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Viagens na
Minha Terra
Almeida Garret
CAPÍTULO XLII
Protesto do Autor. - Desafinação dos nervos. - O que
é
preciso para que os ruínas sejam solenes e sublimes. -
Que Deus está no Coliseu como em S. Pedro. - Quer-se o
Autor ir embora de Santarém. - Como, sem ver o túmulo
deI-rei D. Fernando?- Em que estado se acha este. -
Exemplar de estilo bizantino. - Coroa real sobre a
caveira.- O rei de espadas e o símbolo do império. -
Quem nunca viu o rei cuida que é de oiro. - Brutalidades
da soldadesca num túmulo real. - O que se acha nos
sepulturas dos reis. - A frenologia. - Vindita pública,
tarda mas ultrajante. - Camões e Duarte Pacheco. - A
sombra falsa da religião. - Regime dos barões e da
matéria. - A prosa e a poesia do povo. - Síntese e
análise. - O senso íntimo. - Se o Autor é demagogo
ou
jesuíta? - Jesus Cristo e os barões.
Não chamem exagerado ao que vai escrito no fim do
último capítulo; senti o que escrevi, senti muito mais
do
que escrevi. O que poderá haver é desacerto nas palavras,
porque em verdade não sei explicar a impressão que me
jaz
uma ruína neste estado. Desafinam-me os nervos, vibram-me
numa discordância e dissonância insuportável. Queria
ver
antes estes altares expostos às chuvas e aos ventos do
céu, - que o sol os queimasse de dia, - que à noite,
à
luz branca da lua, ou ao tíbio reflexo das estrelas,
piasse o mocho e sussurrasse a coruja sobre arcos meio
caídos.
Não me parecia profanado o templo assim, nem
descaído de majestade o monumento. Podia ajoelhar-me no
meio das pedras soltas entre as ervas úmidas, e levantar
o meu pensamento a Deus, o meu coração à glória,
à
grandeza, o meu espírito às sublimes aspirações
da
idealidade. O material, o grosseiro, o pesado da vida não
me vinham afligir aí.
Deus, a idéia grande do mundo - Deus, a Razão Eterna
- Deus, o amor - Deus, a glória - Deus, a força, a poesia
e a nobreza de alma - Deus está nas ruínas escalavradas
do Coliseu, como nos zimbórios de bronze e mármore de
S.
Pedro.
Mas aqui!... nos pardieiros de um convento velho,
consertado pelas Obras Públicas para servir de quartel de
soldados - aqui não habita espirito nenhum.
Quero-me ir embora daqui!
E como? sem ver o túmulo del-rei Fernando? Não pode
ser, é verdade.
Onde está ele?
No coro alto.
Subamos ao coro alto.
Oh! que não sei de nojo como o conte!
O belo jazigo do rei formoso e frívolo, tão dado às
delicias do prazer como foi seu pai às austeridades da
justiça, em que estado ele está!
Ó nação de bárbaros! Ó maldito
povo de iconoclastas
que é este!
O túmulo do segundo marido de D. Leonor Teles é um
sarcófago de pedra branca, fina e friável, elegante
e
simplesmente cortada, com mais sobriedade de ornatos do
que têm acabada escultura, casta e continente, como o não
foi a vida do rei que ai encerraram depois de morto.
Percebem-se ainda vestígios das vivas cores em que
foram induzidos os relevos da pedra branca: - estilo
bizantino de que não sei outro exemplar em Portugal. Este
é - ou antes, era - precioso.
Era: porque a brutalidade da soldadesca o deturpou a
um ponto incrível, Imaginou a estúpida cobiça
destes
álanos modernos que devia de estar ali dentro algum
grande haver de riquezas encantadas, - talvez cuidaram
achar sobre a caveira do rei a coroa real marchetada de
pérolas e rubis com que fosse enterrado, - talvez
pensaram encontrar, apertado ainda entre as secas
falanges dos dedos mirrados, aquele globo de oiro maciço
que lhes figura o rei de espadas do sujo baralho de sua
tarimba, e que elas tem pela indispensável e infalível
insígnia supremo império: - talvez supuseram que, mesmo
depois de morto, um rei devia de ser de oiro... Enfim
quem sabe o que eles cuidaram e pensaram? O que se sabe,
porque se vê, é que quiseram abrir e arrombar o túmulo.
Tentaram, primeiro, levantar a campa; não puderam: tão
solidamente está soldada a pedra de cima ao corpo ou
caixão do jazigo, que o todo parece maciço e inconsútil.
Mas neste empenho quebraram e estalaram os lavores finos
dos cantos, os cairéis delicados das orlas; e a campa não
cedeu: parece chumbada pelo anjo dos últimos julgamentos
com o selo tremendo que só se há de quebrar no dia
derradeiro do mundo.
A cobiça estólida dos soldados não se aterrou
com a
religião do sepulcro nem lhe causou atrição,
ao menos,
esta resistência quase sobrenatural das pedras do
moimento. Vê-se que trabalhou ali, de alavanca e de
aríete, algum possante e ponderoso pé-de-cabra; mas
que
trabalhou em vão muito tempo.
Desenganaram-se enfim com a tampa; e resolveram
atacar, mais brutalmente mas com mais vantagem, as
paredes do sarcófago, que justamente suspeitaram de menos
espessas. Assim era; e conseguiram na parede da frente
abrir um rombo grosseiro por onde entra fácil um braço
todo e pode explorar o interior do túmulo à vontade.
Assim o fiz eu, que meti o meu braço por essa
abertura barrada, e achei terra, pó, alguns ossos de
vértebras, e duas caveiras, uma de homem, outra de
criança.
Não me lembra que haja memória alguma de infante que
aí fosse sepultado também, segundo faziam os antigos
muitas vezes que punham os cadáveres das crianças nos
jazigos dos pais, dos parentes, até de meros amigos de
suas famílias.
Tive, confesso, uma espécie de prazer maligno em
imaginar a estúpida compridez de cara com que deviam de
ficar os brutais profanadores, quando achassem no túmulo
do rei o que só têm os túmulos - de reis ou de
mendigos -
ossos. terra, cinza, nada!
Por mim, estive tentado a furtar a caveira dei-rei
D. Fernando. Se acreditasse na frenologia, parece-me que
não tinha resistido. Não creio na ciência, felizmente
-
neste caso - para a minha consciência. Também não
sei o
que faria se a caveira fosse de outro homem. Mas o fraco
rei que fez fraca a fraca gente não são relíquias
as
suas que se guardem,
Oh! e quem sabe? Esta profanação, este abandono,
este desacato do túmulo de um rei, ali na sua terra
predileta - D. Fernando era santareno de afeição - não
será ele o juízo severo da posteridade, a vindita pública
dos séculos, que tardia mas ultrajante, cai enfim sobre a
memória reprovada do mau príncipe, e lhe desonra as
cinzas como já lhe desonrara o nome?
Quero acreditar que tal não podia suceder aos
túmulos de D. Dinis, de D. Pedro I, dos dois Joanes I e
II, de...
Sim: e aonde está o de Camões? O de Duarte Pacheco
aonde esteve? que ainda é mais vergonhosa pergunta esta
última.
Em Portugal não há' religião de nenhuma espécie.
Até
a sua falsa sombra, que é a hipocrisia, desapareceu.
Ficou o materialismo estúpido, alvar, ignorante, devasso
e desfaçado, a fazer gala de sua hedionda nudez cínica
no
meio das ruínas profanadas de tudo o que elevava o
espírito...
Uma nação grande ainda poderá ir vivendo e esperar
por melhor tempo, apesar desta paralisia que lhe pasma a
vida da alma na mais nobre parte de seu corpo. Mas uma
nação pequena, é impossível; há
de morrer.
Mais dez anos de barões e de regime da matéria, e
infalivelmente nos foge deste corpo agonizante de
Portugal o derradeiro suspiro do espírito.
Creio isto firmemente.
Mas ainda espero melhor todavia, porque o povo, o
povo povo, está são; os corruptos somos nós,
os que
cuidamos saber e ignoramos tudo.
Nós, que somos a prosa vil da nação, nós
não
entendemos a poesia do povo; nós, que só compreendemos
o
tangível dos sentidos, nós somos estranhos às
aspirações
sublimes do senso íntimo, que despreza as nossas teorias
presunçosas, porque todas vêm de uma acanhada análise
que
procede curta e mesquinha dos dados materiais,
insignificantes e imperfeitos; - enquanto ele, aquele
senso intimo do povo, vem da Razão divina, e procede da
síntese transcendente, superior, e inspirada pelas
grandes e eternas verdades que se não demonstram porque
se sentem.
E eu que descrevo isto serei eu demagogo? Não sou.
Serei fanático, jesuíta, hipócrita? Não
sou.
Que sou eu, então?
Quem não entender o que eu sou, não vale a pena que
lho diga...
Perdoa-me, leitor amigo, uma reflexão última no fim
deste capitulo já tão secante, e prometo não
refletir
nunca mais.
Jesus Cristo, que foi o modelo da paciência, da
tolerância, o verdadeiro e único fundador da liberdade
e
da igualdade entre os homens, Jesus Cristo sofreu com
resignação e humildade quantas injustiças, quantos
insultos lhe fizeram a ele e à sua missão divina; perdoou
ao matador, á adúltera, ao blasfemo, ao ímpio.
Mas quando
viu os barões a agiotar dentro do templo, não se pode
conter, pegou num azorrague e zurziu-os sem dor.
CAPÍTULO XLIII
Partida de Santarém. - Pinacoteca. - Impaciência e
saudades. - Sexta-feira. -Martírio obscuro. - A figura
do pecado. - Estamos no vale outra vez. - Evocação de
encanto. - A irmã Francisca e Frei Dinis. - A teia de
Penélope. - E Joaninha? - Joaninha está no Céu.
- A
mulher morta a dobar esperando que a enterrem. - A
esperança, virtude do Cristianismo. - Uma carta.
Estou deveras fatigado de Santarém; vou-me embora.
Despedimo-nos saudosos daquela boa e leal família
que nos hospedara com tanto carinho, com toda a velha
cordialidade portuguesa; partimos.
Apenas comecei a respirar o ar fresco da manhã nos
olivais, senti desafogar-se-me a alma daquela constrição
cansada que se experimenta na longa visita a um museu de
antigüidades, a uma galeria de pinturas.
Perdoem-me que não diga pinacoteca; bem sei que é
moda, e que a palavra é adotável segundo as mais estritas
regras de Horácio, pois cai da fonte grega diretamente e
sem mistura: mas soa-me tão mal em português que não
posso com ela.
Santarém fatigou-me o espírito, como todas as coisas
que fazem pensar muito. Deixo-a porém com saudade, e não
me hei de esquecer nunca dos dias que aqui passei. De quê
e como sou eu feito, que não posso estar muito tempo num
lugar, e não posso sair dele sem pena?
Já me está custando ter deixado Santarém. Por
que
não havíamos de partir amanha, e ter ficado ainda hoje
ali?
E hoje que é sexta-feira?... Mau dia para começar
viagem!
Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso vale, da
pobre velha cega que ai vivia sua triste vida de dores,
de remorsos e desconforto, esperando porém em Deus,
conformada com seu martírio: martírio obscuro, mas tão
ensangüentado daquele sangue que mana gota a gota e dolo-
rosamente do coração rasgado, devorado em silêncio
pelo
abutre invisível de uma dor que se não revela, que não
tem prantos nem ais.
Era na sexta-feira que o terrível frade, o demônio
vivo daquela mulher de angústias, lhe aparecia tremendo e
espantoso diante de seus olhos cegos, elevado pela
imaginação ás proporções descomunais
e gigantescas de um
vingador sobrenatural.
Era a figura tangível, e visível à vista de sua
alma, do enorme pecado que contra ela estava sempre.
Creio que escuso dizer que não tenho eu esta
superstição dos dias aziagos que tinha a desgraçada
velha, que a sua Joaninha partilhava. Mas confesso que,
recordando as fatalidades daquela família e daquele dia,
não gostei de voltar nele ao vale de Santarém,
Estávamos porém no vale; e ia eu via de longe
aquelas arvores e aquela janela, que tanto me
impressionaram, quando estas reflexões me acudiam ao
espírito e mo contristavam,
Afrouxei insensivelmente o passo, deixei tomar larga
dianteira aos meus companheiros de viagem: e quando
chegava perto da casa, tinha-os perdido de vista.
Involuntariamente parei defronte da janela: mordia-
me um interesse, urna curiosidade irresistível... Nem
viva alma por aqueles arredores; apeei-me e fui direito
para a casa
Apenas passei as árvores, um espetáculo inesperado,
uma evocação como de encanto me veio ferir os olhos.
No mesmo sitio, do mesmo modo, com os mesmos trajos
e na mesma atitude em que a descrevi nos primeiros
capítulos desta história, estava a nossa velha irmã
Francisca...
Ela era e não podia ser outra; sentada na sua antiga
cadeira, dobando, como Penélope tecia, a sua interminável
meada. Não havia outra diferença agora senão
que a
dobadoira não parava, e que o fio seguia, seguia,
enrolando-se, enrolando-se continuo e compassado no
novelo; e que os braços da velha lidavam lentamente, mas
sem cessar, no seu movimento de autômato que fazia mal
ver.
Defronte dela, sentado numa pedra, a cabeça baixa. e
os olhos fixos num grosso livro velho, que sustinha nos
joelhos, estava um homem seco e magro, descarnado como um
esqueleto, lívido como um cadáver, imóvel como
uma
estátua, Trajava um non-descríptum negro, que podia
ser
sotaina de clérigo ou túnica de frade, mas descingida,
solta e pendente em grossas e largas pregas do extenuado
pescoço do homem.
Também não podia ser senão Frei Dinis,
Cheguei junto deles; não me sentiu nenhum dos dois;
nem me viu ele, o que só via dos dois.
Sem mais reflexão, e continuando alto na série de
pensamentos que me vinha correndo pelo espírito,
exclamei:
- E Joaninha?
- Joaninha esta no Céu! - respondeu sem sobressalto,
sem erguer os olhos do seu livro, a sombra do frade, que
outra coisa não parecia.
- Joaninha, pobre Joaninha! Pois como foi, como
acabou a infeliz?
- Joaninha não é infeliz: foi ser um anjo na
presença de Deus.
- E... e Carlos? balbuciei eu hesitando, porque
temia a suscetibilidade do frade.
- Carlos! - respondeu ele erguendo enfim os olhos e
cravando-os em mim...
E oh! que nunca vi olhos como aqueles, nem os hei de
ver!
- Carlos!... E quem é que mo pergunta? Quem é que
tanto sabe de mim e dos meus?... Dos meus? Eu não tenho
meus; sou só.
- Só! Não está aqui, que eu vejo!...
- Vê essa mulher morta que ai ficou, que eu matei, e
que está a espera que dê a hora de eu a enterrar, mais
nada. Eu estou só e quero estar só. Morreu tudo. Que
mais
quer saber?
- Venho de Santarém...
Santarém também morreu; e morreu Portugal. Aqui não
vive senão o meu pecado, que Deus não perdoou ainda,
nem
espero...
- A nossa religião fez uma virtude da esperança,
- Fez.
- E nisso se distingue das outras todas.
- Pois ainda há quem o saiba nesta terra?
- Há mais do que não houve nunca - pelo menos há
mais quem o saiba melhor.
- Pode ser: os juízos de Deus são incompreensíveis.
- E infinita a sua misericórdia.
- Mas a sua cólera implacável, a sua justiça
tremenda.
- A misericórdia é maior.
- Quem lhe ensinou tudo isso?
- O Evangelho, o coração e minha mãe que mos
explicou ambos.
- Sente-se aqui... ao pé de mim.
Sentei-me. O frade pegou-me na mão com as suas
ambas, e pôs-me os olhos com uma expressão que nenhuma
língua pode dizer, nem nenhum pincel pintar.
Esteve assim algum tempo, como quem me observava.
Vi-lhe apontar claramente uma lágrima, vi-lha retroceder,
e ficarem-lhe enxutos os olhos. Senti-lhe estrangular um
suspiro que lhe vinha à garganta; percebi distintamente o
estremeção que lhe correu o corpo; mas observei que
todo
se serenou depois.
Disse-me então com voz magoada, mas plácida e sem
aspereza já nenhuma:
- Sabe a história do vale?
- Sei tudo até a partida de Carlos para Évora.
- Aqui tem a carta que ele escreveu.
Tirou do breviário um papel dobrado, amarelo do
tempo e manchado, bem se via. de muitas lágrimas, algumas
recentes ainda.
- Leia.
Li.
Esta era a carta de Carlos. |
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