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Til
José de Alencar

 


Capítulo XX
O samba

À direita do terreiro, adumbra-se na escuridão um maciço de construções, ao qual às vezes recortam no azul do céu os trêmulos vislumbres das labaredas fustigadas pelo vento.

Do centro dessa mole negra surge um longo penacho de fumaça, cujo cabo se tinge de escarlate com as línguas da chama quando ala-se. Escapa-se também um borborinho formado não só pelos ressolhos da labareda e crepitações da lenha, como por vozeio e vivas d'envolta com os retumbos soturnos do jongo.

É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d'armas.

Em torno da fogueira, já esbarrondada pelo chão, que ela cobriu de brasido e cinzas, danças os pretos o samba com um frenesi que toca o delírio. Não se descreve, nem se imagina esse desesperado saracoteio, no qual todo o corpo estremece, pula, sacode, gira, bamboleia, como se quisesse desgrudar-se.

Tudo salta, até os crioulinhos que esperneiam no cangote das mães, ou se enrolam nas saias das raparigas. Os mais taludos viram cambalhotas e pincham à guisa de sapos em roda do terreiro. Um desses corta jaca no espinhaço do pai, negro fornido, que não sabendo mais como desconjuntar-se, atirou consigo ao chão e começou de rabanar como um peixe em seco.

No furor causado pelo remexido infernal, alguns negros arremetiam contra a fogueira e sapateiam em cima do borralho ardente, a escorrer do braseiro.

Entre estes o primeiro e o mais endiabrado, foi Monjolo; tomando por sua parceira de batuque a própria fogueira, atirou-lhe tais embigadas, que a pilha de lenha derreou e foi esboroando-se. Entretanto o negrinho, a requebrar-se, abria o queixo e atroava os ares com esta cantiga:

Candonga, deixa de partes
É melhor desenganar,
Que este negro da carepa
Não há fogo pra queimar.

Salvo os rr finais que ele engolia e os ll afogados em um hiato fanhoso, tudo o mais era produção do estro africano e da sua veia de improviso.

Uma grossa anca resvalara da fogueira com as embigadas e viera cair junto aos pés cambaios do negro, que saltando-lhe em cima com ímpetos de possesso, começou de moer as brasas com os calcanhares, berrando:

Monjolinho soca milho
Bem socado, pa-ta-pá!
O mamãe, que dê a gamela
Pra juntar este fubá!
Tuque, tuque, tuque, tuque,
Tuque, tuque, zuque, zuque.(1)

(1) Mamãe - chamam os escravos da roça as pretas rancheiras que preparam a comida.

De vez em quando o garrafão de cachaça corria a roda. Cada um depois de mil trejeitos e negaças dava-lhe o seu chupão, e fazendo estalar a língua repinicava o saracoteio.

À parte, junto a um dos portões e sob o alpendre das tulhas que ficam a um canto do quadrado, estão em grupo os feitores e camaradas; uns de pé, arrimados aos esteios, outros sentados no pranchão que serve de soleira.

O Mandu arranha na viola uma chula, e o Pereira acompanha o toque com repentes que lhe acodem, enquanto os outros contam façanhas de caipira e vão-se impingindo limpamente um par de formidáveis carapetões.

Bem desejavam os sujeitos entrar na súcia e fazer uma perna no batuque; mas, impedidos pela disciplina da fazenda, contentam-se em olhar de fora e engraçar com as crioulas, que às vezes saem da roda para vir trocar lérias e receber, em paga dos milhos assados e batatas, algum descante neste gosto:

Não como inhame cozido;
Não gosto de milho assado;
Quem me quiser derretido
Me dê mendubi torrado.

Uma preta, porém, ali estava, que decerto não fora trazida por aquele motivo, pois recostada ao frontal do portão, com os olhos voltados amiúde para o lado da casa de morada do senhor, ouvia distraída as chalaças dos capangas.

Essa preta é a Florência: uma estátua de Juno, toscamente lavrada em mármore negro, e coberta com um cabeção de renda que lhe mostra o colo, e uma saia de riscado caída até o meio da perna musculosa.

O Mandu logo que ela chegara, atirou-lhe este mote.

Casca preta, bago branco,
Mas arde que não se agüenta:
Huê, que visaje é esta,
A fruita virou pimenta? (1)

(1) Fruta em São Paulo é a jabuticaba, pela sua excelência. Alguns dizem aportuguesadamente fruita.

- Qual, disse o Pereira. A moça está com sentido no pajem.

- Ora menina, deixe-se disso. O patife do Amâncio não vem cá!

- Está lá ao cheiro da cozinha! acudiu outro.

A crioula mordeu os beiços de cólera; e começou de rufar os dedos nas grades do portão. Quase ao mesmo tempo destacou na sombra um vulto, no qual logo se reconheceu o mulato.

- Não vem! exclamou a Florência voltando-se com ar exultante para os caipiras e mostrando-lhes o pajem.

- Como vai o pagode, por cá? disse o Amâncio.

Disfarçadamente a crioula arredou-se do grupo dos capangas, e encaminhou-se para a roda do batuque, lançando um olhar ao pajem. Não estava ainda de todo satisfeito o seu gostinho, que era fazer o Amâncio cair no samba rasgado.

Que triunfo para ela, negra da roça, se humilhasse a mucama Rosa, sua altiva rival.

Hesitou o mulato algum tempo, receoso de derrogar de sua nobreza de pajem misturando-se com a ralé da enxada, até que rendido pelos lascivos requebros da crioula, que já se espreguiçava ao som do urucungo, saltou no batuque.

No mais forte sapateado, porém, sentiu o pajem que lhe travavam da gola da jaqueta; e puxado para fora da roda com força, achou-se em face da mucama Rosa, que viera arranca-lo da dança, furente de ciúmes.

As duas rivais se afrontaram com o olhar, por diante da cara desfaçada do mulato. Os alvos dentes de Rosa brilharam engastados em um riso de escárneo, que lhe arregaçava os lábios carnudos, e dentre as fendas dos incisores partiu um rápido esguicho, que bateu em cheio na cara da outra.

Foi pronta a réplica de Florência. Vibrando no ar o braço habituado a manejar a enxada espalmou a mão na bochecha da mucama, que titubeou e decerto iria ao chão a não ampara-la o mulato.

Amâncio à vista do bofetão decidiu-se pela Rosa, e atirou à Florência uma cabeçada. Mas a preta agarrou-o pelos cabelos; e ele apertou-lhe as goelas a fim de livrar-se das garras daquela fúria. Entretanto a Rosa ferrava os dentes no ombro da rival, que defendia-se aos pontapés.

Os pretos da roça acudiram à sua parceira, insultada pela cambada de pajens e mucamas. Os capangas tomaram o partido de Amâncio por uma espécie de coleguismo; e assim tornou-se geral o banzé.

Agachado no meio do terreiro, bebendo seu pito, Monjolo que se retirara do batuque, observava com viva agitação aquela cena. Seus olhos saltados das órbitas, como dois lagartos negros quando pulam da toca, devoravam com uma volúpia feroz a figura de Rosa.

Felizmente acudiu o Faustino que ajudado de outros pajens, arrancou a mucama do sarilho; e levou-a à força para a casa.

À porta do administrador batia a sineta o toque de recolher.


Capítulo XXI
O incêndio

Terminara a festa.

A escuridão profunda de uma noite brumosa envolve a casa das Palmas e os edifícios adjacentes.

Do borralho acamado sobre as extintas fogueiras apenas escapam raras fagulhas, que esfoliam-se no ar e se apagam.

Soa ao longe tropel de animais, intercalado às vezes por trechos de alegre descante. São ranchos de convidados que tornam às casas.

Da várzea, entre o zumbir dos insetos noturnos, perpassavam nos sopros da brisa as rascas da viola, que à porta da palhoça ainda arranhava por despedida algum caipira saudoso.

Pouco mais era de meia-noite. A função que prometia prolongar-se até lá pela madrugada, esfriara de repente, com bastante pesar dos velhos comilões, os quais não puderam atolar-se na lauta ceia, pois o tempo mal lhes chegou para fartarem-se uma só vez de cada prato.

Ferida nas duas cordas mais delicadas de seu coração, no amor de esposa e mãe, D. Ermelinda, apesar de grande esforço e do habitual disfarce que o trato da boa sociedade prescreve como regra de cortesia, não pode abafar a tristeza que lhe transbordava dos seios d'alma.

O amortecimento das maneiras afáveis e da graciosa amabilidade da dona da casa derramou nos convidados um súbito constrangimento; a festa perdeu desde logo a sua expansiva alegria; os mais desconfiados, ou os mais paulistas, cuidaram em retirar-se, que não acharam a costumada e carinhosa resistência.

Então começou a debandada. Ainda tentou Luís Galvão reanimar a folia; mas um olhar de sua mulher e o abatimento que se pintava em seu gesto, o demoveu logo do propósito de reter os amigos e prolongar os folguedos.

Já todos se haviam acomodado para dormir; só D. Ermelinda, com o mesmo traje da festa, que não despira ainda, velava imóvel no seu toucador.

Atirada ao fundo de um sofá, na sombra que projetava um vaso de porcelana colocado diante da vela para quebrar a luz, tinha os olhos ficos na imagem de N. S. das Dores, que se via sobre a cômoda em um nicho de jacarandá.

Talvez pedisse à Mãe de Deus, à divina consoladora dos aflitos, um conforto para sua alma, atribulada naquele instante por pensamentos que a enchiam de horror e angústia.

Nunca passara pela mente de D. Ermelinda pedir a seu marido contas de um passado que não lhe pertencia, e até por melindre natural evitara sempre folhear aquela página da mocidade de Luís Galvão. Advertia-lhe o coração das desilusões que ali a aguradavam; e por isso preservara a sua ignorância como um véu protetor contra as suscetibilidades e zelos de sua alma.

Subitamente, porém, quando menos esperava, surge-lhe aquele passado, dentre as alegrias de uma festa, e lança em seu espírito uma certeza fatal, a que por muitos anos e tão cuidadosamente se esquivara.

E sobre esse golpe, outro ainda mais cruel talvez para almas como a sua, apuradas por uma suprema delicadeza e uma esquisita sensibilidade. A forma rude e baixa por que se tinha revelado o passado de Galvão, sobretudo a magoou profundamente.

Se lhe contassem da mocidade de seu marido alguma afeição pura e generosa, no meio do seu desencanto, teria ao menos o doce consolo de haver delido d'alma de Luís aquela imagem querida, gravando sobre ela a sua.

Mas a notícia de uma aventura galante, própria de um libertino, além de arranca-la à querida ilusão de ter sido o primeiro amor, lhe derramara n'alma uma agrura, como nunca sentira.

O caráter que até ali respeitara, descia de repente em seu conceito; e ela enchia-se de pavor quando sua imaginação, exaltada pelo sofrimento, lhe abria as profundezas insondáveis onde podia se precipitar o homem a quem ligara sua sorte.

Depois, por uma natural associação, recordando-se da intimidade de Linda com Miguel, no coração da mãe caíam as gotas acerbas que vazavam do coração da esposa. Pensava D. Ermelinda, que a filha criada por ela com tanto esmero, sucumbia à fatalidade e ia arrastada por um pendor irresistível, que o pai lhe transmitira de herança.

Assim como Luís uma vez deslizara da honra que pautara sempre os atos de sua vida, e a nobreza de seu caráter se eclipsara ante a sedução de uma moça, Linda cuja alma ela se comprazera em colocar numa esfera elevada, se inclinava a um rapaz de posição muito inferior.

E aqui a sua fantasia, convolvendo as torturas da esposa com ânsias de mãe, esvairava por modo que ela, espavorida de sua própria mente e não podendo sofreá-la, asilava-se contra esse delírio numa oração fervente a Nossa Senhora.

Luís Galvão, inquieto com a demora da mulher, a chamara; e, não recebendo resposta, veio acha-la na mesma posição.

- Que tem você, Ermelinda?

Estremeceu a senhora; e toda ela pulsou, como se a dor que tinha calcado dentro da alma se agitasse para refluir aos lábios. Mas a boca descerrando-se deixou escapar apenas um ofego, e ficou muda.

A palavra é estreita para dar passagem às mágoas amassadas no coração, quando se arremessam no primeiro ímpeto e de um só jato.

- Nada! respondeu D. Ermelinda.

- Por que não se deita?

Nesse instante repercutiu no aposento o som de três pancadas fortes, secas e breves, dadas rapidamente uma sobre outra.

Abriu Galvão a janela do canto, que ficava na ala direita do edifício, para observar o terreiro, donde viera o estrépito. Mas este cessara bruscamente com a última pancada; e o silêncio de todo se restabelecera.

Debruçando-se à janela, o fazendeiro lobrigou uma sombra que parecia resvalar ao longo da parede.

- Quem está aí?

Não houve resposta. Julgando ter-se enganado em tomar por vulto humano o vôo de um morcego ou qualquer outro pássaro noturno, ainda mais o convenceu disso um guincho de curiau, que estrugiu para o lado da senzala.

Não se enganara, porém, o fazendeiro. Foi de fato um homem, que se coseu à parede e se encaixou no vão de uma porta, onde permanecia imóvel e esticado para dissimular a saliência do corpo.

Tendo fechado por fora os pajens e capangas no repartimento que eles ocupavam, cuidou Faustino de impedir-lhes a saída por uma das janelas que não tinha grades. Para esse fim munido dos instrumentos necessários, encostou-se a ela para prega-la.

A esse tempo arrumava-se ao muro uma trouxa negra que avançara pelo terreiro aos pinchos como um sapo. Era o Monjolo que já havia furtado as chaves da senzala e vinha ter com o pajem.

O africano ruminava a idéia de suprimir desde logo o Faustino, a fim de lograr ele só os proventos do trama. Naquele curto instante correu o pajem sério perigo de que o salvou o rumor da janela ao abrir-se.

Afastando-se ligeiro para a senzala, soltou o Monjolo o guincho que tranqüilizou o fazendeiro, e entretanto era o sinal do trama sinistro.

Acabava Luís Galvão de correr o trinco da janela quando no canavial a primeira labareda se arremessou nos ares, enroscando-se como uma serpente de fogo.

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Capítulo IV à Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII à Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII à Capítulo XXIX
Capítulo XXX e Capítulo XXXI