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Til
José de Alencar

 


Capítulo IX
Transe

Enquanto rápidos corriam os últimos acontecimentos, Brás erguendo-se no canavial, ainda atordoado da queda e da vertigem, saltou a cerca do pátio.

Por diversar vezes tentou sungar-se pela parede e trepar à janela; mas escorregava por falta de apoio ou saliência a que se agarrasse para alcançar o batente. Afinal de um salto enorme logrou o intento; e pode grimpar-se até o peitoril, onde agachou-se.

Ao ver Berta, sentada no chão, junto à cama, e enlaçada pela cascavel, deu tremendo pulo o idiota, que travou da cabeça do réptil como faria ao cabo de um chicote, e fugiu espavorido, soltando um berro de cólera, e zimbrando o próprio corpo com a serpente que lhe servia de látego.

Era o castigo que ele se infligia pelo susto causado a Berta e perigo de que a ameaçara com seu desazo.

Subitamente arrancada ao encanto que a prendia, a menina correu à porta e abriu-a, lívida e palpitante de emoção. Linda atirou-se a ela para abraça-la; e logo depois chegou Afonso, que voltara ouvindo abrir-se a porta.

Às impacientes interrogações, Berta respondeu mostrando Brás, que rompia o canavial em uma corrida furiosa, vibrando o seu látego vivo, a zunir pelos ares. Cheios de espanto, Linda e o irmão seguiram com os olhos o vulto do idiota até que sumiu-se; e voltaram-se para obter de Berta a explicação daquela terrível insânia que eles não haviam compreendido.

Berta porém tinha desaparecido.

Restabelecida da fascinação que sofrera, recordou-se a menina do motivo que a trouxera àquela alcova, e receando ter perdido muito tempo, esgueirou-se ligeira pelo interior da casa para ganhar as plantações e seguir o rumo que vira tomar pai Quicé.

No fim do canavial ouviu ela um sussurro particular que parecia o zumbir de um grande besouro, e voltando os olhos para o lado donde trazia a brisa aquele zunzum, avistou acocorado a uma pedra, como uma intanha, o negro velho, que rosnava a sua monótona lengalenga em gíria africana.

- Psiu! fez a menina.

- Nhá moça?

- Vamos depressa que já perdi muito tempo.

Deitou-se a andar o paizinho e mais depressa do que se devia esperar da sua figura de arco de pipa. Apesar da torção que lhe vergara o espinhaço como uma hástea de taquaruçu, conservava ele ainda certa agilidade nas gâmbias, que se moviam à semelhança das patas de uma guaiamu.

Sulcava a capoeira um trilho estreito, porém muito batido a julgar pela fita de argila socada e nua que serpejava, à guisa de um cipó, entre a grama. Por aí tomou Quicé, e a menina o seguiu com tamanha impaciência que sua mão sôfrega tocava amiúde o liso casco do negro como instigando-o a apressar o passo. Sua imaginação lhe representava Jão preso, algemado; quisera ter asas para voar.

Da capoeira desembocava-se em um vasto campo de cerca de meia légua, regaço da floresta virgem que lhe corria em volta, e cuja espessura já o machado havia desbravado do lado por onde vinham Berta e seu guia.

Quando se achavam os dois a meio da campina, ouviram longe o ribombo do trovão, o que era para admirar-se, pois o céu estava límpido, e no azul cristalino não se via capulho ou flocos de nuvens.

Entretanto o surdo trovão crescia e vinha rolando das profundezas da floresta, mas contínuo, incessante, sem as intermitências dos roncos da procela. A terra, como percutida por violento abalo, tremia, reboando os ecos do estranho fragor.

De momento a momento condensava-se o hórrido estampido, que já parecia fremir na orla da floresta. De repente surdiram do seio desse ribombo e começaram a sulcá-lo, outros rumores estridentes. Ouvia-se o estalo das ramas despedaçadas, como se o pampeiro fustigasse a floresta; um áspero grunhido e também um ranger de ossos, que trazia à mente espavorida os contos de cemitérios e duendes.

Involuntariamente o preto velho estacou, volvendo em torno de si um olhar aflito. Súbito pavor lhe transtornara as feições, repuxando as rugas da pele relha e borrando-lhe o negrume da cútis.

Surpresa com o estampido e assustada pela expressão de terror que viu no semblante de Quicé, perguntou Berta:

- O que é?

- Queixada, respondeu o preto com a voz sumida.

Com efeito, da orla da selva rompia um bando de porcos do mato. Mais de cem desses animais selvagens, com a pupila chamejante, ouriçando as ruivas cerdas e afiando os longos colmilhos nos queixais chocalhados pela sanha, trotavam em fila, e figuravam na relva da campina a verga combusta do imenso arco de algum tamoio gigante.

Assim avançavam os ferozes queixadas, rompendo selvas, estraçalhando quando encontram com os cutelos das presas, ou esmagando-o sob a úngula bissulca das cem patas cadentes que batem o chão. Se o inimigo resiste ao primeiro ímpeto do centro, ou se receiam lhes fuja, as pontas do arco se estorcem e a vara fatal cinge o mísero, que tomba em pedaços, como a isca à flor de tanque piscoso.

Era medonho o aspecto daquela serra navalhada a se estender pelo campo afora com extrema rapidez. Berta compreendeu o perigo que a ameaçava e horrorizou-se pensando no fim cruel que lhe fora reservado, e ali estava debuxado ante seus olhos com vivo e temeroso relevo.

Tinha-lhe ferido os olhos o sangue coalhado na belfa de uma parte dos queixadas. Pelo focinho, como pelas unhas dos mais ferozes, viam-se fragmentos de animais, que pareciam cães, e também resto de um despojo que bem podia ser de criatura humana.

A última esperança todavia ainda não desamparou o coração de Berta ante esse quadro hediondo. Corajosa como era, quis salvar-se alcançando um abrigo que a subtraísse à fúria dos caititus. Mas na campina rasa poucas árvores perdidas se elevavam a trecho; dessas a mais próxima, ficava-lhe a cem passos, e já vergava rapidamente sobre esse ponto a ala esquerda da formidável falange.

O impulso de Berta foi precipitar-se para aquele refúgio e lutar de velocidade com os queixadas. Tinha confiança em suas forças, e contava alcançar a árvore antes das feras. Mas ao desferir a corrida, acudiu-lhe à mente o preto, que havia esquecido nas angústias daquele momento.

Abandonar o velho decrépito à fúria dos animais, não lhe sofria o coração, e contudo uma voz impiedosa, a voz da conservação, lhe exprobrava o sacrifício inútil de sua existência. Há almas assim, que Deus apura no crisol da abnegação, e forma para se derramarem como a luz, o ar, o perfume.

Travando o punho de Quicé, tentou Berta arrasta-lo em sua veloz corrida; não tinha dado vinte passos, que reconheceu a impossibilidade do violento esforço. O arco já se convolvia em caracol, fechando-a e a seu companheiro em uma espira sinistra, que cerrava-se de instante a instante como a constrição da jibóia em torno à presa.

Estacou a menina; cada passo a aproximaria da morte, que a espreitava por todos os lados.

- Trepa na cacunda de Quicé! disse o preto velho.

Com o olhar agradeceu Berta ao mísero cativo, que na impossibilidade de a salvar oferecia ao menos esse meio de retardar-lhe o martírio, conservando-a suspenda nos ombros enquanto não o dilaceravam as feras.

Enfim já não é arco, nem mesmo cadeia, o que cerca os dois infelizes; mas um turbilhão fulvo, que marulha, fossa, remoinha, grunhe, amolando os colmilhos, e batendo o chão.

Estreitou-se Berta em suas roupas, como a virgem cristã no anfiteatro romano; e pondo os olhos no céu, esperou o martírio.

Capítulo X
A garrucha

Não era natural a arrancada de tão numeroso bando de caititus por aquelas paragens, fora da mata cerrada e próximo de habitações.

Houvera, porém, um motivo para essa alteração nos hábitos dos filhos bravios das selvas.

Fora aquele dia, véspera de São João, o que marcara Gonçalo Pinta para atacar o Bugre e agarrá-lo dentro da toca. Nesse intento e valendo-se da espionagem que fazia desde muito, combinara com Filipe um plano que não podia falhar.

O esconderijo do capanga ficava no mais intrincado da mata, entre as fraguras de uma penha que lhe servia de baluarte e prolongava-se através da floresta como a geba de algum monstro hirsuto.

Esse lado parecia a abrigo de qualquer ataque. Se da choça do capanga, embora dificilmente, se podia galgar o rochedo, era isso impossível da outra banda em que a penha se talhava a pique, em abrupto alcantil.

Gizou, pois, o Gonçalo que pela madrugada, Filipe com os companheiros ganhariam as cabeceiras da mata virgem. Ocultos pelas brenhas se aproximariam do penhasco e tratariam de tomar a saída do único desfiladeiro por onde podia fugir o capanga.

Ao meio-dia, quando Jão Fera costumava descansar na grota, o Gonçalo com uma troça de espoletas, pagos pelo Ribeiro, deitaria cerco pela frente, e o capanga, assim colhido, se entregaria vivo ou morto.

Partira o Filipe com sua malta à hora aprazada, e rodeou a floresta. Por segurança levava os cachorros que podiam servir-lhe para rastejar o inimigo no caso de escapula. A matilha, tomando faro ao fartum que trazia a brisa do fundo da floresta, colou (1) e, embrenhada pela espessura, levantou um bando de queixadas.
(1) termo de montearia: afundar-se pelo mato para descobrir e levantar a caça.

Acuaram as feras, voltando-se ameaçadoras. Avisados pelos latidos, acudiram os caipiras que tentaram defender a matilha e desvencilha-la. Os queixadas, porém, estavam enfurecidos e arremeteram estripando os cães. Diante do perigo que corria, fugiu a gente; porém um dos companheiros, jarretado pelas terríveis navalhadas, tombou e num momento foi despedaçado.

Então o bando feroz, acossado pelos tiros que lhe desfecharam os caipiras, arremeteu através da floresta, grunhindo de sanha, e foi romper no campo onde se devia representar o último ato do drama sanguinolento.

Resignada ao martírio, Berta erguera os olhos ao céu, pedindo-lhe asilo para sua alma pura prestes a desamparar a terra. Os porcos, removendo os queixos, já tocavam com as cerdas do focinho o babado da saia, aflado pela brisa.

Retiniu, porém, um brado espantoso, que reboou pelas crastas e penetrais da floresta como o berro medonho do sucuri quando surge à flor do imenso lago. Pávidos estancaram os queixadas, erguendo a tromba ao ar para conhecer donde provinha aquela ameaça.

Devorando a distância na corrida veloz, saltando por cima dos magotes que encontrava em seu caminho, e às vezes fazendo do próprio lombo das feras chão onde pisar, Jão precipitou-se enfim no lugar onde Berta e o negro velho aguardavam a morte contritos.

Suspendendo a menina com o braço esquerdo, enquanto brandia o direito a longa faca apunhada, o vigoroso capanga, aproveitando-se do espanto das feras ante sua audácia, arrojou-se para a árvore mais próxima, onde poderia colocar a menina a salvo de perigo.

Já ele transpunha a distância, quando ouviu-se um grito dilacerante: o negro velho agitando convulsivamente os braços debateu-se no meio dos queixadas, como um náufrago no torvelinho das ondas, e estrebuchou.

- Jão! exclamou Berta angustiada, mostrando o corpo do africano que tombava.

- Não!

Perseguido pelas feras, bem via o capanga que não tinha tempo a perder; a menor demora podia ser fatal. Os queixadas eram sanhudos e em numeroso bando. Se o envolvessem, tolhido como estava de um braço, corria grande risco Berta, a quem a morte dele Jão, longe de salvar, roubaria a última esperança.

Por isso recusou-se ao pedido da menina.

- Pois eu não o abandono!

Retorquindo-lhe por esse modo, Berta soltou-se do braço do Bugre, para correr ao negro, como se ela, frágil menina, pudesse valer-lhe naquele transe.

Preveniu-lhe Jão o impulso, e estreitando-a ao peito com força, atirou-se em um arranco de desespero para o lugar, onde o mísero Quicé acabava de cair às focinhadas dos porcos. Abarcando-lhe o crânio com a mão robusta, o capanga arremessou-o longe, de um boléu, como faria com uma pedra.

- Foje, bruto! disse ele à ossada que varava pelos ares e que estalou entre os seus dedos.

E com a faca de ponta que um instante segurava nos dentes para dispor da destra, começou a degolar e estripar os queixadas que o atacavam mais de perto e com sanha terrível. Era muitos, porém; e toda sua pasmosa agilidade não bastava para resistir ao aluvião de feras que sobre ele crescia, assaltando-o por qualquer lado com redobrado furor.

Entretanto, pai Quicé, caindo a vinte passos, onde o pinchara Jão, embora meio desconjuntado com o tombo, tinha-se arrastado para a árvore, e pode a muito custo içar-se pela rama a um galho mais rateiro, onde contudo estava a abrigo dos temíveis queixadas, que lhe tinham retalhado o couro relho das canelas.

Aí refocilando na refocilando na egoística satisfação de se ver a salvo do perigo, que ameaçava a outros, o paizinho contemplava o combate de Jão Fera com os queixadas, como se fosse uma divertida caçada.

Quando, porém, mais recobrado do abalo reparou na multidão dos animais bravios que envolviam o capanga, e na raiva com que investiam, o negro velho prevendo uma desgraça teve pena, e lançou os olhos ao redor com ânsia, buscando a esperança de um socorro que ele, débil e alquebrado, não podia dar.

Com efeito, já o sangue de Jão corria dos golpes, que recebera nas pernas, e embora cada um tivesse custado a vida a muitos inimigos, outros sucediam-se, e outros, sem a menor intermitência. Era um ferir sem cessar.

Por vezes quis o capanga servir-se da mão esquerda, recomendando a Berta que se agarrasse aos ombros; mas curvado como estava para alcançar o rasteiro inimigo, e com a menina atravessada aos ombros para subtraí-la ao furor de algum queixada, não se animara: temia que em momento de susto, ela escorregasse ao chão.

- Nhazinha! disse Jão de chofre esfaqueando sempre. Tire na minha cintura a garrucha.

Com a sua habitual vivacidade e petulância dobrou-se Berta pela espádua do capanga, para arrancar-lhe da cinta a pistola, que forcejou armar, porém não conseguiu.

- Como é, Jão?

- Ponha na minha boca, Nhazinha!

Armou o capanga a pistola com os dentes; e arrebatando-a rapidamente da mão de Berta, desfechou sobre os queixadas um tiro à queima-roupa, que os fez recuar de terror.

Aproveitou-se Jão desse momento para romper o círculo de navalhas que o ameaçava e precipitar-se pelo campo fora, em busca da árvore.

Mas os queixadas, passado o primeiro estupor, arremeteram de novo na furiosa avançada.

Capítulo XI
A furna

Em meio da penha, que atravessava a mata virgem, por entre o embastido da folhagem, fendia-se a estreita boca de uma caverna.

Era a furna de Jão Fera.

Não tinha essa caverna traços de primitiva formação, quando o fogo subterrâneo vazara o esqueleto granítico daquele fraguedo; nem mesmo provinha de algum aleijão vulcânico, desses que às vezes subvertem as entranhas da terra.

Antigamente o que havia ali era apenas uma grande laje, entalada na garganta do rochedo.

Uma semente de jetaí, trazida pelo vento, caiu aí numa greta da pedra e brotou. Cresceu a vergôntea, mas encontrou a escarpa saliente da rocha que lhe ficava sobranceira, e foi insinuando-se por uma brecha do alcantil.

Estorcendo-se como um cipó de umbê, para acompanhar as sinuosidades do estreito lisim, afinal surdiu fora no alto do penhasco. Apesar de comprimido entre a escacha da rocha, o cepo nutrido pelo humo exuberante que depositava sobre a laje o enxurro do monte, medrou, inseriu-se por todas as fisgas de pedra, e fez-se tronco.

Um dia estalou o penhasco; e subitamente escalado, um estilhaço do alcantil rolou sobre a laje. Amparada de um lado pela curva do tronco, e do outro retida por uma aresta da fronteira escarpa, a grande lasca ficou suspensa na altura de alguns pés, formando assim a abóbada da gruta, fechada em torno pelos rochedos abruptos.

Como uma poderosa alavanca trabalhara o tronco robusto do jetaí durante longos anos para escalar o penedo; mas este, por sua vez, caindo sobre o rijo madeiro, começou a verga-lo sob o peso enorme.

Resistiu a árvore por muito tempo; afinal a sua copa frondosa que ensombrava a caverna reclinou-se para o abismo, onde não tardaria a despenhar-se, arrastando-a, o estilhaço que ela escachara do rochedo e sustinha aos ombros.

Foi então que Jão Fera, à procura de um esconderijo, descobriu a caverna, e querendo conserva-la, atochou uma pedra roliça entre a laje e o jetaí, justamente por baixo do ponto onde assentava a abóbada.

Desse modo, enchendo o vácuo que havia sob a volta do tronco tortuoso, e pondo-lhe uma escora, mantivera o capanga suspensa a grande lasca de rochedo; mas o seixo que servia de esteio, podia a cada instante com o peso romper-se ou escorregar esbarrondando a gruta.

Longe de inquietar, esta circunstância agradou ao Bugre, que dela se aproveitara para a sua segurança, como ele a entendia.

Deitado na cama feita apenas de molhos de sapé estendidos sobre a champa, Jão Fera com a cabeça na escabrura musgosa do rochedo que lhe servia de almofada, via pela fresta da caverna quanto passava nas faldas como nos píncaros do penhasco.

Quando por fatalidade o ameaçasse em seu covil tal força armada que lhe tirasse os meios de salvação, no último transe, perdida toda a esperança, bastar-lhe-ia deitado como estava meter o pé com força no seixo, para que este rolasse e partindo-se o tronco, o estilhaço tombasse esmagando-o a ele e a seus inimigos.

Se antes, enquanto dormia tranqüilo, a pedra se deslocasse com a dilatação do tronco, ou se aluísse a base sobre que assentava, nenhum cuidado lhe dava isso. Para ele, Jão, a vida fora sempre um contínuo perigo; sua índole precisava desse estímulo.

Poucos momentos depois da luta que travara com os caititus, chegava o Bugre à falda do rochedo, em cujo flanco estava a sua furna. Com alguns tiros mais conseguira livrar-se do bando de queixadas; e como um possesso deitara a correr para ali, em vez de refugiar-se em alguma das árvores próximas.

Atordoada com a velocidade da carreira e tomada ainda pelo susto do perigo a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistência, até que ele parou no sopé do rochedo.

Então desprendendo-se de seus braços e travando-lhe das mãos com veemência, exclamou:

- Querem-no prender, Jão! Fuja! Eles não tardam!

O capanga levantou os ombros desdenhosamente, e fazendo menção de afastar-se, todavia parou a alguma distância, como se mão invisível lhe sofreasse a vontade. Assim permaneceu com o corpo lançado, a fronte abatida, e a mão fechada a calcar o peito revesso.

- Você não tem medo? replicou a menina vendo-o parado.

- Medo!... murmurou o Bugre. Eu tenho mesmo! E muito!

Com efeito bambeavam os músculos dessa organização vigorosa e atlética; tremiam-lhe as curvas, e todo ele mostrava-se abalado por grande pavor, que derramava em suas feições e no seu gesto uma espécie de alucinação. Parecia que o assombrava temerosa visão ou que o esvairava algum horroroso pensamento.

- Jão, eu lhe peço, Jão, fuja!

- Sim... sim... balbuciou o capanga. Eu queria fugir... para bem longe... Mas não posso! Não!

- Meu Deus, que tem você?

Esta exclamação, a arrancara dos lábios da menina o espanto causado pelo aspecto medonho do Bugre que voltara-se arrebatadamente e cravara nela um olhar ardente e sombrio, como a cratera de um vulcão.

Mal pensava Berta que naquele momento a ameaçava outra fera mais horrenda, do que não era a terrível cascavel fascinada por ela, e os sanhudos queixadas a cujas presas escapara um momento antes.

Seria então meio-dia.

A terra abrasada pelo sol exalava o bafo incandescente de uma fornalha; e contudo sentia Jão Fera correr-lhe pela medula um calafrio. O contato do corpo gentil de Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava que ferve no meio dos píncaros gelados dos Andes.

Tinha ímpetos de atirar-se a Berta e só por um esforço inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as formas encantadoras; mas ele abaixava a cabeça para não encontrar os olhos límpidos da menina, onde irradiava uma alma tão pura.

Finalmente arfou o Bugre, sacudindo as robustas espáduas como um homem que dum arranco extremo rompe as cadeias que o prendem.

Depois fechou os olhos e avançou.

Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV à Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII à Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII à Capítulo XXIX
Capítulo XXX e Capítulo XXXI