Ubirajara
José de Alencar
"Todos
cantam sua terra/ Também vou cantar a minha"
UBIRAJARA
UbirajaraSenhor
da lança, de Ubira - vara, e jara - senhor; aportuguesando
sentido, vem a ser lanceiro. Com este nome existia ao tempo do descobrimento,
nas cabeceiras do rio São Francisco, uma nação
de que fala Gabriel Soares - Roteiro do Brasil, cap. 182.
"A peleja
dos Ubirajaras, diz esse escritor, é a mais notável
do mundo, como fica dito, porque a fazem com uns paus tostados muito
agudos, de comprimento de três palmos, pouco mais ou menos
cada um, e tão agudos de ambas as pontas, com os quais atiram
a seus contrários como com punhais, e são tão
certos com eles que não erram tiro, com o que tem grande
chegada; e desta maneira matam também a caça que se
lhe espera, o tiro não lhe escapa; os quais com estas armas
se defendem de seus contrários tão valorosamente como
seus vizinhos com arcos e flechas, etc."
Desta arma
e da destreza com que a manejavam proveio o nome de bilreiros que
lhes deram os sertanistas, significando assim que tangiam suas lanças
com a agilidade e sutileza igual à da rendeira ao trocar
os bilros.
ADVERTÊNCIA
Este livro
é irmão de Iracema.
Chamei-lhe
de lenda como ao outro. Nenhum título responde melhor pela
propriedade, como pela modéstia, às tradições
da pátria indígena.
Quem por desfastio
percorrer estas páginas, se não tiver estudado com
alma brasileira o berço de nossa nacionalidade, há
de estranhar em outras coisas a magnanimidade que ressumbra no drama
selvagem a formar-lhe o vigoroso relevo.
Como admitir
que bárbaros, quais nos pintaram os indígenas, brutos
e canibais, antes feras que homens, fossem suscetíveis desses
brios nativos que realçam a dignidade do rei da criação?
Os historiadores,
cronistas e viajantes da primeira época, senão de
todo o período colonial, devem ser lidos à luz de
uma crítica severa. É indispensável sobretudo
escoimar os fatos comprovados, das fábulas a que serviam
de mote, e das apreciações a que os sujeitavam espíritos
acanhados, por demais imbuídos de uma intolerância
ríspida.
Homens cultos,
filhos de uma sociedade velha e curtida por longo trato de séculos,
queriam esses forasteiros achar nos indígenas de um mundo
novo e segregado da civilização universal uma perfeita
conformidade de idéias e costumes.
Não
se lembravam, ou não sabiam, que eles mesmos provinham de
bárbaros ainda mais ferozes e grosseiros do que os selvagens
americanos.
Desta prevenção
não escaparam muitas vezes espíritos graves e bastante
ilustrados para escreverem a história sob um ponto de vista
mais largo e filosófico.
Entre muitos
citarei um exemplo. Barlaeus referindo as justas que se faziam entre
os selvagens para obterem em prêmio de seu valor a virgem
mais formosa, não se esqueceu de acrescentar este comento
- finis spectantium est voluptas.
Narrados com este pessimismo, as cenas da cavalaria, os torneios
e justas não passariam de manejos inspirados pela sensualidade.
Nada resistiria à censura ou ao ridículo.
Por igual teor,
senão mais grosseiras, são as apreciacões de
outros escritores acerca dos costumes indígenas. As coisas
mais poéticas, os traços mais generosos e cavaleirescos
do caráter dos selvagens, os sentimentos mais nobres desses
filhos da natureza são deturpados por uma linguagem imprópria,
quando não acontece lançarem à conta dos indígenas
as extravâgancias de uma imaginação desbragada.
Releva ainda
notar que duas classes de homens forneciam informações
acerca dos indígenasa dos missionários e a dos aventureiros.
Em luta uma com outra, ambas se achavam de acordo nesse ponto, de
figurarem os selvagens como feras humanas. Os missionários
encareciam assim a importância da sua catequese; os aventureiros
buscavam justificar-se da crueldade com que tratavam os índios.
Faço
estas advertências para que ao lerem as palavras textuais
dos cronistas citados nas notas seguintes não se deixem impressionar
por suas apreciações muitas vezes ridículas.
É indispensável escoimar o fato dos comentos de que
vem acompanhado, para fazer uma idéia exata dos costumes
e índole dos selvagens.
O CAÇADOR
Pela margem
do grande rio (1) caminha Jaguarê (2), o jovem caçador.
O arco pende-lhe ao ombro, esquecido e inútil. As flechas
dormem no coldre da uiraçaba (3).
Os veados saltam
das moitas de ubaia e vêm retouçar na grama, zombando
do caçador.
Jaguarê
não vê o tímido campeiro, seus olhos buscam
um inimigo capaz de resistir-lhe ao braço robusto.
O rugido do
jaguar abala a floresta; mas o caçador também despreza
o jaguar, que já cansou de vencer.
Ele chama-se
Jaguarê, o mais feroz jaguar da floresta; os outros fogem
espavoridos quando de longe o pressentem.
Não
é esse o inimigo que procura, porém outro mais terrível
para vencê-lo em combate de morte e ganhar nome de guerra.(4)
Jaguarê
chegou à idade em que o mancebo troca a fama do caçador
pela glória do guerreiro.
Para ser aclamado
guerreiro por sua nação é preciso que o jovem
caçador conquiste esse título por uma grande façanha.
Por isso deixou
a taba dos seus e a presença de Jandira (5), a virgem formosa
que lhe guarda o seio de esposa.
Mas o sol três
vezes guiou o passo rápido do caçador através
das campinas, e três vezes como agora deitou-se além
nas montanhas da Aratuba (6), sem mostrar-lhe um inimigo digno de
seu valor.
A sombra vai
descendo da serra pelo vale e a tristeza cai da fronte sobre a face
de Jaguarê.
O jovem caçador
empunha a lança (7) de duas pontas, feita da roxa craúba
(8), mais rija que o ferro.
Nenhum guerreiro
brandiu jamais essa arma terrível, que sua mão primeiro
fabricou.
Lá estaca
o jovem caçador no meio da campina. Volvendo ao céu
o olhar torvo e iracundo, solta ainda uma vez seu grito de guerra.
O bramido rolou
pela amplidão da mata e foi morrer longe nas cavernas da
montanha.
Respondeu o
ronco da sucuri na madre do rio e o urro do tigre escondido na furna;
mas outro grito de guerra não acudiu ao desafio do caçador.
Jaguarê
arremessou a lança, que vibrou nos ares e foi cravar-se além
no grosso tronco da emburana.
A copa frondosa
ramalhou, como as palmas do coqueiro ao sopro do vento, e o tronco
gemeu até à raiz.
O caçador
repousa à sombra de sua lança.
* * *
Salta uma corça da mata e veloz atravessa a campina.
Mais veloz
a persegue gentil caçadora com a seta embebida no arco flexível.
Ergue-se Jaguarê.
Seu olhar ardente
voou, sôfrego de encontrar o inimigo que lhe tardava.
Avistando uma
mulher, a alegria do mancebo apagou-se no rosto sombrio.
Pela faixa
cor de ouro, tecida das penas do tucano, Jaguarê conheceu
que era uma filha da valente nação dos tocantins,
senhora do grande rio, cujas margens ele pisava.
A liga vermelha
(9) que cingia a perna esbelta da estrangeira dizia que nenhum guerreiro
jamais possuíra a virgem formosa.
A corça veio cair aos pés de Jaguarê, atravessada
pela flecha certeira da jovem caçadora que a seguia de perto.
A virgem reconheceu
o cocar da nação que na última lua chegara
aos campos do Taari (10) e da qual os pajés tinham dado notícia.
- Guerreiro
araguaia (11), pois vejo pela pena vermelha de teu cocar que pertences
a essa nação valente; se pisas os campos dos tocantins
como hóspede, bem-vindo sejas; mas se vens como inimigo,
foge, para que tua mãe não chore a morte de seu filho
e tenha quem a proteja na velhice.
- Virgem dos
tocantins, Jaguarê já soltou seu grito de guerra. Ele
pisa os campos de teus pais como senhor. Tu és sua prisioneira.
Não que vencer a corça tímida seja glória
para o caçador; mas tu chamarás o inimigo que ele
espera.
- Se o veado
te der a sua ligeireza, jovem guerreiro, ela não te servirá
senão para ver o rasto de meu pé antes que o vento
o apague.
A linda caçadora
desferiu a corrida pela imensa campina. Após ela se arremessou
Jaguarê que muitas vezes vencera o tapir.
Mas a virgem
dos tocantins corria como a nandu no deserto, e o caçador
conheceu que seu braço nunca a poderia alcançar.
Travou do arco
e o brandiu. A seta obedeceu-lhe, pregando no tronco do açaí
a faixa que flutuava ao sopro do vento.
- A filha dos
tocantins tem no pé as asas do beija-flor; mas a seta de
Jaguarê voa como o gavião. Não te assustes,
virgem das florestas; tua formosura venceu o ímpeto de meu
braço e apagou a cólera no coração feroz
do caçador. Feliz o guerreiro que te possuir.
- Eu sou Araci
(12), a estrela do dia, filha de Itaquê, pai da grande nação
tocantim. Cem dos melhores guerreiros (13) o servem em sua cabana
para merecer que ele o escolha por filho. O mais forte e valente
me terá por esposa. Vem comigo, guerreiro araguaia, excede
aos outros no trabalho e na constância, e tu romperás
a liga de Araci na próxima lua do amor.
- Não,
filha do sol; Jaguarê não deixou a taba de seus pais
onde Jandira lhe guarda o seio de esposa, para ser escravo da virgem.
Ele vem combater e ganhar um nome de guerra que encha de orgulho
a sua nação. Torna à taba dos tocantins e dize
aos cem guerreiros cativos de teu amor, que Jaguarê, o mais
destemido dos caçadores araguaias, os desafia ao combate.
- Araci vai,
pois assim o queres. Se fores vencido, ela guardará tua lembrança,
pois nunca seus olhos viram mais belo caçador. Se fores vencedor,
será uma alegria para a virgem do sol pertencer ao mais valente
dos guerreiros.
A virgem disse
e desapareceu na selva. Os olhos de Jaguarê seguiram o passo
ligeiro da formosa caçadora, como o guaxinim que rasteja
a zabelê.
Quando ela
desapareceu o jovem caçador recostou-se ao tronco da emburana
e esperou.
* * *
Do outro lado da campina assoma um guerreiro.
Tem na cabeça
o canitar (14) das plumas de tucano, e no punho do tacape uma franja
das mesmas penas.
E um guerreiro
tocantim (l5). De longe avistou Jaguarê e reconheceu o penacho
vermelho dos araguaias.
As duas nações
não estão em guerra (16); mas sem quebra da fé
pode um guerreiro, cansado do longo repouso, oferecer a outro guerreiro
combate leal.
Quando o tocantim
armou o arco, Jaguarê já tinha brandido o seu e disparado
no ar uma seta, mensageira do desafio.
Respondeu o
guerreiro disparando também uma flecha no ar, para dizer
que aceitava o combate.
Então
os dois campeões caminharam um para o outro com o passo grave
e pararam frente a frente.
- Eu sou Jaguarê,
filho de Camacã, chefe da valente nação dos
araguaias, que vem de longe em busca da terra de seus pais. Minha
fama corre as tabas e tu já deves conhecer o maior caçador
das florestas. Mas Jaguarê despreza a fama do caçador;
ele quer um nome de guerra, que diga das nações a
força de seu braço e faça tremer aos mais bravos.
Se tua nação te aclamou forte entre os fortes, prepara-te
para morrer; se não, passa teu caminho, guerreiro vil, para
que o sangue do fraco não manche o tacape (17) virgem de
Jaguarê.
- O caraíba
guiou teu passo ao encontro de Pojucã (18), o matador de
gente, guerreiro chefe(19) da terrível nação
tocantim, que enche de terror as outras nações. Há
três luas, desde que fugiram espavoridos os bárbaros
tapuias (20), que Pojucã não combate; e seu tacape
tem fome do inimigo. Tu não és digno dos golpes de
um guerreiro chefe; mas Pojucã se compadece de tua mocidade
e consente em combater contigo. Terás a glória de
ser morto pelo mais valente guerreiro tocantim. Os cantores de meus
feitos lembrarão teu nome; e todos os mancebos de tua nação
invejarão tua sorte.
- Jaguarê
agradece a Tupã (21) que te fez um grande guerreiro e o chefe
mais feroz da grande nação tocantim, Pojucã,
matador de gente. A tua morte será a primeira façanha
do caçador araguaia e lhe dará um nome de guerra que
se torne o espanto dos teus e o terror das outras nações.
Os dois campeões
recuaram passo a passo até que se acharam a um tiro de arco.
Então
soltaram o grito de guerra e se arremessaram um contra o outro brandindo
o tacape.
* * *
Os tacapes toparam no ar e os dois guerreiros rodaram como as torrentes
impetuosas no remoinho da Itaoca.
Dez vezes as
clavas bateram, e dez vezes volveram para bater de novo.
Os animais
que passavam na floresta fugiram espavoridos, como se a borrasca
ribombasse no céu.
Ainda uma vez
encontraram-se os dois tacapes e voaram em lascas pelos ares.
- O ubiratã
(22) é forte; mas há outro ubiratã que lhe
resiste. Como o braço de Pojucã é que não
há outro braço. Já viste, jovem caçador,
o veado nas garras da jibóia? Assim vais morrer.
- Se tu fosses
a cascavel que somente sabe morder, Jaguarê te esmagaria a
cabeça com o pé e seguiria seu caminho. Mas tu s a
jibóia feroz; e Jaguarê gosta de estrangular a jibóia.
Não morrerás pelo pé, mas pela mão do
caçador. Lança teu bote, guerreiro tocantim.
Pojucã
estendeu os braços e estreitou os rins de Jaguarê,
que por sua vez cingiu os lombos do guerreiro.
Cada um dos
campeões pôs na luta todas as suas forças, bastantes
para arrancar o tronco mais robusto da mata.
Ambos, porém,
ficaram imóveis. Eram dois jatobás que nasceram juntos
e entrelaçaram os galhos ligando-se no mesmo tronco.
Nada os desprende;
nada os abala. O tufão passa bramindo sem agitá-los;
e eles permanecem quedos pelo volver dos tempos.
Um pajé
que passou na orla da mata viu os lutadores e esconjurou-os pensando
que eram as almas de dois guerreiros presos no abraço da
morte.
Já a
sombra se desdobrava pelo vale fora e o sol despedia-se dos cimos
dos montes, sem que os campeões se movessem.
Por fim afrouxaram
os braços e cada lutador recuou para contemplar seu adversário.
Nenhum mostrava no rosto sombra de fadiga.
Conheceram
que podiam lutar corpo a corpo, a noite inteira, sem que um prostrasse
o outro.
- Tu és
igual na valentia e na força ao guerreiro chefe da nação
tocantim. Mas Pojucã não consente que haja na terra
quem resista a seu braço. É preciso que tu morras,
Jaguarê, para que ele seja o primeiro dos guerreiros que o
sol alumia.
- Pojucã,
matador de gente, guerreiro feroz da nação tocantim,
Jaguarê deixou-te viver até este momento para saber
se tu eras digno de dar-lhe um nome de guerra. Agora que te conhece
como o primeiro dos guerreiros que existiram até este momento,
ele quer que tua derrota seja a sua primeira façanha.
Disse e arrancando
do tronco da emburana a lança de duas pontas caminhou outra
vez para Pojucã.
- Esta arma
que tu vês é a lança de duas pontas. Jaguarê
fabricou-a do rijo galho da craúba, endurecido pelo fogo.
Sua mão foi a primeira que a arremessou e teu corpo é
o primeiro cujo sangue ela vai beber. Empunha a lança de
duas pontas, guerreiro chefe, e ataca Jaguarê para receberes
a morte dos valentes.
* * *
Pojucã repeliu a lança que o jovem caçador
lhe apresentara.
- Jamais no
combate um guerreiro tocantim atacará seu adversário
desarmado; nem Pojucã precisa da lança. Ataca tu,
Jaguarê, que não tens confiança em teu braço;
o de Pojucã basta para te prostrar.
- O orgulho
te cega, guerreiro chefe. A lança conhece Jaguarê que
a inventou e lhe obedece como o arpão à corda do pescador.
Aperta-a bem em tua mão robusta, e Jaguarê estará
duas vezes mais armado do que tu, que não sabes manejá-la.
O chefe tocantim
(23) cruzou os braços.
- Toma a lança, Pojucã, se não queres que te
chame covarde; pois tu sabes que Jaguarê não te matará
desarmado, mas te abandonará como indigno de combater com
o filho do maior guerreiro araguaia, o grande Camacã.
O chefe tocantim
arrojou-se contra Jaguarê que travou-lhe dos pulsos, e outra
vez os dois campeões ficaram imóveis.
A noite veio
achá-los na mesma posição. Três vezes
cessaram a luta, e de novo a travaram. Mas afinal se convenceram
que nenhum derrubaria o outro.
Então
Pojucã disse
- Guerreiro
araguaia, é preciso acabar o combate. A terra não
chega para dois guerreiros como nós. Finca no chão
a lança e caminhemos até a margem do rio. Aquele que
primeiro chegar, será o senhor da lança e da vida
do outro.
* * *
Assim fizeram os dois campeões. Chegados à margem
do rio, dispararam a corrida. Ao mesmo tempo a mão de ambos
tocou a haste da lança; mas Jaguarê, arremessado pelo
ímpeto da desfilada, não pôde arrancar a arma
que ficou na mão de Pojucã.
* * *
O guerreiro chefe enrista desdenhosamente a lança e caminha
para Jaguarê. Não vai como o guerreiro que marcha ao
combate, mas como o matador que se prepara para imolar a vítima.
- Guerreiro
chefe, Jaguarê não te quer matar como a serpente que
ataca o descuidado caçador. Dez vezes já, se quisesse,
ele te houvera ferido com tua própria mão.
- Abandona
a glória do guerreiro, que não é para ti, nhengaíba.
Pojucã te concederá a vida e te levará cativo
à taba dos tocantins para que tu cantes as suas façanhas
na festa dos guerreiros.
- Cativo serás
tu, mas não para cantar os feitos dos guerreiros. Tu servirás
na taba dos araguaias para ajudar as velhas a varrer a oca.
Arremessou-se
Pojucã avante e desfechou o golpe; mas a lança rodara
e foi o chefe tocantim quem recebeu no peito a ponta farpada.
Quando o corpo
robusto de Pojucã tombava, cravado pelo dardo, Jaguarê
d'um salto calcou a mão direita sobre o ombro esquerdo (24)
do vencido, e brandindo a arma sangrenta, soltou o grito do triunfo
- Eu sou Ubirajara,
o senhor da lança, o guerreiro invencível que tem
por arma a serpente. Reconhece o teu vencedor, Pojucã, e
proclama o primeiro dos guerreiros, pois te venceu a ti, o maior
guerreiro que existiu antes dele.
- Se meu valor,
que serviu para aumentar a tua fama, merece de ti uma graça,
não deixes que Pojucã sofra mais um instante a vergonha
de sua derrota.
- Não,
chefe tocantim. Tu me acompanharás à taba dos araguaias
para narrar o meu valor. A fama de Jaguarê precisa de um prisioneiro
(25) como o grande Pojucã na festa da vitória.
- Tu és
cruel, guerreiro da lança; mas fica certo que se tua arma
traiçoeira feriu-me o peito, o suplício não
vencerá a constância do varão tocantim, que
sabe afrontar as iras de Tupã e desprezar a vingança
dos araguaias.