Ubirajara
José de Alencar
A BATALHA
A um lado da
imensa campina move-se a multidão dos guerreiros tocantins,
do outro lado, a multidão dos guerreiros tapuias.
As duas nações
se estendem como dois lagos formados pelas grandes chuvas, que se
transformam em rios e atravessam o vale.
De um e outro
campo levantou-se a pocema guerreira; e os dois povos arremetendo
travaram a batalha.
Itaquê
achou-se em frente de Canicrã. Ambos se buscavam; dez vezes
tinham combatido; vencedores ambos, nenhum fora vencido.
Enquanto viverem
os formidáveis guerreiros, não é possivel quebrar
a flecha da paz entre as duas nações.
Era preciso
que um deles morresse para que o vencedor encostasse o tacape do
combate e desse repouso à sua nação para reparar
os estragos da guerra.
Quando os dois
chefes se encontraram, os guerreiros de um e outro campo ficaram
imóveis, contemplando o pavoroso combate.
Ubirajara de
longe, apoiado em seu grande arco, admirava os dois guerreiros e
pensava qual não seria o seu orgulho em vencê-los ambos.
Durava a peleja
o espaço de uma sombra. Em torno dos chefes lastravam o chão
os tacapes e escudos que se tinham espedaçado aos golpes
de cada um.
Imóveis
no mesmo lugar, só agitavam a cabeça e os braços;
semelhantes a dois condores, que de garras presas aos píncaros
do rochedo, se dilaceram com o bico adunco.
Um rugido espantoso
atroou pela campina, que estremeceu a batalha e rolou pelas profundezas
da floresta.
Pahã
(64), a seta, era o último filho de Canicrã. Ainda
curumim, pelejava ao lado do irmão, o guerreiro Crebã,
cujo ombro mal alcançava com o braço.
Ele tinha nos
olhos a vista da gaivota, e nas setas de seu arco, feitas de espinho
de ouriço, a velocidade e a certeza do vôo do guanumbi.
Quando caçava
na floresta, divertia-se em matar as mutucas traspassando-as com
suas flechas, que voavam mais rápidas e certeiras que as
vespas venenosas.
Pahã
saltara sobre os ombros do guerreiro Crebã para assistir
ao combate. Admirando o valor de Canicrã, teve orgulho e
inveja do pai.
Itaquê
desfechara tão formidável golpe, que o tacape e escudo
de Canicrã se espedaçaram em suas mãos, deixando-o
à mercê do inimigo.
O chefe tocantim
arrojou-se, e já sua mão descia sobre a espádua
do tapuia para fazê-lo prisioneiro.
O arco de Pahã
sibilou duas vezes. Os olhos de Itaquê, os olhos do varão
forte que nunca umedecera uma lágrima, choraram sangue.
As setas do
curumim tinham vazado as pupilas do fero guerreiro, cuja vista era
raio. Assim a jandaia rói o grelo do prócero coqueiro.
Foi então
que Itaquê soltou o rugido pavoroso que fez tremer a terra.
Mas o grito de espanto soçobrou no peito dos guerreiros e
rompeu em um grito de horror.
Itaquê
estendera os braços, hirtos como duas garras de condor. A
mão direita abarcou o penacho e a cabeleira de Canicrã,
a esquerda entrou pela boca do tapuia e travou-lhe o queixo.
Separaram-se
os braços do guerreiro cego, e a cabeça de Canicrã
abriu-se como um coco que se fende pelo meio.
Agitando no
ar o crânio sangrento como um maracá de guerra, Itaquê
arrojou-se contra os inimigos, buscando a morte que lhe fugia.
Quando o sol
entrou, não havia na campina a sombra de um tapuia.
O velho herói
voltou à cabana conduzido por Pojucã
- Tupã
viu que Itaquê não podia ser vencido pela mão
dos homens; e quis vencê-lo ele mesmo pela mão de um
menino.
***
Quando Ubirajara viu o êxito do combate, lamentou que dos
dois grandes guerreiros não restasse nenhum, para que ele
o vencesse.
Seus olhos
descobriram Pahã que fugia no meio dos destroços de
sua nação. Ergueu a mão, mas não chegou
a retesar a seta.
A águia
não persegue a andorinha. Era indigno de um guerreiro, quanto
mais de um chefe, empregar seu valor contra um menino.
O chefe chamou
à sua presença Tubim, um dos jovens caçadores,
que tinham acompanhado a guerra para prover o alimento.
- Tubim tem
as asas da abelha; se ele alcançar o curumim tapuia que eu
estou olhando, Ubirajara lhe dará o nome de Abeguar.
O jovem caçador
seguiu o olhar do chefe e sumiu-se num turbilhão de poeira.
Quando os vaga-lumes começaram a luzir no escuro da mata,
ele estava de volta ao campo dos araguaias; e trazia o curumim fechado
nos braços.
Nessa mesma
noite, Tubim recebeu o nome de Abeguar, senhor do vôo, em
honra da façanha que tinha realizado.
Os cantores
entoaram seu louvor; e o jovem caçador teve a glória
de receber os aplausos dos moacaras de sua nação,
e de um chefe como Ubirajara.
Ao raiar da
manhã, Murinhém foi à taba dos tocantins, acompanhado
por vinte guerreiros que conduziam o curumim.
Quando chegou
em frente à cabana do grande chefe, o cantor viu Itaquê
no terreiro, sentado em uma sapopema.
O guerreiro
fitava os olhos no céu, onde o calor lhe dizia que estava
o sol. Mas não encontrava a luz que para sempre o abandonara.
Então
o velho guerreiro abaixava os olhos para a terra, como se buscasse
o lugar do repouso.
Quando soaram
longe os passos dos estrangeiros, o chefe alongou a fronte para
ver pelo ouvido o que os olhos lhe recusavam.
Murinhém
chegou e disse
- Ubirajara
envia a Itaquê o resto da vingança. Este é Pahã,
o filho de Canicrã. Ele te roubou a vista; mas não
salvou o pai de tua mão terrível. Faze do curumim
tapuia um mancebo tocantim; e ele será a luz dos teus olhos
e caminhará na frente do grande chefe para abrir-lhe o caminho
da guerra.
Pahã
avançou
- O filho de
Canicrã jamais será escravo; nasceu tapuia e tapuia
morrerá, como o grande chefe que o gerou. Enquanto o ouriço
viver nas florestas, ele roubará seus espinhos para furar
os olhos dos tucanos.
Itaquê
pousou a palma da mão na cabeça do menino
- O curumim
que ama seu pai é filho de Itaquê. Tu és livre,
Pahã; vai caçar o ouriço. Quando fores um guerreiro,
acharás cem mancebos do sangue de Itaquê para castigarem
tua audácia.
O chefe voltou-se
para o cantor.
- Tupã
tirou a luz dos olhos de Itaquê; mas aumentou a força
de seu braço. Ubirajara terá para combatê-lo
um inimigo digno de seu valor.
Murinhém
tornou ao chefe araguaia com esta resposta.
***
Quando partia o cantor, chegaram à cabana de Itaquê
os abarés da nação tocantim.
Os anciões
sentaram-se em torno do guerreiro cego; e bebendo a fumaça
da sabedoria, formaram o carbeto.
Falou Guaribu
- O grande
arco da nação carece de uma mão robusta para
brandir sua corda; e de um olho seguro para dirigir sua seta. Itaquê
é o maior guerreiro das florestas; seu nome faz tremer aos
mais valentes dos inimigos; seu braço fere como o raio. Mas
a luz fugiu de seus olhos e ele não pode mais abrir o caminho
da guerra.
O velho chefe
ergueu-se com o passo trôpego. Alcançando o grande
arco dos tocantins abraçou-se com ele e falou-lhe.
- Quando Itaquê
te recebeu da mão do grande Javari, ele pensava que só
a morte o separaria de ti, para transmitir-te a um guerreiro de
seu sangue. Mas Itaquê ficou na terra, como um tronco levado
pela corrente, que não sabe onde vai.
Um esguicho
de sangue saltou dos buracos, onde o velho tivera os olhos. Era
a lágrima que a desgraça lhe deixara.
Os abarés
meditaram. Guaribu falou de novo
- O grande
arco da nação que tu recebeste do grande Javari, teu
pai, não te abandonará. Ele fica em tua mão
invencível; haverá outro arco na mão do mais
valente guerreiro, que abrirá o caminho da guerra. Mas enquanto
Itaquê viver, sua voz governará a nação
que ele defendeu com seu braço.
O semblante
do velho chefe cobriu-se de um sorriso, como o negro rochedo sobre
o qual desliza um raio de luar.
- Pais da sabedoria,
abarés, olhai aquele jatobá que se levanta no meio
da campina, e que eu só posso ver agora na sombra de minha
alma.
"Ele tem
muitas raízes que o sustentam nos ares, tem muitos galhos
que o cercam e estendem ao longe a sua rama. Mas o tronco é
um só.
"As grossas
raízes são os abarés que sustentam o chefe
com o seu conselho. Os galhos fortes são os moacaras que
cercam o chefe e geram a multidão de guerreiros mais numerosa
que as folhas das árvores. O tronco é o chefe da nação;
se ele se dividir, o jatobá não subirá às
nuvens, nem terá forças para resistir ao tufão.
"O lugar
de Itaquê é no conselho. O último dente de seu
colar de guerra foi o que ele arrancou da boca de Canicrã.
Convocai os guerreiros, e o que for mais forte e mais valente empunhe
o grande arco da nação."
O trocano chamou
a nação ao carbeto. Vieram os moacaras, conduzindo
suas tribos.
O velho Itaquê
contava pelos passos os guerreiros que chegavam. O grande arco da
nação, que ele segurava direito, parecia um dos esteios
da cabana, e tinha a corda tão grossa como a da rede do chefe.
Os mais famosos
guerreiros tocantins se apresentaram para disputar o grande arco;
muitos conseguiram vergá-lo, mas a seta não partiu.
Itaquê
escutava com o ouvido atento; o som dele conhecido não feriu
os ares.
- Onde está
Pojucã? perguntou o velho chefe.
O valente guerreiro
do sangue de Itaquê estava de parte, grave e taciturno. Algum
motivo o separava do arco-chefe, que ele devia ser o primeiro a
disputar.
- Teu filho
te escuta; respondeu.
- Empunha o
arco-chefe; se há um guerreiro tocantim que possa conquistá-lo,
esse deve ser do sangue de Itaquê.
Pojucã
recebeu o arco. Fincando nele os pés, o guerreiro arrojou-se
para trás como a jibóia quando se enrista para armar
o bote.
A seta partiu,
e foi cravar a cabeça de um chefe tapuia, fincada na estaca,
à entrada da taba.
Itaquê curvara a cabeça. Ele ouviu brandir a arma;
não era, porém, aquele o zunido da corda do arco,
quando o vergava sua mão possante.
Pojucã
depôs o arco-chefe aos pés de Itaquê e disse
- Pojucã
mostrou que em suas veias corre o sangue generoso de Itaquê.
Mas o grande arco pesa em sua mão. Só há um
guerreiro na terra que o possa brandir como Itaquêe esse não
cinge a fronte com o cocar das penas de tucano.
- Pojucã
negou a Itaquê esta última consolação.
O arco invencível do grande Tocantim, que foi o pai da nação,
vai sair de sua geração. Tocantim o transmitiu a seu
filho Javari, que me gerou; mas eu não soube gerar com seu
sangue um guerreiro digno deles.
UNIÃO DOS ARCOS
Os tapuias
voltaram; com eles vinha Agniná à frente de sua nação,
para vingar a morte de Canicrã, seu irmão.
Era grande
a multidão dos guerreiros; e maior a tornavam a sanha da
vingança e a fama do chefe que a conduzia.
Não
eram tantos os tocantins; mas bastaria seu valor para igualá-los,
se não lhes faltasse a cabeça, que rege o corpo.
A poderosa
nação estava como o bando de caitetus que perdeu o
pai e desgarra-se pela floresta, correndo sem rumo.
Os mais valentes
moacaras, chefes das tribos, esperavam pelo grande chefe da nação
para abrir-lhes o caminho da guerra.
Os abarés
meditaram. Eles não podiam inventar um guerreiro capaz de
suceder a Itaquê; mas não se resignavam a abater a
glória da nação, trocando o arco invencível
do grande Tocantim por outro arco mais leve, que Pojucã manejasse.
Também
Pojucã anunciara que, não podendo brandir o arco de
Itaquê, jamais empunharia outro arco-chefe, menos glorioso
do que o do grande Tocantim.
Abarés,
chefes, moacaras, guerreiros, toda a nação se reuniu
em torno do herói cego.
Daquele que
durante tantas luas defendera a nação com a força
de seu braço e a protegera com o terror de seu nome, esperavam
ainda a salvação.
O velho ouviu
a voz dos abarés, a voz dos chefes, a voz dos moacaras, a
voz dos guerreiros, e disse
- Itaquê
ainda pode combater e morrer por sua nação; mas sem
a luz do céu, ele não pode mais abrir a seus filhos
o caminho da vitória.
"O braço
de Itaquê defendeu sempre a nação tocantim;
quer ela ser defendida agora pela palavra daquele, que não
tem mais para dar-lhe senão a experiência de sua velhice?
"Pensem
os abarés, os chefes, os moacaras e os guerreiros."
Guaribu respondeu
- A nação
pensou. Fala e todos obedecerão à tua palavra, como
obedeciam ao braço de Itaquê.
- A voz do
coração diz ao neto de Tocantim que a glória
da nação que ele gerou não se pode extinguir.
O sangue de Itaquê, passando pelo seio de Araci, se unirá
a outro sangue generoso para brotar maior e mais ilustre.
"Assim
a terra onde nasceu uma floresta de acajás, recebe o limo
do rio e gera nova floresta mais frondosa que a outra.
"Jacamim,
chama Araci, a filha de nossa velhice. E vós, abarés,
chefes, moacaras e guerreiros, segui-me."
O velho herói
atravessou a taba guiado por Araci.
A nação
o seguia em silêncio.
Quando o guerreiro
cego passava com a mão no ombro da virgem formosa que dirigia
o seu passo incerto, os guerreiros lembravam-se do tronco já
morto que a rama do maracujá ainda sustenta de pé
junto ao penedo.
Os cantores
iam adiante e entoavam um canto de paz.
***
Um mensageiro de Itaquê o precedera no campo dos araguaias.
Ubirajara,
cercado de seus abarés, chefes, moacaras e guerreiros, veio
ao encontro do morubixaba dos tocantins.
A alma do grande
chefe araguaia encheu-se da alegria de ver Araci; mas ele retirou
os olhos da esposa, para que o amor não perturbasse a serenidade
do varão.
- Ubirajara
está em face de Itaquê; para combatê-lo, se trouxe
a guerra; para abraçá-lo, se trouxe a paz.
- Nunca Itaquê
pediu a paz ao inimigo que trouxe-lhe a guerra, antes de o vencer;
nem teria vivido tanto para cometer essa fraqueza. Ele vem trazer-te
a vitória para que tu a repartas com seu povo.
O velho herói
avançou o passo
- Chefe dos araguaias, tu levaste a guerra à taba dos tocantins
para conquistar Araci, a filha de minha velhice.
"Por teu
heroísmo, e ainda mais pela nobreza com que restituíste
a liberdade a Pojucã, tu merecias uma esposa do sangue de
Tocantim.
"Mas desde
que tu ameaçaste tomá-la pela força de teu
braço, Itaquê não podia mais conceder-te a filha
de sua velhice, senão depois que abatesse teu orgulho.
"Ele preparava-se
para te combater, e à tua nação; mas fugiu-lhe
dos olhos a luz que dirige a seta da guerra; e não há
entre seus guerreiros um que possa brandir o arco do grande Tocantim."
Quando pronunciou
estas palavras, a voz do velho guerreiro soçobrou-lhe no
peito
- O arco de
Itaquê é como o gavião que perdeu as asas e
não pode mais levar a morte ao inimigo. As andorinhas zombam
de suas garras.
"Empunha
o arco de Itaquê, chefe dos araguaias, e tu conquistarás
por teu heroísmo uma esposa e uma nação.
"À
esposa farás mãe de cem guerreiros como Itaquê;
e à nação, conservarás a glória
que ela conquistou quando o filho de Javari a conduziu à
guerra.
"Tupã
dará a teu braço esta força para que o sangue
de Itaquê brote mais vigoroso e os netos de Tocantim dominem
as florestas. "
Ubirajara sorriu
- Chefe dos
tocantins, teus olhos não podem ver o grande arco da nação
araguaia; mas pergunta à tua mão se o arco que Camacã
brandia invencível e agora empunha Ubirajara, cede ao arco
de Itaquê.
O velho herói
palpou o arco-chefe dos araguaias e vergou-lhe a ponta ao ombro,
como se a haste fosse de taquari.
Ubirajara travou
do arco de Itaquê e desdenhando fincá-lo no chão,
elevou-o acima da fronte. A flecha ornada de penas de tucano partiu.
O semblante
de Itaquê remoçou, ouvindo o zunido que recordava-lhe
o tempo de seu vigor. Era assim que ele brandia o arco outrora,
quando as luas cresciam aumentando a força de seu braço.
O velho inclinou
a fronte para escutar o sibilo de sua flecha que talhava o azul
do céu. Os cantores não tinham para ele mais doce
harmonia do que essa.
Ubirajara largou
o arco de Itaquê para tomar o arco de Camacã. A flecha
araguaia também partiu e foi atravessar nos ares a outra
que tornava à terra.
As duas setas
desceram trespassadas uma pela outra como os braços do guerreiro
quando se cruzam ao peito para exprimir a amizade
Ubirajara apanhou-as
no ar.
- Este é
o emblema da união. Ubirajara fará a nacão
tocantim tão poderosa como a nação araguaia.
Ambas serão irmãs na glória e formarão
uma só, que há de ser a grande nacão de Ubirajara,
senhora dos rios, montes e florestas.
O chefe dos
chefes ordenou que três guerreiros araguaias e três
guerreiros tocantins ligassem com o fio do crautá as hastes
dos dois arcos.
Quando o arco
de Camacã e o arco de Itaquê não fizeram mais
que um, Ubirajara o empunhou na mão possante e mostrou-o
às nações
- Abarés,
chefes, moacaras e guerreiros de minhas nações, aqui
está o arco de Ubirajara, o chefe dos grandes chefes. Suas
flechas são gêmeas, como as duas nações,
e voam juntas.
Ambas as cordas
brandiram a um tempo. A seta araguaia e a seta tocantim partiram
de novo como duas águias que par a par remontam às
nuvens.
Quando calou-se
a pocema do triunfo, Ubirajara caminhou para a filha de Itaquê
- Araci, estrela
do dia, tu pertences a Ubirajara, que te conquistou pela força
de seu braço. Agora que é senhor, ele espera a tua
vontade.
A formosa virgem
rompeu a liga vermelha que lhe cingia a perna e atou-a ao pulso
de seu guerreiro.
Ubirajara tomou
a esposa aos ombros (65) e levou-a à cabana do casamento.
O jasmineiro
semeava de flores perfumadas a rede do amor.
***
O outro sol rompia, quando os tapuias estenderam pela campina a
multidão de seus guerreiros.
Na frente assomava
Agniná, a montanha dos guerreiros, ainda mais feroz do que
o irmão, o terrível Canicrã.
De um lado
e do outro seguiam-se os chefes, cada um à frente de seus
guerreiros.
Ubirajara escolheu
mil guerreiros araguaias e mil guerreiros tocantins, com que saiu
ao encontro dos tapuias.
Depois que
desdobrou sua batalha pela campina, o chefe dos chefes caminhou
só para o inimigo.
Quando chegava
a meio do campo, os tapuias levantaram a pocema de guerra, que atroou
os ares, como o estrépito da cachoeira.
Um turbilhão
de setas crivou o longo escudo do herói, que ficou semelhante
ao grosso tronco de juçara, eriçado de espinhos.
Ubirajara embraçou
o escudo na altura do ombro, e com o pé brandiu sete vezes
a corda do grande arco gêmeo.
As setas vermelhas
e amarelas subiram direitas ao céu e perderam-se nas nuvens.
Quando voltaram,
Agniná e os chefes que obedeciam a seu arco, tinham cada
um fincado na cabeça o desafio do formidável guerreiro.
Enfurecidos
mais pelo insulto do que pela dor, arremessaram-se contra o inimigo
que os esperava coberto com seu vasto escudo.
Agniná
era o primeiro na corrida e o primeiro na sanha. Após ele
vinham os outros a dois e dois, lutando na rapidez.
Quando o esposo
de Araci viu que eles se estendiam pela campina, como dois ribeiros
que se aproximam para confundir suas águas; o herói
empunhou a lança de duas pontas e soltou seu grito de guerra,
que era como o bramir do jaguar, senhor da floresta.
Seu pé
devorou o espaço; e a lança de duas pontas girou em
sua mão, como a serpente que enrosca-se nos ares, silvando.
Caiu Agniná
do primeiro bote; após ele caíram aos dois os chefes
tapuias, como caem os juncos talhados pelo dente afiado da capivara.
Então
o herói soltou seu grito de triunfo, que era como o rugido
do vento no deserto
- Eu sou Ubirajara,
o senhor da lança, o guerreiro invencível que tem
por arma uma serpente.
"Eu sou
Ubirajara, o senhor das nações, o chefe dos chefes,
que varre a terra, como o vento do deserto."
O herói
estendeu a vista pela campina, e não descobriu mais o inimigo,
que sumia-se na poeira.
Ubirajara lançou-lhe
seus guerreiros, que tinham fome de vingança; porém
o terror de sua lança dava asas aos fugitivos.
Desde esse
dia nunca mais um tapuia pisou as margens do grande rio.
Ubirajara voltou
à cabana, onde o esperava Araci.
A esposa despiu
as armas de seu guerreiro, enxugou-lhe o corpo com o macio cotão
da monguba, e cobriu-o do bálsamo fragrante da embaíba.
Encheu depois
de generoso cauim a taça vermelha feita do coco da sapucaia;
e aplacou a sede do combate.
Enquanto nas
grandes tabas se preparava a festa do triunfo e o herói repousava
na rede, Araci foi ao terceiro e voltou conduzindo Jandira pela
mão.
- Jandira é
irmã de Araci, tua esposa. Ubirajara é o chefe dos
chefes, senhor do arco das duas nações. Ele deve repartir
seu amor por elas, como repartiu a sua força.
A virgem araguaia
pôs no guerreiro seus olhos de corça
- Jandira é
serva de tua esposa; seu amor a obrigou a querer o que tu queres.
Ela ficará em tua cabana para ensinar a tuas filhas como
uma virgem araguaia ama seu guerreiro.
Ubirajara cingiu
ao peito, com um e outro braço, a esposa e a virgem.
-Araci é
a esposa do chefe tocantim; Jandira será esposa do chefe
araguaia; ambas serão as mães dos filhos de Ubirajara,
o chefe dos chefes, e o senhor das florestas.
***
As duas nações,
dos araguaias e dos tocantins, formaram a grande nação
dos Ubirajaras, que tomou o nome do herói.
Foi esta poderosa
nação que dominou o deserto.
Mais tarde,
quando vieram os caramurus, guerreiros do mar, ela campeava ainda
nas margens do grande rio (66).
Texto fonte:
Editora Ática, Série Bom livro, São Paulo,
1998