O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
TERCEIRA PARTE
Capítulo
I
Patriotas
Havia mais de uma hora que ele estava ali, num grande salão
do palácio, vendo o marechal, mas sem lhe poder falar. Quase
não se encontravam dificuldades para se chegar à sua
presença, mas falar-lhe, a cousa não era tão
fácil.
O palácio tinha um ar de intimidade, de quase relaxamento,
representativo e eloqüente. Não era raro ver-se pelos
divãs, em outras salas, ajudantes-de-ordens, ordenanças,
contínuos, cochilando, meio deitados e desabotoados. Tudo
nele era desleixo e moleza. Os cantos dos tetos tinham teias de
aranha; dos tapetes, quando pisados com mais força, subia
uma poeira de rua mal varrida.
Quaresma não pudera vir logo, como anunciara no telegrama.
Fora preciso pôr em ordem os seus negócios, arranjar
quem fizesse companhia à irmã. Fizera Dona Adelaide
mil objeções à sua partida; mostrara-lhe os
riscos da luta, da guerra, incompatíveis com a sua idade
e superiores à sua força; ele, porém, não
se deixara abater, fizera pé firme, pois sentia, indispensável,
necessário que toda a sua vontade, que toda a sua inteligência,
que tudo o que ele tinha de vida e atividade fosse posto à
disposição do governo, para então!... oh!
Aproveitara os dias até para redigir um memorial que ia entregar
a Floriano. Nele expunham-se as medidas necessárias para
o levantamento da agricultura e mostravam-se todos os entraves,
oriundos da grande propriedade, das exações fiscais,
da carestia de fretes, da estreiteza dos mercados e das violências
políticas.
O major apertava o manuscrito na mão e lembrava-se da sua
casa, lá longe, no canto daquela planície feia, olhando,
no poente, as montanhas que se alongavam, se afilavam nos dias claros
e transparentes, lembrava-se de sua irmã, dos seus olhos
verdes e plácidos que o viram partir com uma impassibilidade
que não era natural; mas do que se lembrava mais, naquele
momento, era do Anastácio, o seu preto velho, do seu longo
olhar, não mais com aquela ternura passiva de animal doméstico,
mas cheio de assombro, de espanto e piedade, rolando muito nas órbitas
as escleróticas muito brancas, quando o viu penetrar no vagão
da estrada de ferro. Parecia que farejava desgraça... Não
lhe era comum tal atitude e como que a tomava por ter descoberto
nas cousas sinais de dolorosos acontecimentos a vir... Ora!...
Ficara Quaresma a um canto vendo entrar um e outro, à espera
que o presidente o chamasse. Era cedo, pouco devia faltar para o
meio-dia, e Floriano tinha ainda, como sinal do almoço, o
palito na boca.
Falou em primeiro lugar a uma comissão de senhoras que vinham
oferecer o seu braço e o seu sangue em defesa das instituições
e da pátria. A oradora era uma mulher baixa, de busto curto,
gorda, com grandes seios altos e falava agitando o leque fechado
na mão direita.
Não se podia dizer bem qual a sua cor, sua raça, ao
menos: andavam tantas nela que uma escondia a outra, furtando toda
ela a uma classificação honesta.
Enquanto falava, a mulherzinha deitava sobre o marechal os grandes
olhos que despediam chispas. Floriano parecia incomodado com aquele
chamejar; era como se temesse derreter-se ao calor daquele olhar
que queimava mais sedução que patriotismo. Fugia encará-la,
abaixava o rosto como um adolescente, batia com os dedos na mesa...
Quando lhe chegou a vez de falar, levantou um pouco o rosto, mas
sem encarar a mulher, e, com um grosso e difícil sorriso
de roceiro, declinou da oferta, visto a República ainda dispor
de bastante força para vencer.
A última frase, ele a disse com mais vagar e quase ironicamente.
As damas despediram-se; o marechal girou o olhar em torno do salão
e deu com Quaresma:
- Então, Quaresma? fez ele familiarmente.
O major ia aproximar-se, mas logo estacou no lugar em que estava.
Uma chusma de oficiais subalternos e cadetes cercou o ditador e
a sua atenção convergiu para eles. Não se ouvia
o que diziam. Falavam ao ouvido de Floriano, cochichavam, batiam-lhe
nas espáduas. O marechal quase não falava: movia com
a cabeça ou pronunciava um monossílabo, cousa que
Quaresma percebia pela articulação dos lábios.
Começaram a sair. Apertavam a mão do ditador e, um
deles, mais jovial, mais familiar, ao despedir-se, apertou-lhe com
força a mão mole, bateu-lhe no ombro com intimidade,
e disse alto e com ênfase:
- Energia, marechal!
Aquilo tudo parecia tão natural, normal, tendo entrado no
novo cerimonial da República, que ninguém, nem o próprio
Floriano, teve a mínima surpresa, ao contrário alguns
até sorriram alegres por ver o califa, o cã, o emir,
transmitir um pouco do que tinha de sagrado ao subalterno desabusado.
Não se foram todos imediatamente. Um deles demorou-se mais
a segredar cousas à suprema autoridade do país. Era
um cadete da Escola Militar, com a sua farda azul-turquesa, talim
e sabre de praça de pré.
Os cadetes da Escola Militar formavam a falange sagrada.
Tinham todos os privilégios e todos os direitos; precediam
ministros nas entrevistas com o ditador e abusavam dessa situação
de esteio do Sila, para oprimir e vexar a cidade inteira.
Uns trapos de positivismo se tinham colado naquelas inteligências
e uma religiosidade especial brotara-lhes no sentimento, transformando
a autoridade, especialmente Floriano e vagamente a República,
em artigo e fé, em feitiço, em ídolo mexicano,
em cujo altar todas as violências e crimes eram oblatas dignas
e oferendas úteis para a sua satisfação e eternidade.
O cadete lá estava...
Quaresma pôde então ver melhor a fisionomia do homem
que ia feixar em suas mãos, durante quase um ano, tão
fortes poderes, poderes de Imperador Romano, pairando sobre tudo,
limitando tudo, sem encontrar obstáculo algum aos seus caprichos,
às suas fraquezas e vontades, nem nas leis, nem nos costumes,
nem na piedade universal e humana.
Era vulgar e desoladora. O bigode caído; o lábio inferior
pendente e mole a que se agarrava uma grande "mosca";
os traços flácidos e grosseiros; não havia
nem o desenho do queixo ou olhar que fosse próprio, que revelasse
algum dote superior. Era um olhar mortiço, redondo, pobre
de expressões, a não ser de tristeza que não
lhe era individual, mas nativa, de raça; e todo ele era gelatinoso
- parecia não ter nervos.
Não quis o major ver em tais sinais nada que lhe denotasse
o caráter, a inteligência e o temperamento. Essas cousas
não vogam, disse ele de si para si.
O seu entusiasmo por aquele ídolo político era forte,
sincero e desinteressado. Tinha-o na conta de enérgico, de
fino e supervidente, tenaz e conhecedor das necessidades do país,
manhoso talvez um pouco, uma espécie de Luís XI forrado
de um Bismarck. Entretanto, não era assim. Com uma ausência
total de qualidades intelectuais, havia no caráter do Marechal
Floriano uma qualidade predominante: tibieza de ânimo; e no
seu temperamento, muita preguiça. Não a preguiça
comum, essa preguiça de nós todos; era uma preguiça
mórbida, como que uma pobreza de irrigação
nervosa, provinda de uma insuficiente quantidade de fluido no seu
organismo. Pelos lugares que passou, tornou-se notável pela
indolência e desamor às obrigações dos
seus cargos.
Quando diretor do Arsenal de Pernambuco, nem energia tinha para
assinar o expediente respectivo; e durante o tempo em que foi ministro
da Guerra, passava meses e meses sem lá ir, deixando tudo
por assinar, pelo que "legou" ao seu substituto um trabalho
avultadíssimo.
Quem conhece a atividade papeleira de um Colbert, de um Napoleão,
de um Filipe II, de Guilherme I, da Alemanha, em geral de todos
os grandes homens de Estado, não compreende o descaso florianesco
pela expedição de ordens, explicações
aos subalternos, de suas vontades, de suas vistas, certamente necessárias
deviam ser tais transmissões para que o seu senso superior
se fizesse sentir e influísse na marcha das cousas governamentais
e administrativas.
Dessa preguiça de pensar e de agir, vinha o seu mutismo,
os seus misteriosos monossílabos, levados à altura
de ditos sibilinos, as famosas "encruzilhadas dos talvezes",
que tanto reagiram sobre a inteligência e imaginação
nacionais, mendigas de heróis e grandes homens.
Essa doentia preguiça fazia-o andar de chinelos e deu-lhe
aquele aspecto de calma superior, calma de grande homem de Estado
ou de guerreiro extraordinário.
Toda a gente ainda se lembra como foram os seus primeiros meses
de governo. A braços com o levante de presos, praças
e inferiores da fortaleza de Santa Cruz, tendo mandado fazer um
inquérito, abafou-o com medo que as pessoas indicadas como
instigadoras não fizessem outra sedição, e,
não contente com isto, deu a essas pessoas as melhores e
mais altas recompensas.
Demais, ninguém pode admitir um homem forte, um César,
um Napoleão, que permita aos subalternos aquelas intimidades
deprimentes e tenha com eles as condescendências que ele tinha,
consentindo que o seu nome servisse de lábaro para uma vasta
série de crimes de toda a espécie.
Uma recordação basta. Sabe-se bem sob que atmosfera
de má vontade Napoleão assumiu o comando do exército
da Itália. Augereau, que o chamava "general de rua",
disse a alguém, após lhe ter falado: "O homem
meteu-me medo"; e o corso estava senhor do exército
sem batidelas no ombro, sem delegar tácita ou explicitamente
a sua autoridade a subalternos irresponsáveis.
De resto, a lentidão com que sufocou a revolta de 6 de setembro
mostra bem a incerteza, a vacilação de vontade de
um homem que dispunha daqueles extraordinários recursos que
estavam às suas ordens.
Há uma outra face do Marechal Floriano que muito explica
os seus movimentos, atos e gestos. Era o seu amor à família,
um amor entranhado, alguma cousa de patriarcal, de antigo que já
se vai esvaindo com a marcha da civilização.
Em virtude de insucessos na exploração agrícola
de duas das suas propriedades, a sua situação particular
era precária, e não queria morrer sem deixar à
família as suas propriedades agrícolas desoneradas
do peso das dívidas.
Honesto e probo como era, a única esperança que lhe
restava repousava nas economias sobre os seus ordenados. Daí
lhe veio essa dubiedade, esse jogo com pau de dous bicos, jogo indispensável
para conservar os rendosos lugares que teve e o fez atarraxar-se
tenazmente à Presidência da República. A hipoteca
do "Brejão" e do "Duarte" foi o seu nariz
de Cleópatra...
A sua preguiça, a sua tibieza de ânimo e o seu amor
fervoroso pelo lar deram em resultado esse "homem-talvez"
que, refratado nas necessidades mentais e sociais dos homens do
tempo, foi transformado em estadista, em Richelieu, e pôde
resistir a uma séria revolta com mais teimosia que vigor,
obtendo vidas, dinheiro e despertando até entusiasmo e fanatismo.
Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram,
que o sustentaram, só teriam sido possíveis, depois
de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro,
isto é, após se ter "fabricado" à
vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.
A sua concepção de governo não era o despotismo,
nem a democracia, nem a aristocracia; era a de uma tirania doméstica.
O bebê portou-se mal, castiga-se. Levada a cousa ao grande,
o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões
contrárias às suas e o castigo não eram mais
palmadas, sim, porém, prisão e morte. Não há
dinheiro no Tesouro; ponham-se as notas recolhidas em circulação,
assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é
pouca: põe-se mais água.
Demais, a sua educação militar e a sua fraca cultura
deram mais realce a essa concepção infantil, raiando-a
de violência, não tanto por ele em si, pela sua perversidade
natural, pelo seu desprezo pela vida humana, mas pela fraqueza com
que acobertou e não reprimiu a ferocidade dos seus auxiliares
e asseclas.
Quaresma estava longe de pensar nisso tudo; ele com muitos homens
honestos e sinceros do tempo foram tomados pelo entusiasmo contagioso
que Floriano conseguira despertar. Pensava na grande obra que o
Destino reservava àquela figura plácida e triste;
na reforma radical que ele ia levar ao organismo aniquilado da pátria,
que o major se habituara a crer a mais rica do mundo, embora, de
uns tempos para cá, já tivesse dúvidas a certos
respeitos.
Decerto, ele não negaria tais esperanças e a sua ação
poderosa havia de se fazer sentir pelos oito milhões de quilômetros
quadrados do Brasil, levando-lhes estradas, segurança, proteção
aos fracos, assegurando o trabalho e promovendo a riqueza.
Não se demorou muito nessa ordem de pensamentos. Um seu companheiro
de espera, desde que o marechal lhe falou familiarmente, começou
a considerar aquele homem pequenino, taciturno, de pince-nez e foi-se
chegando, se aproximando e, quando já perto, disse a Quaresma,
quase como um terrível segredo:
- Eles vão ver o "caboclo"... O major há
muito que o conhece?
Respondeu-lhe o major e o outro ainda lhe fez uma outra pergunta;
o presidente, porém, ficara só e Quaresma avançou.
- Então, Quaresma? fez Floriano.
- Venho oferecer a Vossa Excelência os meus fracos préstimos.
O presidente considerou um instante aquela pequenez de homem, sorriu
com dificuldade, mas, levemente, com um pouco de satisfação.
Sentiu por aí a força de sua popularidade e senão
a razão boa de sua causa.
- Agradeço-te muito... Onde tens andado? Sei que deixaste
o Arsenal.
Floriano tinha essa capacidade de guardar fisionomias, nomes, empregos,
situações dos subalternos com quem lidava. Tinha alguma
cousa de asiático; era cruel e paternal ao mesmo tempo.
Quaresma explicou-lhe a sua vida e aproveitou a ocasião para
lhe falar em leis agrárias, medidas tendentes a desafogar
e dar novas bases à nossa vida agrícola. O marechal
ouviu-o distraído, com uma dobra de aborrecimento no canto
dos lábios.
- Trazia a Vossa Excelência até este memorial...
O presidente teve um gesto de mau humor, um quase "não
me amole" e disse com preguiça a Quaresma:
- Deixa aí...
Depositou o manuscrito sobre a mesa e logo o ditador dirigiu-se
ao interlocutor de ainda agora:
- Que há, Bustamante? E o batalhão, vai?
O homem aproximou-se mais, um tanto amedrontado:
- Vai bem, marechal. Precisamos de um quartel... Se Vossa Excelência
desse ordem...
- É exato. Fala ao Rufino em meu nome que ele pode arranjar...
Ou antes: leva-lhe este bilhete.
Rasgou um pedaço de uma das primeiras páginas do manuscrito
de Quaresma, e assim mesmo, sobre aquela ponta de papel, a lápis
azul, escreveu algumas palavras ao seu ministro da Guerra. Ao acabar
é que deu com a desconsideração:
- Ora! Quaresma! rasguei o teu escrito... Não faz mal...
Era a parte de cima, não tinha nada escrito.
O major confirmou e o presidente, em seguida, voltando-se para Bustamante:
- Aproveita Quaresma no teu batalhão. Que posto queres?
- Eu! fez Quaresma estupidamente.
- Bem. Vocês lá se entendam.
Os dous se despediram do presidente e desceram vagarosamente as
escadas do Itamarati. Até à rua nada disseram um ao
outro. Quaresma vinha um pouco frio. O dia estava claro e quente;
o movimento da cidade parecia não ter sofrido alteração
apreciável. Havia a mesma agitação de bondes,
carros e carroças; mas nas fisionomias, um terror, um espanto,
alguma cousa de tremendo ameaçava todos e parecia estar suspenso
no ar.
Bustamante deu-se a conhecer. Era o Major Bustamante, agora Tenente-Coronel,
velho amigo do marechal, seu companheiro do Paraguai.
- Mas nós nos conhecemos! exclamou ele.
Quaresma esteve olhando aquele velho mulato escuro, com uma grande
barba mosaica e olhos espertos, mas não se lembrou de tê-lo
já encontrado algum dia.
- Não me recordo... Donde?
- Da casa do General Albernaz... Não se lembra?
Policarpo então teve uma vaga recordação e
o outro explicou-lhe a formação do seu batalhão
patriótico "Cruzeiro do Sul".
- O senhor quer fazer parte?
- Pois não, fez Quaresma.
- Estamos em dificuldades... Fardamento, calçado para as
praças... Nas primeiras despesas devemos auxiliar o governo...
Não convém sangrar o Tesouro, não acha?
- Certamente, disse com entusiasmo Quaresma.
- Folgo muito que o senhor concorde comigo... Vejo que é
um patriota... Resolvi por isso fazer um rateio pelos oficiais,
em proporção ao posto: um alferes concorre com cem
mil-réis, um tenente com duzentos... O senhor que patente
quer? Ah! É verdade! O Senhor é major, não
é?
Quaresma então explicou por que o tratavam por major. Um
amigo, influência no Ministério do Interior, lhe tinha
metido o nome numa lista de guardas-nacionais, com esse posto. Nunca
tendo pago os emolumentos, viu-se, entretanto, sempre tratado major,
e a cousa pegou. A princípio, protestou, mas como teimassem
deixou.
- Bem, fez Bustamante. O senhor fica mesmo sendo major.
- Qual é a minha quota?
- Quatrocentos mil-réis. Um pouco forte, mas... O senhor
sabe; é um posto importante... Aceita?
- Pois não.
Bustamante tirou a carteira, tomou nota com uma pontinha de lápis
e despediu-se jovialmente:
- Então, major, às seis, no quartel provisório.
A conversa se havia passado na esquina da Rua Larga com o Campo
de Sant'Ana. Quaresma pretendia tomar um bonde que o levasse ao
centro da cidade. Tencionava visitar o compadre em Botafogo, fazendo,
assim, horas para a sua iniciação militar.
A praça estava pouco transitada; os bondes passavam ao chouto
compassado das mulas; de quando em quando ouvia-se um toque de corneta,
rufos de tambor, e do portão central do quartel-general saía
uma força, armas ao ombro, baionetas caladas, dançando
nos ombros dos recrutas, faiscando com um brilho duro e mau.
Ia tomar o bonde, quando se ouviram alguns disparos de artilharia
e o seco espoucar dos fuzis. Não durou muito; antes que o
bonde atingisse à Rua da Constituição, todos
os rumores guerreiros tinham cessado, e quem não estivesse
avisado havia de supor-se em tempos normais.
Quaresma chegou-se para o centro do banco e ia ler o jornal que
comprara. Desdobrou-o vagarosamente, mas foi logo interrompido;
bateram-lhe no ombro. Voltou-se.
- Oh! general!
O encontro foi cordial. O General Albernaz gostava dessas cerimônias
e tinha mesmo um prazer, uma deliciosa emoção em reatar
conhecimentos que se tinham enfraquecido por uma separação
qualquer. Estava fardado, com aquele seu uniforme maltratado; não
trazia espada e o pince-nez continuava preso por um trancelim de
ouro que lhe passava por detrás da orelha esquerda.
- Então veio ver a cousa?
- Vim. Já me apresentei ao marechal.
- "Eles" vão ver com quem se meteram. Pensam que
tratam com o Deodoro, enganam-se!... A República, graças
a Deus, tem agora um homem na sua frente... O "caboclo"
é de ferro... No Paraguai...
- O senhor conheceu-o lá, não, general?
- Isto é... Não chegamos a nos encontrar; mas o Camisão...
É duro, o homem. Estou como encarregado das munições...
É o fino o "caboclo": não me quis no litoral.
Sabe muito bem quem sou e que munição que saia das
minhas mãos, é munição... Lá,
no depósito, não me sai um caixote que eu não
examine... É necessário... No Paraguai, houve muita
desordem e comilança: mandou-se muita cal por pólvora
- não sabia?
- Não.
- Pois foi. O meu gosto era ir para as praias, para o combate; mas
o "homem" quer que eu fique com as munições...
Capitão manda, marinheiro faz... Ele sabe lá...
Deu de ombros, concertou o trancelim que já caía da
orelha e esteve calado um instante. Quaresma perguntou:
- Como vai a família?
- Bem. Sabe que Quinota casou-se?
- Sabia, o Ricardo me disse. E Dona Ismênia, como vai?
A fisionomia do general toldou-se e respondeu como a contragosto:
- Vai no mesmo.
O pudor de pai tinha-o impedido de dizer toda a verdade. A filha
enlouquecera de uma loucura mansa e infantil. Passava dias inteiros
calada, a um canto, olhando estupidamente tudo, com um olhar morto
de estátua, numa atonia de inanimado, como que caíra
em imbecilidade; mas vinha uma hora, porém, em que se penteava
toda, enfeitava-se e corria à mãe, dizendo: "Apronta-me,
mamãe. O meu noivo não deve tardar... é hoje
o meu casamento." Outras vezes recortava papel, em forma de
participações, e escrevia: Ismênia de Albernaz
e Fulano (variava) participam o seu casamento.
O general já consultara uma dúzia de médicos,
o espiritismo e agora andava às voltas com um feiticeiro
milagroso; a filha, porém, não sarava, não
perdia a mania e cada vez mais se embrenhava o seu espírito
naquela obsessão de casamento, alvo que fizeram ser da sua
vida, a que não atingira, aniquilando-se, porém, o
seu espírito e a sua mocidade em pleno verdor.
Entristecia o seu estado aquela casa outrora tão alegre,
tão festiva. Os bailes tinham diminuído; e, quando
eram obrigados a dar um, nas datas principais, a moça, com
todos os cuidados, à custa de todas as promessas, era levada
para casa da irmã casada, lá ficava, enquanto as outras
dançavam, um instante esquecidas da irmã que sofria.
Albernaz não quis revelar aquela dor de sua velhice; reprimiu
a emoção e continuou no tom mais natural, naquele
seu tom familiar e íntimo que usava com todos:
- Isto é uma infâmia, Senhor Quaresma. Que atraso para
o país. E os prejuízos? Um porto destes fechado a
comércio nacional quantos anos de retardamento não
representa!
O major concordou e mostrou a necessidade de prestigiar o Governo,
de forma a tornar impossível a reprodução de
levantes e insurreições.
- Decerto, aduziu o general. Assim não progredimos, não
nos adiantamos. E no estrangeiro que mau efeito!
O bonde chegara ao Largo de São Francisco e os dous se separaram.
Quaresma foi direitinho ao Largo da Carioca e Albernaz seguiu para
a Rua do Rosário.
Olga viu entrar seu padrinho sem aquela alegria expansiva de sempre.
Não foi indiferença que sentiu, foi espanto, assombro,
quase medo, embora soubesse perfeitamente que ele estava a chegar.
Entretanto, não havia mudança na fisionomia de Quaresma,
no seu corpo, em todo ele. Era o mesmo homem baixo, pálido,
com aquele cavanhaque apontado e o olhar agudo por detrás
do pince-nez... Nem mesmo estava mais queimado e o jeito de apertar
os lábios era o mesmo que ela conhecia há tantos anos.
Mas, parecia-lhe mudado e ter entrado impelido, empurrado por uma
força estranha, por um turbilhão; bem examinando,
entretanto, verificou que ele entrara naturalmente, com o seu passo
miúdo e firme. Donde lhe vinha então essa cousa que
a acanhava, que lhe tirara a sua alegria de ver pessoa tão
amada? Não atinou. Estava lendo na sala de jantar e Quaresma
não se fazia anunciar; ia entrando conforme o velho hábito.
Respondeu ao padrinho ainda sob a dolorosa impressão da sua
entrada:
- Papai saiu; e o Armando está lá embaixo escrevendo.
De fato, ele estava escrevendo ou mais particularmente: traduzia
para o "clássico" um grande artigo sobre "Ferimentos
por arma de fogo". O seu último truc intelectual era
este do clássico. Buscava nisto uma distinção,
uma separação intelectual desses meninos por aí
que escrevem contos e romances nos jornais. Ele, um sábio,
e sobretudo, um doutor, não podia escrever da mesma forma
que eles. A sua sabedoria superior e o seu título "acadêmico"
não podiam usar da mesma língua, dos mesmos modismos,
da mesma sintaxe que esses poetastros e literatecos. Veio-lhe então
a idéia do clássico. O processo era simples: escrevia
do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje, em seguida invertia
as orações, picava o período com vírgulas
e substituía incomodar por molestar, ao redor por derredor,
isto por esto, quão grande ou tão grande por quamanho,
sarapintava tudo de ao invés, em-pós, e assim obtinha
o seu estilo clássico que começava a causar admiração
aos seus pares e ao público em geral.
Gostava muito da expressão - às rebatinhas; usava-a
a todo o momento e, quando a punha no branco do papel, imaginava
que dera ao seu estilo uma força e um brilho pascalianos
e às suas idéias uma suficiência transcendente.
De noite, lia o padre Vieira, mas logo às primeiras linhas
o sono lhe vinha e dormia sonhando-se "físico",
tratado de mestre, em pleno Seiscentos, prescrevendo sangria e água
quente, tal e qual o doutor Sangrado.
A sua tradução estava quase no fim, já estava
bastante prático, pois com o tempo adquirira um vocabulário
suficiente e a versão era feita mentalmente, em quase metade,
logo na primeira escrita. Recebeu o recado da mulher, anunciando-lhe
a visita, com um pequeno aborrecimento, mas, como teimasse em não
encontrar um equivalente clássico para "orifício",
julgou útil a interrupção. Queria pôr
"buraco", mas era plebeu; "orifício",
se bem que muito usado, era, entretanto, mais digno. Na volta talvez
encontrasse, pensou: e subiu à sala de jantar. Ele entrou
prazenteiro, com o seu grande bigode esfarelado, o seu rosto redondo
e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discussão
sobre autoridade.
Dizia ela:
- Eu não posso compreender esse tom divino com que os senhores
falam da autoridade. Não se governa mais em nome de Deus,
por que então esse respeito, essa veneração
de que querem cercar os governantes?
O doutor, que ouvira toda a frase, não pôde deixar
de objetar:
- Mas é preciso, indispensável... Nós sabemos
bem que eles são homens como nós, mas, se for assim,
tudo vai por água abaixo.
Quaresma acrescentou:
- É em virtude das próprias necessidades internas
e externas da nossa sociedade que ela existe... Nas formigas, nas
abelhas...
- Admito. Mas há revoltas entre as abelhas e formigas, e
a autoridade se mantém lá à custa de assassínios,
exações e violências?
- Não se sabe... Quem sabe? Talvez... fez evasivamente Quaresma.
O doutor não teve dúvidas e foi logo dizendo:
- Que temos nós com as abelhas? Então nós,
os homens, o pináculo da escala zoológica iremos buscar
normas de vida entre insectos?
- Não é isso, meu caro doutor; buscamos nos exemplos
deles a certeza da generalidade do fenômeno, da sua imanência,
por assim dizer, disse Quaresma com doçura.
Ele não tinha acabado a explicação e já
Olga refletia:
- Ainda se essa tal autoridade trouxesse felicidade - vá;
mas não; de que vale?
- Há de trazer, afirmou categoricamente Quaresma. A questão
é consolidá-la.
Conversaram ainda muito tempo. O major contou a sua visita a Floriano,
a sua próxima incorporação ao batalhão
"Cruzeiro do Sul". O doutor teve uma ponta de inveja,
quando ele se referiu ao modo familiar por que Floriano o tratara.
Fizeram um pequeno lunch e Quaresma saiu.
Sentia necessidade de rever aquelas ruas estreitas, com as suas
lojas profundas e escuras, onde os empregados se moviam como em
um subterrâneo. A tortuosa Rua dos Ourives, a esburacada Rua
da Assembléia, a casquilha Rua do Ouvidor davam-lhe saudades.
A vida continuava a mesma. Havia grupos parados e moças a
passeio; no Café do Rio, uma multidão. Eram os avançados,
os "jacobinos", a guarda abnegada da República,
os intransigentes a cujos olhos a moderação, a tolerância
e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-pátria,
sintomas de monarquismo criminoso e abdicação desonesta
diante do estrangeiro. O estrangeiro era sobretudo o português,
o que não impedia de haver jornais "jacobiníssimos"
redigidos por portugueses da mais bela água.
A não ser esse grupo gesticulante e apaixonado, a Rua do
Ouvidor era a mesma. Os namoros se faziam e as moças iam
e vinham. Se uma bala zunia no alto céu azul, luminoso, as
moças davam gritinhos de gata, corriam para dentro das lojas,
esperavam um pouco e logo voltavam sorridentes, o sangue a subir
às faces pouco e pouco, depois da palidez do medo.
Quaresma jantou num restaurant e dirigiu-se ao quartel, que funcionava
provisoriamente num velho cortiço condenado pela higiene,
lá pelos lados da Cidade Nova. Tinha o tal cortiço
andar térreo e sobrado, ambos divididos em cubículos
do tamanho de camarotes de navio. No sobrado, havia uma varanda
de grade de pau e uma escada de madeira levava até lá,
escada tosca e oscilante, que gemia à menor passada. A casa
da ordem funcionava no primeiro quartinho do sobrado e o pátio,
já sem as cordas de secar ao sol a roupa, mas com as pedras
manchadas das barrelas e da água de sabão, servia
para a instrução dos recrutas. O instrutor era um
sargento reformado, um tanto coxo, e admitido no batalhão
com o posto de alferes, que gritava com uma demora majestosa: "om
- brô"... armas!
O major entregou a sua quota ao coronel e este esteve a mostrar-lhe
o modelo do fardamento.
Era muito singular essa fantasia de seringueiro: o dólmã
era verde-garrafa e tinha uns vivos azul-ferrete, alamares dourados
e quatro estrelas prateadas, em cruz, na gola.
Uma gritaria fê-los vir até à varanda. Entre
soldados entrava um homem, a se debater, a chorar e a implorar,
ao mesmo tempo, levando de quando em quando uma reflada.
- É o Ricardo! exclamou Quaresma. O senhor não o conhece,
coronel? continuou ele com interesse e piedade.
Bustamante estava impassível na varanda e só respondeu
depois de algum tempo:
- Conheço... É um voluntário recalcitrante,
um patriota rebelde.
Os soldados subiram com o "voluntário" e Ricardo
logo que deu com o major, suplicou-lhe:
- Salve-me, major!
Quaresma chamou de parte o coronel, rogou-lhe e suplicou-lhe, mas
foi inútil... Há necessidade de gente... Enfim, fazia-o
cabo.
Ricardo, de longe, seguia a conversa dos dous: adivinhou a recusa
e exclamou:
- Eu sirvo sim, sim, mas dêem-me o meu violão.
Bustamante perfilou-se e gritou aos soldados:
- Restituam o violão ao cabo Ricardo!