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A VIUVINHA
José de Alencar


Capítulo VI

Quatro pessoas se achavam reunidas na sala da casa de D. Maria.
O Sr. Almeida, sempre grave e sisudo, conversava no vão de uma janela com um
outro velho, militar reformado, cuja única ocupação era dar um passeio à tarde e jogar o seu voltarete.
O honrado negociante estava vestido em traje de cerimônia e machucava na mão
esquerda um par de luvas de pelica branca, indício certo de alguma grande solenidade, como casamento ou batizado.
Os dois conversavam sobre o projeto do desmoronamento do morro do Castelo,
projeto que julgavam devia estender-se a todos os morros da cidade; era um ponto este em que o reumatismo do Sr. Almeida e uma antiga ferida do militar reformado se achavam perfeitamente de acordo.
As outras duas pessoas eram um sacerdote respeitável e uma encantadora menina, que esperavam sentados no sofá a chegada de Jorge.
- Quando será o seu dia? dizia, sorrindo, o padre.
- É coisa em que nem penso! respondia a moça com um gracioso gesto de
desdém.
- Ande lá! Há de pensar sempre alguma vez.
- Pois não!
E, dizendo isto, a menina suspirava, minha prima, como suspiram todas as mulheres em dia de casamento: umas desejando, outras lembrando-se e muitas arrependendo-se.
A um lado da sala estava armado um oratório simples; um Cristo, alguns círios e
dois ramos de flores bastavam à religião do amor, que tem as galas e as pompas do coração.
Jorge chegou às cinco horas e alguns minutos.
O Sr. Almeida apertou-lhe a mão com a mesma impassibilidade costumada, como se nada se tivesse passado entre eles na véspera.
Um observador, porém, teria reparado no olhar perscrutador que o negociante lançou ao moço, como procurando ler-lhe na fisionomia um pensamento oculto.
O padre revestiu-se dos seus hábitos sacerdotais; e Carolina apareceu na porta da
sala guiada por sua mãe.
Dizem que há um momento em que toda a mulher é bela, em que um reflexo ilumina o seu rosto e dá-lhe esse brilho que fascina; os franceses chamam a isto... la beauté du diable.
Há também um momento em que as mulheres belas são anjos, em que o amor casto e puro lhes dá uma expressão divina; eu, bem ou mal, chamo a isto... a beleza do céu.
Carolina estava em um desses momentos; a felicidade que irradiava no seu semblante, o rubor de suas faces, o sorriso que adejava nos seus lábios, como o núncio desse monossílabo que ia resumir todo o seu amor, davam-lhe uma graça feiticeira
Envolta nas suas roupas alvas, no seu véu transparente preso à coroa de flores de
laranjeira, os seus olhos negros cintilavam com um fulgor brilhante entre aquela nuvem diáfana de rendas e sedas.
Jorge adiantou-se pálido, mas calmo, e, tomando a mão de sua noiva, ajoelhou- se com ela aos pés do sacerdote.
A cerimônia começou.
No momento em que o padre disse a pergunta solene, essa pergunta que prende
toda a vida, o moço estremeceu, fez um esforço e quase imperceptivelmente respondeu. Carolina, porém, abaixando os olhos e corando, sentiu que toda a sua alma vinha pousar-lhe nos lábios com essa doce palavra:
- Sim! murmurou ela.
A bênção nupcial, a bênção de Deus, desceu sobre essas duas almas, que se
ligavam e se confundiam.
Pouco depois desapareceram os adornos de cerimônia e na sala ficaram apenas algumas pessoas que festejavam em uma reunião de amigos e de família a felicidade de dois corações.
Jorge às vezes esforçava-se por sorrir; mas esse sorriso não iludia sua noiva, cujo olhar inquieto se fitava no seu semblante.
Entretanto a alegria de D. Maria era tão expansiva; o velho militar contava anedotas tão desengraçadas e tão chilras, que todos eram obrigados a rir e a se mostrar satisfeitos.
Jorge, mesmo à força de vontade, conseguiu dar ao seu rosto uma expressão alegre, que desvaneceu em parte a inquietação de Carolina.
Contudo havia nessa reunião uma pessoa a quem o moço não podia esconder o que se passava na sua alma, e que lia no seu rosto como um livro aberto.
Era o Sr. Almeida, que às vezes tornava-se pensativo como se combinasse alguma idéia que começava a esclarecer-lhe o espírito; sabia que a sua presença era naquele momento uma tortura para Jorge, mas não se resolvia a retirar-se.
Deram dez horas, termo sacramental das visitas de família; passar além, só é permitido aos amigos íntimos; é verdade que os namorados, os maçantes e os jogadores de voltarete costumam usurpar este direito.
Todas as pessoas levantaram-se, pois, e dispuseram-se a retirar-se.
O negociante, tomando Jorge pelo braço, afastou-se um pouco.
- Estimei, disse ele, que a nossa conversa de ontem não influísse sobre a sua resolução.
O moço estremeceu.
- Era uma coisa a que estava obrigada a minha honra, mas...
O Sr. Almeida esperou a palavra, que não caiu dos lábios de Jorge. O moço
tinha empalidecido.
- Mas?... insistiu ele.
- Queria dizer que não sou tão culpado como o senhor pensa; talvez breve tenha a prova.
O negociante sorriu.
- Boa-noite, Sr. Jorge.
O moço cumprimentou-o friamente.
As outras visitas tinham saído, e D. Maria, sorrindo à sua filha, retirou-se com ela.


Capítulo VII

Eram onze horas da noite.
Toda a casa estava em silêncio.
Algumas luzes esclareciam ainda uma das salas interiores, que fazia parte do aposento que D. Maria destinara a seus dois filhos.
Jorge, em pé no meio desta sala, de braços cruzados, fitava um olhar de profunda
angústia em uma porta envidraçada, através da qual se viam suavemente esclarecidas as alvas sanefas da cortina.
Era a porta do quarto de sua noiva.
Duas ou três vezes dera um passo para dirigir-se àquela porta, e hesitara; temia
profanar o santuário da virgindade; julgava-se indigno de penetrar naquele templo sagrado de um amor puro e casto.
Finalmente tentou um esforço supremo; revestiu-se de toda a sua coragem e atravessou a sala com um passo firme, mas lento e surdo.
A porta estava apenas cerrada; tocando-a com a sua mão trêmula, o moço abriu
uma fresta e correu o olhar pelo aposento.
Era um elegante gabinete forrado com um lindo papel de cor azul-celeste, tapeçado de lã de cores mortas; das janelas pendiam alvas bambinelas de cassa, suspensas às lanças douradas.
A mobília era tão simples e tão elegante como o aposento: dois consolos de
mármore, uma conversadeira, algumas cadeiras e o leito nupcial, que se envolvia nas longas e alvas cortinas, como uma virgem no seu véu de castidade.
Era, pois, um ninho de amor este gabinete, em que o bom gosto, a elegância e a
singeleza tinham imprimido um cunho de graça e distinção que bem revelava que a mão do artista fora dirigida pela inspiração de uma mulher.
Carolina estava sentada a um canto da conversadeira, a alguns passos do leito,
no vão das duas janelas; tinha a cabeça descansada sobre o recosto e os olhos fitos na porta da sala.
A menina trajava apenas um alvo roupão de cambraia atacado por alamares
feitos de laços de fita cor de palha; o talhe do vestido, abrindo-se desde a cintura, deixava entrever o seio delicado, mal encoberto por um ligeiro véu de renda finíssima.
A indolente posição que tomara fazia sobressair toda a graça do seu corpo, e
desenhava as voluptuosas ondulações dessas formas encantadoras, cuja mimosa carnação percebia-se sob a transparência da cambraia.
Seus longos cabelos castanhos de reflexos dourados, presos negligentemente,
deixavam cair alguns anéis que se espreguiçavam languidamente sobre o colo aveludado, como se sentissem o êxtase desse contato lascivo.
Descansava sobre uma almofada de veludo a ponta de um pezinho delicado, que
rocegando a orla do seu roupão deixava admirar a curva graciosa que se perdia na sombra.
Um sorriso, ou antes um enlevo, frisava os lábios entreabertos; os olhos fixos na
porta vendavam-se às vezes com os seus longos cílios de seda, que, cerrando-se, davam uma expressão ainda mais lânguida ao seu rosto.
Foi em um desses momentos que Jorge entreabriu a porta e olhou: nunca vira a
sua noiva tão bela, tão cheia de encanto e de sedução.
E entretanto ele, seu marido, seu amante, que ela esperava, ele, que tinha a felicidade ali, junto de si, sorriu amargamente como se lhe houvessem enterrado um punhal no coração.
Abriu a porta, e entrou.
A moça teve um leve sobressalto; e, dando com os olhos no seu amante, ergueu-
se um pouco sobre a conversadeira, tanto quanto bastou para tomar-lhe as mãos e engolfar-se nos seus olhares.
Que muda e santa linguagem não falavam essas duas almas, embebendo-se uma
na outra! Que delícia e que felicidade não havia nessa mútua transmissão de vida entre dois corações que palpitavam um pelo outro!
Assim ficaram tempo esquecido; ambos viviam uma mesma vida, que se comunicava pelo fluido do olhar e pelo contato das mãos; pouco a pouco as suas cabeças se aproximaram, os seus hálitos se confundiram, os lábios iam tocar-se.
Jorge afastou-se de repente, como se sentisse sobre a sua boca um ferro em brasa; desprendeu as mãos, e sentou-se pálido e lívido como um morto.
A menina não reparou na palidez de seu marido; toda entregue ao amor, não tinha outro pensamento, outra idéia.
Deixou cair a cabeça sobre o ombro de Jorge; e, sentindo as palpitações do seu coração sobre o seio, achava-se feliz, como se ele lhe falasse, lhe olhasse e lhe sorrisse.
Foi só quando o moço, erguendo docemente a fronte da menina, a depôs sobre o recosto da almofada, que Carolina olhou seu amante com surpresa, e viu que alguma coisa se passava de extraordinário.
- Jorge, disse ela com a voz trêmula e cheia de angústias, tu não me amas.
- Não te amo! exclamou o moço tristemente; se tu soubesses de que sacrifícios
é capaz o amor que te tenho!...
- Oh! não, continuou a moça, abanando a cabeça; tu não me amas! Vi-te todo
o dia triste; pensei que era a felicidade que te fazia sério, mas enganei-me.
- Não te enganaste, não, Carolina, era a tua felicidade que me entristecia.
- Pois então saibas que a minha felicidade está em te ver sorrir. Vamos, não me
ames hoje menos do que me amavas há dois meses!
- Há dois momentos, Carolina, em que o amor é mais do que uma paixão, é
uma loucura; é o momento em que se possui ou aquele em que se perde, o objeto que se ama.
A menina corou e abaixou os olhos sobre o tapete.
- Dize-me, tornou ela para disfarçar a sua confusão, o que sentiste hoje no
momento em que as nossas duas mãos se uniram sob a bênção do padre?
Jorge estremeceu, e ia soltar uma palavra que reteve; depois disse com algum
esforço:
- A felicidade, Carolina.
- Pois eu senti mais do que a felicidade; quando nossas mãos se uniam tantas
vezes e que nós conversávamos horas e horas, eu era bem feliz; mas hoje, quando ajoelhamos, não sei o que se passou em mim; parecia-me que tudo tinha desaparecido, tu, eu, o padre, minha mãe, e que só havia ali duas mãos que se tocavam, e nas quais nós vivíamos!
O moço voltou o rosto para esconder uma lágrima.
- Vem cá, continuou a moça, deixa-me apertar a tua mão; quero ver se sinto
outra vez o que senti. Ah! naquele momento parecia que nossas almas estavam tão unidas uma à outra que nada nos podia separar.
A moça tomou as mãos de Jorge, e, descansando a cabeça sobre o recosto da
conversadeira, cerrou os olhos e assim ficou algum tempo
- Como agora!... continuou ela, sorrindo. Se fecho os olhos, vejo-te aí onde estás. Se escuto, ouço a tua voz. Se ponho a mão no coração, sinto-te!
Jorge ergueu-se; estava horrivelmente pálido.
Caminhou pelo gabinete agitado, quase louco; a moça o seguia com os olhos; sentia o coração cerrado; mas não compreendia.
Por fim o moço chegou-se a um consolo sobre o qual havia uma garrafa de
Chartreuse e dois pequenos copos de cristal. Sua noiva não percebeu o movimento rápido que ele fez, mas ficou extremamente admirada, vendo-o apresentar-lhe um dos cálices cheio de licor.
- Não gosto! disse a menina com gracioso enfado.
- Não queres então beber à minha saúde! Pois eu vou beber à tua.
Carolina ergueu-se vivamente e, tomando o cálice, bebeu todo o licor.
- Ao nosso amor!...
Jorge sorriu tristemente.
Dava uma hora da noite.


Capítulo VIII

Jorge tomou as mãos de sua mulher e beijou-as.
- Carolina!
- Meu amigo!
- Sabes o meu passado: já te contei todas as minhas loucuras e tu me perdoaste
todas; preciso, porém, ainda do teu perdão para uma falta mais grave do que essas, para um crime talvez!
- Dize-me: esta falta faz que não me ames? perguntou a menina um pouco
assustada.
- Ao contrário, faz que te ame ainda mais, se é possível! exclamou o moço.
- Então não é uma falta, respondeu ela, sorrindo.
- Quando souberes! murmurou o moço, talvez me acuses.
- Tu não pensas no que estás dizendo, Jorge! replicou a moça sentida.
- Escuta: se eu te pedir uma coisa, não me negarás?
- Pede e verás.
- Quero que me perdoes essa falta que tu ignoras!
- Causa-te prazer isto?
- Como tu não fazes idéia! disse o moço com um acento profundo.
- Pois bem; estás perdoado.
- Não; não há de ser assim; de joelhos a teus pés.
E o moço ajoelhou-se diante de sua mulher.
- Criança! disse Carolina sorrindo.
- Agora dize que me perdoas!
- Perdôo-te e amo-te! respondeu ela cingindo-lhe o pescoço com os braços e
apertando a sua cabeça contra o seio.
Jorge ergueu-se calmo e sossegado; porém ainda mais pálido.
Carolina deixou-se cair sobre a conversadeira; suas pálpebras cerravam-se a seu
pesar; pouco depois tinha adormecido.
O moço tomou-a nos braços e deitou-a sobre o leito, fechando as alvas cortinas;
depois foi sentar-se na conversadeira, e colocou o seu relógio sobre uma banquinha de charão.
Assim, com a cabeça apoiada sobre a mão e os olhos fitos nas pequenas agulhas
de aço que se moviam sobre o mostrador branco, passou duas horas.
Cada instante, cada oscilação, era um ano que fugia, um mundo de pensamentos
que se abismava no passado.
Quando o ponteiro, devorando o último minuto, marcou quatro horas justas, ele
ergueu-se.
Tirou do bolso uma carta volumosa e deitou-a sobre o consolo de mármore.
Abriu as cortinas do leito e contemplou Carolina, que dormia, sorrindo talvez à
imagem dele, que em sonho lhe aparecia.
O moço inclinou-se e colheu com os lábios esse sorriso; era o seu beijo nupcial.
Tornou a fechar as cortinas e entrou na sala onde estivera a princípio; aí abriu uma janela e saltou no jardim.
Seguiu pela ladeira abaixo; a noite estava escura ainda; mas pouco faltava para
amanhecer.
Debaixo da janela esclarecida do aposento de Carolina destacou-se um vulto que
seguiu o moço a alguns passos de distância.
A pessoa, qualquer que ela fosse, não desejava ser conhecida; estava envolvida
em uma capa escura, e tinha o maior cuidado em abafar o som de suas pisadas.
Jorge ganhou a Rua da Lapa, seguiu pelo Passeio Público, e dirigiu-se à Praia de
Santa Luzia.
O dia vinha começando a raiar; e o moço, que temia ver esvaecerem-se as sombras da noite antes de ter chegado ao lugar para onde se dirigia, apressava o passo.
O vulto o acompanhava sempre a alguma distância, tendo o cuidado de caminhar
do lado do morro, onde a escuridão era mais intensa.
Quando Jorge chegou ao lugar onde hoje se eleva o Hospital da Misericórdia,
esse lindo edifício que o Rio de Janeiro deve a José Clemente Pereira, o horizonte se esclarecia com os primeiros clarões da alvorada.
Um espetáculo majestoso se apresentava diante de seus olhos; aos toques da luz do sol parecia que essa baía magnífica se elevava do seio da natureza com os seus rochedos de granito, as suas encostas graciosas, as suas águas límpidas e serenas.
O moço deu apenas um olhar a esse belo panorama e continuou o seu caminho.
O vulto que o seguia tinha desaparecido.


Capítulo IX

O Rio de Janeiro ainda se lembra da triste celebridade que, há dez anos passados, tinha adquirido o lugar onde está hoje construído o Hospital da Santa Casa.
Houve um período em que quase todas as manhãs os operários encontravam em
algum barranco ou entre os cômoros de pedra e de areia, o cadáver de um homem que acabara de pôr termo à sua existência.
Outras vezes ouvia-se um tiro; os serventes corriam e apenas achavam uma pistola ainda fumegante, um corpo inanimado, e sobre ele alguma carta destinada a um amigo, a um filho, ou a uma esposa.
Amantes infelizes, negociantes desgraçados, pais de família carregados de dívidas, homens ricos caídos na miséria, quase todos aí vinham, trazidos por um ímã irresistível, por fascinação diabólica.
As Obras da Misericórdia, como chamavam então este lugar, tinham a mesma
reputação que o Arco das Águas Livres de Lisboa e a Ponte Nova de Paris.
Era o templo do suicídio, onde a fragilidade humana sacrificava em holocausto a
esse ídolo sanguinário tantas vítimas arrancadas às suas famílias e aos seus amigos.
Essa epidemia moral, que se agravava todos os dias, começava já a inquietar
alguns espíritos refletidos, alguns homens pensadores, que viam com tristeza os progressos do mal.
Procurava-se debalde a causa daquela aberração fatal da natureza, e não era possível explicá-la.
Não tínhamos, como a Inglaterra, esse manto de chumbo, que pesa sobre a
cabeça dos filhos da Grã-Bretanha; esse lençol de névoa e de vapores, que os envolve como uma mortalha.
Não tínhamos, como a Alemanha, o idealismo vago e fantástico, excitado pelas
tradições da média idade, e, modernamente, pelo romance de Goethe, que tão poderosa influência exerceu nas imaginações jovens.
Ao contrário, o nosso céu, sempre azul, sorria àqueles que o contemplavam; a
natureza brasileira, cheia de vigor e de seiva, cantava a todo o momento um hino sublime à vida e ao prazer.
O gênio brasileiro, vivo e alegre no meio dos vastos horizontes que o cercam,
sente-se tão livre, tão grande, que não precisa elevar-se a essas regiões ideais em que se perde o espírito alemão.
Nada enfim explicava o fenômeno moral que se dava então na população desta
corte; mas todos o sentiam e alguns se impressionavam seriamente.
Era fácil, pois, naquela época, adivinhar o motivo que levava Jorge às quatro
horas da manhã ao lugar onde se abriam os largos alicerces do grande Hospital de Santa Luzia.
O moço afastou-se da praia, e desapareceu por detrás de alguns montes de areia
que se elevavam aqui e ali pelo campo.
Meia hora depois ouviram-se dois tiros de pistola; os trabalhadores que vinham
chegando para o serviço correram ao lugar donde partira o estrondo, e viram sobre a areia o corpo de um homem, cujo rosto tinha sido completamente desfigurado pela explosão da arma de fogo.
Um dos guardas meteu a mão no bolso da sobrecasaca, e achou uma carteira
contendo algumas notas pequenas, e uma carta apenas dobrada, que ele abriu e leu:
"Peço a quem achar o meu corpo o faça enterrar imediatamente, a fim de poupar
à minha mulher e aos meus amigos esse horrível espetáculo. Para isso achará na minha carteira o dinheiro que possuo."
Jorge da Silva
5 de setembro de 1844.

Uma hora depois a autoridade competente chegou ao lugar do suicídio, e, tomando conhecimento do fato, deu as providências para que se cumprisse a última vontade do finado.
O trabalho continuou entre as cantilenas monótonas dos pretos e dos serventes,
como se nada de extraordinário se houvesse passado.

Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII e Capítulo XIV
Capítulo XV e Capítulo XVI