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Til
José de Alencar

 


Capítulo XXIX
Desencargo

Na posição em que se achava Jão Fera bastava-lhe carregar a mão sobre a nuca do mascate para subjugá-lo, sem que este pudesse fazer ou sequer tentar a mínima resistência.
Entretanto pela mente do capanga, desse homem feroz que se fizera instrumento de ódios e vinganças alheias, nem de longe perpassou a idéia de que tinha ali à mercê da vontade e ao alcance do braço, uma quantia superior àquela de que necessitava para desempenhar sua palavra, e pela qual dera de bom grado alguns dias de vida.
Bem diverso foi o pensamento que lhe sugeriu o inesperado encontro.
- Este tem de sobra, bem que podia me emprestar! murmurou consigo.
Já promovia o passo a fim de aparecer ao mascate, quando foi tolhido por um receio, que o estacou. Sua presença imprevista, naqueles ermos e em semelhante ocasião, devia necessariamente sobressaltar o italiano, que sem dúvida se julgaria ameaçado, e o tomaria, a ele Jão Fera, por um ladrão de estrada.
Tanto bastou para que o capanga sem mais demora se retirasse com todas as precauções de modo a não pressenti-lo o mascate; e, chegado que foi a alguma distância, afastou-se rapidamente daquele lugar.
Nos três dias que decorreram desde então, debalde engendrou Jão Fera meios de obter a soma precisa. Frustraram-se todas as esperanças, uma após a outra.
Jogou e perdeu os magros cobres que tinha. Alguns ajustes entabulados falharam: porque o genro que desejava aliviar-se do sogro, e o cafelista a quem azoinava um vizinho resinguento, tinham resolvido esperar pela mudança da política, para com mais segurança aviarem esse negócio.
Um tigre que descera do sertão destruía o gado de uma fazenda próxima, cujo dono prometera boa recompensa a quem o matasse. Botou-se para lá o capanga; mas já a onça acossada por outros caçadores se havia retirado.
Afora estes, não imaginava Jão Fera outros meios de ganhar dinheiro sem humilhação. O trabalho, ele o tinha como vergonha, pois o poria ao nível de escravo. Prejuízo este, que desde tempos remotos dominava a caipiragem de São Paulo, e se apurava nesse homem, cujo espírito de sobranceira independência havia robustecido a luta que travara contra a sociedade.
Era a enxada para ele um instrumento vil; o machado e a foice ainda concebia que os pudesse empunhar a mão do homem livre; mas em seu próprio serviço, para abater o esteio da choça ou abrir caminho através da floresta.
Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu Jão Fera que destinavam eles uns cinqüenta mil réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão, com que pretendiam abrir uma boa roça.
- Mas chegará, homem? perguntou a velha.
- Há de se espichar bem, mulher!
Uma voz os interrompeu:
- Por este preço dou eu conta da roça!
- Ah! É nhô Jão!
Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado.
Acompanhou-os Jão Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados.
Na manhã em que estamos, saíra o capanga de seu esconderijo resolvido a lançar mão do meio que reservara para a última extremidade. Afastando-se das ruínas para evitar um encontro com Berta, chegara a um sombrio raleiro do mato, onde retouçava o bacorinho ruivo.
Enxotado por Jão, o animalzinho desapareceu, e antes de meia hora estava de volta precedendo o trote miúdo o Chico Tinguá.
Pensou lá consigo o vendeiro, apesar do chamado, que o mais urgente era avisar o capanga do que tramavam contra ele; e pois foi logo contando o quanto ouvira pouco antes.
Riu-se o Bugre.
- Deixa-os!
- Mas o arengueiro do Pinta meteu-se de súcia com eles, redargüiu Chico; e não é de bom que o demônio me anda a cheirar cá pelo rancho a uns tempos. Agora mesmo quando vim, lá me ficou espiando!
Jão Fera encolheu os ombros com um ar desdenhoso.
- Escuta, Chico, isto é negócio sério. Hás de ir agora mesmo à fazenda do tal Aguiar. Diz-lhe que ele perde seu tempo em estar oferecendo contos de réis a quem me agarrar. Se quiser, que te entregue cinqüenta mil réis, e sou capaz de ir lá à fazenda uma tarde que ele marcar depois de São João. Dou minha palavra.
Olhou-o Chico espantado e quis objetar.
- Vai ou não? Atalhou Jão com o tom decisivo.
O vendeiro abaixou a cabeça e partiu. Vendo-o desaparecer, dirigiu-se o capanga para a casa de nhá Tudinha, e já a pedaço oculto entre a ramada, estava de longe observando Berta, quando Miguel se retirou despeitado, deixando só a colaça. Nessa ocasião animou-se ele a transpor a orla da mata; a menina o viu e adivinhando que lhe queria falar, foi a seu encontro.
O olhar de Berta era uma interrogação instante e cheia de inquietação. Não se encontrara com o capanga, desde que este fugira de volta da Ave-Maria, sem fazer-lhe a promessa que ela exigia.
- Agora posso desempenhar minha palavra, e não me importarei mais com o Galvão; disse o capanga cabisbaixo e humilde.
Estremeceu Berta, pensando no perigo que até aquele instante correra o pai de Linda.
- Obrigada, Jão! Disse Berta com efusão sincera.
Nem lhe ocorreu, fosse o que ela agradecia, dádiva de um assassino, que lhe cedia uma existência como um artigo de seu bárbaro tráfico.
- Mecê está contente? Perguntou animando-se o capanga.
- Muito, muito, Jão!
- Então... me deixe...
A voz do capanga balbuciou, e por fim gelou-se nos lábios trêmulos e lívidos.
- O que é? insistiu Berta. Fale, não tenha susto. Quer que eu faça alguma coisa por você?
- Sim!
- Pois diga.
Com um violento esforço arrancou o capanga estas palavras trôpegas:
- Beijar o bentinho.
Sorriu-se Berta, e com um gesto gracioso tirou do seio o relicário pendente com a cruz do cordão de ouro, e, erguendo-se na pontinha dos pés, o deu a beijar, preso como estava ao pescoço.
Jão Fera roçou os lábios pela relíquia, e, sem força para erguer a cabeça bamba, com o corpo balordo e o passo trôpego, cambaleando como um ébrio, afastou-se da menina, sem ânimo de por os olhos no semblante dela.
- Está embriagado! pensou Berta com indignação que se pintou em sua fisionomia.
Mas já a caridade vibrava as cordas mais suaves de sua alma, e o primeiro assomo de severidade se afogava nos eflúvios de uma compaixão inexaurível.
- Coitado! murmurou.
A blateração do Brás a surpreendeu nesse instante. Voltava com a roupa em frangalhos, a cara arranhada de espinhos, as mão escoriadas, os cabelos emaranhados de gravetos, e todo ele coberto de pó ou lama. Trouxera presa uma cotia, que fora caçar para Berta, em troca da outra.
Quando a ia entregar à menina, vendo a repulsão que se desenhava no lindo semblante, e adivinhando a causa, o idiota soltou a sua bestial interjeição, apontando para o vulto de Jão Fera.
- Hanh! hanh!...
Tinha o idiota a atitude e o gesto do mastim que interroga o olhar do senhor, e com um latido surdo pede-lhe que o estume contar o inimigo.

Capítulo XXX
Trama

Era véspera de São João.
Na fazenda das Palmas, desde muito cedo que se faziam os aprestos para a festa daquela noite de folguedos. Já o pátio estava enramado de coqueiros; e no centro erguia-se uma pilha de lenha para a fogueira fatídica.
Nhá Tudinha se instalara na cozinha. Cercada de uma multidão de caçarolas, frigideiras, gamelas, alguidares e latas, a repolhuda comadre repimpava-se no cepo do pilão, para distribuir suas ordens pelas raparigas; mas não se podia ter que não saltasse logo do seu pedestal e acudisse aqui e ali, em toda a parte, com uma azáfama crescente, o que fazia dizer a crioula Rosa, em aparte ao Faustino:
- Gentes! Esta mulherzinha tem bicho-carpinteiro.
D. Ermelinda abdicara naquele dia em nhá Tudinha o governo da cozinha e despensa para ocupar-se exclusivamente com a recepção dos hóspedes que eram esperados à tarde.
Depois do almoço, Linda e Berta com os braços entrelaçados pelas cinturas, desceram ao terreiro por uma das escadas laterais e depois de percorrerem as ruas de coqueiros e o pavilhão de folhagem que tinham arranjado ao redor da fogueira, foram abrigar-se do sol na horta à sombra de uma latada, onde podiam conversar à vontade.
Linda parecia triste. A próxima festa, longe de enflorar, lhe desfolhava o brando e mavioso sorriso. Como o dourado inseto que se esconde entre as pétalas da rosa, havia um segredo a suspirar nesses lábios mimosos.
- Esta noite as moças ficam sempre tão contentes! disse a menina em tom suave de queixume.
- E você? tornou Berta com um sorriso.
- Eu não!
- Por que, Linda?
- Todas tem uma pessoa que pense nela.
- Então você não tem? perguntou Berta com um doce remoque.
Linda abanou a cabeça melancolicamente.
- E Miguel?
- Ele não gosta de mim! suspirou a menina com o lábio balbuciante e uma lágrima a tremer na pálpebra.
Respondeu-lhe Berta com uma fresca risada, que debulhou mesmo nas faces da amiga, como os bagos nacarados e saborosos de uma romã.
- Olhem que sonsinha!...
- Nunca mais lhe direi nada, Berta! acudiu Linda, ressentida do modo por que recebera a amiga sua confidência.
- Pois, menina, você tem lembranças, que a gente não pode mesmo deixar de rir-se. Então Miguel não gosta da senhora? Era preciso que ele não tivesse olhos para ver essa carinha de feitiço.
- Há outra que ele acha mais bonita!
- Outra?... Qual?... perguntou Berta de todo confusa.
- Esta, que ele vê a todo momento! replicou Linda, afagando o semblante da amiga com um gesto de triste resignação.
De novo disparou Berta a rir com a lembrança da amiga.
- Ai, que ciumenta, Jesus!
Retiniu perto o grito áspero do curiau. No meio do silêncio que reinava naquele sítio, como era natural, excitou esse brusco rumor a atenção das duas amigas, e arrancou-as à anterior preocupação. Berta sobressaltou-se com a lembrança de que ouvira o mesmo apito no dia da tocaia.
Conteve-se receando assustar Linda; mas, apesar da promessa que lhe fizera o Bugre, estremecia com a idéia de que Luís Galvão devia chegar de Campinas naquela manhã, e talvez ao passar na volta da Ave-Maria fosse vítima do assassinato que ela uma vez impedira. Em falta de Jão Fera, a oculta vingança que ameaçava a existência do fazendeiro, teria procurado outro instrumento.
- Vamos ao mirante, Linda? O sr. Galvão não pode tardar.
- Papai só chega ao meio dia; respondeu a moça erguendo-se para acompanhar a amiga.
Na ocasião em que as duas atravessavam a horta, um vulto se esgueirando por detrás dos pessegueiros, passava a cerca e sumia-se no canavial. Berta que o viu nessa ocasião, e apenas de relance, inquiriu de Linda para certificar-se.
- Não é o Faustino aquele?
A filha do Galvão, distraída, de nada se apercebera.
Não se enganara Berta. Era de feito o pajem Faustino, que saíra de casa sorrateiramente para acudir ao grito do curiau, sinal combinado com o Barroso. Atravessando três ou quatro talões do canavial, foi ele surdir justamente no lugar onde anteriormente, no dia da partida de Luís Galvão, estava de espreita o Monjolo.
Era um sítio escuso e sáfaro; ficava embaixo de uma barranca, escondido pelo maciço do canavial e pelo matagal embastido que já invadira o valado.
Aí estavam Barroso e Monjolo, ambos com o ouvido à escuta de qualquer rumor que lhes anunciasse a chegada do pajem. O branco descansava encostado à barranca; o negro estava acocorado como gambá, junto a uma casa de cupim.
- Então o diabo chega, ou não chega? disse o Barroso ao Faustino, mal lhe pôs os olhos.
Não tarda; antes do meio dia está aí, sim senhor, respondeu o pajem.
- Eh! Eh!... fez o Monjolo.
- Vem mesmo?
- Se vem!...
- Pois então, esta noite é o batuque. Estão ouvindo?
- Monjolo já está sacudindo, sim senhor! disse o africano fazendo jeito de saracotear.
- Tomara eu ver a dança! acudiu o pajem.
- Olhem lá! Cuidado em trancar a negralhada no quadrado, senão está tudo perdido.
- Isto é com Monjolo!
- Monjolo arranja tudo, deixa estar.
- Quando estiverem bem seguros é só dar o sinal, que o fogo rebenta cá no canavial. O diabo corre para acudir; e aí você, rapaz, tranca também a gente da casa, a mulher e os filhos, e espera, que eu não tardo, para arranjar a história. Ouviram vem?...
- Não tem dúvida! disse o Faustino.
- Você que é mais ladino, explica bem àquele pai.
Riu-se o Monjolo, com uma expressão bestial que parecia confirmar o dito.
- Mas... replicou o Faustino. Eu cá é com a condição que o senhor sabe. Eu fôrro; a Rosa, para mim; e o mulato surrado como canhambola.
- Pois está entendido! disse o Barroso. Foi o ajuste.
Fuzilou uma chispa na rúbida pupila do africano.
- E tu, paizinho?
- Monjolo não quer nada, senão gimbo muito para comprar fumo e cachaça.
- Fica descansado.
Separaram-se os cúmplices. O pajem voltou à casa, Monjolo à roça, e Barroso foi juntar-se a pouca distância ao Gonçalo Pinta, que o esperava com dois animais à destra.
Apenas se desvaneceu o rumor dos passos, que um galho murcho atirado a um canto da barranca se agitara, descobrindo a boca de um covão, talvez de tatu canastra, de onde saiu de rojo meio corpo do Brás.
Daquele esconderijo, a que se acolhera para o não surpreenderem, ouvira o idiota a maquinação do Barroso, e, fato incrível, a compreendera, ou antes a sentira, porque não fora pela razão, mas por uma sorte de faro moral, que recebera essa percepção.
Adivinhara a intenção dos cúmplices, como o animal carniceiro conhece o desígnio do caçador e o acompanha para aproveitar dos despojos das vítimas.
Um riso, que ressumbrava brutal crueldade, arregaçou-lhe os beiços estúpidos.

Capítulo XXXI
Pai Quicé

Sentado o Brás num torrão de argila, que esbroara da barranca, entregou-se a uma singela ocupação.
Tirou do seio um embrulho de folhas de inhame, onde prendera uma boa porção de gafanhotos, que poucos momentos antes apanhara a devorarem um arbusto. Espetando cada qual em um espinho de juçara, fincou-os no chão, diante de si, até o número de seis.
Terminada esta operação, começou o sandeu a ranger os dentes, espumando de raiva e ameaçando os insetos com os punhos crispados. Enquanto se desarticulava nessa furiosa gesticulação, escapavam-lhe dos lábios sons estranhos e guturais como o grunhido de um porco, ou o ganir de um cão.
As pupilas vítreas esbugalhavam-se com as contorções da fúria brutal que lhe contraía os músculos faciais. Eram as fosforescências de um ódio violento, que iluminavam de reflexos lívidos esse olhar, de ordinário morno e fusco.
Afinal tomado de um acesso de ira, saltou o idiota sobre uma pedra, e com ela esmagou freneticamente, um a um, todos os seis gafanhotos. Não contente com este suplícios, ainda por cima trincou nos dentes a cabeça daqueles que tinham sido poupados por seu açodamento.
Ofegante, exausto pela violência das emoções, prostrou-se por terra e aí ficou por algum tempo arquejando.
Era o desgraçado menino um estranho aborto da natureza. De todo bronca e estúpida, tinha contudo essa monstruosa organização bem vivo e patente o instinto do mal. Parecia que o aleijão, privando-a da alma racional, não reduzira só o homem à condição de bruto, mas o tinha logo demudado em fera.
Até conhecer Berta, o único vestígio humano que havia nessa bestialidade, era o ódio. Aborrecia a toda criatura racional, talvez por uma confusa percepção de sua deformidade e estupidez.
Depois que o desvelo da menina lhe inspirara a fúria amorosa, transformara-se em profundo rancor a profunda repugnância que ele sentia por todos; e tal fora o choque produzido por estas paixões, que acendeu uma centelha nas trevas daquele espírito embrutecido.
Desde então houve nessa animalidade um impulso que não era idiota; e foi o ódio. Estúpido em tudo, parvo até nos ímpetos da cega dedicação que votava a Berta, mostrava para o mal uma astúcia e perspicácia admirável. Incapaz de conceber uma idéia, maquinava pacientemente uma vingança terrível. À sutileza do réptil venenoso, reunia a sagacidade do guará.
Os insetos figuravam as pessoas que mais odiava, e a quem ruminava exterminar, espreitando a ocasião de levar a cabo a feroz maquinação. Enquanto não chegava o momento, divertia-se com aquele sinistro folguedo.
Surpreendido quando chegava ao sítio habitual, e obrigado a esconder-se, ouvira a trama do Barroso, que o alegrou a princípio, porém agora o contrariava pelo receio de perder a sua maldade.
Sacando do socavão um pedaço de arco de barril que afiara a ponto de torna-lo um punhal, ocultou-o no bolso do jaleco; depois do que desapareceu um instante ao lado do brejal, e voltou com um sapo que atirou junto ao buraco da casa de cupim, debruçando-se em cima dela, à espreita.
Imediatamente ao grasnido do anfíbio, apareceu no buraco a enorme cabeça de uma cascavel, que fitou no sapo a pupila cintilante.
Desde muito tempo cercava aquela serpente, que entrava no seu plano. Com uma forquilha, da posição em que estava, facilmente conseguiu prender a cabeça da vípera e agarrando-a pelo colo sem importar-lhe a sanha com que ela silvava, estorcendo a cauda e açoitando-lhe o rosto, deitou a correr por dentro do canavial.
Chegando que foi junto à casa, trepou a uma jabuticabeira para alcançar o peitoril da janela, cuja vidraça estava erguida, mostrando entre as cortinas de cassa uma linda cama de mogno coberta por colcha de damasco azul, um toucador, guarda-vestidos e outros móveis da recâmara de uma senhora.
Era a alcova de Linda. A mão perversa do idiota arremessou a cobra, que foi cair justamente sobre a cama e depois de aplacada a fúria, encolheu-se entre as rendas dos travesseiros, com a pupila em sangue e o bote armado.
Acabava o idiota de preparar assim o primeiro ato da obra de extermínio, que ele ruminava em sua feroz estultícia, quando o fez estremecer a voz de Berta que se encaminhava para a alcova.
Luís Galvão havia chegado. Ao avista-lo as meninas tinham descido do mirante a correr para chamar D. Ermelinda e irem ao encontro do fazendeiro. Também acudiram para tomar a benção ao senhor os escravos empregados no serviço doméstico, e alguns dos que não trabalhavam na roça, mas andavam por perto nas tulhas e fábricas.
Entre estes distinguia-se um inválido curvado como um arco de pipa, com a cabeça lisa como um quengo, e o queixo fino como uma faca desdentada; pelo que chamavam de pai Quicé. Era ele um dos favoritos de Berta, que todos os domingos lhe dava um vintém para fumo.
Depois de salvar ao senhor, pai Quicé que ainda não tinha visto Berta naquele dia, fez-lhe muitas festas como sempre, e começou a costumada e interminável lengalenga com que a menina muito se divertia.
Berta era curiosa, e pois gostava de saber de tudo quanto se fazia ou falava por aqueles arredores. O negro velho que não tinha outra coisa para dar à sua gentil protetora, trazia-lhe quanto mexerico e história ouvia pelas vendas, onde graças à liberdade de traste inútil, passava a maior parte do tempo.
- Nhá moça, sabe? Aquele homem muito mau, que mata gente, o Bugre que foi aqui da fazenda?...
- Que tem? perguntou Berta, cuja atenção foi excitada.
- Vão prender ele.
- Quem te disse?
Contou o negro velho o que ouvira ao Gonçalo junto à venda do Chico Tinguá, e o mais que dos ditos de outros e de sua própria astúcia colhera posteriormente. Era naquela tarde que o Pinta ficara de guiar Filipe ao esconderijo do Bugre.
- E você sabe onde ele está? perguntou a menina com vivacidade.
- Sabe, sabe; Quicé sabe.
- Onde é?
- Quicé mostra o caminho.
- Pois vai indo que eu já te apanho.
Este rápido diálogo travou-se no meio do terreiro. Entrando em casa, viu Berta a amiga na sala e perguntou-lhe:
- Onde deitou meu chapéu, Linda?
Foram estas palavras que estremeceram Brás, e ainda mais quando ouviu a resposta de Linda.
- Em cima de minha cama.
Apoderou-se a vertigem do idiota, que tombou da árvore ao chão.

FIM DO PRIMEIRO VOLUME

Capítulo I à Capítulo III
Capítulo IV à Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII à Capítulo XV
Capítulo XVI à Capítulo XIX
Capítulo XX à Capítulo XXII
Capítulo XXIII à Capítulo XXV
Capítulo XXVI à Capítulo XXVIII
Capítulo XXIX à Capítulo XXXI
Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III à Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo VIII
Capítulo IX à Capítulo XI
Capítulo XII e Capítulo XIII
Capítulo XIV e Capítulo XV
Capítulo XVI e Capítulo XVII
Capítulo XVIII e Capítulo XIX
Capítulo XX e Capítulo XXI
Capítulo XXII à Capítulo XXIV
Capítulo XXV e Capítulo XXVI
Capítulo XXVII à Capítulo XXIX
Capítulo XXX e Capítulo XXXI