Ubirajara
José de Alencar
O GUERREIRO
Retumba a festa
na taba dos araguaias.
As fogueiras
circulam a vasta ocara e derramam no seio da noite escura as chamas
da alegria (26).
Toda a tarde
o trocano reboou chamando os guerreiros das outras tabas à
grande taba do chefe.
Era a festa
guerreira de Jaguarê, filho de Camacã, o maior chefe
dos araguaias.
No fundo da
ocara, preside o conselho dos anciões, que decide da paz
ou da guerra e governa a valente nação.
Os anciões,
sentados no longo jirau, contemplam taciturnos a geração
de guerreiros que eles ensinaram a combater, e têm saudades
da passada glória.
Suspenso em
frente deles está o grande arco da nação araguaia,
ornado nas pontas das penas vermelhas da arara.
É a
insígnia do chefe dos guerreiros, a qual Camacã, pai
de Jaguarê, conquistou na mocidade e ainda conserva, pois
ninguém ousa disputá-la.
Ei-lo, o velho
chefe, embaixo do arco, que sua mão tantas vezes brandiu
na guerra. Em pé, arrimado ao invencível tacape, ele
dirige a festa.
De um e outro
lado da vasta ocara, está a multidão dos guerreiros,
colocados por sua ordemprimeiro os chefes das tabas; depois os varões;
por último os moços guerreiros.
Vêm depois
os jovens caçadores que já deixaram a oca materna
e estão impacientes de ganhar por suas proezas a honra de
serem admitidos entre os guerreiros.
Mas para isso
têm de passar pelas provas, e sua juventude não lhes
consente ainda a robustez, que tamanho esforço demanda.
Todos invejam
a glória de Jaguarê, que ontem era o primeiro entre
eles, e hoje ali está disputando a fama aos mais valentes
guerreiros.
Por detrás
da estacada apinham-se as mulheres, que segundo o rito pátrio
não podem ser admitidas nas festas guerreiras.
De longe acompanham
silenciosas, com os olhos, as velhas aos filhos, as esposas aos
seus guerreiros, e as virgens aos noivos.
Exultam quando
ouvem celebrar as façanhas dos seus; mas não ousam
murmurar uma palavra.
Entre elas
está Jandira, a doce virgem, cujos negros olhos não
se cansam de admirar Jaguarê, seu futuro senhor.
Já lhe
tarda o momento de ver aclamar guerreiro ao jovem caçador,
para ter a felicidade de servi-lo como escrava na paz, e acompanhá-lo
como esposa ao combate.
* * *
No centro da ocara ergueu-se Jaguarê.
Defronte dele,
Pojucã, no corpo que a ferida não abateu, mostra a
grande alma, serena em face dos inimigos.
Camacã
troou a inúbia para ordenar silêncio e o filho começou
- Guerreiros
araguaias, ouvi a minha história de guerra (27).
"Depois
que Jaguarê sofreu as provas do valor, partiu para conquistar
um nome famoso.
"Deixando
a taba, viu o falcão negro que despedia o vôo para
as águas sem fim, e Jaguarê disse
"O falcão
negro é o valente guerreiro dos ares; ele será a fama
do guerreiro araguaia que atravessará as nuvens e subirá
ao céu.
"Então
Jaguarê marcou o vôo do falcão negro e seguiu
por ele.
"O sol
despediu-se e voltou; uma, duas, três vezes. No último
sol Jaguarê encontrou um guerreiro da nação
tocantim, senhora do grande rio.
"Guerreiros
araguaias, quereis saber qual foi o campeão que Tupã
enviou a Jaguarê para dar-lhe o nome de guerra?
"Ele aí
está diante de vós.
"É
o grande Pojucã, o feroz matador de gente, chefe da tribo
mais valente da poderosa nação dos tocantins, senhores
do grande rio.
"Vós
que o tendes aqui presente, vede como é terrível o
seu aspecto, mas só eu que o pelejei conheço o seu
valor no combate.
"O tacape
em sua mão possante é como o tronco do ubiratã
que brotou no rochedo e cresceu.
"Jaguarê,
que arranca da terra o cedro gigante, não o pôde arrancar
de sua mão e foi obrigado a despedaçá-lo.
"Os braços
de Pojucã, quando ele os estende na luta, não há
quem os vergue; são dois penedos que saem da terra.
"Seu corpo
é a serra que se levanta no vale. Nenhum homem, nem mesmo
Camacã, o pode abalar.
"Pojucã
era o varão mais forte e o mais valente guerreiro que o sol
tinha visto até aquele momento.
"Foi este,
guerreiros araguaias, o herói que ofereceu combate ao filho
de Camacã; e Jaguarê aceitou, porque logo conheceu
que havia encontrado um inimigo digno do seu valor.
"Ele vos
contempla, guerreiros araguaias. Se alguém duvida da palavra
de Jaguarê e da força do guerreiro tocantim, chame-o
a combate e saberá quem é Pojucã."
O chefe tocantim
lançou um olhar ameaçador à multidão
dos guerreiros; mas nenhum ousou aceitar o desafio.
* * *
Pojucã alçou a mão em sinal de que desejava
falar; todos escutaram com respeito o herói, ainda maior
na desgraça.
- Guerreiros
araguaias, ouvi a voz de Pojucã, vosso inimigo, que afronta
as iras dos fortes e despreza a vingança dos fracos.
"Pojucã,
guerreiro chefe da grande nação tocantim, jamais encontrou
guerreiro que resistisse à força de seu braço
invencível.
"Mas Tupã,
cansado de ouvir celebrar em todas as festas o nome de Pojucã,
como vencedor, emprestou sua força a Jaguarê, o maior
guerreiro que já pisou a terra.
"Eu que
senti o ímpeto de sua coragem, posso dizer-vos que só
o sangue tocantim é capaz de gerar um guerreiro tão
poderoso.
"Foi alguma
virgem araguaia que vagando pela íloresta encontrou Pojucã,
e trouxe no seio fecundo a alma do grande guerreiro.
"Seu braço
é como o corisco do céu; e a sua força como
a tempestade que desce das nuvens."
Calou-se Pojucã;
e Jaguarê continuou o seu canto de guerra
"Quando
a sombra começava a descer da crista da montanha, Pojucã
e Jaguarê caminharam um contra o outro.
"Toda
a noite combateram. O sol nascendo veio achá-los ainda na
peleja, como os deixara; nem vencidos, nem vencedores.
"Conheceram que eram os dois maiores guerreiros, na fortaleza
do corpo, e na destreza das armas.
"Mas nenhum
consentia que houvesse na terra outro guerreiro igual; pois ambos
queriam ser o primeiro.
"Foi então
que o chefe tocantim ganhou na corrida a lança de duas pontas,
que Jaguarê havia fabricado.
"Três
vezes seu punho robusto a brandiu, e três vezes ela escapou-lhe
da mão, como a serpente das garras do gavião.
"Mais
uma vez o grande guerreiro investiu com o bote armado; e a lança,
escrava de Jaguarê, cravou o peito do inimigo.
"Ele caiu,
o guerreiro chefe, o grande varão dos tocantins, o valente
dos valentes, Pojucã, o feroz matador de gente."
E Jaguarê,
brandindo a arma da vitória, bradou
"Eu sou
Ubirajara, o senhor da lança, que venceu o primeiro guerreiro
dos guerreiros de Tupã.
"Eu sou
Ubirajara,o senhor da lança, o guerreiro terrível
que tem por arma uma serpente."
* * *
O trocano ribombou, derramando longe pela amplidão dos vales
e pelos ecos das montanhas a pocema do triunfo.
Os tacapes,
vibrados pela mão pujante dos guerreiros, bateram nos largos
escudos retinindo.
Mas a voz possante
da multidão dos guerreiros cobriu o imenso rumor, clamando
- Tu és
Ubirajara, o senhor da lança, o vencedor de Pojucã,
o maior guerreiro da nação tocantim.
"Os guerreiros
araguaias te recebem por seu irmão nas armas e te aclamam
forte entre os fortes.
"Os cantores
(28) celebrarão teu nome como os mais famosos da nação
araguaia; e Camacã terá a glória de chamar-se
pai de Ubirajara; como foi glória para Jaguarê, ser
filho de Camacã."
Quando parou
o estrondo da festa e cessou o canto dos guerreiros, avançou
Camacã, o grande chefe dos araguaias.
De um salto
o ancião alcançou o arco da nação, insígnia
do chefe na guerra, e caminhou para Ubirajara.
O arco era
de ubiratã, grosso como o braço do mais robusto guerreiro;
a corda trançada de crautá tinha o corpo do dedo que
a brandia.
Os mais possantes
varões da nação araguaia, a custo, empunhavam
o grande arco; mas só um tinha força para disparar
a setaera Camacã, o chefe dos chefes, que dirigia na guerra
os guerreiros araguaias.
Assim falou
o ancião
- Ubirajara,
senhor da lança, é tempo de empunhares o grande arco
da nação araguaia, que deve estar na mão do
mais possante. Camacã o conquistou no dia em que escolheu
por esposa Jaçanã, a virgem dos olhos de fogo, em
cujo seio te gerou seu primeiro sangue. Ainda hoje, apesar da velhice
que lhe mirrou o corpo, nenhum guerreiro ousaria disputar o grande
arco ao velho chefe, que não sofresse logo o castigo de sua
audácia. Mas Tupã ordena que o ancião se curve
para a terra, at desabar como o tronco carcomido; e que o mancebo
se eleve para o céu como a árvore altaneira. Camacã
revive em ti; a glória de ser o maior guerreiro cresce com
a glória de ter gerado um guerreiro ainda maior do que ele.
* * *
Ubirajara tomou o arco que lhe apresentava o pai e disse
- Camacã,
tu és o primeiro guerreiro e o maior chefe da nação
araguaia. Para a glória de Jaguarê bastava que ele
se mostrasse teu filho no valor, como é teu filho no sangue.
Mas o grande arco da nação araguaia, Ubirajara não
o recebe de ti e de nenhum outro guerreiro, pois o há de
conquistar pela sua pujança.
Disse, e arremessando
no meio da ocara o grande arco, bradou
- O guerreiro que ouse empunhar o grande arco da nação
araguaia, venha disputá-lo a Ubirajara.
Nenhuma voz
se ergueu; nenhum campeão avançou o passo.
O trocano reboou
de novo, e no meio da pocema do triunfo, a multidão dos guerreiros
proclamou
- Ubirajara,
senhor da lança, tu és o mais forte dos guerreiros
araguaias; empunha o arco chefe.
Então
Ubirajara levantou o grande arco, e a corda zuniu como o vento na
floresta.
Era a primeira seta, mensageira do chefe, que levava às nuvens,
a fama de Ubirajara.
Os cantores
exaltaram a glória dos dois chefesa do velho Camacã,
que trocara a arma do guerreiro pelo bordão do conselho;
e a do jovem Ubirajara, que na sua mocidade já se mostrava
tão grande, como fora o pai na robustez dos anos.
Pojucã
teve o consolo de ouvir seu nome repetido muitas vezes e louvado
a par com o de seu vencedor.
Os cantores
celebraram depois os grandes feitos da nação araguaia,
desde os tempos remotos em que os progenitores deixaram a grande
taba dos Tamoios, seus avós.
Quando os nhengaçaras
entoaram o canto do triunfo, vieram as mulheres com vasos cheios
do generoso cauim e apresentaram as taças aos guerreiros.
Jandira suspirou;
ela era virgem, e como suas companheiras, não podia aparecer
na festa dos guerreiros.
Sentiu não
ser já esposa, para ter o orgulho de encher de vinho espumante,
por ela fabricado, a taça de seu herói e senhor.
O guincho agoureiro
da inhuma ressoava na mata, quando começou a dança
guerreira que durou até perto da alvorada.