Til
José de Alencar
Capítulo XVIII
Revelação
Berta erguera-se,
relanceando em torno um olhar sôfrego.
O que procurava
ela?
Um brinco, um
prazer, uma alegria, onde se refugiasse da tristeza que ia apoderar-se
de sua alma. Mas, no meio daquela festa que a envolvia, ela sempre
tão jovial, ela em cujo lábio o sorriso borbulhava
como onda perene, não encontrou um folguedo que a atraísse.
Descobrira,
porém, acocorado contra o ressalto do alicerce, Brás,
que roia um sabugo de milho assado, cujo grão já tinha
devorado. Nessa ocupação, esgrimindo os queixos e
coaxando a língua, não desprendia ele os olhos do
rosto de Berta, cuja melancolia se refletia na obscuridade de sua
alma, como se reflete na face da terra a sombra da nuvem que intercepta
os raios do sol.
Chegou-se a
menina pressurosa para junto do idiota; o conforto, que não
encontrara nas folias que a cercavam, ali estava na afeição
generosa e compassiva que lhe inspirava aquela mísera criatura.
O desânimo a invadira, acreditando estar só no mundo;
mas já não o sentia, pois sua alma tinha ainda uma
dedicação para a ocupar, e sacrifícios em que
derramasse os mananciais inexauríveis de sua bondade e ternura.
Afagou o idiota
com as palavras meigas, de que seu lábio tinha o condão;
e ficou ao seu lado para o consolar do isolamento em que o deixavam.
Já que não podia caber àquele ente infeliz
outro quinhão nessa noite de tamanho regozijo para todos,
ao menos lhe reservava ela seu carinho.
Não se
teve, porém, a menina que não volvesse outra vez os
olhos para o lindo grupo formado pelos dois namorados. Linda, com
os estremecimentos íntimos da planta que a manhã orvalha,
e a fronte de leve pendida, embebia-se na palavra apaixonada de
Miguel, que reclinava-se por detrás da haste da palmeira
para falar-lhe ao ouvido.
De novo aflou
o seio de Berta com um suspiro, que ela, como ao primeiro, recalcou;
mas já não pode desprender o pensamento das cismas
em que se enleara, a ponto que não viu o Brás esgueirar-se
pela sombra e sumir-se.
Que passava
na alma da menina?
Não fora
ela quem aproximara Miguel de Linda, e com admirável paciência
durante meses urdira a teia delicada que envolvia os dois namorados?
Não era
obra sua esse amor, que ela própria embalara como um filho
querido, nutrindo-o de suas carícias, enfeitando-o com seus
encantos, vivendo e sorrindo-se nele?
Como agora,
obtido o êxito de seus desvelos incessantes, em vez da satisfação
de ver realizado um voto querido, confrangia-se-lhe o coração
com o quadro suave do mútuo afeto, que ainda naquela manhã
luzia-lhe na imaginação qual doce esperança?
Parecerá
excêntrica e até incompreensível esta situação
da alma de Berta naquele instante: entretanto nada mais lógico
e natural.
Tinha a menina
por Miguel uma dessas afeições de infância,
puras, calmas e serenas, primeiros botões, dos quais ninguém
sabe que flor vai sair, se uma doce amizade, se uma paixão
ardente.
Adivinhando
um dia que Linda gostava do moço, em vez de zelos sentiu
contentamento de ver querido seu irmão de leite e companheiro
de infância. Talvez que ela com sua ingênua admiração
bafejasse, no coração da amiga, aquele afeto nascente,
retocando com os lumes de sua graça o nobre perfil do mancebo.
A natural esquivança
de Miguel trouxe as desconsolações de Linda, que se
julgava desdenhada, e vertia no seio da amiga a confidência
dessas mágoas. Agoniava-se Berta com essas névoas
de melancolia, que ensombravam a fronte da moça; e, para
desvanece-las, ia pedir um olhar, uma palavra ao mancebo.
Apesar de ter
recebido uma instrução regular, que sua inteligência
brilhante desenvolvia com o estudo possível ao lugar onde
habitava e às suas condições de fortuna, conservava
Miguel certos hábitos que, durante a infância, se incrustam
na individualidade, da qual dificilmente os arranca mais tarde a
própria vontade.
Esses cacoetes
de caipira molestavam o tato delicado de Linda, a quem a educação
esmerada, que recebera de sua mãe, dera a fina flor das maneiras
e imprimira o tom da mais pura elegância.
Quando Miguel
a tratava de mecê, ou enrolava diante dela a palha de um cigarro,
o coração da menina apertava-se com agastura indescritível,
e ela sofria desgosto igual ao que lhe causaria uma nódoa
caindo no mais bonito e faceiro de seus vestidos.
A repetição
dessas pequenas decepções acabaria sem dúvida
por delir completamente n'alma de Linda a imagem de Miguel. Berta
o percebeu, e desde então empenhou-se em desbastar as asperezas
que magoavam o melindre da filha de D. Ermelinda.
Não lhe
era difícil transmitir os toques da elegância que,
ao contato de Linda, prontamente se comunicara à sua alma,
de tão pura gema como a dela, embora não a polisse
o amor de mãe prendada e rica.
A dificuldade
estava em sofrer o gênio esquivo de Miguel esse desbaste de
costumes e maneiras, que se tinham impregnado em sua natureza, que
faziam parte de sua pessoa, e o tinham formado à semelhança
de seus patrícios e camaradas. Mudar esses modos era quase
renegar o exemplo de seu pai, as tradições de sua
terra, e envergonhar-se de ser paulista, o que bem ao contrário
lhe inspirava um justo orgulho.
Não resistiram,
porém, estas suscetibilidades ao encanto de Berta. Soube
ela provar a Miguel que, antes de ser paulista da gema, era homem
e devia render preito à beleza e ao capricho da mulher. Com
que raciocínios chegou a essa conclusão, bem se adivinha;
o cérebro feminino é uma roda movida pela manivela
do coração.
Nessa metamorfose
de Miguel, cuidou Berta que apenas a movia o desejo de contentar
Linda; mas, sem o sentir, era também levada pelo prazer recôndito
de ver seu irmão de leite subir na estima geral e primar
entre os outros moços.
Queria-lhe muito
bem, a ele, como era então; porém, mais lhe havia
de querer, quando fosse o que ela desejava.
Tudo isso fizera
Berta para que Miguel e Linda se amassem; fora ela quem, diligente
abelha, fabricara, sugando as flores de sua alma, aquele mel perfumado,
de que os dois amantes libavam a fina essência.
Mas iludira-se!
Enquanto aquele
amor fluía e refluía nela, como uma onda que banhava
seu coração; enquanto Linda e Miguel se queriam dentro
de sua alma, através de seu olhar ou de seu sorriso, identificara-se
por tal forma com essa afeição, que a sentia duplamente,
por si e pela amiga.
Era ela quem
amava Miguel; mas por Linda. Era Linda a quem Miguel amava; mas
na pessoa dela, Berta.
Agora que na
delícia das primeiras efusões, nesse egoísmo
sublime do amante que se convolve em si para dar-se todo ao objeto
amado; quando Miguel e Linda a esqueciam, e, absorvidos no mútuo
afeto, a deixavam só, erma de seu pensamento, órfã
de seu mútuo afeto, ela suspirava.
E esse suspiro
era a tímida confidência que lhe fazia o coração,
de um amor que ela sentia pela vez primeira, no momento de o perder
para sempre!
- Agora vou
eu! gritou Afonso perto do mastro.
Ao mesmo tempo
soava o alarido dos rapazes, e Berta corria arrebatadamente para
Linda.
Alguma coisa
de extraordinário sucedera.
Capítulo
XIX
A
lágrima
No vão
de uma janela conversava Luís Galvão com alguns de
seus convidados, entre os quais havia mais de um antigo camarada,
rapaz de seu tempo.
Voltados para
o terreiro, observavam de longe as folias, de que tinham saudades;
e muitos porventura invejavam ainda aos moços o prazer das
estrepolias, que já lhes permitiam a gravidade dos anos e
a rijeza dos músculos.
- O Afonso é
endiabrado!
- Tem a quem
sair.
- Oh! Se tem!
Cá o Luís foi de truz!
- Um maganão
chapado!
- Como se enganam!
retorquiu Luís a rir. Sempre fui da pacata!
- Da sonsa,
talvez!
- O que sei
é que no nosso tempo ninguém punha pé em ramo
verde!
- Mas não
pescava senão peixões.
- Que história
estão vocês aí a inventar? tornou o fazendeiro
com disfarce.
- E a filha
do Guedes, lembra-se?
- A que o marido
abandonou?
- A Besita,
sim!
- Essa não!
exclamou involuntariamente Galvão contrariado.
- Ora negue!
Antes e depois.
- Do parto?
- Do casamento!
- Que tal o
cujo? exclamaram diversos.
Uma risada geral
acolheu a pilhéria, que perturbou o fazendeiro.
- Mudemos de
conversa! disse ele com algum vexame.
D. Ermelinda
que se tinha aproximado da janela vizinha, à procura da filha,
apanhara aquele trecho de conversa; e teve um aperto de coração.
Esquecendo-se
do que a trouxe à janela, submergiu-se em uma triste cogitação,
com a face apoiada na palma da mão; nem viu mais o que se
passava no terreiro, ali quase em face dela.
Miguel continuava
a falar a Linda, sobre coisas indiferentes. Mas não escutava
a menina essas palavras sem sentido naquele momento: toda ela repassava-se
da voz palpitante que penetrava-lhe a alma como a suave melodia
de um hino de amor.
Avistara Berta
a figura de D. Ermelinda; e receando estranhasse ela a intimidade
que tão rapidamente se estabelecera entre a filha e Miguel,
correra para disfarçadamente avisar à amiga da presença
da mãe, e evitar assim aos dois namorados uma contrariedade.
Outra vez se
esquecia de si para lembrar-se de Linda? Ou sua alma generosa desforrava-se
por aquele modo, com mais um impulso de abnegação,
do esquecimento dos dois amantes?
Foi nessa mesma
ocasião que soara o clamor dos rapazes junto ao mastro, o
qual oscilava com fortes vibrações e ameaçava
partir-se ou arrancar-se do chão, ao peso excessivo que de
repente lhe carregara a ponta.
No momento em
que Afonso chegava-se para tentar a subida, o pinheiro estremecera
violentamente abalado; e os rapazes surpresos descobriram o Brás
encarapitado no cimo a que se agarrava com unhas e dentes.
O isolamento
e a melancolia de Berta haviam impressionado o idiota, que ruminou
em seu bestunto sobre a causa dessa mudança. O rude engrolo
de idéias que amassou no cérebro grosseiro, não
obteria ele jamais exprimir; nem é possível descreve-lo,
A maior alegria
era junto do mastro onde galhofavam os rapazes, e as moças
palpitavam à espera da prenda que seu apaixonado alcançaria
para ofertar-lhe. Til se afastara e parecia triste; ela, sempre
travessa e contente. Devia de ser porque também cobiçava
as galanterias que estavam no cabaz preso à ponta do mastro.
Desde então
a animalidade do estafermo se resumiu em um só desejo, que
tornou-se em ânsia ou desespero de subir ao tope do mastro.
Mas como, se ele não se animava a aproximar-se da roda dos
rapazes, com receio da vaia que sofreria? Além de que, bem
sabia que suas pernas trôpegas não eram para aquele
árduo esforço.
Surdiu-lhe uma
lembrança. As janelas do mirante ficavam sobranceiras ao
tope do mastro, e a última delas justamente defronte, embora
em distância que um homem ágil não poderia transpor
de um salto.
Que lhe importava!
Ele era um louco; e, para levar ao cabo temeridades desse jaez,
tinha a grande vantagem de sua brutalidade. Aproveitando-se da distração
de Berta, escapou-se de seu lado; sorrateiro ganhou o interior da
casa e subiu ao mirante.
Contava com
as alças das canastras de Galvão, chegado à
tarde de Campinas. Atou uma das cordas à dobradiça
da janela, e seguro às pontas, saltou fora, empurrando-se
da parede com os pés e embalando-se nos ares.
Em um dos vaivens,
soltando a corda, pode abarcar o tope do mastro, e coroa-lo com
o improvisado cocuruto que encheu de pasmo aos rapazes; mas arrancou-lhes
depois boas gargalhadas.
Com a força
do arremesso, o mastro percutido até a base cambou, e sem
dúvida iria ao chão, esmagando o Brás na queda,
se Miguel advertido pelo alarido, não visse o perigo e corresse
ainda a tempo de evita-lo.
Em risco de
ser também esmagado, o moço escorou com os braços
o pesado madeiro, que tombava, e deu tempo a que os outros rapazes,
rompendo o enleio do espanto, e animados pelo exemplo, sustivessem
o seu esforço.
Já, porém,
o Brás, que havia escorregado até o meio do mastro,
se deixara cair no terreiro, e corria para Berta com as mãos
cheias de flores e mimos, que havia conquistado com a sua temeridade.
Estava Berta
junto de Linda, a quem arrancara de seu doce enlevo; mas não
a tempo de evitar que a mãe percebesse a sua intimidade com
Miguel. D. Ermelinda descobrira os dois namorados, justamente quando
Miguel beijava outra vez com fervor o cravo branco, e a mão
mimosa de Linda, querendo tomar a flor, deixava-se colher entre
as mãos trêmulas do moço.
Despertada como
a dos outros pela algazarra, a atenção de Berta se
voltara para o mastro, onde passava o incidente, que ela acompanhou
com ansiedade. Quando em face dela parou o Brás, que mal
se podia suster de comoção, e lhe estendia desgarradamente
as mãos cheias de prendas, sem força de balbuciar
uma palavra, o coração da menina exultou.
O aborto humano;
a figura estrambótica e ridícula; o monstrengo, caíra
como o disfarce do arlequim, e descobrira a feição
mais nobre da criatura. O que Berta viu foi um coração,
e maior ainda e mais sublime, no seio da brutalidade que o constringia.
Abraçou
a menina com veemência ao pobre sandeu, e sentindo úmida
a face, enxugou nos pelos ásperos da ruiva melena uma gota
que empanara o brilho de seus olhos cintilantes. Outras havia chorado,
mas foram bolhas d'água: lágrima, era aquela a primeira.
Depois começou
ela a enfeitar-se com as flores que lhe trouxera o idiota, prendendo-as
pelo talho do vestido e entrelaçando-as nos cabelos. Não
trocaria nesse momento os arroubos que, havia pouco, invejara a
Linda, pelo júbilo dessa tosca demonstração
de um amor, que não tinha para exprimi-lo senão os
esgares de um parvo, e cujo sorriso era um repulsivo engrimanço.
Adivinhava-lhe
o instinto que não havia afeto mais puro, extreme e sincero
do que o desse coração trancado a todas as ilusões
do mundo, o desse afeto de uma alma que abortara?
Linda, que observava
sorrindo a faceirice de Berta e a ajudava a prender as flores nos
cabelos, voltou-se à voz de sua mãe:
- Faça
o favor de não sair mais da sala, minha filha, disse D. Ermelinda.
Velava o olhar
e a voz da senhora um ressumbro de triste severidade, que anuviou
o coração de Linda.
Nesse instante
um foguete que rasou a terra, listrando na escuridão da noite
uma faixa de luz, destacou ao longe na fímbria da mata um
vulto de homem.
Berta reconheceu
Jão Fera.