O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
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Capítulo III
Golias
No sábado da semana seguinte àquela em que a filha
do general recebera como marido o grave e giboso Genelício,
glória e orgulho do nosso funcionalismo público, Olga
casara-se. A cerimônia correra com a pompa e a riqueza acostumada
em pessoas de sua camada. Houve uns arremedos parisienses de corbeille
de noiva e outros pequenos detalhes chics, que não a aborreceram,
mas que não a encheram lá de satisfação
maior que as noivas comuns. Talvez nem mesmo essa ela tivesse.
Não foi para a igreja em virtude de uma determinação
certa de sua vontade. Continuava a não encontrar dentro de
si motivo para aquele ato, mas, aparentemente, nenhuma vontade estranha
à sua influíra para isso. O marido é que estava
contente. Não seria muito com a noiva, mas com a volta que
a sua vida ia tomar. Ficando rico e sendo médico, cheio de
talento nas notas e recompensas escolares, via diante de si uma
larga estrada de triunfos nas posições e na indústria
clínica. Não tinha fortuna alguma, mas julgava o seu
banal título um foral de nobreza, equivalente àqueles
com que os autênticos fidalgos da Europa brunem o nascimento
das filhas dos salchicheiros yankees. Apesar de ser seu pai um importante
fazendeiro por aí, em algum lugar deste Brasil, o sogro lhe
dera tudo e tudo ele aceitara sem pejo, com o desprezo de um duque,
duque de plenamentes e medalhas, a receber homenagens de um vilão
que não "roçou os bancos de uma Academia".
Julgava que a noiva o aceitara pelo seu maravilhoso título,
o pergaminho; é verdade que foi, não tanto pelo título,
mas pela sua simulação de inteligência, de amor
à ciência, de desmedidos sonhos de sábio. Tal
imagem que dele fizera, durara instantes em Olga; depois foi a inércia
da sociedade, a sua tirania e a timidez natural da moça em
romper que a levaram ao casamento. Tanto mais que ela, de si para
si, pensava que se não fosse este, seria outro a ele igual,
e o melhor era não adiar.
Era por isso que ela não ia para a igreja, em virtude de
uma determinação certa de sua vontade, embora sem
perceber o constrangimento de um comando fora dela.
Apesar da pompa, esteve longe de ser uma noiva majestosa. Não
obstante as origens puramente européias, era pequena, muito
mesmo, ao lado do noivo, alto, erecto, com uma fisionomia irradiante
de felicidade; e, desse modo, ela desaparecia dentro do vestido,
dos véus e daqueles atavios obsoletos com que se arreiam
as moças que se vão casar. De resto, a sua beleza
não era a grande beleza - aquela que nós exigimos
das noivas ricas, segundo o modelo das estampas clássicas.
No seu rosto, nada de grego, desse grego autêntico ou de pacotilha,
ou também dessa majestade de ópera lírica.
Havia nos seus traços muita irregularidade, mas a sua fisionomia
era profunda e própria. Não só a luz dos seus
grandes olhos negros, que quase cobriam toda a cavidade orbitária,
fazia fulgurar o seu rosto móbil, como a sua pequena boca,
de um desenho fino, exprimia bondade, malícia e o seu ar
geral era de reflexão e curiosidade.
Ao contrário do costume, não saíram da cidade
e foram morar em casa do antigo empreiteiro.
Quaresma não fora à festa, mandara o leitão
e o peru da tradição e escrevera uma longa carta.
O sítio empolgara-o, o calor ia passar, vinha a época
das chuvas, das semeaduras, e não queria afastar-se de suas
terras. A viagem seria breve, mas mesmo assim, perdendo um dia ou
dous, era como se começasse a desertar da batalha.
O pomar estava todo limpo e já estavam preparados os canteiros
da horta. A visita de Ricardo veio distraí-lo um pouco, sem
desviá-lo contudo dos seus afazeres agrícolas.
Passou um mês com o major, e foi um triunfo. A fama do seu
nome precedia-o, de forma que todo o município o disputava
e festejava.
O seu primeiro trabalho foi ir à vila. Ficava a quatro quilômetros
adiante da casa de Quaresma e a estrada de ferro tinha uma estação
lá. Ricardo dispensou a estrada e foi a pé, pela estrada
de rodagem, se assim se pode chamar um trilho, cheio de caldeirões,
que subia e descia morros, cortava planícies e rios em toscas
pontes. A vila!... Tinha duas ruas principais: a antiga, determinada
pelo velho caminho de tropas, e a nova, cuja origem veio da ligação
da velha com a estrada de ferro. Elas se encontravam em T, sendo
o braço vertical o caminho da estação. As outras
partiam delas, as casas juntavam-se urbanamente no começo,
depois iam espaçando, espaçando, até acabar
em mato, em campo. A antiga chamava-se Marechal Deodoro, ex-Imperador;
e a nova, Marechal Floriano, ex-Imperatriz. De uma das extremidades
da Rua Marechal Deodoro, partia a da Matriz, que ia ter à
igreja, ao alto de uma colina, feia e pobre no seu estilo jesuítico.
À esquerda da estação, num campo, a Praça
da República, a que ia dar uma rua mal esboçada por
espaçadas casas, ficava a Câmara Municipal.
Era um grande paralelepípedo de tijolo, cimalha, janela com
sacadas de grade de ferro, puro estilo mestre-de-obras. Compungia
essa pobreza de gosto a quem se lembrasse dos edifícios da
mesma natureza das pequenas comunas francesas e belgas da Idade
Média.
Ricardo entrou num barbeiro na Rua Marechal Deodoro, Salão
Rio de Janeiro, e fez a barba. O fígaro deu-lhe informações
sobre a vila e ele se deu a conhecer. Havia certos circunstantes,
um deles tomou-o a seu cargo e daí em pouco estava relacionado.
Quando voltou para a casa do major já tinha convite para
o baile do Doutor Campos, presidente da Câmara, festa que
teria lugar na quarta-feira próxima.
Chegara sábado e fora passear à vila domingo.
Tinha havido missa e o trovador assistiu à saída.
A concorrência nunca é grande na roça, mas Ricardo
pôde ver algumas daquelas moças do interior, linfáticas
e tristes, ataviadinhas, cheias de laços, descendo silenciosas
a colina em que se erguia a igreja, espalhando-se pela rua e logo
entrando para as casas, onde iriam passar uma semana de reclusão
e tédio. Foi na saída da missa que lhe apresentaram
o Doutor Campos.
Era o médico do lugar, morava, porém, fora, na sua
fazenda, e viera de "aranha" com a sua filha, Nair, assistir
o ofício religioso.
O trovador e o médico estiveram um instante conversando,
enquanto a filha, muito magra, pálida, com uns longos braços
descarnados, olhava com um vexame fingido o solo poeirento da rua.
Quando eles partiram, ainda Ricardo considerou um pouco aquele rebento
dos ares livres do Brasil.
À festa do Doutor Campos, seguiram-se outras a que Ricardo
deu a honra de sua presença e a alegria da sua voz. Quaresma
não o acompanhava, mas gozava a sua vitória. Se bem
que o major tivesse abandonado o violão, ainda continuava
a prezar aquele instrumento essencialmente nacional. As conseqüências
desastrosas do seu re- querimento em nada tinham abalado as suas
convicções patrióticas. Continuavam as suas
idéias profundamente arraigadas, tão-somente ele as
escondia, para não sofrer com a incompreensão e maldade
dos homens.
Gozava, portanto, a fulminante vitória de Ricardo, que indicava
bem naquela população a existência de um resíduo
forte da nossa nacionalidade a resistir às invasões
das modas e gostos estrangeiros.
Ricardo recebia todas as honras, todos os favores, por parte de
todos os partidos. O Doutor Campos, Presidente da Câmara,
era quem mais o cumulava de homenagens. Naquela manhã até
esperava um dos cavalos do edil, para dar um passeio ao Carico;
e, esperando, foi dizendo a Quaresma, que ainda não tinha
partido para o eito:
- Major, foi uma boa idéia vir para a roça. Vive-se
bem e pode-se subir...
- Não tenho nenhum desejo disso. Você sabe como me
são estranhas todas essas cousas.
- Sei... É... Não digo que se peça, mas, quando
nos oferecem, não devemos rejeitar, não acha?
- Conforme, meu caro Ricardo. Eu não podia aceitar encargo
de comandar uma esquadra.
- Até aí não vou. Olhe, major: eu gosto muito
de violão, mesmo dedico a minha vida ao seu levantamento
moral e intelectual, entretanto, se amanhã o Presidente dissesse:
"Seu Ricardo, você vai ser deputado", o senhor pensa
que eu não aceitava, sabendo perfeitamente que não
podia mais desferir os trenos do instrumento? Ora, se não!
Não se deve perder vaza, major.
- Cada um tem as suas teorias.
- Decerto. Outra cousa, major: conhece o Doutor Campos?
- De nome.
- Sabe que ele é presidente da Câmara?
Quaresma olhou um instante para Ricardo com uma ligeira desconfiança.
O menestrel não notou o gesto do amigo e emendou:
- Mora daqui a uma légua. Já lhe toquei em casa e
hoje vou a cavalo passear com ele.
- Fazes bem.
- Ele quer conhecê-lo. Posso trazê-lo aqui?
- Podes.
Um camarada do Doutor Campos, neste instante, entrava pela porteira
trazendo o cavalo prometido. Ricardo montou e Quaresma seguiu para
a roça ao encontro dos seus dous empregados. Eram agora dous,
pois, além do Anastácio, que não era bem um
empregado, mas agregado, admitira o Felizardo.
Era manhã de verão, mas as chuvas continuadas dos
dias anteriores tinham atenuado a temperatura.
Havia uma grande profusão de luz e os ares estavam doces.
Quaresma foi caminhando por entre aquele rumor de vida, rumor que
vinha do farfalhar do mato e do piar das aves e pássaros.
Esvoaçavam tiés-vermelhos, bandos de coleiros; anuns
voavam e punham pequenas manchas negras no verdor das árvores.
Até as flores, essas tristes flores dos nossos campos, no
momento, parece que tinham saído à luz, não
somente para a fecundação vegetal mas também
para a beleza.
Quaresma e seus empregados trabalhavam agora longe, faziam um roçado,
e fora para auxiliar esse serviço que contratou o Felizardo.
Era este um camarada magro, alto, de longos braços, longas
pernas, como um símio. Tinha a face cor de cobre, a barba
rala e, sob uma aparência de fraqueza muscular, não
havia ninguém mais valente que ele a roçar. Com isto
era um tagarela incansável. De manhã, quando chegava,
aí pelas seis horas, já sabia todas as intriguinhas
do município.
O roçado tinha por fim ganhar terreno ao mato, no lado norte
do sítio, que o capão invadira. Obtido ele, o major
plantaria obra de meio alqueire ou pouco mais de milho, e nos intervalos
batatas-inglesas, cultura nova em que depositava grandes esperanças.
Já se fizera a derrubada e o aceiro estava aberto; Quaresma,
porém, não lhe quisera atear fogo. Evitava assim calcinar
o terreno, eliminando dele os princípios voláteis
ao fogo. Agora o seu trabalho era separar os paus mais grossos,
para aproveitar como lenha; os galhos miúdos e folhas, ele
removia para longe, onde então queimaria em coivaras pequenas.
Isso levava tempo, custava tombos ao seu corpo mal habituado aos
cipós e tocos; mas prometia dar um rendimento maior ao plantio.
Durante o trabalho, Felizardo ia contando as suas novidades para
se distrair. Há quem cante, ele falava e pouco se incomodava
que lhe dessem ou não atenção.
- Essa gente anda acesa por aí, disse Felizardo logo que
o major chegou.
Certas vezes Quaresma fazia-lhe perguntas, atendia-lhe a conversa,
raras não. Anastácio era silencioso e grave. Nada
dizia: trabalhava e, de quando em quando, parava, considerava, numa
postura hierática de uma pintura mural tebana. O major perguntou
ao Felizardo:
- Que é que há, Felizardo?
O camarada descansou o grosso tronco de camará no monte,
limpou o suor com os dedos e respondeu com a sua fala branda e chiante:
- Negócio de política... "Seu" Tenente Antonino
quase briga ontem com "seu dotô Campo".
- Onde?
- Na estação.
- Por quê?
- Negócio de partido. Pelo que ouvi: "seu" Tenente
Antonino é pelo "governadô" e "seu dotô
Campo" é pelo "senadô"... Um "sarcero",
patrão!
- E você, por quem é?
Felizardo não respondeu logo. Apanhou a foice e acabou de
cortar um galho que enleava o tronco a remover. Anastácio
estava de pé e considerou um instante a figura do companheiro
palrador. Respondeu afinal:
- Eu! Sei lá... Urubu pelado não se mete no meio dos
coroados. Isso é bom pro "sinhô".
- Eu sou como você, Felizardo.
- Quem me dera, meu "sinhô". Inda "trasantonte"
ouvi "dizê" que o patrão é amigo do
"marechá".
Afastou-se com o pau; e, quando voltou, Quaresma indagou assustado:
- Quem disse?
- Não sei, não "sinhô". Ouvi a modo
de "dizê" lá na venda do espanhol, tanto
assim que "doutô Campo tá" inchado que nem
sapo com a sua amizade.
- Mas é falso, Felizardo. Eu não sou amigo cousa alguma...
Conheci-o... E nunca disse isso aqui a ninguém... Qual amigo!
- "Quá!" fez Felizardo com um riso largo e duro.
O patrão "tá" é varrendo a testada.
Apesar de todo o esforço de Quaresma, não houve meio
de tirar daquela cabeça infantil a idéia de que ele
fosse amigo do Marechal Floriano. "Conheci-o no meu emprego"
- dizia o major; Felizardo sorria grosso e por uma vez dizia: "Quá!
o patrão é fino que nem cobra."
Tal teimosia não deixou de impressionar Quaresma. Que queria
dizer aquilo? Demais, as palavras de Ricardo, as suas insinuações
pela manhã... Ele tinha o trovador em conta de homem leal
e amigo fiel, incapaz de lhe estar armando laços para passar
maus momentos; os entusiasmos dele, entretanto, junto à vontade
de ser bom amigo, podiam iludi-lo e fazê-lo instrumento de
algum perverso. Quaresma ficou um instante pensativo, deixando de
remover os galhos cortados; em breve, porém, esqueceu-se
e a preocupação dissipou-se. À tarde, quando
foi jantar, já nem mais se lembrava da conversa e a refeição
correu natural, nem muito alegre, nem muito triste, mas sem sombra
alguma de cogitações por parte dele.
Dona Adelaide, sempre com a sua matinée creme e saia preta,
sentava-se à cabeceira; Quaresma à direita e à
esquerda, Ricardo. Era a velha quem sempre puxava a língua
do trovador.
- Gostou muito do passeio, Senhor Ricardo?
Não havia meio dela dizer "seu". A sua educação
de "senhora" de outros tempos não lhe permitia
usar esse plebeísmo generalizado. Vira os pais, gente ainda
fortemente portuguesa, dizer "senhor" e continuava a dizer,
sem fingimento, naturalmente.
- Muito. Que lugar! Uma catadupa... Que maravilha! Aqui, na roça,
é que se tem inspiração.
E ele tomava aquela atitude de arroubo; uma fisionomia de máscara
de trágico grego e uma voz cavernosa que rolava como uma
trovoada abafada.
- Tens composto muito, Ricardo? indagou Quaresma.
- Hoje acabei uma modinha.
- Como se chama? indagou Dona Adelaide.
- "Os lábios da Carola".
- Bonito! Já fez a música?
Era ainda a irmã de Quaresma a perguntar. Ricardo levava
agora o garfo à boca; deixou-o suspenso entre os lábios
e o prato e respondeu com toda a convicção:
- A música, minha senhora, é a primeira cousa que
faço.
- Hás de no-la cantar logo.
- Pois não, major.
Após o jantar, Quaresma e Coração dos Outros
saíram a passear no sítio. Fora essa a única
concessão que ao amigo fizera Policarpo, no tocante ao regime
de seus trabalhos agrícolas. Levava sempre o pedaço
de pão, que esfarelava em migalhas no galinheiro, para ver
a atroz disputa entre as aves. Acabando, ficava um instante a considerar
aquelas vidas, criadas, mantidas e protegidas para sustento da sua.
Sorria para os frangos, agarrava os pintinhos, ainda implumes, muito
vivos e ávidos, e demorava-se a apreciar a estupidez do peru,
imponente, fazendo roda, a dar estouros presunçosos. Em seguida
ia ao chiqueiro; assistia Anastácio dar a ração,
despejando-a nos cochos. O enorme cevado de grandes orelhas pendentes
levantava-se, dificilmente, e solenemente vinha mergulhar a cabeça
na caldeira; noutro compartimento os bacorinhos grunhiam e grunhindo
vinham com a mãe chafurdar-se na comida.
A avidez daqueles animais era deveras repugnante, mas os seus olhos
tinham uma longa doçura bem humana que os fazia simpáticos.
Ricardo apreciava pouco aquelas formas inferiores de vida, mas Quaresma
ficava minutos esquecidos a contemplá-las numa demorada interrogação
muda. Sentavam-se a um tronco de árvore; e Quaresma olhava
o céu alto, enquanto Coração dos Outros contava
qualquer história.
A tarde ia adiantada. A terra já começava a amolecer,
pelo fim daquele beijo ardente e demorado do sol. Os bambus suspiravam;
as cigarras ciciavam; as rolas gemiam amorosamente. Ouvindo passos,
o major voltou-se. Padrinho! Olga!
Mal se viram, abraçaram-se, e quando se separaram ficaram
ainda a olhar um para o outro, com as mãos presas. E vieram
aquelas estúpidas e tocantes frases de encontros satisfeitos:
Quando chegaste? Não esperava... É longe... Ricardo
olhava embevecido com a ternura dos dous; Anastácio tirara
o chapéu e olhava a "sinhazinha", com o seu terno
e vazio olhar de africano.
Passada a emoção, a moça se debruçou
sobre o chiqueiro, depois passou a vista pelos quatro pontos e Quaresma
perguntou:
- Quedê teu marido?
- O doutor?... Está lá dentro.
O marido tinha resistido muito em acompanhá-la até
ali. Não lhe parecia bem aquela intimidade com um sujeito
sem título, sem posição brilhante e sem fortuna.
Ele não compreendia como o seu sogro, apesar de tudo um homem
rico, de outra esfera, tinha podido manter e estreitar relações
com um pequeno empregado de uma repartição secundária,
e até fazê-lo seu compadre! Que o contrário
se desse, era justo; mas como estava a cousa parecia que abalava
toda a hierarquia da sociedade nacional. Mas, em definitivo, quando
Dona Adelaide o recebeu cheia de um imenso respeito, de uma particular
consideração, ele ficou desarmado e todas as suas
pequenas vaidades foram trocadas e satisfeitas.
Dona Adelaide, mulher velha, do tempo em que o Império armava
essa nobreza escolar, possuía em si uma particular reverência,
um culto pelo doutorado; e não lhe foi, pois, difícil
demonstrá-lo quando se viu diante do Doutor Armando Borges,
de cujas notas e prêmios ela tinha exata notícia.
Quaresma mesmo recebeu-o com as maiores marcas de admiração
e o doutor, gozando aquele seu sobre-humano prestígio, ia
conversando pausadamente, sentenciosamente, dogmaticamente; e, à
proporção que conversava, talvez para que o efeito
não se dissipasse, virava com a mão direita o grande
anelão "simbólico", o talismã, que
cobria a falange do dedo indicador esquerdo, ao jeito de marquise.
Conversaram muito. O jovem par contou a agitação política
do Rio, a revolta da fortaleza de Santa Cruz; Dona Adelaide, a epopéia
da mudança, móveis quebrados, objetos partidos. Pela
meia-noite todos foram dormir com uma alegria particular, enquanto
os sapos levantavam no riacho defronte o seu grave hino à
transcendente beleza do céu negro, profundo e estrelado.
Acordaram cedo. Quaresma não foi logo para o trabalho. Tomou
café e esteve conversando com o doutor. O correio chegou
e trouxe-lhe um jornal. Rasgou a cinta e leu o título. Era
o O Município, órgão local, hebdomadário,
filiado ao partido situacionista. O doutor se havia afastado; ele
aproveitou a ocasião para ler o jornaleco. Pôs o pince-nez,
recostou-se na cadeira de balanço e descobriu o jornal. Estava
na varanda; o terral soprava nos bambus que se inclinavam molemente.
Começou a leitura. O artigo de fundo intitulava-se "Intrusos"
e consistia em uma tremenda descompostura aos não nascidos
no lugar que moravam nele - "verdadeiros estrangeiros que se
vinham intrometer na vida particular e política da família
curuzuense, perturbando-lhe a paz e a tranqüilidade".
Que diabo queria dizer aquilo? Ia deitar fora o jornaleco, quando
lhe pareceu ler seu nome entre versos.
Procurou o lugar e deu com estas quadrinhas:
POLÍTICA
DE CURUZU
Quaresma, meu
bem, Quaresma!
Quaresma do coração!
Deixa as batatas em paz
Deixa em paz o feijão.
Jeito não
tens para isso
Quaresma, meu cocumbi!
Volta à mania antiga
De redigir em tupi.
Olho vivo.
O major ficou
estuporado. Que vinha a ser aquilo? Por quê? Quem era? Não
atinava, não achava o motivo e o fundo de semelhante ataque.
A irmã aproximara-se acompanhada da afilhada. Quaresma estendeu-lhe
o jornal com o braço tremendo: "Lê isto, Adelaide."
A velha senhora viu logo a perturbação do irmão
e leu com pressa e solicitude. Ela tinha aquela ampla maternidade
das solteironas; pois parece que a falta de filhos reforça
e alarga o interesse da mulher pelas dores dos outros. Enquanto
ela lia, Quaresma dizia: mas que fiz eu? que tenho com política?
E coçava os cabelos já bastante encanecidos.
Dona Adelaide disse então docemente:
- Sossega, Policarpo. Por isso só?... Ora!
A afilhada leu também os versos e perguntou ao padrinho:
- O senhor se meteu algum dia nessa política daqui?
- Eu nunca!... Vou até declarar que...
- Está doido! exclamaram as duas mulheres a um tempo, ajuntando
a irmã:
- Isto seria uma covardia... Uma satisfação... Nunca!
O doutor e Ricardo chegavam de fora e encontraram os três
nessas considerações. Notaram a alteração
de Quaresma. Estava pálido, tinha os olhos úmidos
e coçava sucessivamente a cabeça.
- Que há, major? indagou o troveiro.
As senhoras explicaram o caso e deram-lhe as quadrinhas a ler. Ricardo
depois contou o que ouvira na vila. Acreditavam todos que o major
viera para ali no intuito de fazer política, tanto assim
que dava esmolas, deixava o povo fazer lenha no seu mato, distribuía
remédios homeopáticos... O Antonino afirmava que havia
de desmascarar semelhante tartufo.
- E não desmentiste? perguntou Quaresma.
Ricardo afirmou que sim, mas o escrivão não quisera
acreditar nele e reiterara os seus propósitos de ataque.
O major ficou profundamente impressionado com tudo; mas, de acordo
com seu gênio, incubou nos primeiros tempos a impressão,
e, enquanto estiveram com ele os seus amigos, não demonstrou
preocupação.
Olga e o marido passaram no "Sossego" cerca de quinze
dias. O marido, ao fim de uma semana, já parecia cansado.
Os passeios não eram muitos. Em geral, os nossos lugarejos
célebres, assim como na Europa cada aldeia tem a sua curiosidade
histórica.
Em Curuzu, o passeio afamado era o Carico, uma cachoeira distante
duas léguas da casa de Quaresma, para as bandas das montanhas
que lhe barravam o horizonte fronteiro. O Doutor Campos já
travara relações com o major e, graças a ele,
houve cavalos e silhão que também permitisse à
moça ir à cachoeira.
Foram de manhã, o presidente da Câmara, o doutor, sua
mulher e a filha de Campos. O lugar não era feio. Uma pequena
cachoeira, de uns quinze metros de altura, despenhava-se em três
partes, pelo flanco da montanha abaixo. A água estremecia
na queda, como que se enrodilhava e vinha pulverizar-se numa grande
bacia de pedra, mugindo e roncando. Havia muita verdura e como que
toda a cascata vivia sob uma abóboda de árvores. O
sol coava-se dificilmente e vinha faiscar sobre a água ou
sobre as pedras em pequenas manchas, redondas ou oblongas. Os periquitos,
de um verde mais claro, pousados nos galhos eram como as incrustações
daquele salão fantástico.
Olga pôde ver tudo isso bem à vontade, andando de um
para outro lado, porque a filha do presidente era de um silêncio
de túmulo e o pai desta tomava com o seu marido informações
sobre novidades medicinais: Como se cura hoje erisipela? Ainda se
usa muito o tártaro emético?
O que mais a impressionou no passeio foi a miséria geral,
a falta de cultivo, a pobreza das casas, o ar triste, abatido da
gente pobre. Educada na cidade, ela tinha dos roceiros idéia
de que eram felizes, saudáveis e alegres. Havendo tanto barro,
tanta água, por que as casas não eram de tijolos e
não tinham telhas? Era sempre aquele sapê sinistro
e aquele "sopapo" que deixava ver a trama de varas, como
o esqueleto de um doente. Por que ao redor dessas casas não
havia culturas, uma horta, um pomar? Não seria tão
fácil, trabalho de horas? E não havia gado, nem grande
nem pequeno. Era raro uma cabra, um carneiro. Por quê? Mesmo
nas fazendas, o espetáculo não era mais animador.
Todas soturnas, baixas, quase sem o pomar olente e a horta suculenta.
A não ser o café e um milharal, aqui e ali, ela não
pôde ver outra lavoura, outra indústria agrícola.
Não podia ser preguiça só ou indolência.
Para o seu gasto, para uso próprio, o homem tem sempre energia
para trabalhar relativamente. Na África, na Índia,
na Cochinchina, em toda a parte, os casais, as famílias,
as tribos, plantam um pouco algumas cousas para eles. Seria a terra?
Que seria? E todas essas questões desafiavam a sua curiosidade,
o seu desejo de saber, e também a sua piedade e simpatia
por aqueles párias, maltrapilhos, mal alojados, talvez com
fome, sorumbáticos!...
Pensou em ser homem. Se o fosse passaria ali e em outras localidades
meses e anos, indagaria, observaria e com certeza havia de encontrar
o motivo e o remédio. Aquilo era uma situação
do camponês da Idade Média e começo da nossa:
era o famoso animal de La Bruyère que tinha face humana e
voz articulada...
Como no dia seguinte fosse passear ao roçado do padrinho,
aproveitou a ocasião para interrogar a respeito o tagarela
Felizardo. A faina do roçado ia quase no fim; o grande trato
da terra estava quase inteiramente limpo e subia um pouco em ladeira
a colina que formava a lombada do sítio.
Olga encontrou o camarada cá embaixo, cortando a machado
as madeiras mais grossas; Anastácio estava no alto, na orla
do mato, juntando, a ancinho, as folhas caídas. Ela lhe falou:
- Bons-dias, "sá dona".
- Então trabalha-se muito, Felizardo?
- O que se pode.
- Estive ontem no Carico, bonito lugar... Onde é que você
mora, Felizardo?
- É doutra banda, na estrada da vila.
- É grande o sítio de você?
- Tem alguma terra, sim, senhora, "sá dona".
- Você por que não planta para você?
- "Quá, sá dona!" O que é que a gente
come?
- O que plantar ou aquilo que a plantação der em dinheiro.
- "Sá dona tá" pensando uma cousa e a cousa
é outra. Enquanto planta cresce, e então? "Quá,
sá dona", não é assim.
Deu uma machadada; o tronco escapou; colocou-o melhor no picador
e, antes de desferir o machado, ainda disse:
- Terra não é nossa... E "frumiga"?... Nós
não "tem" ferramenta... isso é bom para
italiano ou "alamão", que o governo dá tudo...
Governo não gosta de nós...
Desferiu o machado, firme, seguro; e o rugoso tronco se abriu em
duas partes, quase iguais, de um claro amarelado, onde o cerne escuro
começava a aparecer.
Ela voltou querendo afastar do espírito aquele desacordo
que o camarada indicara, mas não pôde. Era certo. Pela
primeira vez notava que o self-help do Governo era só para
os nacionais; para os outros todos os auxílios e facilidades,
não contando com a sua anterior educação e
apoio dos patrícios.
E a terra não era dele? Mas de quem era então, tanta
terra abandonada que se encontrava por aí? Ela vira até
fazendas fechadas, com as casas em ruínas... Por que esse
acaparamento, esses latifúndios inúteis e improdutivos?
A fraqueza de atenção não lhe permitiu pensar
mais no problema. Foi vindo para casa, tanto mais que era hora de
jantar e a fome lhe chegava.
Encontrou o marido e o padrinho a conversar. Aquele perdera um pouco
da sua morgue; havia mesmo ocasião em que era até
natural. Quando ela chegou, o padrinho exclamava:
- Adubos! É lá possível que um brasileiro tenha
tal idéia! Pois se temos as terras mais férteis do
mundo!
- Mas se esgotam, major, observou o doutor.
Dona Adelaide, calada, seguia com atenção o crochet
que estava fazendo; Ricardo ouvia, com os olhos arregalados; e Olga
intrometeu-se na conversa:
- Que zanga é essa, padrinho?
- É teu marido que quer convencer-me que as nossas terras
precisam de adubos... Isto é até uma injúria!
- Pois fique certo, major, se eu fosse o senhor, aduziu o doutor,
ensaiava uns fosfatos...
- Decerto, major, obtemperou Ricardo. Eu, quando comecei a tocar
violão, não queria aprender música... Qual
música! Qual nada! A inspiração basta!... Hoje
vejo que é preciso... É assim, resumia ele.
Todos se entreolharam, exceto Quaresma que logo disse com toda a
força d'alma:
- Senhor doutor, o Brasil é o país mais fértil
do mundo, é o mais bem-dotado e as suas terras não
precisam "empréstimos" para dar sustento ao homem.
Fique certo!
- Há mais férteis, major, avançou o doutor.
- Onde?
- Na Europa.
- Na Europa!
- Sim, na Europa. As terras negras da Rússia, por exemplo.
O major considerou o rapaz durante algum tempo e exclamou triunfante:
- O senhor não é patriota! Esses moços...
O jantar correu mais calmo. Ricardo fez ainda algumas considerações
sobre o violão. À noite, o menestrel cantou a sua
última produção: "Os Lábios da
Carola." Suspeitava-se que Carola fosse uma criada do Doutor
Campos; mas ninguém aludiu a isso. Ouviram-no com interesse
e ele foi muito aclamado. Olga tocou no velho piano de Dona Adelaide;
e, antes das onze horas, estavam todos recolhidos.
Quaresma chegou a seu quarto, despiu-se, enfiou a camisa de dormir
e, deitado, pôs-se a ler um velho elogio das riquezas e opulências
do Brasil.
A casa estava em silêncio; do lado de fora, não havia
a mínima bulha. Os sapos tinham suspendido um instante a
sua orquestra noturna. Quaresma lia; e lembrava-se que Darwin escutava
com prazer esse concerto dos charcos. Tudo na nossa terra é
extraordinário! pensou. Da despensa, que ficava junto a seu
aposento, vinha um ruído estranho. Apurou o ouvido e prestou
atenção. Os sapos recomeçaram o seu hino. Havia
vozes baixas, outras mais altas e estridentes; uma se seguia à
outra, num dado instante todas se juntaram num uníssono sustentado.
Suspenderam um instante a música. O major apurou o ouvido;
o ruído continuava. Que era? Eram uns estalos tênues;
parecia que quebravam gravetos, que deixavam outros cair ao chão...
Os sapos recomeçaram; o regente deu uma martelada e logo
vieram os baixos e os tenores. Demoraram muito; Quaresma pôde
ler umas cinco páginas. Os batráquios pararam; a bulha
continuava. O major levantou-se, agarrou o castiçal e foi
à dependência da casa donde partia o ruído,
assim mesmo como estava, em camisa de dormir.
Abriu a porta; nada viu. Ia procurar nos cantos, quando sentiu uma
ferroada no peito do pé. Quase gritou. Abaixou a vela para
ver melhor e deu com uma enorme saúva agarrada com toda a
fúria à sua pele magra. Descobriu a origem da bulha.
Eram formigas que, por um buraco no assoalho, lhe tinham invadido
a despensa e carregavam as suas reservas de milho e feijão,
cujos recipientes tinham sido deixados abertos por inadvertência.
O chão estava negro, e carregadas com os grãos, elas,
em pelotões cerrados, mergulhavam no solo em busca da sua
cidade subterrânea.
Quis afugentá-las. Matou uma, duas, dez, vinte, cem; mas
eram milhares e cada vez mais o exército aumentava. Veio
uma, mordeu-o, depois outra, e o foram mordendo pelas pernas, pelos
pés, subindo pelo seu corpo. Não pôde agüentar,
gritou, sapateou e deixou a vela cair.
Estava no escuro. Debatia-se para encontrar a porta; achou e correu
daquele ínfimo inimigo que, talvez, nem mesmo à luz
radiante do sol, o visse distintamente...