofredo, com o ar abatido, que numa emoção
mordia o beiço, como se o invadissem as lágrimas,
murmurou:
- Esta vida é uma choldra.
E não trocaram mais palavra até casa do Medeiros.
Quando bateram à campainha, o criado disse-lhes que o senhor
Medeiros ainda estava na cama. Então Carvalho subiu as escadas,
abriu o quarto do Medeiros, fazendo barulho, chamando-lhe mandrião
e debochado. Atrás, Godofredo ia topando com os móveis
na escuridão do quarto. Da sombra dos cortinados, a voz mal-humorada
do Medeiros perguntava que invasão era aquela: e, quando
lhe abriram a janela, berrou, enterrou-se nos lençóis
não podendo suportar bruscamente a invasão da claridade.
Mas terminou pôr mostrar a face inchada de sono e estremunhada;
depois espreguiçou-se, ergueu-se sobre o cotovelo, e deitou
mão a um cigarro, de cima da mesa-de-cabeceira.
Carvalho, sentado aos pés da cama, começou: durante
um momento falaram daquelas preguiças do Medeiros. Ele explicou
que se deitara às cinco da manhã...
Depois Carvalho começou:
- Vimos aqui para um negócio muito grave.
O outro interrompeu-o, dando um berro pelo criado. Queria saber
se viera uma carta pela manhã. O rapazote trazia-a, na algibeira.
Medeiros sentou-se na cama, com o cabelo todo esguedelhado, abriu-a,
nervoso, leu-a dum olhar, e, dando um suspiro de alívio,
meteu-a debaixo do travesseiro.
- Caramba, ia sendo ontem apanhado. Pôr um segundo... E se
o marido entra na cozinha, que é logo ao lado da porta, lá
se ia tudo quanto Marta fiou. Irra, que não ganhei para o
susto.
Carvalho e Godofredo tinham trocado um olhar. E Carvalho teve esta
frase infeliz:
- Pois é pôr uma coisa dessas que nós cá
vimos...
E acrescentou:
- O Alves teve um desgosto...
E, diante do olho arregalado do Medeiros, Godofredo sentiu no fundo
a garganta sufocada pelo seu ridículo... Sentiu-se pertencendo
a essa tribo grotesca de maridos traídos, que não
podiam entrar em casa sem que, de dentro, escapasse um amante. E
era assim pôr toda a cidade, uma infâmia pelos cantos,
amantes que fugiam e amantes apanhados. Ele apanhara o seu. O outro
marido não teria apanhado, se entrasse na cozinha? O dia
antecedente fora terrível... E parecia-lhe ver em toda a
cidade esta sarabanda, de amantes escapulindo-se, de maridos apanhando-os,
um chassez-croisez de homens, em torno das saias das mulheres...
E agora sentia uma fadiga, um horror de tornar a contar a sua história.
Mas os olhos do Medeiros, a face do Medeiros, esperavam: e ele terminou
pôr dizer, com um ar exausto:
- Foi ontem. Apanhei a Ludovina com o Machado.
- Caramba! - exclamou o Medeiros dando um pulo na cama.
E deitando fora a ponta do cigarro, tomando vivamente outro, quis
saber os detalhes. E foi o Carvalho que os deu, falador agora, gozando
o seu papel, com aquela confiança de marido dum estafermo
rico que ninguém jamais tentava. Contou tudo, enquanto, esmagado
sobre uma cadeira, com o chapéu alto ainda na mão,
Godofredo ia aprovando com a cabeça.
- Deixa ver a carta - terminou pôr dizer o Carvalho.
E Godofredo tirou-a do bolso, o outro leu-a a meia voz, pela Segunda
vez o marido ouviu voz estranha murmurar aquelas palavras da sua
mulher: "Ai Riquinho da minha alma, que tarde a de ontem..."
E Medeiros, em camisa, repetia a frase, lembrando-se dos olhos negros
de Ludovina, do seu papel, revirando-o também em todos os
sentidos como o outro fizera.
E subitamente veio-lhe um furor terrível contra o Machado.
Que diabo, já era necessário ser canalha! Enfim, ela
tinha culpas no cartório. Quando elas queriam, que diabo,
não se podia ser José do Egito... Mas nunca com a
mulher dum amigo íntimo, e de mais a mais dum sócio...
- Isso pede sangue - disse ele, excitado, saltando para o meio do
quarto em camisa, com os pés nas chinelas.
Godofredo exclamou, ressalvando logo a sua coragem:
- Eu queria um duelo de morte, mas logo a sua coragem:
Então Carvalho apelou para o amigo Medeiros olhou-os, espantado.
Não, decerto que não. Nem havia motivos para isso,
nem...
Era a Segunda vez que ele ouvia aquela razão que não
havia motivo: e então barafustou:
- Não há motivo! Então qual é o motivo
bastante para que dois homens se matem?...
- Um escarro na cara, ou uma coisa dessas - disse com autoridade
o Medeiros que, ainda em camisa, dava à pressa uma penteadela
no cabelo.
Godofredo queria argumentar, mas o outro, voltando-se, com o pente
na mão, terminou a questão:
- Mesmo que houvesse motivo, eu uma coisas dessas não aceito.
Numa dessas não me meto...
- Aí tens tú! - exclamou Carvalho em triunfo.
- Que disse eu? Ninguém quer uma responsabilidade dessas...
Eu, de mais a mais, com a mulher de esperanças... Olha que
brincadeira.
Um momento Alves ficou como abatido. E todavia sentia um começo
de alívio, como se parte de toda aquela indecisão
em que estava desde a véspera desaparecesse, e alguma coisa
se fixasse. Agora estava decidido que não haveria sortes,
nem acasos; que não haveria morte de homem; e em toda aquela
atarantação em que até ali estivera, isto formava
um ponto fixo, uma base, uma decisão, em que se poderia apoiar.
E não era ele que o decidira: eram os seus melhores amigos,
que raciocinavam a sangue-frio. Mas, em todo o caso, posta de parte
a morte dum deles, alguma coisa se havia de fazer.
- Que aconselham então vocês, que se há-de fazer?
Eu não hei-de ficar assim, de braços cruzados...
Medeiros, então, de pé no meio do quarto, em camisa,
com as canelas magras à mostra, os pés numas grandes
chinelas, exclamou, com solenidade:
- Queres pôr a tua honra nas minhas mãos?
Está claro que queria, não estava ali para outra coisa.
- Bem - exclamou Medeiros. - Então não tens mais que
pensar. Deixa-te levar, nós arranjaremos tudo.
E foi para dentro, para um cubículo, onde o ouviram lavar
os dentes, bochechar, fazer uma tempestade dentro da bacia.
Godofredo porém não parecia satisfeito, aproximou-se
da porta do cubículo, queria ainda saber...
- Não tens nada que saber - exclamou de dentro o outro, lavando-se,
com um ruído de esponja e água... - Nós também
não podemos saber. Temos de ir primeiro ao Machado, ver o
que ele diz, entendermo-nos com as testemunhas dele, etc.... Tu
vais para casa, e não saias até que nós apareçamos...
E deixa-nos aí tipóia, ouviste, para dar esses passos
todos... Domingos, escova a sobrecasaca preta; e calças pretas...
Tudo de preto...
Ouvindo isto, Carvalho deu um olhar ao seu próprio fato de
cheviot claro. Mas ele não era dessas pieguices de toilettes
: com uma camisa lavada em cima da pele, um homem estava decente
para ir a toda a parte.
Godofredo todavia passeava ainda pensativo. E terminou pôr
dizer ao Carvalho o que o perturbava:
- É necessário que vocês levem já condições
feitas. E eu, menos de ser à pistola e a vinte passos...
- Deixa lá isso com o Medeiros - disse o Carvalho.
E o Medeiros, aparecendo logo, com a toalha na mão, o cabelo
molhado, acrescentou:
- Olha, tu entenderás de coisas de negócios. Mas de
coisas de ponto de honra, entendo eu... Tu desde este momento não
tens senão a esperar que nós te vamos dizer - é
a tais horas, em tal sítio, e com tais armas. E depois no
dia seguinte, marchar! Não tens mesmo que te ocupar do médico.
Eu peço ao gomes, que entende muito de feridas... E não
é homem para perder a cabeça, se um de vocês
ficar escalavrado de todo.
Godofredo sentiu pela espinha um arrepio, e o coração
encolher-se. E do lado, Carvalho dizia:
- E tu vais para casa, se tens que fazer, ou papéis a pôr
em ordem, ou outra coisa...
Não falara em testamento, mas era uma alusão ao testamento.
E aquilo irritou Alves. Decerto ele era o primeiro a querer que
o duelo fosse sério, fosse mortal... Mas enfim, aqueles seus
dois amigos, os seus melhores amigos, os seus íntimos, um
a falar já de feridas, outro a empurrá-lo para a porta
para ir fazer testamento, pareciam-lhe grosseiros, inutilmente cruéis...
Sem uma palavra, desceu.
E atirando-se, pensou esta coisa profunda:
- Aqui está para que a gente se casa! E aqui está
para que se quer ter família!
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