O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
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Capítulo V
O Trovador
- Decerto, Albernaz, não é possível continuar
assim... Então, mete-se um sujeito num navio, assesta os
canhões pra terra e diz: sai daí "seu" presidente;
e o homem vai saindo?... Não! É preciso um exemplo...
- Eu penso também da mesma maneira, Caldas. A República
precisa ficar forte, consolidada... Esta terra necessita de governo
que se faça respeitar... É incrível! Um país
como este, tão rico, talvez o mais rico do mundo, é,
no entanto, pobre, deve a todo o mundo... Por quê? Por causa
dos governos que temos tido que não têm prestígio,
força... É por isso.
Vinham andando, à sombra das grandes e majestosas árvores
do parque abandonado; ambos fardados e de espada. Albernaz, depois
de um curto intervalo, continuou:
- Você viu o imperador, o Pedro II... Não havia jornaleco,
pasquim por aí, que o não chamasse de "banana"
e outras cousas... Saía no carnaval... Um desrespeito sem
nome! Que aconteceu? Foi-se como um intruso.
- E era um bom homem, observou o almirante. Amava o seu país...
Deodoro nunca soube o que fez.
Continuavam a andar. O almirante coçou um dos favoritos e
Albernaz olhou um instante para todos os lados, acendeu o cigarro
de palha e retomou a conversa:
- Morreu arrependido... Nem com a farda quis ir para a cova!...
Aqui para nós que ninguém nos ouve: foi um ingrato;
o imperador tinha feito tanto por toda a família, não
acha?
- Não há dúvida nenhuma!... Albernaz, você
quer saber de uma cousa: estávamos melhor naquele tempo,
digam lá o que disserem...
- Quem diz o contrário? Havia mais moralidade... Onde está
um Caxias? um Rio Branco?
- E mais justiça mesmo, disse com firmeza o almirante. O
que eu sofri, não foi por causa do "velho", foi
a canalha... Demais, tudo barato...
- Eu não sei, disse Albernaz com particular acento, como
há ainda quem se case... Anda tudo pela hora da morte!
Eles olharam um instante as velhas árvores da Quinta Imperial,
por onde vinham atravessando. Nunca as tinham contemplado; e, agora
parecia-lhes que jamais tinham pousado os olhos sobre árvores
tão soberbas, tão belas, tão tranqüilas
e seguras de si, como aquelas que espalhavam sob os seus grandes
ramos uma vasta sombra, deliciosa e macia. Pareciam que medravam
sentindo-se em terra própria, delas, da qual nunca sairiam
desalojadas a machado, para edificação de casebres;
e esse sentimento lhes havia dado muita força de vegetar
e uma ampla vontade de se expandirem. O solo sobre o qual cresciam
era delas e agradeciam à terra estendendo muito os seus ramos,
cerrando e tecendo a folhagem, para dar à boa mãe
frescura e proteção contra a inclemência do
sol.
As mangueiras eram as mais gratas; os ramos longos e cheios de folhas
quase beijavam o chão. As jaqueiras se espreguiçavam;
os bambus se inclinavam, de um lado e outro da aléia, e cobriam
a terra com uma ogiva verde...
O velho edifício imperial se erguia sobre a pequena colina.
Eles lhe viam o fundo, aquela parte de construção
mais antiga, joanina, com a torre do relógio um pouco afastada
e separada do corpo do edifício.
Não era belo o palácio, não tinha mesmo nenhum
traço de beleza, era até pobre e monótono.
As janelas acanhadas daquela fachada velha, os andares de pequena
altura impressionavam mal; todo ele, porém, tinha uma tal
ou qual segurança de si, um ar de confiança pouco
comum nas nossas habitações, uma certa dignidade,
alguma cousa de quem se sente viver, não para um instante,
mas para anos, para séculos... As palmeiras cercavam-no,
erectas, firmes, com os seus grandes penachos verdes, muito altos,
alongados para o céu...
Eram como que a guarda da antiga moradia imperial, guarda orgulhosa
do seu mister e função.
Albernaz interrompeu o silêncio:
- Em que dará isto tudo, Caldas?
- Sei lá.
- O "homem" deve estar atrapalhado... Já tinha
o Rio Grande, agora o Custódio... hum!
- O poder é o poder, Albernaz.
Vinham andando em demanda à estação de São
Cristóvão. Atravessaram o velho parque imperial transversalmente,
desde o portão da Cancela até à linha da estrada
de ferro. Era de manhã, e o dia estava límpido e fresco.
Caminhavam com pequenos passos seguros, mas sem pressa. Pouco antes
de saírem da quinta, deram com um soldado a dormir numa moita.
Albernaz teve vontade de acordá-lo: camarada! camarada! O
soldado levantou-se estremunhado; e, dando com aqueles dous oficiais
superiores, concertou-se rapidamente, fez a continência que
lhes era devida e ficou com a mão no boné, um instante
firme, mas logo bambeou.
- Abaixe a mão, fez o general. Que faz você aqui?
Albernaz falou em tom ríspido e de comando. A praça,
falando a medo, explicou que tinha estado de ronda ao litoral toda
a noite. A força se recolhera aos quartéis; ele obtivera
licença para ir em casa, mas o sono fora muito e descansava
ali um pouco.
- Então como vão as cousas? perguntou o general.
- Não sei, não "sinhô".
- Os "homens" desistem ou não?
O general esteve um instante examinando o soldado. Era branco e
tinha os cabelos alourados, de um louro sujo e degradado; as feições
eram feias: malares salientes, testa óssea e todo ele anguloso
e desconjuntado.
- Donde você é? perguntou-lhe ainda Albernaz.
- Do Piauí, sim "sinhô".
- Da capital?
- Do sertão, de Paranaguá, sim "sinhô".
O almirante até ali não interrogara o soldado que
continuava amedrontado, respondendo tropegamente. Caldas, para acalmá-lo,
resolveu falar-lhe com doçura.
- Você não sabe, camarada, quais são os navios
que "eles" têm?
- O "Aquidabã"... A "Luci".
- A "Luci" não é navio.
- É verdade, sim "sinhô". O "Aquidabã"...
Um "bandão" deles, sim, "sinhô".
O general interveio então. Falou-lhe com brandura, quase
paternal, mudando o tratamento de você para tu, que parece
mais doce e íntimo quando se fala aos inferiores:
- Bem, descansa, meu filho. É melhor ires para casa... Podem
furtar-te o sabre e estás na "inácia".
Os dous generais continuaram o seu caminho e, em breve, estavam
na plataforma da estação. A pequena estação
tinha um razoável movimento. Um grande número de oficiais,
ativos, reformados, honorários moravam-lhe nas cercanias
e os editais chamavam todos a se apresentar às autoridades
competentes. Albernaz e Caldas atravessaram a plataforma no meio
de continências. O general era mais conhecido, em virtude
de seu emprego; o almirante, não. Quando passavam, ouviam
perguntar: "Quem é este almirante?" Caldas ficava
contente e orgulhava-se um pouco do seu posto e do seu incógnito.
Havia uma única mulher na estação, uma moça.
Albernaz olhou-a e lembrou-se um instante de sua filha Ismênia...
Coitada!... Ficaria boa?
Aquelas manias? Onde iria parar? Vieram-lhe as lágrimas,
mas ele as conteve com força.
Já a levara a uma meia dúzia de médicos e nenhum
fazia parar aquele escapamento do juízo que parecia fugir
aos poucos do cérebro da moça.
A bulha de um expresso, chocalhando ferragens com estrépito,
apitando com fúria e deixando fumaça pesada pelos
ares que rompia, afastou-o de pensar na filha. Passou o monstro,
pejado de soldados, de uniformes e os trilhos, depois de ter passado,
ainda estremeciam.
Bustamante apareceu; morava nos arredores e vinha tomar o trem,
para apresentar-se. Trazia o seu velho uniforme do Paraguai, talhado
segundo os moldes dos guerreiros da Criméia. A barretina
era um tronco de cone que avançava para a frente; e, com
aquela banda roxa e casaquinha curta, parecia ter saído,
fugido, saltado de uma tela de Vítor Meireles.
- Então por aqui?... Que é isto? indagou o honorário.
- Viemos pela quinta, disse o almirante.
- Nada, meus amigos, esses bondes andam muito perto do mar... Não
me importa morrer, mas quero morrer combatendo; isso de morrer por
aí, à toa, sem saber como, não vai comigo...
O general falara um pouco alto e os jovens oficiais que estavam
próximo olharam-no com mal disfarçada censura. Albernaz
percebeu e ajuntou imediatamente:
- Conheço bem esse negócio de balas... Já vi
muito fogo... Você sabe, Bustamante, que, em Curuzu...
- A cousa foi terrível, acrescentou Bustamante.
O trem atracava na estação. Veio chegando manso, vagaroso;
a locomotiva, muito negra, bufando, suando gordurosamente, com a
sua grande lanterna na frente, um olho de ciclope, avançava
que nem uma aparição sobrenatural. Foi chegando; o
comboio estremeceu todo e parou por fim.
Estava repleto, muitas fardas de oficiais; a avaliar por ali o Rio
devia ter uma guarnição de cem mil homens. Os militares
palravam alegres, e os civis vinham calados e abatidos, e mesmo
apavorados. Se falavam, era cochichando, olhando com precaução
para os bancos de trás.
A cidade andava inçada de secretas, "familiares"
do Santo Ofício Republicano, e as delações
eram moedas com que se obtinham postos e recompensas.
Bastava a mínima crítica, para se perder o emprego,
a liberdade, - quem sabe? - a vida também. Ainda estávamos
no começo da revolta, mas o regime já publicara o
seu prólogo e todos estavam avisados. O chefe de polícia
organizara a lista dos suspeitos. Não havia distinção
de posição e talentos. Mereciam as mesmas perseguições
do governo um pobre contínuo e um influente senador; um lente
e um simples empregado de escritório. Demais surgiam as vinganças
mesquinhas, a revide de pequenas implicâncias... Todos mandavam;
a autoridade estava em todas as mãos.
Em nome do Marechal Floriano, qualquer oficial, ou mesmo cidadão,
sem função pública alguma, prendia e ai de
quem caía na prisão, lá ficava esquecido, sofrendo
angustiosos suplícios de uma imaginação dominicana.
Os funcionários disputavam-se em bajulação,
em servilismo... Era um terror, um terror baço, sem coragem,
sangrento, às ocultas, sem grandeza, sem desculpa, sem razão
e sem responsabilidades... Houve execuções; mas não
houve nunca um Fouquier-Tinville.
Os militares estavam contentes, especialmente os pequenos, os alferes,
os tenentes e os capitães. Para a maioria a satisfação
vinha da convicção de que iam estender a sua autoridade
sobre o pelotão e a companhia, a todo esse rebanho de civis;
mas, em outros muitos havia sentimento mais puro, desinteresse e
sinceridade. Eram os adeptos desse nefasto e hipócrita positivismo,
um pedantismo tirânico, limitado e estreito, que justificava
todas as violências, todos os assassínios, todas as
ferocidades em nome da manutenção da ordem, condição
necessária, lá diz ele, ao progresso e também
ao advento do regime normal, a religião da humanidade, a
adoração do grão-fetiche, com fanhosas músicas
de cornetins e versos detestáveis, o paraíso, enfim,
com inscrições em escritura fonética e eleitos
calçados com sapatos de sola de borracha!...
Os positivistas discutiam e citavam teoremas de mecânica para
justificar as suas idéias de governo, em tudo semelhantes
aos canatos e emirados orientais.
A matemática do positivismo foi sempre um puro falatório
que, naqueles tempos, amedrontava toda a gente. Havia mesmo quem
estivesse convencido que a matemática tinha sido feita e
criada para o positivismo, como se a Bíblia tivesse sido
criada unicamente para a Igreja Católica e não também
para a Anglicana. O prestígio dele era, portanto, enorme.
O trem correu, parou ainda em uma estação e foi ter
à praça da República. O almirante, cosido com
as paredes, seguiu para o Arsenal de Marinha; Albernaz e Bustamante
entraram no Quartel-General. Penetraram no grande casarão,
no meio do retinir de espadas, de toques de cornetas; o grande pátio
estava cheio de soldados, bandeiras, canhões, feixes de armas
ensarilhadas, baionetas reluzindo ao sol oblíquo...
No sobrado, nas proximidades do gabinete do ministro, havia um vaivém
de fardas, dourados, fazendas multicores, uniformes de várias
corporações e milícias, no meio dos quais os
trajes escuros dos civis eram importunos como moscas. Misturavam-se
oficiais da guarda nacional, da polícia, da armada, do exército,
de bombeiros e de batalhões patrióticos que começavam
a surgir.
Apresentaram-se e, depois de tê-lo feito ao ajudante-general
e ministro da Guerra, a um só tempo, ficaram a conversar
nos corredores, com bastante prazer, pois que tinham encontrado
o Tenente Fontes e ambos gostavam de ouvi-lo.
O general porque já era noivo de sua filha Lalá, e
Bustamante porque aprendia com ele alguma cousa de nomenclatura
dos armamentos modernos.
Fontes estava indignado, todo ele era horror, maldição
contra os insurrectos, e propunha os piores castigos.
- Hão de ver o resultado... Piratas! Bandidos! Eu, no caso
do marechal, se os pegasse... ai deles!
O tenente não era feroz nem mau, antes bom e até generoso,
mas era positivista e tinha da sua República uma idéia
religiosa e transcendente. Fazia repousar nela toda a felicidade
humana e não admitia que a quisessem de outra forma que não
aquela que imaginava boa. Fora daí não havia boa fé,
sinceridade; eram heréticos interesseiros, e, dominicano
do seu barrete frígio, raivoso por não poder queimá-los
em autos-de-fé, congesto, via passar por seus olhos uma série
enorme de réus confidentes, relapsos, contumazes, falsos,
simulados, fictos e confictos, sem samarra, soltos por aí...
Albernaz não tinha tanta fúria contra os adversários.
No fundo d'alma, ele os queria até, tinha amigos lá,
e essas divergências nada significavam para a sua idade e
experiência.
Depositava, entretanto, uma certa esperança na ação
do marechal. Estando em apuros financeiros, não lhe dando
o bastante a sua reforma e a gratificação de organizador
do arquivo do Largo do Moura, esperava obter uma outra comissão,
que lhe permitisse mais folgadamente adquirir o enxoval de Lalá.
O almirante, também, tinha grande confiança nos talentos
guerreiros e de estadista de Floriano. A sua causa não ia
lá muito bem. Perdera-a em primeira instância, estava
gastando muito dinheiro... O governo precisava de oficiais de Marinha,
quase todos estavam na revolta; talvez lhe dessem uma esquadra a
comandar... É verdade que... Mas, que diabo! Se fosse um
navio, então sim: mas uma esquadra a cousa não era
difícil; bastava coragem para combater.
Bustamante cria com força na capacidade do General Peixoto,
tanto assim que, para apoiá-lo e defender o seu governo,
imaginava organizar um batalhão patriótico, de que
já tinha o nome "Cruzeiro do Sul" e naturalmente
seria o seu comandante, com todas as vantagens do posto de coronel.
Genelício, cuja atividade nada tinha de guerreira, esperava
muito da energia e da decisão do governo de Floriano: esperava
ser subdiretor e não podia um governo sério, honesto
e enérgico, fazer outra cousa, desde que quisesse pôr
ordem na sua seção.
Essas secretas esperanças eram mais gerais do que se pode
supor. Nós vivemos do governo e a revolta representava uma
confusão nos empregos, nas honrarias e nas posições
que o Estado espalha. Os suspeitos abririam vagas e as dedicações
supririam os títulos e habilitações para ocupá-las;
além disso, o governo, precisando de simpatias e homens,
tinha que nomear, espalhar, prodigalizar, inventar, criar e distribuir
empregos, ordenados, promoções e gratificações.
O próprio Doutor Armando Borges, o marido de Olga e sábio
sereno e dedicado quando estudante, colocava na revolta a realização
de risonhos anelos.
Médico e rico, pela fortuna da mulher, ele não andava
satisfeito. A ambição de dinheiro e o desejo de nomeada
esporeavam-no. Já era médico do Hospital Sírio,
onde ia três vezes por semana e, em meia hora, via trinta
e mais doentes. Chegava, o enfermeiro dava-lhe informações,
o doutor ia, de cama em cama, perguntando: "Como vai?"
"Vou melhor seu doutor", respondia o sírio com
voz gutural. Na seguinte, indagava: "Já está
melhor?" E assim passava a visita; chegando ao gabinete receitava:
"Doente nº 1, repita a receita; doente 5... quem é?"...
"É aquele barbado"... "Ahn!" E receitava.
Mas médico de um hospital particular não dá
fama a ninguém: o indispensável é ser do governo,
senão ele não passava de um simples prático.
Queria ter um cargo oficial, médico, diretor ou mesmo lente
da faculdade.
E isso não era difícil, desde que arranjasse boas
recomendações pois já tinha certo nome, graças
à sua atividade e fertilidade de recursos.
De quando em quando, publicava um folheto. O Cobreiro, Etiologia,
Profilaxia e Tratamento ou Contribuição para o Estudo
da Sarna no Brasil; e, mandava o folheto, quarenta e sessenta páginas,
aos jornais que se ocupavam dele duas ou três vezes por ano;
o "operoso Doutor Armando Borges, o ilustre clínico,
o proficiente médico dos nossos hospitais", etc., etc.
Obtinha isso graças à precaução que
tomara em estudante de se relacionar com os rapazes da imprensa.
Não contente com isso escrevia artigos, estiradas compilações,
em que não havia nada de próprio, mas ricos de citações
em francês, inglês e alemão.
O lugar de lente é que o tentava mais; o concurso, porém,
metia-lhe medo. Tinha elementos, estava bem relacionado e cotado
na congregação, mas aquela história de argüição
apavorava-o.
Não havia dia em que não comprasse livros, em francês,
inglês e italiano; tomara até um professor de alemão,
para entrar na ciência germânica; mas faltava-lhe energia
para o estudo prolongado e a sua felicidade pessoal fizera evolar-se
a pequena que tivera quando estudante.
A sala da frente do alto porão tinha sido transformada em
biblioteca. As paredes estavam forradas de estantes que gemiam ao
peso dos grandes tratados. À noite, ele abria as janelas
das venezianas, acendia todos os bicos-de-gás e se punha
à mesa, todo de branco com um livro aberto sob os olhos.
O sono não tardava a vir ao fim da quinta página...
Isso era o diabo! Deu em procurar os livros da mulher. Eram romances
franceses, Goncourt, Anatole France, Daudet, Maupassant, que o faziam
dormir da mesma maneira que os tratados. Ele não compreendia
a grandeza daquelas análises, daquelas descrições,
o interesse e o valor delas, revelando a todos, à sociedade,
a vida, os sentimentos, as dores daqueles personagens, um mundo!
O seu pedantismo, a sua falsa ciência e a pobreza de sua instrução
geral faziam-no ver naquilo tudo, brinquedos, passatempos, falatórios,
tanto mais que ele dormia à leitura de tais livros.
Precisava, porém, iludir-se, a si mesmo e à mulher.
De resto, da rua, viam-no e se dessem com ele a dormir sobre os
livros?!... Tratou de encomendar algumas novelas de Paulo de Kock
em lombadas com títulos trocados e afastou o sono.
A sua clínica, entretanto, prosperava. De comandita com o
tutor, chegou a ganhar uns seis contos, tratando de um febrão
de uma órfã rica.
Desde muito que a mulher lhe entrava na sua simulação
de inteligência, mas aquela manobra indecorosa indignou-a.
Que necessidade tinha ele disso? Não era já rico?
Não era moço? Não tinha o privilégio
de um título universitário? Tal ato pareceu à
moça mais vil, mais baixo, que a usura de um judeu, que o
aluguel de uma pena...
Não foi desprezo, nojo que ela teve pelo marido; foi um sentimento
mais calmo, menos ativo; desinteressou-se dele, destacou-se de sua
pessoa. Ela sentiu que tinham cortado todos os laços de afeição,
de simpatia, que prendiam ambos, toda a ligação moral,
enfim.
Mesmo quando noiva, verificara que aquelas cousas de amor ao estudo,
de interesse pela ciência, de ambições de descobertas,
nele, eram superficiais, estavam à flor da pele; mas desculpou.
Muitas vezes nós nos enganamos sobre as nossas próprias
forças e capacidades; sonhamos ser Shakespeare e saímos
Mal das Vinhas. Era perdoável, mas charlatão? Era
demais!
Passou-lhe um pensamento mau, mas de que valeria essa quase indignidade?...
Todos os homens deviam ser iguais; era inútil mudar deste
para aquele...
Quando chegou a esta conclusão, sentiu um grande alívio,
e a sua fisionomia se iluminou de novo como se já estivesse
de todo passada a nuvem que empanava o sol dos seus olhos.
Naquela carreira atropelada para o nome fácil, ele não
deu pelas modificações da mulher. Ela dissimulava
os seus sentimentos, mais por dignidade e delicadeza, que mesmo
por qualquer outro motivo; e a ele faltavam a sagacidade e finura
necessárias para descobri-los sob o seu esconderijo.
Continuavam a viver como se nada houvesse, mas quanto estavam longe
um do outro!...
A revolta veio encontrá-los assim; e o doutor, desde três
dias, pois há tanto ela rebentara, meditava a sua ascensão
social e monetária.
O sogro suspendera a viagem à Europa, e, naquela manhã,
após o almoço, conforme o seu hábito, lia recostado
numa cadeira de viagem os jornais do dia. O genro vestia-se e a
filha ocupava-se com sua correspondência, escrevendo à
cabeceira da mesa de jantar. Ela tinha um gabinete, com todo o luxo,
livros, secretária, estantes, mas gostava pela manhã
de escrever ali, ao lado do pai. A sala lhe parecia mais clara,
a vista para a montanha, feia e esmagadora, dava mais seriedade
ao pensamento e a vastidão da sala mais liberdade no escrever.
Ela escrevia e o pai lia; num dado momento ele disse:
- Sabes quem vem aí, minha filha?
- Quem é?
- Teu padrinho. Telegrafou ao Floriano, dizendo que vinha... Está
aqui, n'O País.
A moça adivinhou logo o motivo, o modo de agir e reagir de
fato sobre as idéias e sentimentos de Quaresma. Quis desaprovar,
censurar; sentiu-o, porém, tão coerente com ele mesmo,
tão de acordo com a substância da vida que ele mesmo
fabricara, que se limitou a sorrir complacente:
- O padrinho...
- Está doido, disse Coleoni, Per la madonna! Pois um homem
que está quieto, sossegado, vem meter-se nesta barafunda,
neste inferno...
O doutor voltava já inteiramente vestido, com a sobrecasaca
fúnebre e a cartola reluzente na mão. Vinha irradiante
e o seu rosto redondo reluzia, exceto onde o grande bigode punha
sombras. Ainda ouviu as últimas palavras do sogro, pronunciadas
com aquele seu português rouco:
- Que há? perguntou ele.
Coleoni explicou e repetiu os comentários que já fizera:
- Mas não há tal, disse o doutor. É o dever
de todo o patriota... Que tem a idade? Quarenta e poucos anos, não
é lá velho... Pode ainda bater-se pela República...
- Mas não tem interesse nisso, objetou o velho.
- E há de ser só quem tem interesse que se deve bater
pela República? interrogou o doutor.
A moça que acabava de ler a carta que tinha escrito, mesmo
sem levantar a cabeça, disse:
- Decerto.
- É vem você com as suas teorias, filhinha. O patriotismo
não está na barriga...
E sorriu com um falso sorriso que o brilho morto dos seus dentes
postiços mais falsificava.
- Mas vocês só falam em patriotismo? E os outros? É
monopólio de vocês o patriotismo? fez Olga.
- Decerto. Se eles fossem patriotas não estariam a despejar
balas para a cidade, a entorpecer, a desmoralizar a ação
da autoridade constituída.
- Deviam continuar a presenciar as prisões, as deportações,
os fuzilamentos, toda a série de violências que se
vêm cometendo, aqui e no Sul?
- Você, no fundo, é uma revoltosa, disse o doutor,
fechando a discussão.
Ela não deixava de ser. A simpatia dos desinteressados, da
população inteira era pelos insurgentes. Não
só isso sempre acontece em toda a parte, como particularmente,
no Brasil, devido a múltiplos fatores, há de ser assim
normalmente.
Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência
e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele;
e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade,
levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar
desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.
Não era, pois, de admirar que a moça tendesse para
os revoltosos; e Coleoni, estrangeiro e conhecendo, graças
à sua vida, as nossas autoridades, calasse as suas simpatias
num mutismo prudente.
- Não me vá comprometer, hein, Olga?
Ela se tinha levantado para acompanhar o marido. Parou um pouco,
deitou-lhe o seu grande olhar luminoso, e com os finos lábios
um pouco franzidos:
- Você sabe bem que eu não te comprometo.
O doutor desceu a escada da varanda, atravessou o jardim e ainda
do portão disse adeus à mulher, que lhe seguia a saída,
debruçada na varanda, conforme o ritual dos bem ou mal casados.
Por esse tempo, Coração dos Outros sonhava desligado
das contingências terrenas.
Ricardo vivia ainda na sua casa de cômodos dos subúrbios,
cuja vista ia de Todos os Santos à Piedade, abrangendo um
grande trato de área edificada, um panorama de casas e árvores.
Já não se falava mais no seu rival e a sua mágoa
tinha assentado.
Por esses dias o triunfo desfilava sem contestação.
Toda a cidade o tinha na consideração devida e ele
quase se julgava ao termo da sua carreira. Faltava o assentimento
de Botafogo, mas estava certo de obter.
Já publicara mais de um volume de canções;
e, agora pensava em publicar mais outro.
Há dias vivia em casa, pouco saindo, organizando o seu livro.
Passava confinado no seu quarto, almoçando café, que
ele mesmo fazia, e pão, indo à tarde jantar a uma
tasca próximo à estação.
Notara que sempre que chegava, os carroceiros e trabalhadores, que
jantavam nas mesas sujas, abaixavam a voz e olhavam-no desconfiados;
mas não deu importância...
Apesar de popular no lugar, não encontrara pessoa alguma
conhecida durante os três últimos dias; ele mesmo evitava
falar e, em sua casa, limitava-se ao "bom-dia" e à
"boa-tarde" trocados com os vizinhos.
Gostava de passar assim dias, metido em si mesmo e ouvindo o seu
coração. Não lia jornais para não distrair
a atenção do seu trabalho. Vivia a pensar nas suas
modinhas e no seu livro que havia de ser mais uma vitória
para ele e para o violão estremecido.
Naquela tarde estava sentado à mesa, corrigindo um dos seus
trabalhos, um dos últimos, aquele que compusera no sítio
de Quaresma - "Os lábios de Carola".
Primeiro, leu toda a produção, cantarolando; voltou
a lê-la, agarrou o violão para melhor apanhar o efeito
e empacou nestes:
É mais
bela que Helena e Margarida,
Quando sorri meneando a ventarola.
Só se encontra a ilusão que adoça a vida
Nos lábios de Carola.
Nisto ouviu um tiro, depois, outro, outro... Que diabo? pensou.
Hão de ser salvas a algum navio estrangeiro. Repinicou o
violão e continuou a cantar os lábios de Carola, onde
encontrava a ilusão que adoça a vida...