Til
José de Alencar
Capítulo XVI
São
João
No terreiro
das Palmas arde a grande fogueira.
É noite
de São João.
Noite das sortes
consoladoras, dos folguedos ao relento, dos brincados misteriosos.
Noite das ceias
opíparas, dos roletes de cana, dos milhos assados e tantos
outros regalos.
Noite, enfim,
dos mastros enramados, dos fogos de artifício, dos logros
e estrepolias.
Outrora, na
infância deste século, já caquético,
tu eras festa de amor e da gulodice, o enlevo dos namorados, dos
comilões e dos meninos, que arremedavam uns e outros.
As alas da labareda
voluteando pelos ares como um nastro de fitas vermelhas que farfalham
ao vento na riçada cabeça de linda caipira, derramam
pelo terreiro o prazer e o contentamento.
Não há
para alegrar a gente, como o fogo. Nos estalidos da labareda, nas
faíscas chispando pelos ares, nas vivas ondulações
da chama a crepitar, há como um riso expansivo que se comunica
à nossa alma e influi nela uma trepidação brilhante.
A luz é
a vida; mas a chama é o júbilo, a cintilação
do espírito.
Formosa perspectiva
tem neste momento a fachada da casa das Palmas, assim iluminada
pela fogueira.
Uma linha de
jeribás corre-lhe em frente, moldurando com as verdes arcadas
a volta das janelas, o que dá ao edifício graça
e chiste especial; pois enfeita a simples arquitetura com os florões
e recortes das palmeiras.
A meio terreiro,
de um e outro lado da fogueira, se elevam dois mastros, pintados
com listrar de escarlate e branco, traçadas em espiral.
No tope do outro
mastro uma grande bola, sobre a qual ergue-se vistosa boneca de
pano, naturalmente cheia de pólvora.
A festa da sala
é cidadã. Damas e cavalheiros tiram sortes, cerimoniosamente
sentados em volta de uma mesa; ou dançam quadrilhas e valsas
figuradas; enquanto pelos cantos os velhos fazendeiros falam a respeito
das carpas, da nova flor do café, e das geadas, seu constante
pesadelo.
No terreiro
folgam os rapazes que acham mais graça na função
campestre, e em vez de consultar o livro do fado, confiam nos oráculos
da fogueira, saltando-a de corrida, e passando nela o ovo, que há
de ficar ao relento à hora fatídica da meia-noite.
Entre estes
lá estão Afonso e Miguel, preparando-se com outros
companheiros a mostrar quem tem mais certeira mão, para incendiar
com um tiro a garrida boneca suspensa ao tope do mastro.
Muitas moças
também fugiram da sala para acompanharem os folguedos dos
rapazes, nos quais porventura acham mais encanto do que nas danças
tão monótonas, quando não têm o sainete
do amor.
A primeira foi
Berta, e Linda a acompanhou pressurosa. Apesar da insistência
com que D. Ermelinda procurava entretê-la na sua roda, a menina
a pretexto de estar com a amiga, não saía do terreiro;
e se alguma vez entrava na sala era para eclipsar-se logo.
- Quem há
de ser o primeiro? perguntou Afonso armado com a sua clavina.
- Eu! responderam
uníssonas as vozes dos companheiros.
Só uma
não se ouvira; era a de Miguel; mas não fora esquecido
seu nome. Linda o pronunciara timidamente entre um sorriso e um
rubor; e Berta o repetira em voz alta:
- Miguel!
- Eu serei o
último! disse o moço com modéstia, que porventura
disfarçava um desejo de primar.
Como último
podia algum dos companheiros priva-lo da vez, e impedi-lo de mostrar
a sua destreza; mas também se nenhum lograsse tocar o alvo,
maior triunfo alcançaria, conseguindo o que fora impossível
aos outros.
Não era
lanço tão fácil como parecia, embora para destros
atiradores. Se a boneca apresentava boa margem à pontaria,
só em um ponto, no peito cheio de pólvora, podia a
bucha da espingarda incendiá-la; às roupas, molhadas
pelo relento, dificilmente se comunicaria a chama.
Por isso diziam
os rapazes a galhofar, enquanto preparavam as clavinas:
No coração
da moça!
E todos ardiam
em desejos de acertar, como um bom presságio da chama que
haviam de atear no coração das namoradas, durante
aquela noite de risos e folgares.
Foi Afonso quem
primeiro atirou.
- Não
acertou! bradaram satisfeitos os competidores.
- Lá
está! gritou o atirador com ar triunfante apontando para
a boneca.
De feito na
saia de cassa branca aparecia uma centelha inflamada, que lançava
de si algumas chispas, como fogo que se ateia. Durante alguns momentos
os olhos dos rapazes estiveram presos daquele ponto luminoso, enquanto
batia-lhes o coração com receio de que, incendiada
a pólvora, voasse a boneca pelos ares, ficando malograda
sua esperança.
- Apagou-se!
exclamou Berta.
- Quem lhe disse?
retorquiu Afonso.
- Apagou-se,
sim! acudiu Linda batendo as mãos de prazer.
Em verdade a
fagulha, que ardia na roupa da boneca, depois de bruxulear um instante,
se extinguira de todo. O tiro de Afonso batera no tope do mastro;
e fora apenas um morrão da bucha que saltara na saia molhada
pelo sereno.
Uma algazarra
dos rapazes festejou a derrota de Afonso, que voltando-se para a
irmã, disse-lhe à meia voz, fingindo-se agastado:
- Está
muito contente, hein! Cuida que há de ser Miguel? Pois vá
perdendo a esperança!
Linda respondeu-lhe
com um momo gracioso, enviando um sorriso a Miguel, que estava a
seu lado, entre ela e Berta.
Assim é
que me paga, eu ter torcido por você!
Pois não;
foi você mesmo que me encaiporou!
Continuou o
folguedo; todos os rapazes atiraram sucessivamente e com vária
sorte. Uns acertaram na boneca, mas não conseguiram incendiá-la;
outros apenas se lhe aproximaram; e muitos andavam tão por
longe que pareciam atirar à catacega. Estes eram apupados
com estrepitosas gargalhadas e toda a sorte de motejos e gritaria.
Chegou por fim
a vez de Miguel.
O caçador
recebeu a clavina das mãos de um companheiro; carregou-a
com a maior presteza, e levando-a ao ombro, desfechou o tiro sem
hesitação.
Um jorro de
chamas esguichou do tope do mastro. A boneca incendiada voava pelos
ares, esfuriando aljôfares azuis, verdes e escarlates, que
listraram a treva da noite e correram pelo espaço trêmulas
e cintilantes como lágrimas de estrelas.
- Bravo! gritaram
em coro os rapazes.
- Viva o Miguel!
bradava Afonso abraçando o amigo.
As moças
batiam palmas, chilrando de folia e contentamento; sobretudo Berta,
que parecia uma criança, a dar piruetas no terreiro, estalando
castanholas nos dedos e dançando o fado com Afonso.
Linda ficou
séria; mas sua alma coada em um olhar inefável embebeu-se
no semblante de Miguel.
Capítulo
XVII
Cravo
branco
Ainda não
se tinham desvanecido as emoções do primeiro páreo,
que outra sorte mais engraçada punha em alvoroto a rapaziada.
A bola que servia
de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca, era oca,
e formava uma espécie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos
e outras galanterias para quem fosse capaz de alcança-las
trepando pela haste do pinheiro.
Não era
pequena façanha essa; pois além da altura, o pau fino
e roliço não dava jeito a que os rapazes se escorassem
bem sobre os joelhos para com o impulso dos braços se irem
içando à guisa dos marujos.
Este folguedo,
reminiscência de antigos jogos de nossos avós, e ainda
em voga em outros países com o nome de mastro de cocanha,
divertia muito os rapazes, pelo seu chiste e novidade.
Se sucedia algum,
apesar de seus esforços, escorregar de repente pelo pau abaixo
quando estava já bem próximo de atingir a meta; ou
se outro mais lorpa não conseguia suspender-se do chão,
e ficava a patinar ao pé do mastro, tentando debalde sungar-se;
eram chascos e risadas estrepitosas, que festejavam o malogro da
porfia.
Mas nem por
isso desanimavam os rapazes; e repousadas as forças tornavam
à empresa, estimulados pelo desejo de esquecer a anterior
derrota, e conquistarem uma flor, ou qualquer outra prenda que ofertassem
à namorada.
Aproximando-se
do mastro e rodeando-o, tinham os moços deixado sós,
no canto do terreiro que antes ocupavam, Linda e Miguel.
Os dois estavam
próximos e quase se tocavam; por um impulso comum, ambos
fugindo à grande claridade, haviam procurado o tronco de
uma palmeira, cuja sombra derramava sobre eles doce crepúsculo,
enquanto a haste servia-lhes de abrigo contra os olhares curiosos.
Miguel ainda
bebia o sorriso de Linda; e ela inebriada pelo triunfo que o moço
alcançara, deixava-se libar pelos ternos olhos, como a flor
acariciada pelo vento, que se dilui em perfumes.
Logo, porém,
que o afastamento dos companheiros deixou-os sós, insensivelmente
se retraíram. O braço de Miguel, que sentia ao roçar
dos folhos da manga de Linda uma sensação deliciosa,
estremeceu; de seu lado vexou-se a menina com esse frolo sutil das
pregas de seu vestido, que antes ela recebia como uma doce carícia.
Quando a presença
de tantas pessoas os separava, suas almas se estreitavam no olhar,
se conchegavam no sorriso; e queriam influir-se uma na outra. Agora
que nada se interpunha a elas, o isolamento as assustava; tinham
medo de si mesmas.
- Não
vai também ganhar sua flor? disse Linda indicando o mastro
com um aceno de fronte.
- Quer uma?
perguntou Miguel com gesto de reunir-se aos companheiros.
Ressentiu-se
a menina daquele pretexto do moço para retirar-se, arrependida
de o ter oferecido. Mas pensava que ele não aceitaria tão
pronto.
- Para quê?
Eu tenho esta que é tão bonita! acudiu ela mostrando
um cravo branco, que lhe enfeitava o trespasse do lindo corpinho
de cassa. Não é?
- Muito! balbuciou
Miguel que vira não a flor, mas a polpa rosada do colo mimoso,
debuxando-se entre as preguinhas do decote.
- Sabe o que
significa?
- Não.
Frisaram-se
os lábios vermelhos da menina para soltar a palavra; mas
como as pétalas de uma flor que se desfolha, emudeceram deixando
apenas escapar o perfume. Reclinou ela a fronte vergonhosa e repetiu
dentro d'alma o que se não animara a dizer.
Como se operou
tão rápida a transformação de Miguel
que até a véspera esquivo e reservado com Linda, agora
preso de seu encanto, se engolfava na ventura de sentir-se querido,
e esquecia Berta, que ainda pela manhã lhe cativara o coração?
O mesmo é
perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lança
na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? Às vezes
lá fica na eiva do rochedo, tempo esquecido, até que
o céu lhe manda uma réstia de sol e uma gota de orvalho.
Assim aconteceu
com Miguel. O germe desse amor, há muito o guardava no coração,
desde que admirara pela primeira vez a beleza de Linda. Mas o afastamento
natural em sua posição inferior; as suscetibilidades
próprias de um caráter nobre; e, mais ainda, a sedução
irresistível que exerciam em sua jovem imaginação
a graça e lindeza de Inhá, tinham sopitado esse amor
à nascença.
Quisesse Berta
que Miguel não amaria senão a ela, e esqueceria de
todo a imagem de Linda. Mas a menina, em vez de aceitar para si
o afeto, só o queria para a amiga, cujo segredo ela pressentira
havia meses.
Desde então
se desvelara Inhá com extremosa solicitude em grajear para
Linda a ternura de Miguel, e fazer a ventura de ambos. Nesse emprenho
encontrava um obstáculo, que era sua própria gentileza,
na qual se enlevava o mancebo; mas dela mesma o seu tato delicado
soube tirar partido.
A beleza de
Linda era para a imaginação ardente e poética
de Miguel uma linda imagem sem calor e sem luz; estátua de
jaspe imersa na sombra. Berta o compreendeu; e fez de sua alma a
centelha que devia animar o mármore.
Inspirado artista,
ela tirou de sua graça, como de uma rica palheta, as cores
mais mimosas para retocar a figura vaga e suave de Linda. Vazou
nos lânguidos olhos da amiga as rutilações de
sua pupila brilhante; e enflorou com o seu feiticeiro sorriso os
lábios onde se aninhara o suspiro.
De cada vez,
um traço do ideal se estampava na fantasia de Miguel, que
muitas vezes surpreendia sua alma na contemplação
dessa virgem desconhecida, em que a formosura de Linda se perfumava
com a faceirice de Inhá.
Naquela manhã,
tinha Berta tentado mais uma vez a transfusão de seu espírito
gentil na serena beleza da amiga, e então a favoreceu o acaso,
fazendo que Linda se aproximasse, e que Miguel ainda fascinado pelo
retrato que ela esboçara, visse graciosa e encantadora a
virgem dos seus amores.
A confissão
arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expressão
melancólica embebeu-se de um júbilo sereno como o
alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes
a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas. De toda
sua pessoa manavam santos eflúvios do amor feliz, que lhe
teciam de luz e perfume uma auréola celeste.
Miguel embebeu-se
na adoração dessa beleza, que se revelava pela primeira
vez à sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em que
se trocava com Linda frases truncadas.
A moça
havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma, roçando-o
pelos lábios.
- Não
disse o que significa? insistiu Miguel.
- O senhor sabe.
- Eu não!
respondeu o moço com um sorriso.
- Sabe sim!
Houve uma pequena
pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios de Miguel,
enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia.
- Casamento?
balbuciou uma voz submissa.
Linda velou-se
em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente escapou-lhe
a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula
da moça não recebeu senão a doce pressão.
- Quebrou-se
o talo! disse ela rapidamente.
Era um motivo
para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote,
e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura.
Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o
beijou com efusão.
Berta, que a
distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia,
sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas
a mão comprimindo-o rápida, sufocou o turture queixume
que se desprendia em um suspiro.