A VIUVINHA
José de Alencar
Capítulo
XIII
O interior
do edifício correspondia dignamente à sua aparência.
A sala, se assim se pode chamar um espaço fechado entre quatro
paredes negras,
estava ocupada por algumas velhas mesas de pinho.
Cerca de oito ou dez pessoas enchiam o pequeno aposento: eram pela
maior
parte marujos, soldados ou carroceiros que jantavam.
Alguns tomavam a sua refeição agrupados aos dois e
três sobre as mesas; outros
comiam mesmo de pé, ou fumavam e conversavam em um tom que
faria corar o próprio Santo Agostinho antes da confissão.
Uma atmosfera espessa, impregnada de vapores alcoólicos e
fumo de cigarro
pesava sobre essas cabeças, e dava àqueles rostos
um aspecto sinistro.
A luz que coava pelos vidros embaciados da janela mal esclarecia
o aposento, e
apenas servia para mostrar a falta de asseio e de ordem que reinava
nesse couto do vício e da miséria.
No fundo, pela fresta de uma porta mal cerrada, aparecia de vez
em quando a
cabeça de uma mulher de 50 anos, que interrogava com os olhos
os fregueses, e ouvia o que eles pediam.
Era a dona, a servente e ao mesmo tempo cozinheira dessa tasca imunda.
A cada pedido, a cabeça, coberta com uma espécie de
turbante feito de um lenço
de tabaco, retirava-se, e daí a pouco aparecia um braço
descarnado, que estendia ao freguês algum prato de louça
azul cheio de comida, ou alguma garrafa de infusão de campeche
com o nome de vinho.
Foi nesta sala que entrou Carlos.
Mas não entrou só; porque, no momento em que ia transpor
a soleira, um homem que havia mais de meia hora passeava na calçada
defronte da tasca adiantou-se e deitou a mão sobre o ombro
do moço.
Carlos voltou-se admirado dessa liberdade; e ainda mais admirado
ficou, reconhecendo na pessoa que o tratava com tanta familiaridade
o nosso antigo conhecido, o Sr. Almeida.
O velho negociante não tinha mudado; conservava ainda a força
e o vigor que
apesar da idade animava o seu corpo seco e magro; no gesto a mesma
agilidade; no olhar o mesmo brilho; na cabeça encanecida
o mesmo porte firme e direito.
- Está espantado de ver-me aqui? disse o Sr. Almeida sorrindo.
- Confesso que não esperava, respondeu o moço, confuso
e perturbado.
- O mal pode ocultar-se; o bem se revela sempre; acrescentou o velho
em tom
sentencioso.
- Que quer dizer?
- Entremos.
- Para quê?
- O senhor não ia entrar?
Carlos recuou insensivelmente da porta, e, querendo esconder do
velho
negociante o seu nobre sacrifício, fez um esforço,
e balbuciou uma mentira:
- Passava... por acaso... Vou ao Largo do Moura...
O Sr. Almeida fitou os seus olhos pequenos, mas vivos, no rosto
do moço, que não pôde deixar de corar; e, apertando-lhe
a mão com uma expressão significativa, disse-lhe :
- Sei tudo!
- Como? perguntou Carlos admirado ao último ponto.
- É aqui que costuma jantar. E por isso adivinho qual tem
sido a sua existência
durante estes cinco anos. Impôs-se a si mesmo o castigo da
sua antiga prodigalidade; puniu o luxo de outrora com a miséria
de hoje. É nobre, mas é exagerado
- Não, senhor; é justo. O que possuo atualmente, o
que adquiro com o meu
trabalho, não me pertence; é um depósito, que
Deus me confia, e que deve servir não só para pagar
as dívidas de meu pai, como também a dívida
sagrada que contraí para com uma moça inocente. Gastar
esse dinheiro seria roubar, Sr. Almeida.
- Bem; não argumentemos sobre isto; não se discute
um generoso sacrifício:
admira-se. Venha jantar comigo.
- Não posso, respondeu o moço.
- Por quê?
- Não aceito um favor que não posso retribuir.
- Quem faz o favor é aquele que aceita e não o que
oferece. Demais, eu pobre,
nunca me envergonhei de sentar-me à mesa de seu pai rico,
acrescentou o velho com severidade.
- Desculpe!
O velho tomou o braço de Carlos, e dirigiu-se com ele ao
Hotel Pharoux, que
naquele tempo era um dos melhores que havia no Rio de Janeiro; ainda
não estava transformado em uma casa de banhos e um ninho
de dançarinas.
Poucos instantes depois, estavam os dois companheiros sentados a
uma das mesas do salão; e o Sr. Almeida, com um movimento
muito pronunciado de impaciência, instava para que o moço
concordasse na escolha do jantar que ele havia feito à vista
da data.
Carlos recusava com excessiva polidez os pratos esquisitos que o
velho
lembrava, e a todas as suas instâncias respondia sorrindo:
- Não quero adquirir maus hábitos, Sr. Almeida.
O velho reconheceu que era inútil insistir.
- Então o que quer jantar?
Carlos escolheu dois pratos.
- Somente?
- Somente.
- Não me meto mais a teimar com o senhor, respondeu o velho
olhando de
encontro à luz o rubi líquido de um cálice
de excelente vinho do Porto.
Serviu-se o jantar.
O Sr. Almeida comeu com a consciência de um homem que paga
bem e que não
lastima o dinheiro gasto nos objetos necessários à
vida. Satisfez o estômago e deixou apenas esse pequeno vácuo,
tão difícil de encher, porque só admite a flor
de um manjar saboroso ou de uma iguaria delicada.
Então, bebendo o seu último cálice de vinho
do Porto, passando na boca as pontas do guardanapo, cruzou os braços
sobre a mesa com ar de quem dispunha a conversar.
- Pode acender o seu charuto, não faça cerimônia.
- Já não fumo, respondeu Carlos simplesmente.
- O senhor já não é o mesmo homem. Não
come, não bebe, não fuma; parece um velho da minha
idade.
- Há uma coisa que envelhece mais do que a idade, Sr. Almeida:
é a desgraça.
E além disto o senhor tem razão; não sou, nem
posso ser o mesmo homem; já morri uma vez, acrescentou em
voz baixa.
- Mas há de ressuscitar.
- É essa a esperança que me alimenta.
- E como vai esse negócio? perguntou o velho com interesse.
- Tem-me custado recolher as letras de meu pai; já paguei
60:000$, e amanhã
devo pagar 5:000$; seis letras que me faltam não sei onde
se acham. Se eu pudesse anunciar... Mas, na minha posição,
receio comprometer-me.
- Pensou bem. Porém só restam por pagar essas seis
letras?
- Unicamente.
- Quer saber então onde elas estão?
- É o maior favor que me pode fazer.
- Com uma condição.
- Qual?
- Que há de ouvir-me como se fosse seu pai quem lhe falasse,
disse o velho,
estendendo a mão.
Por toda a resposta o moço apertou, com efusão e reconhecimento,
a mão leal do
honrado negociante.
- Essas seis letras, disse o Sr. Almeida, estão em meu poder.
- Ah!
- Lembra-se do que lhe disse, há cinco anos, na véspera
do seu casamento?
- Lembro-me de tudo.
- Era minha intenção salvar a firma de meu melhor
amigo... de seu pai. Mas a
sua morte suposta impossibilitou-me. O passivo da casa excedia as
minhas forças. Os credores reuniram-se e resolveram fazer
declarar a falência.
- De um homem morto.
- É verdade. Não o pude evitar. O mais que consegui
foi abafar este negócio,
comprando a alguns credores mais insofridos as suas dívidas.
Eis como essas letras vieram parar à minha mão.
- Obrigado, Sr. Almeida, disse o moço comovido, ainda lhe
devo mais esse sacrifício.
- Está enganado, respondeu o velho querendo dar à
sua voz a aspereza habitual; não fiz sacrifício; fiz
um bom negócio; comprei as letras com um rebate de 50%, ganho
o dobro.
- Mas quando as comprou não tinha esperança de ser
pago.
- Tinha confiança na sua honra e na sua coragem.
- E se eu não voltasse
- Era uma transação malograda; a fortuna do negociante
está sujeita a estes
riscos.
- Felizmente, Deus ajudou-me e quis que um dia pudesse agradecer-lhe
sem
corar, esse benefício. O que tinha sido da sua parte uma
dádiva generosa, tornou-se um empréstimo que devo
pagar-lhe hoje mesmo.
- Não consinto; prometeu-me ouvir como a seu pai; eis o que
ele lhe ordena
pela minha voz. - Todas as suas dívidas acham-se pagas; a
sua honra está salva; é tempo de voltar ao mundo.
- Mas as seis letras que estão em sua mão? interrompeu
o moço.
- Aqui as tem, disse o Sr. Almeida entregando-lhe um pequeno maço.
- Devo-lhe então...
- Deve o que dei por elas; e me pagará quando lhe for possível.
- Não sei quanto lhe custaram esses títulos; sei que
eles representam um valor
emprestado a meu pai. O senhor podia perder; é justo que
lucre.
- Bem; faça o que quiser.
- Quanto ao pagamento, posso realizá-lo imediatamente; já
o teria feito se há mais tempo soubesse que esses títulos
lhe pertenciam.
- Eu ocultei-os de propósito. Quando chegou dos Estados Unidos
e me comunicou o que tinha feito e o que pretendia fazer, resolvi,
para facilitar-lhe o cumprimento de seu dever, deixar que o senhor
pagasse primeiro os estranhos.
- Agora, porém, essa dificuldade desapareceu; vamos à
minha casa.
- Para quê?
- Para receber o que lhe devo.
- Não tratemos disso agora.
- Escute, Sr. Almeida; depois de cinco anos de provanças
e misérias, não sei o
que Deus me reserva. Mas, se ainda há neste mundo felicidade
para mim, antes de aceitá-la é preciso que eu tenha
reparado todos os meus erros; é preciso que eu me sinta purificado
pela desgraça. Uma dívida, embora o credor seja um
amigo, se tornaria um remorso. Tenho dinheiro suficiente para pagá-la.
- E que lhe restará?
- Um nome honrado, e a esperança
O Sr. Almeida resignou-se e acompanhou Carlos até à
sua casa.
Aí, o moço abriu a carteira, e, tirando os valores
que há pouco havia guardado,
entregou ao negociante a quantia de 30:000$ representada pelo algarismo
das seis letras.
- Já lhe disse que só me deve 15:000$, disse o velho
recusando receber.
- Devo-lhe o valor integral destes títulos; se a firma de
meu pai não inspirou confiança aos outros, para seu
filho ela não sofre desconto.
Enquanto o Sr. Almeida, mordendo os beiços, guardava as notas
do banco e os
bilhetes do tesouro, Carlos abria uma pequena carteira preta, e,
depois de beijar a firma de seu pai escrita no aceite, fechou com
as outras essas últimas letras que acabava de pagar.
- Aqui está a minha fortuna, disse, sorrindo com altivez.
- Tem razão, respondeu o velho; porque aí está
o mais nobre exemplo de
honestidade.
- E também o mais belo testemunho de uma verdadeira amizade.
- Jorge!... exclamou o negociante, comovendo-se.
Alguns instantes depois, o Sr. Almeida despediu-se do moço.
- Escuso recomendar-lhe uma coisa, disse Jorge ao negociante.
- O quê?
- A continuação do segredo. Nem uma palavra!... Quando
for tempo, eu
mesmo o revelarei. Ainda não sou Jorge.
- Que falta?
- Depois lhe direi.
E separaram-se.
Capítulo
XIV
As últimas
palavras do velho negociante esclareceram um mistério que
já se
achava quase desvanecido.
Jorge era o verdadeiro nome desse moço que morrera para o
mundo, e que durante cinco anos vivera como um estranho sem família,
sem parentes, sem amigos, ou como uma sombra errante condenada à
expiação das suas faltas.
A página em que eu devia ter escrito as circunstâncias
desse fato ficou em
branco, minha prima; agora, porém, podemos lê-la claramente
no espírito de Jorge, que, sentado à sua carteira,
triste e pensativo, repassa na memória esses anos de sua
vida, desde a noite do seu casamento.
Acompanhando o moço no seu sinistro passeio às obras
da Santa Casa de
Misericórdia, o vimos sumir-se por entre os cômoros
de areia que se elevavam por toda essa vasta quadra em que está
hoje assentado o Hospital de Santa Luzia.
O vulto que o seguia de perto, embuçado em uma capa e tomando
todas as precauções para não ser conhecido
nem pressentido pelo moço, desapareceu como ele nas escavações
do terreno.
Jorge, como todo homem que depois de longa reflexão toma
uma resolução firme e inabalável, estava ansioso
por chegar à peripécia desse drama terrível;
por isso parou no primeiro lugar que lhe pareceu favorável
ao seu desígnio.
Mas um espetáculo ainda mais horrível do que o seu
pensamento apresentou-se a
seus olhos; viu a realização dessa idéia louca
que desde a véspera dominava o seu espírito.
Um infeliz, levado pela mesma vertigem, o tinha precedido; seu corpo
jazia sobre a areia na mesma posição em que o surpreendera
a morte instantânea, meio recostado sobre o declive do terreno.
A cabeça era uma coisa informe; o tiro fora carregado com
água para tornar a
explosão surda e mais violenta; as feições
haviam desaparecido, e não deixavam reconhecer o desgraçado.
Naturalmente quis ocultar a sua morte, para poupar à sua
família o escândalo e a
impressão dolorosa que sempre deixam esses atos de desespero.
Aquele espetáculo horrorizou o moço: em face da realidade
seu espírito recuou;
houve mesmo um instante em que se espantou da sua loucura; e voltou
o rosto para não ver esse cadáver, que parecia escarnecer
dele.
Mas a lembrança do que o esperava, se voltasse, triunfou;
julgou-se irremissivelmente condenado; e chamou covardia o grito
extremo da razão que sucumbia.
Tirou as suas pistolas, e armou-as sorrindo tristemente; depois
ajoelhou e
começou uma prece.
Desvario incompreensível da criatura que, ofendendo a Deus,
ora a esse mesmo
Deus! Demência extravagante do homem que pede perdão
para o crime que vai cometer!
Quando o moço, terminada a sua prece, erguia as duas pistolas
e ia aplicar os
lábios à boca da arma assassina, o vulto que o tinha
acompanhado, e que se achava nesse momento de pé, atrás
dele, com um movimento rápido paralisou-lhe os braços.
Jorge ergueu-se precipitadamente, e achou-se em face do homem que
se opusera
à sua vontade de uma maneira tão brusca.
Era o Sr. Almeida.
O velho, com a sua perspicácia e com os exemplos de tantos
fatos semelhantes
em uma época em que dominava a vertigem do suicídio,
adivinhara as intenções do moço.
Aquela pronta resignação, aquela espécie de
contradição entre os nobres
sentimentos de Jorge e a calma que ele afetava, deram-lhe uma quase
certeza do que ele planejava.
Não quis interrogá-lo, convencido que lhe negaria.
Resolveu espiá-lo durante
aquela noite, até que pudesse avisar a Carolina do que se
passava, a fim de que ela defendesse pelo amor uma vida ameaçada
por loucos prejuízos.
Sua expectativa realizou-se; recostado no muro da chácara
que ficava fronteira
às janelas do quarto da noiva, acompanhou por entre as cortinas
toda a cena noturna que descrevi; conheceu a agitação
do moço, viu-o deitar algumas gotas de ópio no cálice
de licor que deu à sua mulher; não perdeu nem um incidente,
por menor que fosse.
Um instante, enquanto o moço meditava, com os olhos no mostrador
do seu
relógio, o Sr. Almeida receou que ele quisesse fazer do quarto
da noiva um aposento mortuário; mas respirou quando o viu
saltar na rua.
Seguiu-o, e, pela direção adivinhou o desenlace da
cena de que fora espectador;
preparou-se, pois, para representar também o seu papel; e
por isso achava-se em face de Jorge no momento supremo em que a
sua intervenção se tornara necessária.
O primeiro sentimento que se apoderou do moço, vendo o Sr.
Almeida, foi o do
pejo; teve vergonha do que praticava e pareceu-lhe fraqueza aquilo
que há pouco julgava um ato de heroísmo.
Logo depois o despeito e o orgulho sufocaram esse bom impulso.
- Que veio fazer aqui? perguntou com arrogância.
- Evitar um crime, respondeu o velho com severidade.
- Enganou-se, disse Jorge secamente.
- Não me enganei, porque estou certo de que não há
homem que depois de
escutar a razão cometa semelhante loucura. Qual é
o benefício que lhe pode dar a morte?
- Salvar-me da desonra.
- Uma desonra não lava outra desonra. O homem que atenta
contra sua vida, é
fraco e covarde...
- Sr. Almeida!
- É covarde, sim! Porque a verdadeira coragem não
sucumbe com um revés; ao
contrário luta, e acaba por vencer. Matando-se, o senhor
rouba os seus credores, porque tira-lhes a última garantia
que eles ainda possuem, a vida de um homem.
- E que vale esta vida?
-Vale o trabalho.
- E o sofrimento!
- É verdade; mas não temos direito de sacrificar a
um pensamento egoísta aquilo, que não nos pertence.
Se a sua existência está condenada ao sofrimento, deve
aceitar essa punição que Deus lhe impõe, e
não revoltar-se contra ela.
Jorge abaixou a cabeça; não sabia o que responder
àquela lógica inflexível.
- Escute, disse o velho depois de um momento de reflexão,
o que teme o senhor dessa desonra que vai recair sobre a sua vida?
Teme ver-se condenado a sofrer o desprezo do mundo, e sentir o escárnio
e o insulto sem poder erguer a fronte e repeli-lo; teme enfim que
a sua existência se torne um suplício de vergonha,
de remorso e de humilhação! não é isto?!
- Sim! balbuciou o moço.
- Pois não é preciso cometer um crime para livrar-se
dessa tortura; morra para
o mundo, morra para todos; porém viva para Deus, e para salvar
a sua honra e expiar o seu passado.
- Que quer dizer? perguntou o moço admirado.
- Ali está o corpo de um infeliz; é um cadáver
sem nome, sem sinais que digam
o que ele foi; deite sobre ele uma carta, desapareça, e daqui
a uma hora o senhor terá deixado de existir.
- E depois?
- Depois, como um desconhecido, como um estranho que entra no mundo
tendo a lição da experiência e a alma provada
pela desgraça, procure remir as suas culpas. Um dia talvez
possa reviver e encontrar a felicidade.
Jorge refletiu:
- Tem razão, disse ele.
Pouco depois ouviu-se um tiro; os trabalhadores das obras que iam
chegando
encontraram um cadáver mutilado e a carta de Jorge; ao mesmo
tempo o moço e o Sr. Almeida ganhavam pelo lado oposto a
Praia de Santa Luzia.
Passava um bote a pouca distância de terra; o velho acenou-lhe
que se aproximasse.
O acaso nos favorece, disse ao moço; sai amanhã para
os Estados Unidos um
navio que me foi consignado; é melhor embarcar agora, para
não excitar desconfianças; hoje mesmo lhe tirarei
um passaporte.
O bote aproximou-se; o embarque nestas paragens é incômodo;
mas a situação
não admitia que se atendesse a isto.
Eram nove horas quando o Sr. Almeida, tendo deixado Jorge na barca
americana e tendo tomado um carro na primeira cocheira, chegou à
casa de D. Maria.
A boa senhora recebeu-o com um sorriso; estava sentada na sala próxima
ao
quarto de sua filha e esperava tranqüilamente que seus filhos
acordassem.
O velho, vendo aquela serena felicidade, hesitou; não teve
ânimo de enlutar esse
coração de mãe.
Nisto a porta do quarto abriu-se, e Carolina, branca como a cambraia
que vestia,
apareceu na porta, tendo na mão a carta de Jorge.
A mãe soltou um grito; a filha não podia falar; e
assim passou um momento de
tortura, em que uma dessas dores procurava debalde adivinhar a desgraça,
e a outra se esforçava por achar uma palavra que a revelasse.
No dia seguinte, Jorge partia para os Estados Unidos, e Carolina
trocava suas
vestes de noiva por esse vestido preto que nunca mais deixou.
Seria longo descrever a vida desse moço, morto para o mundo
e existindo
contudo para sofrer; durante cinco anos alimentou-se de recordações
e de uma esperança que lhe dava forças e coragem para
lutar.
O amor de Carolina, talvez mais do que o sentimento da honra, o
animava;
trabalhou com uma constância e um ardor infatigáveis,
e ganhou para pagar todas as dívidas de seu pai.
Logo que se achou possuidor de uma soma avultada, Jorge preferiu
vir acabar a
sua expiação no seu país, onde ao menos se
sentiria perto daqueles que amava.
De fato chegou ao Rio de Janeiro com o nome de Carlos Freeland;
dava-se por
estrangeiro; alguns, porém, julgavam que nascera no Brasil
e que aí vivera muito tempo, mas não se recordavam
de o ter visto.
A desgraça tinha mudado completamente a sua fisionomia; do
moço tinha feito
um homem grave; além disso, a barba crescida ocultava a beleza
dos seus traços.
O seu primeiro cuidado foi procurar o Sr. Almeida e pedir-lhe que
o auxiliasse no resgate das letras, que devia ser feito de modo
que ninguém o suspeitasse. O que fez o velho negociante,
já o sabe.
Como disse, Jorge ocultava sua vida de todos e do próprio
velho; sofria corajosamente a miséria a que se condenara,
mas não queria que ela tivesse uma testemunha.
O Sr. Almeida, porém, surpreendera o segredo.