O TRISTE FIM DE POLICARPO QUARESMA
Lima Barreto
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Capítulo II
Espinhos e Flores
Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa
cousa em matéria de edificação de cidade. A
topografia do local, caprichosamente montuosa, influiu decerto para
tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das
construções.
Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode
ser imaginado. As casas surgiam como se fossem semeadas ao vento
e, conforme as casas, as ruas se fizeram. Há algumas delas
que começam largas como boulevards e acabam estreitas que
nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem
fugir ao alinhamento reto com um ódio tenaz e sagrado.
Às vezes se sucedem na mesma direção com uma
freqüência irritante, outras se afastam, e deixam de
permeio um longo intervalo coeso e fechado de casas. Num trecho,
há casas amontoadas umas sobre outras numa angústia
de espaço desoladora, logo adiante um vasto campo abre ao
nosso olhar uma ampla perspectiva.
Marcham assim ao acaso as edificações e conseguintemente
o arruamento. Há casas de todos os gostos e construídas
de todas as formas.
Vai-se por uma rua a ver um correr de chalets, de porta e janela,
parede de frontal, humildes e acanhados, de repente se nos depara
uma casa burguesa, dessas de compoteiras na cimalha rendilhada,
a se erguer sobre um porão alto com mezaninos gradeados.
Passada essa surpresa, olha-se acolá e dá-se com uma
choupana de pau-a-pique, coberta de zinco ou mesmo palha, em torno
da qual formiga uma população; adiante, é uma
velha casa de roça, com varanda e colunas de estilo pouco
classificável, que parece vexada a querer ocultar-se, diante
daquela onda de edifícios disparatados e novos.
Não há nos nossos subúrbios cousa alguma que
nos lembre os famosos das grandes cidades européias, com
as suas vilas de ar repousado e satisfeito, as suas estradas e ruas
macadamizadas e cuidadas, nem mesmo se encontram aqueles jardins,
cuidadinhos, aparadinhos, penteados, porque os nossos, se os há,
são em geral pobres, feios e desleixados.
Os cuidados municipais também são variáveis
e caprichosos. Às vezes, nas ruas, há passeios em
certas partes e outras não; algumas vias de comunicação
são calçadas e outras da mesma importância estão
ainda em estado de natureza. Encontra-se aqui um pontilhão
bem cuidado sobre um rio seco e passos além temos que atravessar
um ribeirão sobre uma pinguela de trilhos mal juntos.
Há pelas ruas damas elegantes, com sedas e brocados, evitando
a custo que a lama ou o pó lhes empane o brilho do vestido;
há operário de tamancos; há peralvilhos à
última moda; há mulheres de chita; e assim pela tarde,
quando essa gente volta do trabalho ou do passeio, a mescla se faz
numa mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem
posto não é que entra na melhor casa.
Além disto, os subúrbios têm mais aspectos interessantes,
sem falar no namoro epidêmico e no espiritismo endêmico;
as casas de cômodos (quem as suporia lá!) constituem
um deles bem inédito. Casas que mal dariam para uma pequena
família, são divididas, subdivididas, e os minúsculos
aposentos assim obtidos, alugados à população
miserável da cidade. Aí, nesses caixotins humanos,
é que se encontra a fauna menos observada da nossa vida,
sobre a qual a miséria paira com um rigor londrino.
Não se podem imaginar profissões mais tristes e mais
inopinadas da gente que habita tais caixinhas. Além dos serventes
de repartições, contínuos de escritórios,
podemos deparar velhas fabricantes de rendas de bilros, compradores
de garrafas vazias, castradores de gatos, cães e galos, mandingueiros,
catadores de ervas medicinais, enfim, uma variedade de profissões
miseráveis que as nossas pequena e grande burguesias não
podem adivinhar. Às vezes, num cubículo desses se
amontoa uma família, e há ocasiões em que os
seus chefes vão a pé para a cidade por falta do níquel
do trem.
Ricardo Coração dos Outros morava em uma pobre casa
de cômodos de um dos subúrbios. Não era das
sórdidas, mas era uma casa de cômodos dos subúrbios.
Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada
sobre uma colina, olhando da janela do seu quarto para uma ampla
extensão edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos
assim do alto, os subúrbios têm a sua graça.
As casas pequeninas, pintadas de azul, de branco, de oca, engastadas
nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e
ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista
boa e a falta de percepção do desenho das ruas põe
no programa um sabor de confusão democrática, de solidariedade
perfeita entre as gentes que as habitavam; e o trem minúsculo,
rápido, atravessa tudo aquilo, dobrando à esquerda,
inclinando-se para a direita, muito flexível nas suas grandes
vértebras de carros, como uma cobra entre pedrouços.
Era daquela janela que Ricardo espraiava as suas alegrias, as suas
satisfações, os seus triunfos e também os seus
sofrimentos e mágoas.
Ainda agora estava ele lá, debruçado no peitoril,
com a mão em concha no queixo, colhendo com a vista uma grande
parte daquela bela, grande e original cidade, capital de um grande
país, de que ele a modos que era e se sentia ser, a alma,
consubstanciado os seus tênues sonhos e desejos em versos
discutíveis, mas que a plangência do violão,
se não lhes dava sentido, dava um quê de balbucio,
de queixume dorido da pátria criança ainda, ainda
na sua formação...
Em que pensava ele? Não pensava só, sofria também.
Aquele tal preto continuava na sua mania de querer fazer a modinha
dizer alguma cousa, e tinha adeptos. Alguns já o citavam
como rival dele, Ricardo; outros já afirmavam que o tal rapaz
deixava longe o Coração dos Outros, e alguns mais
- ingratos! - já esqueciam os trabalhos, o tenaz trabalhar
de Ricardo Coração dos Outros em prol do levantamento
da modinha e do violão, e nem nomeavam o abnegado obreiro.
Com o olhar perdido, Ricardo lembrava-se de sua infância,
daquela sua aldeia sertaneja, da casinha dos seus pais, com seu
curral e o mugido dos vitelos... E o queijo? Aquele queijo tão
substancial, tão forte, feio como aquela terra, mas feraz
como ela tanto que bastava comer dele uma pequena fatia para se
sentir almoçado... E as festas? Saudades... E o violão,
como aprendeu? O seu mestre, o Maneco Borges, não lhe predissera
o futuro: "Irás longe, Ricardo. A viola. A viola quer
teu coração."
Por que então aquele encarniçamento, aquele ódio
contra ele - ele que trouxera para esta terra de estrangeiros a
alma, o suco, a substância do país!
E as lágrimas lhe saltaram quentes dos olhos afora. Olhou
um pouco as montanhas, farejou o mar lá longe... Era bela
a terra, era linda, era majestosa, mas parecia ingrata e áspera
no seu granito onipresente que se fazia negro e mau quando não
era amaciado pela verdura das árvores.
E ele estava ali só, só com a sua glória e
o seu tormento, sem amor, sem confidente, sem amigo, só como
um deus ou como um apóstolo em terra ingrata que não
lhe quer ouvir a boa nova.
Sofria em não ter um peito amado, amigo em que derramasse
aquelas lágrimas que iam cair no solo indiferente. Por aí,
lembrou-se dos famosos versos:
Se choro...
bebe o pranto a areia ardente...
Com a lembrança,
ele baixou um pouco o olhar à terra e viu, que, no tanque
da casa, um tanto escondida dele, uma rapariga preta lavava. Ela
abaixava o corpo sobre a roupa, carregava todo o seu peso, ensaboava-a
ligeira, batia-a de encontro à pedra, e recomeçava.
Teve pena daquela pobre mulher, duas vezes triste na sua condição
e na sua cor. Veio-lhe um afluxo de ternura e, depois, pôs-se
a pensar no mundo, nas desgraças, ficando um instante enleado
no enigma do nosso miserável destino humano.
A rapariga não o viu, distraída com o trabalho; e
se pôs a cantar:
Da doçura
dos teus olhos
A brisa inveja já tem
Era dele. Ricardo
sorriu satisfeito e teve vontade de ir beijar aquela pobre mulher,
abraçá-la...
E como eram as cousas? Ele recebia lenitivo daquela rapariga; era
a sua humilde e dorida voz que vinha afagar o seu tormento! Vieram-lhe
então à memória aqueles versos do padre Caldas,
esse seu antecessor feliz que teve um auditório de fidalgas:
Lereno alegrou
os outros
E nunca teve alegria...
Enfim era uma
missão!... A rapariga acabou de cantar e Ricardo não
se pôde conter:
- Vai bem, Dona Alice, vai bem! Se não fosse, por que eu
lhe pedia bis?
A rapariga estendeu a cabeça, reconheceu quem falava e disse:
- Não sabia que o senhor estava aí, senão não
cantava na vista do senhor.
- Qual o quê! Posso garantir-lhe que está bom, muito
bom. Cante.
- Deus me livre! Para o senhor me "acriticar"...
Embora insistisse muito, a rapariga não quis continuar. As
mágoas pareciam ter passado do pensamento de Ricardo. Veio
ao interior do quarto e pôs-se à mesa na tenção
de escrever.
O seu quarto tinha o mobiliário mais reduzido possível.
Havia uma rede com franjas de rendas, uma mesa de pinho, sobre ela
objetos de escrever; uma cadeira, uma estante com livros, e, pendurado
a uma parede, o violão na sua armadura de camurça.
Havia também uma máquina para fazer café.
Sentou-se e quis começar uma modinha sobre a Glória,
essa cousa fugace, que se tem e se pensa que não se tem,
alguma cousa impalpável, incolhível como um sopro,
que nos alanceia, queima, inquieta e abrasa como o Amor.
Tentou começar, dispôs o papel, mas não pôde.
A emoção tinha sido forte, toda a sua natureza tinha
sido lavrada, baralhada, com a idéia daquele furto que se
queria fazer ao seu mérito. Não conseguiu assentar
o pensamento, apanhar as palavras no ar, sentir a música
zumbir no ouvido.
A manhã ia alta. As cigarras defronte chilreavam no tamarineiro
desfolhado; começava a esquentar e o céu estava de
um azul ligeiro", tênue, fino. Quis sair, procurar um
amigo, espairecer com ele, mas quem? Ainda se o Quaresma... Ah!
o Quaresma! Esse, sim, trazia-lhe conforto e consolo.
É verdade que ultimamente esse seu amigo se achava pouco
interessado pela modinha; mas assim mesmo compreendia o seu propósito,
os fins e o alcance da obra a que ele, Ricardo, se propunha. Ainda
se o major estivesse perto, mas tão longe! Consultou as algibeiras.
Não chegava a dous mil-réis a sua fortuna. Como ir?
Arranjaria um passe e iria. Bateram à porta. Traziam-lhe
uma carta. Não reconheceu a letra; rasgou o envelope com
emoção. Que seria? Leu:
"Meu caro Ricardo - Saúde - Minha filha Quinota casa-se
depois de amanhã, quinta-feira. Ela e o noivo fazem muito
gosto que você apareça. Se o amigo não estiver
comprometido com alguém, agarre o violão e venha até
cá tomar uma chávena de chá conosco - Seu amigo
Albernaz."
O trovador, à proporção que lia, ia mudando
de fisionomia. Até então estava carregada e dura;
quando acabou de ler o bilhete, um sorriso brincava por toda ela,
descia e subia, ia de uma face a outra. O general não o abandonara;
para o respeitável militar, Ricardo Coração
dos Outros ainda era o rei do violão. Iria e arranjaria passagem
com o antigo vizinho de Quaresma. Contemplou um pouco o violão,
demoradamente, ternamente, agradecidamente como se fosse um ídolo
benfazejo.
Quando Ricardo penetrou em casa do General Albernaz, o último
brinde havia sido levantado e todos se dirigiam para a sala de visitas
em pequenos grupos. Dona Maricota vestia seda malva e o seu busto
curto parecia ainda mais abafado, mais socado, naquele tecido caro
que parece requerer corpos elegantes e flexíveis. Quinota
estava radiante no vestido de noiva. Ela era alta, de feições
mais regulares que a irmã Ismênia, mas menos interessante
e mais comum de temperamento e alma, embora faceira. Lalá,
a terceira filha do general, que já se ajeitava a moça,
tinha muito pó-de-arroz, estava sempre a concertar o penteado
e a sorrir para o Tenente Fontes. Um casamento bem cotado e esperado.
Genelício dava o braço à noiva, encasacado
numa casaca mal talhada, que punha bem à mostra a sua gibosidade,
e caminhava todo atrapalhado nos apertados sapatos de verniz.
Ricardo não os viu passar, pois, ao entrar, a fila estava
no general, metido num segundo uniforme dos grandes dias, que lhe
ia mal como a farda de um guarda nacional endomingado; mas, quem
tinha um ar importante, marcial e navegado, ao mesmo tempo palaciano,
era o Contra-Almirante Caldas. Fora padrinho e estava irrepreensível
na sua casaca do uniforme. As âncoras reluziam como metais
de bordo em hora de revista e os seus favoritos, muito penteados,
alargavam a sua face e pareciam desejar com ardor os grandes ventos
do vasto oceano sem fim. Ismênia estava de rosa e andava pelas
salas com o seu ar dolente, com o seu vagar, com os seus gestos
lentos, dando providências. O Lulu, o único filho do
general, impava no seu uniforme do Colégio Militar, cheio
de dourados e cabelos, tanto mais que passara de ano, graças
aos empenhos do pai.
O general não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos,
quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até
Quinota disse um - "sou muito feliz..." - deitando a cabeça
de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de imenso
transporte a cândida alma do menestrel.
Deram começo às danças e o general, o almirante,
o Major Inocêncio Bustamante, que também viera de uniforme,
com a sua banda roxa de honorário, o Doutor Florêncio,
Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar
um pouco.
O general estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma cerimônia
daquelas em sua casa e enfim pela primeira vez via realizado esse
anseio.
A Ismênia foi aquela desgraça... O ingrato!... Mas
para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
- É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados
novos.
O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro,
e enquanto o limpava, respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
- Estou muito contente.
Por aí pôs o pince-nez, endireitou o trancelim e continuou:
- Creio que casei bem minha filha: rapaz formado, bem encaminhado
e inteligente.
O almirante acudiu:
- E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com
trinta e dois anos primeiro escriturário do Tesouro, é
cousa nunca vista.
- O Genelício não está no Tribunal de Contas,
não passou? perguntou Florêncio.
- Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado
novo, que era da amizade do recém-casado.
De fato, Genelício tinha arranjado a transferência
e não fora só isso que o decidira a casar-se. Tendo
escrito uma - Síntese de Contabilidade Pública Científica
- viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pela "imprensa
desta capital". O ministro, atendendo ao mérito excepcional
da obra, mandou-lhe dar dous contos de prêmio, tendo sido
a edição feita à custa do Estado, na Imprensa
Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas páginas, tipo
doze, escrito em estilo de ofício com uma vasta documentação
de decretos e portarias, ocupando dous terços do livro.
A primeira frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente
sintético e científico, fora até muito notada
e gabada pelos críticos, não só pela novidade
da idéia, como também pela beleza da expressão.
Dizia assim: "A Contabilidade Pública é a arte
ou ciência de escriturar convenientemente a despesa e receita
do Estado."
Além do prêmio e da transferência, ele já
tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga.
Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados
novos, o major não pôde deixar de observar:
- Depois da militar, a melhor carreira é a da Fazenda, não
acham?
- Sim... Bem entendido, fez o Doutor Florêncio.
- Eu não quero falar dos formados, apressou-se o major. Esses...
Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa
e foi soltando a primeira frase que lhe veio aos lábios:
- Quando se prospera, todas as profissões são boas.
- Não é assim tanto, obtemperou o almirante, alisando
um dos favoritos. Não é para desfazer das outras,
mas a nossa, hein, Albernaz? hein, Inocêncio?
Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar
uma lembrança e depois replicou:
- É, mas tem os seus percalços. Quando se está
numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro como
em Curupaiti, então...
- O senhor esteve lá, general? perguntou o convidado amigo
de Genelício.
- Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão...
Não imaginam o que foi - você sabe, não é,
Inocêncio?
- Se estive lá...
- Polidoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores à esquerda
e "nós" caímos sobre os paraguaios. Mas
os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
- Foi "seu" Mitre, disse Inocêncio.
- Foi. Atacamos com fúria. Era ribombar de canhões
que metia medo, bala por todo o canto, os homens morriam como moscas...
Um inferno!
- Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a
sabedoria do Paraguai excepcional.
- Foram os paraguaios, isto é, repeliram o nosso ataque.
É por isso que eu digo que a nossa profissão é
bela, mas tem as suas "cousas"...
- Isso não quer dizer nada. Também na passagem de
Humaitá... ia dizendo o almirante.
- O senhor estava a bordo?
- Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram
com que eu não fosse designado, porque o embarque equivalia
a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
Na sala de visitas as danças continuavam com animação.
Era raro que alguém viesse de dentro até onde eles
estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava não
distraíam aqueles homens das suas preocupações
belicosas.
O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses
pacíficos, contando batalhas em que não estiveram
e pugnas valorosas que não pelejaram.
Não há como um cidadão pacato, bem comido,
tendo tomado alguns vinhos generosos, para apreciar as narrações
de guerra. Ele só vê a parte pitoresca, a parte por
assim dizer espiritual das batalhas, dos encontros; os tiros são
os de salva e se matam é cousa de somenos. A Morte mesmo,
nas narrações feitas assim, perde a sua importância
trágica: três mil mortos, só!!!
De resto, contadas pelo General Albernaz, que nunca tinha visto
a guerra, a cousa ficava edulcorada, uma guerra bibliothèque
rose, guerra de estampa popular, em que não aparecem a carniçaria,
a brutalidade e a ferocidade normais.
Estavam Ricardo, o Doutor Florêncio, o exato empregado como
engenheiro das Águas, aqueles dous recentes conhecimentos
de Albernaz, embevecidos, boquiabertos e invejosos diante das proezas
imaginárias daqueles três militares, um honorário,
talvez o menos pacífico dos três, o único que
tivesse mesmo tomado parte em alguma cousa guerreira - quando Dona
Maricota chegou sempre diligente, ativa, dando movimento e vida
à festa. Era mais moça que o marido, tinha ainda inteiramente
pretos os cabelos na sua cabeça pequena, que contrastava
tanto com o seu corpo enorme. Ela vinha ofegante e dirigiu-se ao
marido:
- Então, Chico, que é isso? Ficou aí e eu que
faça sala, que anime as moças... Pra sala todos!
- Já vamos, Dona Maricota, disse alguém.
- Não, fez com rapidez a dona da casa, é já.
Vamos, "seu" Caldas, "seu" Ricardo, os senhores!
E foi empurrando um a um pelo ombro.
- Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois
é o senhor... Está ouvindo, "seu" Ricardo!
- Pois não, minha senhora. É uma ordem...
E foram. No caminho o general parou um pouco, chegou-se a Coração
dos Outros e perguntou:
- Diga-me uma cousa: como vai o nosso amigo Quaresma?
- Vai bem.
- Tem-lhe escrito?
- Às vezes. Eu queria, general...
O general suspendeu a cabeça, levantou um pouco o pince-nez
que começava a cair, e perguntou:
- O quê?
Ricardo ficou intimidado com o ar marcial com que Albernaz lhe fez
a pergunta. Depois de uma ligeira hesitação, respondeu
de um jacto, com medo de perder as palavras:
- Eu queria que o senhor me arranjasse uma passagem, um passe, para
ir vê-lo.
O general esteve uns instantes de cabeça baixa, coçou
o cabelo e disse:
- Isso é difícil, mas você apareça lá,
na repartição, amanhã.
E continuaram a andar. Ainda andando, Coração dos
Outros acrescentou:
- Estou com saudades dele, depois tenho certos desgostos... O senhor
sabe: um homem que tem nome...
- Vá lá amanhã.
Dona Maricota apareceu na frente e falou agastada:
- Vocês não vêm!
- Já vamos, fez o general.
E depois, dirigindo-se a Ricardo, ajuntou:
- Aquele Quaresma podia estar bem, mas foi meter-se com livros...
É isto! Eu, há bem quarenta anos, que não pego
em livro...
Chegaram à sala. Era vasta. Tinha dous grandes retratos em
pesadas molduras douradas, furiosos retratos a óleo de Albernaz
e da mulher; um espelho oval e alguns quadrinhos, e a decoração
estava completa. Da mobília não se podia julgar, tinha
sido retirada, para dar mais espaço aos dançantes.
A noiva e o noivo estavam no sofá sentados a presidir a festa.
Havia um ou outro decote, poucas casacas, algumas sobrecasacas e
muitos fraques. Por entre as cortinas de uma janela, Ricardo pôde
ver a rua. A calçada defronte estava cheia. A casa era alta
e tinha jardim; só de lá os curiosos, os "serenos",
podiam ver alguma cousa da festa. Lalá, no vão de
uma sacada, conversava com o Tenente Fontes. O general contemplou-os
e abençoou-os com um olhar aprovador...
A moça, a famosa filha do Lemos, dispôs-se a cantar.
Foi ao piano, colocou a partitura e começou. Era uma romanza
italiana que ela cantou com a perfeição e o mau gosto
de uma moça bem-educada. Acabou. Palmas gerais, mas frias,
soaram.
O Doutor Florêncio que ficara atrás do general, comentou:
- Tem uma bela voz esta moça. Quem é?
- É a filha do Lemos, o Doutor Lemos da Higiene, respondeu
o general.
- Canta muito bem.
- Está no último ano do Conservatório, observou
ainda Albernaz.
Chegou a vez de Ricardo. Ele ocupou um canto da sala, agarrou o
vilão, afinou-o, correu a escala; em seguida, tomou o ar
trágico de quem vai representar o Édipo-Rei e falou
com voz grossa: "Senhoritas, senhores e senhoras." Parou.
Concertou a voz e continuou: "Vou cantar 'Os teus braços'.
Modinha de minha composição, música e versos.
É uma composição terna, decente e de uma poesia
exaltada." Seus olhos, por aí, quase saíam das
órbitas. Emendou: "Espero que nenhum ruído se
ouça, porque senão a inspiração se evola.
É o violão instrumento muito... mui... to 'dê-li-cá-do'.
Bem."
A atenção era geral. Deu começo. Principiou
brando, gemebundo, macio e longo, como soluço de onda; depois,
houve uma parte rápida, saltitante, em que o violão
estalava. Alternando um andamento e outro, a modinha acabou.
Aquilo tinha ido ao fundo de todos, tinha acudido ao sonho das moças
e aos desejos dos homens. As palmas foram ininterruptas. O general
abraçou-o, Genelício levantou-se e deu-lhe a mão.
Quinota, no seu imaculado vestido de noiva, também.
Para fugir aos cumprimentos, Ricardo correu à sala de jantar.
No corredor chamavam-no: "Senhor Ricardo, Senhor Ricardo!"
Voltou-se. "Que ordena minha senhora?" Era uma moça
que lhe pedia uma cópia da modinha.
- Não se esqueça, dizia ela com meiguice, não
se esqueça. Gosto tanto das suas modinhas... São tão
ternas, tão delicadas... Olhe: dê aqui a Ismênia
para me entregar.
A noiva de Cavalcanti aproximava-se e, ouvindo falar em seu nome
perguntou:
- Que é Dulce?
A outra explicou-se. Ela aceitou a incumbência e, por sua
vez, perguntou a Ricardo com a sua voz dolente:
- "Seu" Ricardo, quando é que o senhor pretende
estar com Dona Adelaide?
- Depois de amanhã, espero eu.
- Vai lá?
- Vou.
- Pois então diga-lhe que me escreva. Eu queria tanto receber
uma carta...
E limpou os olhos furtivamente, com o seu pequenino lenço
rendado.