Ubirajara
José de Alencar
SERVO DO AMOR
Jurandir, conduzido
pela virgem, caminhou ao encontro de Itaquê e disse
- Grande chefe
dos tocantins, Jurandir não veio à tua cabana para
receber a hospitalidade; veio para servir ao pai de Araci (53),
a formosa virgem, a quem escolheu para esposa. Permite que ele a
mereça por sua constância no trabalho, e que a dispute
aos outros guerreiros pela força de seu braço.
Itaquê
respondeu
- Araci é
a filha de minha velhice. A velhice é a idade da prudência
e da sabedoria. O guerreiro que conquistar uma esposa como Araci
terá a glória de gerar seu valor no seio da virtude.
Itaquê não pode desejar para seu hóspede maior
alegria.
Desde esse
momento, Jurandir não foi mais estrangeiro na taba dos tocantins.
Pertencia à oca de Itaquê, e devia, como servo do amor,
trabalhar para o pai de sua noiva.
Os guerreiros,
cativos da beleza de Araci, conheceram que tinham de combater um
adversário formidável; mas seu amor cresceu com o
receio de perder a filha de Itaquê.
Jurandir tomou
suas armas e desccu ao rio. Era a hora em que o jacaré bóia
em cima das águas como o tronco morto; e a jaçanã
se balança no seio do nenúfar.
O manati (54)
erguia a tromba para pastar a relva na margem do rio. Ouvindo o
rumor das folhas, mergulhou na corrente, mas já levava o
arpéu do pescador, cravado no lombo.
Jurandir não
esperou que o peixe ferido desenrolasse toda a linha. Puxou-o para
terra; e levou-o ainda vivo à cabana de Itaquê, onde
três guerreiros custaram a deitá-lo no jirau.
As mulheres
cortaram as postas de carne e os guerreiros cavaram a terra para
fazer as grelhas do biaribi (55).
Jurandir partiu
de novo e entrou na floresta. Ao longe reboavam os gritos dos caçadores
que perseguiam a fera.
Pelo assobio
o guerreiro conheceu que era um tapir. O animal zombara dos caçadores
e vinha rompendo a mata como a torrente do Xingu.
As árvores que seu peito encontrava caíam lascadas.
Jurandir estendeu
o braço. O velho tapir, agarrado pelo pé, ficou suspenso
na carreira, como o passarinho preso no laço. Nunca, até
aquele momento, encontrara força maior que a sua.
Uma vez descera
à lagoa para beber. A sucuri, que espreitava a caça,
mordeu-o na tromba. Ele fugia, esticando a serpente; e a serpente
encolhendo-se, o arrastava até à beira d'água.
Assim tornou
uma, duas, três vezes. Mas o tigre urrou de fome. O velho
tapir disparou pela floresta; e a sucuri com a cauda presa à
raiz da árvore arrebentou pelo meio.
O velho tapir
rompeu a serpente como se rompe uma corda de piaçaba; mas
não pôde abalar o braço de Jurandir, mais firme
do que o tronco do guaribu.
O estrangeiro
tornou à cabana com a caça. Nenhum dos guerreiros
da taba, nem mesmo o velho Itaquê, pôde agüentar
com as duas mãos a fera bravia.
Então
Jurandir obrigou o animal a agachar-se aos pés de Araci e
disse
- O braço
de Jurandir fará cair assim, a teus pés, o guerreiro
que ouse disputar ao seu amor a tua formosura, estrela do dia.
***
Nunca a abundância
reinara na cabana sempre farta do chefe dos tocantins, como depois
que a ela chegara o estrangeiro.
Jurandir era
o maior caçador das florestas e o primeiro pescador dos rios.
Seu olhar seguro penetrava na espessura das brenhas, como na profundeza
das águas.
Nada escapava
à destreza de sua mão. Onde ela não chegava,
iam as unhas de suas flechas certeiras, que rasgavam o seio da vítima,
como as garras do jaguar.
O estrangeiro
soubera de Araci, qual era a caça que Itaquê preferia
e qual o peixe que ele achava mais saboroso. Desde então
nunca o velho chefe sentiu a falta do manjar predileto.
Se não
era a lua própria do peixe desejado, Jurandir sabia onde
o podia encontrar. Não tornava à cabana sem a provisão
necessária para a refeição do dia.
Depois da caça
e da pesca, Jurandir trabalhava nas roças de Itaquê.
Fazia no tabuleiro os matumbos, para que Jacamim enterrasse as estacas
da maniva e semeasse o feijão, o milho e o fumo.
Entre os filhos
das florestas, a plantação devia ser feita pela mão
da mulher (56), que era mãe de muitos filhos; porque ela
transmitia à terra sua fecundidade.
A semente que
a mão da virgem depositava no seio da terra dava flor; mas
da flor não saía fruto. E se era um guerreiro que
plantava, o aipim endurecia como o pau-d'arco.
Nas vazantes
do rio, Jurandir capinava a terra coberta de relva e outras plantas,
e só deixava crescer o arroz, o inhame e as bananeiras.
Quando o estrangeiro
partia pela manhã, Araci o acompanhava de longe pela floresta.
Sua vontade a levava após ele.
O costume da
taba não consentia que a virgem desejada pelos servos do
seu amor preferisse um guerreiro, antes de saber se ele a obteria
por esposa.
A filha de
Itaquê não queria pertencer a outro guerreiro. Mas
lembrava-se que a virgem deve merecer o esposo por sua paciência;
assim como o guerreiro merece a esposa por sua constância
e fortaleza.
Então
voltava ao terreiroenquanto os outros guerreiros espreitavam sua
vontade, ela tecia as franjas para a rede do casamento.
Sua mão
sutil urdia como alvo fio do crauatá a fina penugem escarlate.
Os noivos cuidavam que era a do peito do tucano; mas ela sabia que
era do peito da arara e que tinha as cores do seu guerreiro.
Quando o sol
chegava ao cimo dos montes, ouvia-se o canto de Jurandir que voltava
da caça. A virgem, seguida pelos guerreiros, ia ao encontro
do estrangeiro.
Então
desciam ao rio. Era a hora do banho. Araci cortava as ondas mais
lindas que a garça cor-de-rosa; e os guerreiros a seguiam
de perto, como um bando de galeirões.
Mas nenhum,
nem mesmo Jurandir, que nadava como um boto, podia alcançar
a formosa virgem. Ela parecia a flor do mururê que se desprendeu
da haste e passe levada pela corrente.
Uma vez a filha
das águas soltou um grito e desapareccu no seio das ondas.
Jacamim cuidou que o jacaré tinha arrebatado a filha de seu
seio. Os guerreiros mergulharam pare salvá-la; mas não
a encontraram.
Todos a julgavam
perdida, quando apareceu Jurandir que trazia nos braços o
corpo da virgem formosa. Pisando em terra, ela correu para a cabana,
onde foi esconder sua alegria.
Desde então,
era no banho que Araci recebia o abraço de Jurandir, sem
que os outros guerreiros suspeitassem da preferência dada
ao estrangeiro.
No seio das
ondas ninguém a adivinhava a não ser o ouvido sutil
de Jurandir, a quem ela chamava com o doce murmúrio do irerê.
Encontravam-se
no fundo do rio, enquanto durava a respiração. Depois
desprendiam-se do abraço e surgiam longe um do outro.
***
Tarde, voltando da caça, Jurandir viu na floresta um rastro,
que ele conhecia.
Chegado à
cabana, entregou a Jacamim o veado que matara e saiu para visitar
os arredores. Nada encontrou de suspeito; o rastro, que o inquietava,
não chegara até ali.
No outro dia,
ao romper da alvorada, logo depois do banho, os guerreiros partiram
para a caça e para a pesca. Só ficaram na cabana Jacamim
e as mulheres de Itaquê.
Araci tomou
o arco e entrou na floresta. A imagem do guerreiro amado fugia naquele
instante de seus olhos; eles buscaram entre as folhas o sinal de
seus passos e não o descobriram.
Lembrou-se
a virgem, que Jurandir gostava da polpa do guaraná adoçada
com o mel da abelha; e colheu os frutos encarnados que pendiam dos
ramos da trepadeira.
Nesse momento
a arara cantou no olho do pirijá (57). Araci precisava de
suas plumes vermelhas, para o cocar que ela tecia em segredo.
Era o cocar
do amor, com que desejava ornar a cabeça de seu guerreiro
e senhor, no dia em que ele a conquistasse por esposa.
A virgem armou
o arco e seguiu a arara rompendo a folhagem. Quando ia disparar
a seta, ouviu ao lado um rumor desusado.
Jurandir estava
perto dela e segurava o braço de uma mulher, que ainda tinha
na mão a macana afiada.
Araci conheceu
a virgem araguaia pela faixa de algodão entretecida de penas,
que lhe apertava a curva da perna; e adivinhou que era Jandira,
a noiva do guerreiro.
- Filha de
Majé, tua mão quis matar a virgem que Jurandir escolheu
para esposa. Tu vais morrer.
- Desde que
Ubirajara abandonou Jandira, ela começou a morrer, como a
baunilha que o vento arranca da árvore. Acaba de matá-la;
para que sua alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e
te fale de noite na voz dos sonhos.
- A virgem
araguaia ameaçou a vida de Araci; ela lhe pertence; disse
a filha de Itaquê.
Jurandir cortou
na floresta uma comprida rama de imbé e atou as mãos
de Jandira.
- Jandira é
tua escrava. Não lhe dês a liberdade. Ela tem a astúcia
da serpente e seu veneno.
- Eu era a
cobra-d'água, amiga do guerreiro, que habita sua cabana e
a guarda contra o inimigo. Quem foi que me fez a cascavel venenosa,
que traz nos lábios o sorriso da morte?
Jurandir não respondeu. Nesse momento ele teve saudade de
sue cabana e lembrou-se do tempo em que, jovem caçador, seguia
na floresta a formosa virgem araguaia.
***
As duas virgens ficaram sós no claro da floresta.
Já o
rumor dos passos de Jurandir se apagara ao longe e ainda tinham
ambas os olhos cativos uma da outra.
Jandira pensou
que ela não podia dar a Ubirajara a formosura da filha de
Itaquê. Araci receou que o amor do guerreiro se voltasse outra
vez para a linda virgem araguaia.
A filha de
Majé preparou-se para morrer à mão de sua rival,
mas ela preferia a morte ao suplício de contemplar sua beleza.
Araci, a estrela
do dia, cantou
- O amor do
guerreiro é a alegria da virgem; quando ele foge, a virgem
fica triste como a várzea que perdeu sua relva.
"Por isso
Jandira está triste; o amor do guerreiro fugiu dela; e a
deixou solitária como a nambu, a quem o companheiro abandonou.
"Mas o
amor do guerreiro é como o orvalho da noite. Quando o sol
queima a várzea, ele desce do céu para cobri-la de
verdura e de flores.
"Araci
está alegre; porque o amor do guerreiro voltou-se para ela;
e Jurandir vai fazê-la companheira de sua glória e
mãe de seus filhos.
"Quando
a esposa de Jurandir não tiver mais beleza para dar a seu
guerreiro, ela consentirá que Jandira durma em sua rede.
"E o orvalho
da noite descerá do céu para cobrir a várzea
de verdura e de flores. E Jandira achará outra vez seu sorriso
de mel."
Assim cantou
Araci, a estrela do dia; e a virgem araguaia respondeu
- A árvore
que morreu não sofre quando o fogo a queima. Jandira prefere
a morte à vergonha de ser tua serva e à tristeza de
ver a cada instante a formosura da estrangeira que roubou seu amor.
"Araci,
a estrela do dia, é mais bela do que Jandira, mas não
sabe amar o guerreiro, que a escolheu para mãe de seus filhos.
"Nunca
Jandira ofereceria sua rede de esposa (58) a outra mulher; e aquela
que recebesse o amor de seu guerreiro morreria por sua mão.
"Ela amaria
seu esposo tanto que sua graça nunca se retirasse dela; pois
saberia morrer quando não tivesse mais beleza para dar-lhe.
"A nação
araguaia nunca levanta a taba do vale onde acampou, senão
quando a terra já não pode dar-lhe mais frutos.
"Assim
é o guerreiro. Ele não retira seu amor da esposa que
habita, senão quando ela já não sabe alegrar
sua alma."
Tornou a virgem
tocantim
- A cajazeira
depois que dá seu fruto perde a folha; o guerreiro busca
a sombra de outra árvore para repousar.
"Mas vem
a lua das águas e a cajazeira outra vez se cobre de folhas;
sua sombra é doce ao guerreiro.
"A esposa
é como a cajazeira. Quando o guerreiro não acha alegria
em seus braços, ela sofre que busque outra sombra e espera
que lhe volte a flor para chamá-lo de novo ao seio.
"Araci
ama seu guerreiro, como Jacamim ama Itaquê. A cabana do grande
chefe dos tocantins está cheia de servas; mas seu amor nunca
abandonou a esposa.
"As servas
deram a Itaquê muitos filhos; mas os filhos da velhice, foi
só Jacamim quem os deu ao grande chefe; porque o primeiro
amor do guerreiro não morre nunca.
"Ele é
como a grama que nunca mais deixa a terra onde nasceupodem arrancá-la
que brota sempre.
"Araci
quer apagar a tristeza de tua alma e beber o teu sorriso de mel,
para que o esposo ache mais doces seus lábios, quando os
provar.
"Tu serás
irmã de Araci e lhe darás um filho de Jurandir, tão
valente, como os que seu amor há de gerar no seio da esposa."
Jandira afastou
os olhos da virgem dos tocantins, para desviar dela sua ira.
- Tua palavra
dói como o espinho da juçara, que tem o coco mais
doce que o mel.
"As flechas
do teu arco não matam mais do que os sorrisos que o amor
do guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia.
"Ubirajara
deixou-me por ti; mas foi a Jandira que ele primeiro escolheu para
esposa, quando ainda era jovem caçador.
"Nos campos
alegres, onde vão os guerreiros quando morrem, ele me chamará;
e o guanumbi virá buscar a minha alma no seio da flor do
manacá para levá-la a seu amor.
"Mata-me
ou deixa que eu morra para não ver mais tua beleza e não
ouvir o canto de tua alegria. "
Araci caminhou
para Jandira e desatou-lhe os pulsos.
- O amor do
guerreiro não pertence à mulher que seus olhos primeiro
viram; mas àquela que ele escolheu.
"Apanha
teu arco; e morra aquela que não souber defender seu amor
e merecer o esposo. "
Araci disse,
e tirou da uiraçaba uma seta. Jandira ficou imóvel,
com os pulsos cruzados, como se ainda estivessem presos
- A vontade
de Ubirajara atou os braços de Jandira; ela rejeita a liberdade
dada por ti. Araci pode ser preferida; porém, não
será mais generosa do que a filha de Majé.