O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
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Capítulo II
Você, Quaresma, É um Visionário
Oito horas da manhã. A cerração ainda envolve
tudo. Do lado da terra, mal se enxergam as partes baixas dos edifícios
próximos; para o lado do mar, então, a vista é
impotente contra aquela treva esbranquiçada e flutuante,
contra aquela muralha de flocos e opaca, que se condensa ali e aqui
em aparições, em semelhanças de cousas. O mar
está silencioso: há grandes intervalos entre o seu
fraco marulho. Vê-se da praia um pequeno trecho, sujo, coberto
de algas, e o odor da maresia parece mais forte com a neblina. Para
a esquerda e para a direita, é o desconhecido, o Mistério.
Entretanto, aquela pasta espessa, de uma claridade difusa, está
povoada de ruídos. O chiar das serras vizinhas, os apitos
de fábricas e locomotivas, os guinchos de guindastes dos
navios enchem aquela manhã indecifrável e taciturna;
e ouve-se mesmo a bulha compassada de remos que ferem o mar. Acredita-se,
dentro daquele decoro, que é Caronte que traz a sua barca
para uma das margens do Estige...
Atenção! Todos perscrutam a cortina de névoa
pastosa. Os rostos estão alterados; parece que, do seio da
bruma, vão surgir demônios...
Não se ouve a bulha: o escaler afastou-se. As fisionomias
respiram aliviadas...
Não é noite, não é dia; não é
o dilúculo, não é o crepúsculo; é
a hora da angústia, é a luz da incerteza. No mar,
não há estrelas nem sol que guiem; na terra, as aves
morrem de encontro às paredes brancas das casas. A nossa
miséria é mais completa e a falta daqueles mudos marcos
da nossa atividade dá mais forte percepção
do nosso isolamento no seio da natureza grandiosa.
Os ruídos continuam, e, como nada se vê, parece que
vêm do fundo da terra ou são alucinações
auditivas. A realidade só nos vem do pedaço de mar
que se avista, marulhando com grandes intervalos, fracamente, tenuemente,
a medo, de encontro à areia da praia, suja de bodelhas, algas
e sargaços.
Aos grupos, após o rumor dos remos, os soldados deitaram-se
pela relva que continua a praia. Alguns já cochilam; outros
procuram com os olhos o céu através do nevoeiro que
lhes umedece o rosto.
O cabo Ricardo Coração dos Outros, de rifle à
cintura e gorro à cabeça, sentado numa pedra, está
de parte, sozinho, e olha aquela manhã angustiosa.
Era a primeira vez que via a cerração assim perto
do mar, onde ela faz sentir toda a sua força de desesperar.
Em geral, ele só tinha olhos para as alvoradas claras e purpurinas,
macias e fragrantes; aquele amanhecer brumoso e feio era uma novidade
para ele.
Sob o fardamento de cabo, o menestrel não se aborrece. Aquela
vida solta da caserna vai-lhe bem n'alma; o violão está
lá dentro e, em horas de folga, ele o experimenta, cantarolando
em voz baixa. É preciso não enferrujar os dedos...
O seu pequeno aborrecimento é não poder, de quando
em quando, soltar o peito.
O comandante do destacamento é Quaresma que, talvez, consentisse...
O major está no interior da casa que serve de quartel, lendo.
O seu estudo predileto é agora artilharia. Comprou compêndios;
mas, como sua instrução é insuficiente, da
artilharia vai à balística, da balística à
mecânica, da mecânica ao cálculo e à geometria
analítica; desce mais a escada; vai à trigonometria,
à geometria e à álgebra e à aritmética.
Ele percorre essa cadeia de ciências entrelaçadas com
uma fé de inventor. Aprende uma noção elementaríssima
após um rosário de consultas, de compêndio em
compêndio; e leva assim aqueles dias de ócio guerreiro
enfronhado na matemática, nessa matemática rebarbativa
e hostil aos cérebros que já não são
moços.
Há no destacamento um canhão Krupp, mas ele nada tem
a ver com o mortífero aparelho; contudo, estuda artilharia.
É encarregado dele o Tenente Fontes, que não dá
obediência ao patriota major. Quaresma não se incomoda
com isso; vai aprendendo lentamente a servir-se da boca-de-fogo
e submete-se à arrogância do subalterno.
O comandante do "Cruzeiro do Sul", o Bustamente da barba
mosaica, continua no quartel, superintendendo a vida do batalhão.
A unidade tem poucos oficiais e muito poucas praças; mas
o Estado paga o pré de quatrocentas. Há falta de capitães,
o número de alferes está justo, o de tenentes quase,
mas já há um major, que é Quaresma, e o comandante,
Bustamente, que, por modéstia, se fez simplesmente tenente-coronel.
Tem quarenta praças o destacamento que Quaresma comanda,
três alferes, dous tenentes; mas os oficiais pouco aparecem.
Estão doentes ou licenciados e só ele, o antigo agricultor
do "Sossego", e um alferes, Polidoro, este mesmo só
à noite, estão a postos. Um soldado entrou:
- Senhor comandante, posso ir almoçar?
- Pode. Chama-me o cabo Ricardo.
A praça saiu capengando em cima de grandes botinas; o pobre
homem usava aquela peça protetora como um castigo. Assim
que se viu no mato, que levava a sua casa, tirou-as e sentiu pelo
rosto o sopro da liberdade.
O comandante chegou à janela. A cerração se
ia dissipando. Já se via o sol que brilhava como um disco
de ouro fosco.
Ricardo Coração dos Outros apareceu. Estava engraçado
dentro do seu fardamento de caporal. A blusa era curtíssima,
sungada; os punhos lhe apareciam inteiramente; e as calças
eram compridíssimas e arrastavam no chão.
- Como vais, Ricardo?
- Bem. E o senhor, major?
- Assim.
Quaresma deitou sobre o inferior e amigo aquele seu olhar agudo
e demorado:
- Andas aborrecido, não é?
O trovador sentiu-se alegre com o interesse do comandante:
- Não... Para que dizer, major, que sim... Se a coisa for
assim até ao fim, não é mau... O diabo é
quando há tiro... Uma coisa, major; não se poderia,
assim, aí pelas horas em que não há que fazer,
ir nas mangueiras, cantar um pouco...
O major coçou a cabeça, alisou o cavanhaque e disse:
- Eu, não sei... É...
- O senhor sabe que isso de cantar baixo é remar em seco...
Dizem que no Paraguai...
- Bem. Cante lá; mas não grite, hein?
Calaram-se um pouco; Ricardo ia partir quando o major recordou:
- Manda-me trazer o almoço.
Quaresma jantava e almoçava ali mesmo. Não era raro
também dormir. As refeições eram-lhe fornecidas
por um "frege" próximo e ele dormia em um quarto
daquela edificação imperial. Porque a casa em que
se acantonara o destacamento era o pavilhão do imperador,
situado na antiga Quinta da Ponta do Caju. Ficavam nela também
a estação da estrada de ferro do Rio Douro e uma grande
e barulhenta serraria. Quaresma veio até à porta,
olhou a praia suja e ficou admirado que o imperador a quisesse para
banhos. A cerração se ia dissipando inteiramente.
As formas das cousas saíam modeladas do seio daquela massa
de névoa pesada; e, satisfeitas, como se o pesadelo tivesse
passado. Primeiro surgiam as partes baixas, lentamente; e por fim,
quase repentinamente, as altas.
À direita, havia a Saúde, a Gamboa, os navios de comércio:
galeras de três mastros, cargueiros a vapor, altaneiros barcos
à vela - que iam saindo da bruma, e, por instantes, aquilo
tudo tinha um ar de paisagem holandesa; à esquerda, era o
saco da Raposa, o Retiro Saudoso, a Sapucaia horrenda, a ilha do
Governador, os Órgãos azuis, altos de tocar no céu;
em frente, a ilha dos Ferreiros, com os seus depósitos de
carvão; e, alongando a vista pelo mar sossegado, Niterói,
cujas montanhas acabavam de recortar-se no céu azul, à
luz daquela manhã atrasada.
A neblina foi-se e um galo cantou. Era como se a alegria voltasse
à terra; era uma aleluia. Aqueles chiados, aqueles apitos,
os guinchos tinham um acento festivo de contentamento.
Chegou o almoço e o sargento veio dizer a Quaresma que havia
duas deserções.
- Mais duas? fez admirado o major.
- Sim, senhor. O cento e vinte e cinco e o trezentos e vinte não
responderam hoje a revista.
- Faça a parte.
Quaresma almoçava. O Tenente Fontes, o homem do canhão,
chegou. Quase nunca dormia ali; pernoitava em casa, e, durante o
dia, vinha ver as cousas como iam.
Uma madrugada, ele não estava. A treva ainda era profunda.
O soldado de vigia viu lá ao longe um vulto que se movia
dentro da sombra, resvalando sobre as águas do mar. Não
trazia luz alguma: só o movimento daquela mancha escura revelava
uma embarcação, e também a ligeira fosforescência
das águas. O soldado deu rebate; o pequeno destacamento pôs-se
a postos e Quaresma apareceu.
- O canhão! Já! Avante! ordenou o comandante. E em
seguida, nervoso, recomendou:
- Esperem um pouco.
Correu a casa e foi consultar os seus compêndios e tabelas.
Demorou-se e a lancha avançava, os soldados estavam tontos
e um deles tomou a iniciativa: carregou a peça e disparou-a.
Quaresma reapareceu correndo, assustado, e disse, entrecortado pelo
resfolegar:
- Viram bem... a distância... a alça... o ângulo...
É preciso ter sempre em vista a eficiência do fogo.
Fontes veio e sabendo do caso no dia seguinte riu-se muito:
- Ora, major, você pensa que está em um polígono,
fazendo estudos práticos... Fogo para diante!
E assim era. Quase todas as tardes havia bombardeio, do mar para
as fortalezas, e das fortalezas para o mar; e, tanto os navios como
os fortes saíam incólumes de tão terríveis
provas.
Lá vinha uma ocasião, porém, que acertavam,
então os jornais noticiavam: "Ontem, o forte Acadêmico
fez um maravilhoso disparo. Com o canhão tal, meteu uma bala
no 'Guanabara'." No dia seguinte, o mesmo jornal retificava,
a pedido da bateria do cais Pharoux, que era a que tinha feito o
disparo certeiro. Passavam-se dias e a cousa já estava esquecida,
quando aparecia uma carta de Niterói, reclamando as honras
do tiro para a fortaleza de Santa Cruz.
O Tenente Fontes chegou e esteve examinando o canhão com
o faro de entendedor. Havia uma trincheira de fardo de alfafa e
a boca da peça saía por entre os fiapos de palha,
como as goelas de um animal feroz oculto entre ervas.
Olhava o horizonte, depois de exame atento ao canhão, e considerava
a ilha das Cobras, quando ouviu o gemer do violão e uma voz
que dizia:
Prometo pelo
Santíssimo Sacramento...
Dirigiu-se para
o local donde partiam os sons e se lhe derrapou este lindíssimo
quadro: à sombra de uma grande árvore, os soldados
deitados ou sentados em círculo, em torno de Ricardo Coração
dos Outros, que entoava endechas magoadas.
As praças tinham acabado de almoçar e beber a pinga,
e estavam tão embevecidas na canção de Ricardo
que não deram pela chegada do jovem oficial.
- Que é isto? disse ele severamente.
Os soldados levantaram-se todos, em continência; e Ricardo,
com a mão direita no gorro, perfilado, e a esquerda, segurando
o violão, que repousava no chão, desculpou-se:
- "Seu" tenente, foi o major quem permitiu. Vossa Senhoria
sabe que se nós não tivéssemos ordem, não
iríamos brincar.
- Bem. Não quero mais isto, disse o oficial.
- Mas, objetou Ricardo, o Senhor Major Quaresma...
- Não temos aqui Major Quaresma. Não quero, já
disse!
Os soldados debandaram e o Tenente Fontes seguiu para a velha casa
imperial, ao encontro do major do "Cruzeiro do Sul". Quaresma
continuava no seu estudo, um rolar de Sísifo, mas voluntário,
para a grandeza da pátria. Fontes foi entrando e dizendo:
- Que é isto, "Seu" Quaresma! Então o senhor
permite cantorias no destacamento?
O major não se lembrava mais da cousa e ficou espantado com
o ar severo e ríspido do moço. Ele repetiu:
- Então o senhor permite que os inferiores cantem modinhas
e toquem violão, em pleno serviço?
- Mas que mal faz? Ouvi dizer que em campanha...
- E a disciplina? E o respeito?
- Bem, vou proibir, disse Quaresma.
- Não é preciso. Já proibi.
Quaresma não se deu por agastado, não percebeu motivo
para agastamento e disse com doçura:
- Fez bem.
Em seguida perguntou ao oficial o modo de extrair a raiz quadrada
de uma fração decimal; o rapaz ensinou-lhe e eles
estiveram cordialmente conversando sobre cousas vulgares. Fontes
era noivo de Lalá, a terceira filha do general Albernaz,
e esperava acabar a revolta para efetuar o casamento. Durante uma
hora a conversa entre os dous versou sobre este pequenino fato familiar
a que estavam ligados aqueles estrondos, aqueles tiros, aquela solene
disputa entre duas ambições. Subitamente, a corneta
feriu o ar com a sua voz metálica. Fontes assestou o ouvido;
o major perguntou:
- Que toque é?
- Sentido.
Os dous saíram. Fontes perfeitamente fardado; e o major apertando
o talim, sem encontrar jeito, tropeçando na espada venerável
que teimava em se lhe meter entre as pernas curtas. Os soldados
já estavam nas trincheiras, armas à mão; o
canhão tinha ao lado a munição necessária.
Uma lancha avançava lentamente, com a proa alta assestada
para o posto. De repente, saiu de sua borda um golfão de
fumaça espessa: Queimou! - gritou uma voz. Todos se abaixaram,
a bala passou alto, zunindo, cantando, inofensiva. A lancha continuava
a avançar impávida. Além dos soldados, havia
curiosos, garotos, a assistir o tiroteio, e fora um destes que gritara:
queimou!
E assim sempre. Às vezes eles chegavam bem perto à
tropa, às trincheiras, atrapalhando o serviço; em
outras, um cidadão qualquer chegava ao oficial e muito delicadamente
pedia: O senhor dá licença que dê um tiro? O
oficial acedia, os serventes carregavam a peça e o homem
fazia a pontaria e um tiro partia.
Com o tempo, a revolta passou a ser uma festa, um divertimento da
cidade... Quando se anunciava um bombardeio, num segundo, o terraço
do Passeio Público se enchia. Era como se fosse uma noite
de luar, no tempo em que era do tom apreciá-las no velho
jardim de Dom Luís de Vasconcelos, vendo o astro solitário
pratear a água e encher o céu.
Alugavam-se binóculos e tanto os velhos como as moças,
os rapazes como as velhas, seguiam o bombardeio como uma representação
de teatro: "Queimou Santa Cruz! Agora é o 'Aquidabã'!
Lá vai!" E dessa maneira a revolta ia, familiarmente,
entrando nos hábitos e nos costumes da cidade.
Nos cais Pharoux, os pequenos garotos, vendedores de jornais, engraxates,
quitandeiros ficavam atrás das portadas, dos urinários,
das árvores, a ver, a esperar a queda das balas; e quando
acontecia cair uma, corriam todos em bolo, a apanhá-la como
se fosse uma moeda ou guloseima.
As balas ficaram na moda. Eram alfinetes de gravata, berloques de
relógios, lapiseiras, feitas com as pequenas balas de fuzis;
faziam-se também coleções das médias
e com os seus estojos de metal, areados, polidos, lixados, ornavam
os consolos, os dunkerques das casas médias; as grandes,
os "melões" e as "abóboras", como
chamavam, guarneciam os jardins, como vasos de faiança ou
estátuas.
A lancha continuava a atirar; Fontes fez um disparo. O canhão
vomitou o projétil, recuou um pouco e logo foi posto em posição.
A embarcação respondeu e o rapazote gritou: queimou!
Eram sempre esses garotos que anunciavam os tiros do inimigo. Mal
viam o fuzilar breve e a fumaça, lá longe, no navio,
jorrar devagar, muito pesada, gritavam: queimou!
Houve um em Niterói que teve o seu quarto de hora de celebridade.
Chamavam-no "Trinta-Réis"; os jornais do tempo
ocuparam-se com ele, fizeram-se subscrições a seu
favor. Um herói! Passou a revolta e foi esquecido, tanto
ele como a "Luci", uma bela lancha que chegou fazer-se
entidade na imaginação da urbs, a interessá-la,
a criar inimigos e admiradores.
A embarcação deixou de provocar a fúria do
posto do Caju, e Fontes deu instruções ao seu chefe
da peça, e foi-se embora.
Quaresma recolheu-se ao seu quarto e continuou os seus estudos guerreiros.
Os mais dias que passou naquele extremo da cidade não eram
diferentes deste. Os acontecimentos eram os mesmos e a guerra caía
na banalidade da repetição dos mesmos episódios.
A espaços, quando o aborrecimento lhe vinha, saía.
Descia a cidade e deixava o posto entregue a Polidoro ou a Fontes,
se estava.
Raras vezes o fazia de dia, porque Polidoro, o mais assíduo,
marceneiro de profissão e em atividade numa fábrica
de móveis, só vinha à noite.
No centro da cidade, a noite era alegre e jovial. Havia muito dinheiro,
o governo pagava soldos dobrados, e, às vezes, gratificações,
além do que havia também a morte sempre presente;
e tudo isso estimulava o divertir-se. Os teatros eram freqüentados
e os restaurants noturnos também.
Quaresma, porém, não se metia naquele ruído
de praça semi-sitiada. Ia às vezes ao teatro, à
paisana, e, logo acabado o espetáculo, voltava para o quarto
da cidade ou para o posto.
Em outras tardes, logo que Polidoro chegava, saía a pé,
pelas ruas dos arredores, pelas praias até o Campo de São
Cristóvão.
Ia vendo aquela sucessão de cemitérios, com as suas
campas alvas que sobem montanhas, como carneiros tosquiados e limpos
a pastar; aqueles ciprestes meditativos que as vigiam; e como que
se lhe representava que aquela parte da cidade era feudo e senhorio
da morte.
As casas tinham um aspecto fúnebre, recolhidas e concentradas;
o mar marulhava lugubremente na ribanceira lodosa; as palmeiras
ciciavam doridas; e até o tilintar da campainha dos bondes
era triste e lúgubre.
A paisagem se impregnara da Morte e o pensamento de quem passava
ali mais ainda, para fazer sentir nela tão forte aspecto
funéreo.
Foi vindo até ao Campo; aí deu-lhe vontade de ver
a sua antiga casa e afinal entrou na residência do General
Albernaz. Devia-lhe aquela visita e aproveitou o ensejo.
Acabavam de jantar e jantara com o general, além do Tenente
Fontes e o Almirante Caldas, o comandante de Quaresma, o Tenente-Coronel
Inocêncio Bustamante.
Bustamante era um comandante ativo, mas dentro do quartel. Não
havia quem como ele se interessasse pelos livros, pela boa caligrafia
com que eram escritos os livros mestres, as relações
de mostra, os mapas de companhia e outros documentos. Com auxílio
deles, a organização do seu batalhão era irrepreensível;
e, para não deixar de vigiar a escrituração,
aparecia de onde em onde nos destacamentos do seu corpo.
Havia dez dias que Quaresma o não via. Após os cumprimentos,
ele logo perguntou ao major:
- Quantas deserções?
- Até hoje, nove, disse Quaresma.
Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu:
- Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar
sem nome... Falta-lhes patriotismo!
- Fazem muito bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até
agora o governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo
se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum
dia vice-almirante. É verdade que o governo ainda não
organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, ele
não comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade!
Era velho um pouco, é verdade; mas, por não ter nunca
comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia
moça.
- O almirante não deve falar assim... A pátria está
logo abaixo da humanidade.
- Meu caro tenente, o senhor é moço... Eu sei o que
são essas cousas...
- Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós,
mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
- Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.
Bustamente, o general e Quaresma assistiam à pequena discussão
calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a fúria
de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e
alisar os longos favoritos brancos. O tenente respondeu:
- Muito, almirante. Nós todos devemos trabalhar para que
surjam épocas melhores, de ordem, de felicidade e evolução
moral.
- Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
- Eu também penso assim, acrescentou Albernaz.
- Isto há de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes,
em face daquelas contestações, ao contrário
dos seus congêneres de seita, não se agastou. Ele era
magro e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada
aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a mão direita no
jeito favorito dos sermonários, depois de ouvir todos, falou
com unção:
- Houve já um esboço: a Idade Média.
Ninguém ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia
história do Brasil e os outros nenhuma.
E a sua afirmação fez calar todos, embora no íntimo
duvidosos. É uma curiosa Idade Média, essa de elevação
moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a gente
diz: "No tempo de Clotário, ele próprio, com
suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava
o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos" - o positivista
objeta: "Ainda não estava perfeitamente estabelecido
o ascendente da igreja." "São Luís",
diremos logo nós, "quis executar um senhor feudal porque
mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho
nas suas matas." Objeta o fiel: "Você não
sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento
da Divina Comédia? São Luís já era a
decadência"... Citam-se as epidemias de moléstias
nervosas, a miséria dos campônios, as ladroagens à
mão armada dos barões, as alucinações
do milênio, as cruéis matanças que Carlos Magno
fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não
estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja;
outra que ele já tinha desaparecido.
Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para
a revolta. O almirante criticava severamente o governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros à toa; na
sua opinião, já devia ter feito todo o esforço
para ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue.
Bustamente não tinha opinião assentada; mas Quaresma
e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e
de uma improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado
o seu aviso, e veio a fazê-lo assim:
- Mas nós reconhecemos Humaitá, e por pouco!
- Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições
naturais eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente
inútil... O senhor sabe, esteve lá!
- Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas
o Camisão disse-me que foi arriscado.
Quaresma voltara ao silêncio. Ele procurava ver Ismênia.
Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o major se sentia por
qualquer cousa preso à moléstia da moça. Viu
todos: Dona Maricota, sempre ativa e diligente; Lalá, a arrancar,
com o olhar, o noivo da conversa interminável, e as outras
que vinham, de quando em quando, da sala de visitas à sala
de jantar onde ele estava. Por fim, não se conteve, perguntou.
Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior, cada vez
mais abismada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general
contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela
sua desgraça íntima, disse com um longo suspiro:
- Não sei, Quaresma... Não sei.
Eram dez horas quando o major se despediu. Voltou de bonde para
a Ponta do Caju. Saltou e recolheu-se logo a seu quarto. Vinha cheio
da perturbação especial que põe em nós
o luar que estava lindo, terno e leitoso, naquela noite. É
uma emoção de desafogo do corpo, de delíquio;
parece que nos tiram o envoltório material e ficamos só
alma, envolvidos numa branda atmosfera de sonhos e quimeras. O major
não colhia bem a sensação transcendente, mas
sofria sem perceber o efeito da luz pálida e fria do luar.
Deitou-se um pouco, vestido, não por sono, mas em virtude
daquela doce embriaguez que o astro lhe tinha posto nos sentidos.
Dentro em pouco Ricardo veio chamá-lo: o marechal estava
aí. Era seu hábito sair à noite, às
vezes, de madrugada, e ir de posto em posto. O fato se espalhou
pelo público que o apreciava extraordinariamente, e o Presidente
teve mais esse documento para firmar a sua fama de estadista consumado.
Quaresma veio ao seu encontro. Floriano vestia chapéu de
feltro mole, abas largas, e uma curta sobrecasaca surrada. Tinha
um ar de malfeitor ou de exemplar chefe de família em aventuras
extraconjugais.
O major cumprimentou-o e esteve a dar-lhe notícias do ataque
que fora feito ao seu posto, há dias passados. O marechal
respondia por monossílabos preguiçosos e olhava ao
redor. Quase ao despedir-se, falou mais, dizendo vagarosamente,
lentamente:
- Hei de mandar pôr um holofote aqui.
Quaresma veio acompanhá-lo até ao bonde. Atravessaram
o velho sítio de recreio dos imperadores. Um pouco afastada
da estação uma locomotiva, semi-acesa, resfolegava.
Semelhava roncar, dormindo; os carros, pequenos, banhados pelo luar,
muito quietos, sossegados como que dormiam. As anosas mangueiras,
com falta de galhos aqui e ali, pareciam polvilhadas preciosamente
de prata. O luar estava magnífico. Os dous andavam, o marechal
perguntou:
- Quantos homens tem você?
- Quarenta.
O marechal mastigou um: "não é muito"; e
voltou ao mutismo. Num dado momento, Quaresma viu-lhe o rosto inundado
pela luz da lua. Pareceu-lhe mais simpática a fisionomia
do ditador. Se lhe falasse...
Preparou a pergunta; mas não teve coragem de pronunciá-la.
Continuaram a andar. O major pensou: que é que tem? não
há desrespeito algum. Aproximaram-se do portão. Num
dado momento como que houve uma bulha atrás. Quaresma voltou-se,
mas Floriano quase não o fez.
Os edifícios da serraria pareciam cobertos de neve, tanto
era o branco luar. O major continuou a mastigar a sua pergunta;
urgia, era indispensável; o portão estava a dous passos.
Tomou coragem, ousou e falou:
- Vossa Excelência já leu o meu memorial, marechal?
Floriano respondeu lentamente, quase sem levantar o lábio
pendente:
- Li.
Quaresma entusiasmou-se:
- Vê Vossa Excelência como é fácil erguer
este país. Desde que se cortem todos aqueles empecilhos que
eu apontei, no memorial que Vossa Excelência teve a bondade
de ler; desde que se corrijam os erros de uma legislação
defeituosa e inadaptável às condições
do país, Vossa Excelência verá que tudo isto
muda, que, em vez de tributários, ficaremos com a nossa independência
feita... Se Vossa Excelência quisesse...
À proporção que falava, mais Quaresma se entusiasmava.
Ele não podia ver bem a fisionomia do ditador, encoberto
agora como lhe estava o rosto pelas abas do chapéu de feltro;
mas, se a visse, teria de esfriar, pois havia na sua máscara
sinais do aborrecimento mais mortal. Aquele falatório de
Quaresma, aquele apelo à legislação, a medidas
governamentais, iam mover-lhe o pensamento, por mais que não
quisesse. O presidente aborrecia-se. Num dado momento, disse:
- Mas, pensa você, Quaresma, que eu hei de pôr a enxada
na mão de cada um desses vadios?! Não havia exército
que chegasse...
Quaresma espantou-se, titubeou, mas retorquiu:
- Mas, não é isso, marechal. Vossa Excelência,
com o seu prestígio e poder, está capaz de favorecer,
com medidas enérgicas e adequadas, o aparecimento de iniciativas,
de encaminhar o trabalho, de favorecê-lo e torná-lo
remunerador... Bastava, por exemplo...
Atravessavam o portão da velha quinta de Pedro I. O luar
continuava lindo, plástico e opalescente. Um grande edifício
inacabado que havia na rua parecia terminado, com vidraças
e portas feitas com a luz da lua. Era um palácio de sonho.
Floriano já ouvia Quaresma muito aborrecido. O bonde chegou;
ele se despediu do major, dizendo com aquela sua placidez de voz:
- Você, Quaresma, é um visionário...
O bonde partiu. A lua povoava os espaços, dava fisionomia
às cousas, fazia nascer sonhos em nossa alma, enchia a vida,
enfim, com a sua luz emprestada...