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by Radix

e-Conomia: Algumas palavrinhas sobre a aliança Napster-Bertelsmann

06/11/2000 - A animação dos colunistas com a recente aliança "salvadora" do Napster pode ser fogo de palha. O Davi de distribuição de música e o Golias da mídia assinaram um acordo que não afeta o presente e só aumenta as dúvidas sobre o futuro. Ninguém sabe se o Napster continuará contando com a fidelidade de milhões de usuários, se as tarifas do futuro serviço pago serão razoáveis, se os prometidos dispositivos antipirataria serão minimamente eficazes, nem se os internautas ainda terão acesso fácil ao enorme acervo musical que o Napster oferece hoje. Até mesmo o encerramento dos processos contra a empresa de Shawn Fanning ainda não passa de uma esperança.

No entanto, muitos formadores de opinião deixaram o ceticismo de lado e pulam de alegria com a suposta capitulação da megaindústria ante os espertos garotos do Napster, os porta-bandeiras do progresso inevitável. Devagar com o andor porque o santo é de barro.

Exemplos? Na coluna "Manhattan Connections" deste domingo, 5 de novembro, Nelson Motta comemora a decisão da Bertelsmann de fechar um acordo para "disponibilizar o seu repertório para os 35 (até ontem, amanhã talvez sejam já 38) milhões de assinantes do Napster -- o mailing list dos sonhos de qualquer gravadora, um público que ama música e está disposto a pagar um dinheirinho (fala-se em menos de US$ 5) por uma assinatura mensal para trocar músicas em MP3 com outros fãs."

Sinto decepcioná-lo, mas não há nenhum mailing list dos sonhos. O Napster aceita as fichas de inscrição mais esdrúxulas que se possa imaginar. Você se esqueceu e do login/senha do acesso anterior? É só voltar ao Napster e criar outra conta, batucando no teclado qualquer sopa de letras como sendo "nome de usuário". O bloqueio dos pirateadores do Metallica, ocorrido há alguns meses e já citado neste iG Som, teve efeitos modestíssimos: usuários minimamente espertos voltaram ao Napster com outros nomes quaisquer. Tanto melhor para inflacionar a numeralha do Napster.

Portanto, em vez de falarmos em quaquilhões de usuários inscritos, pegaria muito bem contabilizar quantos deles preencheram formulários confiáveis; destes, quantos são usuários ativos do Napster; destes, quantos baixam regularmente músicas inteiras, de boa qualidade e com intenção de guardá-las consigo por tempo indeterminado (diferentemente do que fazem os usuários que baixam, ouvem uma vez e jogam o arquivo fora).

Uma revisão para baixo dos números exagerados do Napster é inevitável. Que seja feita já e de forma independente, de forma a estimar de forma realista o valor do programa/serviço, antes que comece a saraivada de críticas à "Napster, uma empresa do grupo Bertelsmann".

Em tempo: Já que tanto se fala em desigualdade na era digital, seria muito bom que os militantes da liberdade da música saíssem de seu pedestal e descobrissem quem mais se beneficia com Napster e similares. Os mais abonados deitam e rolam baixando músicas e mais músicas em suas conexões de alta velocidade e fazendo sua discoteca particular com CDs graváveis (estes, cada vez mais baratos, a 99 centavos a bolacha). E, acima de tudo, tempo para essas coisas é para estudantes entediados, os mesmos que passaram a vida inteira ouvindo de seus professores "progressistas" que o lucro é um pecado e a propriedade é um roubo. Enfim, é uma forma pouco sutil de levar os pobres a subsidiar a música dos ricos.