Til
José de Alencar
Capítulo XX
A
pousada
Quem transitava
pela estrada de Campinas via, meia légua antes de Santa Bárbara,
dois casebres unidos por uma espécie de rancho ou telheiro.
Um dos edifícios era bem velho, o outro novo, porém
ambos de grosseira fábrica, sem reboco nas paredes mal emboçadas,
que mostravam entre os torrões de barro as varas atadas com
cipó aos frechais. O chão despido de ladrilho, ou
qualquer espécie de soalho, estava cheio de buracos e poças;
de pintura não havia traços, nem mesmo de uma simples
caiação.
Na extremidade da casa velha, as duas portas abriam para uma espécie
de taberna, a julgar pelo balcão de pau que dividia o aposento
a meio, e por duas ou três ordens de prateleiras, onde se
viam alguns rolos de fumo em corda, rapaduras envolvidas com palha
de milho, e uma dúzia de garrafas arrumadas em fila.
Da venda passava-se por uma porta lateral para o aposento próximo
que, em sendo preciso, servia de pousada.
Era uma quadra de tamanho regular, Ao centro da parede interna encostava-se
uma tosca mesa, ladeada em todo o comprimento por um só banco
estreito. Em cada canto havia uma cama, cuja barra era feita de
tiras de couro cru entretecidas a modo de esteira.
Era já sol fora.
Abrira-se de pouco a taberna, que parecia deserta, como todo o resto
da habitação. Ao menos quem passava na estrada, acertando
de enfiar os olhos pela porta, não via no meio da silenciosa
imobilidade do interior outro sinal de vida a não ser o vôo
das moscas pousando sobre o balcão para sugarem o mel de
umas farpas de rapadura, que ali tinham deixado os viajantes da
véspera.
Não era, porém, tão absoluta como parecia,
nela a solidão.
Na venda, por trás de uma quartola, arrumado em cima do balcão
e de bruços neste, cochilava um sujeito com a cabeça
posta sobre os dois braços cruzados em cima da tábua.
Quando algum tropel soava na estrada, levantava ele a meio a testa,
e enfrestava pela aberta que havia entre a parede e o bojo da quartola
uma vista encadeada pela claridade. Passado que fosse o viajante,
voltava à contínua modorra.
Ainda moço e robusto, derramava-se não obstante no
físico desse homem certo ar de indolência, que nesse
momento mais se carregava com a sonolenta expressão do rosto
seco, pálido, baço, e levemente sombreado por alguns
raros fios de barba. O cunho especial dessas feições,
e particularmente o viés dos olhos com os cantos alçados
para as têmporas, revelavam o cruzamento do sangue americano
com a casta boêmia.
Do lado oposto da habitação, em um compartimento,
que tinha jeito de varanda, cozinha e pátio de criação,
tudo ao mesmo tempo, fervia a panela posta em uma trempe de pedra
no meio do chão. O fogo, apenas alimentado por gravetos,
mal cozia o feijão e couves, destinados ao sustento daquele
dia.
Fronteira à janela, sentada ao chão, com os joelhos
levantados e os braços caídos sobre eles, estava uma
rapariga de seus vinte e cinco anos, que parecia muito e muito ocupada
em observar a fervura da panela; pois não tirava dela os
olhos, nem fazia outra coisa. Perto dela jaziam, espalhados pelo
chão, ou dentro de uma gamela, vários pratos brancos
de beira azul, uma tigela igual e algumas colheres de estanho.
Diferentes vezes já, a rapariga lançara um olhar de
enfado para a louça ainda suja do serviço da véspera,
e alongava depois a vista pela porta afora até lá
embaixo no brejal, onde passava o rego da água, e media a
distância a percorrer. Abria então a boca em um interminável
bocejo, espreguiçava o lombo estirando os braços;
e, quando parecia levantar-se para cuidar na lavagem dos pratos,
achatava-se ainda mais no chão, murmurando:
Tem tempo!
Ouvindo o estrumpido de animal na estrada, ergueu o sujeito a cabeça
para olhar pela fresta; e seu rosto debuxou, através da sorna
habitual, um gesto de aborrimento e agastadura, produzido pela vista
do viajante que se aproximava.
Era este homem de trinta anos, de tão alto e esguio talhe
que se curvava ao peso de uma cabeça enorme e guedelhuda,
ou talvez pelo hábito de cavalgar derreado à banda,
como usam os caipiras. Sua fisionomia grosseira nada tinha de notável,
a não ser a malha que lhe marchetava de nódoas brancas
a tez acobreada, bem como as costas das mãos.
Vestia um pala em bom uso, sobre fina camisa de morim e calça
de brim de listra. O chapéu era novo e de meio castor; as
botas de couro de veado com chilenas de prata. Trazia no arção
da sela uma espingarda de dois canos, e na cinta uma garrucha.
Parando a mula à entra da venda, o cavaleiro bateu com o
cabo de rebenque na porta, gritando:
- Oh! de casa!... Ainda se dorme por aqui, nhô Chico?... Querem
ver que o diabo do Tinguá está mesmo ferrado na soneira?...
Foi volta de samba esta noite, e samba grosso que deu de si até
a madrugada. Não tem dúvida! Oh! lá de dentro!
basta de dormir! Já deve estar bem cozida a camueca!
Desenganado de que não se ia o importuno, resolveu-se afinal
o sujeito da venda a fingir que despertava da sonata; e, estorcendo-se
em um ruidoso bocejo, estirou a cabeça por fora do bojo da
quartola.
- Quem é?... Ah! nhô Gonçalo!
- Ora, bem aparecido!... Parece que por cá anoiteceu de madrugada!...
- Não sei o que é; mas ando com uma canseira agora.
Tenho cismado que seja dureza. Levo só a dormir!...
No rosto do Chico nem vestígios restavam mais da expressão
aborrida que provocara a presença do Gonçalo. Ao contrário,
com o riso postiço e a oficiosidade própria dos estalajadeiros,
que sabem seu ofício, se erguera para falar ao freguês;
e, apenas o viu apear, preparou-se para acudir pressuroso a seu
serviço.
Neste ponto fazia o dono da taberna uma exceção à
habitual indiferença com que de ordinário via chegarem
à sua casa, e nela posarem, viajantes de posição
muito superior à do Gonçalo. Haveria por ventura a
respeito deste alguma razão particular.
- Bebe-se café por aqui, ou não se usa?
- Sempre há de se arranjar!
- Pois então vamos a isto; enquanto descanso um tantinho.
Aqui onde vê este degas, já desanquei uma capangada!
Quiseram se meter de gorra!...
- Nhanica!... bradou o Chico para dentro. Coa um bocado de café!
Ergueu-se então a rapariga e sem espreguiçar-se; tirou
da trempe a panela de feijão para deitar o boião d'água;
e arranjando o saco, onde ainda estava o polme da véspera,
que servia para dois dias, correu a buscar água para lavar
a louça.
Entretanto o Gonçalo, derreado sobre o balcão, chalrava
com o Chico sobre o que vinha a pelo:
- E o Bugre, como vai? perguntou de repente o Gonçalo.
- Eu lá sei, homem! Anda pelos matos, enquanto não
dão cabo dele, que não tarda muito!...
- Então acha que o filma mesmo? Acudiu o Gonçalo com
um alvoroto de prazer, que mal disfarçou.
- É o mais certo! Dizem que estão lhe pondo o cerco.
- Ora, isso há muito tempo!
- Mas um dia chega a caipora.
- Como? Se ninguém sabe onde ele vive?...
- Lá isso é verdade! ninguém!
- Pois eu cá não me escondo! Quem quiser que venha!
De costas para o interior da venda, o Gonçalo, embora olhasse
para fora, espreitava de soslaio o Tinguá, que nesse momento,
debruçado sobre o tampo do balcão, onde fincava os
cotovelos, parecia inteiramente absorvido em examinar as ferraduras
da mula.
- Um dos cravos da mão está bambo! disse ele apontando
para o casco do animal.
- É mesmo! tornou Gonçalo, que levantara a pata da
mula. Pincha-me cá o martelo.
Nesse instante, no topo do caminho que descia à esquerda
pela rampa de uma colina, apareceu uma troça de caipiras.
Vinham a pé, com as espingardas ao ombro; e diante deles
trotavam a cruzar o caminho e farejar as moitas, dois cães
de caça.
Capítulo
XXI
O
bacorinho
No inverno
costumam passar por aquelas paragens ranchos de caçadores
que demandam o sertão para a montearia das antas e veados
que ainda abundam nos campos de Araraquara e Botucatu.
Parecia uma dessas partidas de caça, o magote de caipiras
que parou fronteiro à venda, e para lá encaminhou-se
depois de combinarem entre si os companheiros.
Um deles, que parecia ter sobre os camaradas tal ou qual preeminência,
adiantou-se enquanto os outros atravessavam muito vagarosamente
a testada da casa.
- Viva, patrício! Queremos arranchar aqui para almoçar!
- Pois sim! respondeu o Tinguá com a sua voz sorneira sem
mexer-se do balcão onde continuava debruçado.
Habituados certamente a esse modo de acolhimento, os caipiras foram
por si tomando conta da casa e aboletando-se na pousada. Uns se
estiravam nas camas, e outros já sentados no banco junto
à mesa esperavam o almoço com uma fome de caçador.
- Sô Filipe, venha alguma coisa que se masque, para despregar
a barriga do espinhaço! exclamou um dos companheiros.
- E também que se chupite, para untar os gorgomilhos, e consolar
o peito! acudiu outro.
- Aí vem, camaradas, não se assustem! retorquiu Filipe.
Dirigindo-se ao balcão, pesquisou ele com os olhos nas prateleiras
e por todo o âmbito da taberna, o que havia para matar a fome:
e sempre arranjou-se com um velho queijo de Minas, algumas rapaduras
e farinha de milho.
- Pode nos das café? perguntou ao Chico.
- Há de se poder! tornou o vendeiro.
Rodearam os caipiras a mesa e devoraram as provisões, depois
de terem molhado a garganta com um copázio de boa cachaça
de Piracicaba, a fim de escorregar-lhes bem o bocado, e não
os engasgar.
Na extremidade oposta, tomava o Gonçalo seu café,
observando os caçadores com a curiosidade natural à
vida monótona do interior, mas também com um recacho
de arrogante fatuidade. Sem dúvida tinha-se ele por um grande
personagem, incógnito àqueles pobres diabos.
- Isso há de ser tarde já! disse olhando céu.
Era um pretexto para travar a conversa; mas os outros com a boca
cheia não estavam dispostos à palestra. Apenas o Filipe
correspondeu com um meneio de cabeça.
Virou o Gonçalo a palangana de café e acendeu o pito.
- É servido? perguntou oferecendo fogo ao caipira.
- Nada, obrigado.
- Ainda que mal pergunte, o patrício vem de longe?
- De Campinas!
- E anda caçando? Por estas bandas há muito veado
e paca: mas como os caititus este ano, nunca se viu: é mesmo
uma praga!
- Nós cá andamos no rasto, mas é de outra caça!
atalhou um dos caipiras a rir.
- Viemos desencovar uma onça! acudiu outro.
- E é suçuarana!
- Qual! Tigre verdadeiro!
Fizeram coro os caipiras na gargalhada que despertara o dito do
companheiro. Não compreendendo a pilhéria, o Gonçalo
estava a olhá-los meio desconfiado e com um riso insosso.
- O patrício não lobriga?
- Por vida, que não! tornou o Gonçalo. Ainda que Suçuarana
é o sobrenome cá do degas; por causa de ser malhado
como a bicha. Não vê?...
E mostrou as manchas da cara.
- Sem falar da munheca!... Talvez o amigo não acredite; mas
onde a vê, já pegou queda de braço com uma;
e mais era um bichão da altura daquela porta, sem exageração!
Agora quanto às risadas dos patrícios, a falar verdade
não avento!
- Já vê que é caça gorda.
- É cá uma história!
- Por força que há de conhecer um tal Jão Bugre?
- Conheço bem!
- Pois aí está a bicha fera que viemos desencovar.
Parece que a furna dele fica por aqui perto. Não podia nos
dar notícia?
- Mas então os camaradas andam-lhe na pista?
Entrava o Chico Tinguá, com a pichorra de café e as
palanganas que deitou sobre a mesa, recostando-se depois ao portal
da entrada, com a perna trançada e a mão no quadril.
- Não ouviu falar no Aguiar, do Limoeiro, não?...
Um fazendeiro, que o tal Bugre arrumou com duas facadas, há
de andar por uns dois meses?
- Tenho uma idéia, replicou o Gonçalo.
- O negócio deu brado, porque o homem era rico e andava sempre
com uma ruma de capangas. Mas Bugre fez-lhe as contas.
- É um temível!
- Marcado como ele só!
- Nem por isso! observou o Pinta. Mas então é por
causa dessa morte que os camaradas vêm prendê-lo?
- O filho do Aguiar dá dois contos a quem filiar o meco.
- Não digo que não!
- Se quer entrar na festa?
Relanceando um olhar ao Tinguá, que parecia cochilar encostado
à ombreira da porta, respondeu o Gonçalo com frouxidão:
- Nada; tenho obra mais fina.
- Quem sabe se o senhor conhece o Bugre?
-Pois que dúvida!
- Será mesmo o durão que dizem?
- É conforme. Eu cá não conto com ele.
- Hum!...
- O senhor bem podia nos dar alguma inculca do bicho?
- Cá o amigo Chico é quem há de saber por onde
anda o cujo. Oh! psiu!...
- Nhô Pinta... Ah! Nhô Gonçalo! Acudiu o Tinguá
querendo engolir as primeiras palavras escapadas.
- Não sabe que rumo levou o Jão?
- Tanto como mecê.
- Ora, ande lá.
- Ele aparece aqui, e arrancha tal e qual como os outros; não
conta onde pousa; nem a gente indaga da vida alheia.
- Pois tocava uma boa maquia a quem nos pusesse no rasto da onça.
Cem bicos!
Nesse momento um bacorinho de pelo ruivo, embestegava com um trote
miúdo, mas ligeiro, pela cozinha, e atravessou toda a casa
até a pousada, onde conversava a capangada. Aí começou
a fossar nas pernas do Chico Tinguá, que, arrancando-se à
balorda posição, desfechou no importuno animal um
pontapé.
- Arre, patife.
Deu-se por advertido o bacorinho, que imediatamente enfiou outra
vez pela venda e foi sair no quintal, onde pôs-se a grunhir
com o focinho ao vento e os olhos na porta da cozinha.
- Pelos modos lá o homem de Campinas está com gana
mesmo no Bugre? observou o Gonçalo que não tirava
os olhos do Chico.
Pudera não! Da maneira por que arranjou-lhe o pai!
- Xô!... Eh! Baia!... xô!... Diabo de mula canhambola!
Partiam vozes do vendilhão, que fazia um grande escarcéu
com braços e pernas, a fim de espantar uma besta muar que
sua imaginação figurava estar furando a cerca do pasto,
ao lado direito da casa. Entretanto o inocente animal assim caluniado
pelo dono restolhava pacatamente a grama tosada, em companhia de
uma porca e um bacorinho preto, de tamanho igual ao do outro.
Afinal atirou-se o Chico para a cerca, sempre a enxotar o burro,
e quebrando o canto desapareceu.
O Gonçalo, a quem não escapara esse manejo, ergueu-se
pronto da mesa, e, correndo ao ângulo da casa, observou o
campo oculto pela quina da parede.
O bacorinho trotava pela vereda que ia dar ao mato, e seguindo-lhe
as pegadas, o Chico Tinguá estugava o passo.
Riu-se o Gonçalo, e do terreiro disse ao Filipe:
O patrício faz favor?
Capítulo
XXII
O
trato
O tal Gonçalo
era um valentão; e tinha-se na conta do mais façanhudo
espoleta de toda aquela redondeza.
Não acreditava, porém, a gente do lugar nas proezas
de arromba que blasonava o pábulo, nem tomava ao sério
as roncas e bravatas com que andava sempre a azoinar aos mais.
Para dar à sua peça um tom ameaçador e ao mesmo
tempo disfarçar o senão do rosto, engendrara o Gonçalo
sagazmente o apelido de Suçuarana, que a todo instante atirava
à barba dos outros, mostrando as pampas da cara.
Mas à exceção dele, ou de algum súcio
que lhe filava a pinga, ninguém o chamava pelo tal apelido
senão pela alcunha de Pinta, que lhe tinham posto para o
distinguir de outro Gonçalo carafuz, também morador
no lugar.
Não aturava, porém, o valentão esse desaforo;
e disparatava com quem o tratasse pela alcunha. Para não
se meter em rixas, evitava a gente de o chamar daquele modo na presença,
ainda que muitas vezes pelo costume lá escapava a palavra;
mas o Gonçalo fingia não ouvir. Também, segundo
contavam, já por vezes lhe tinham chimpado com o Pinta de
propósito e mesmo na bochecha, sem que ele respingasse.
Todavia o que mais amofinava o Gonçalo era a fama de Jão
Fera, de quem invejava não só a força e valentia,
como o apelido, que lhe granjeara sua malvadeza, o terror que inspirava
aquele nome, e até as mortes de que acusavam o outro, eram
para ele façanhas de estrondo.
Chegava o zelo do valentão a ponto de consumir-se quando
ouvia mencionar o Bugre como o maior criminoso de toda a província
de São Paulo. Muitas vezes em seu despeito encavacou seriamente;
e andava pelas vendas e ranchos com a canseira de provar que ele,
Gonçalo Suçuarana, merecia cem vezes mais a forca
do que Jão; pois as perversidades cometidas por este eram
travessuras de criança comparadas com os seus espalhafatos.
O subdelegado sabia disso e fazia como o juiz de paz, a quem a lei
o substituíra. Deixava bem descansado de seu o Gonçalo
Pinta, que assim podia a salvo gabar-se de ser um fama sem segundo
na arte de matar gente.
Todavia enquanto vivesse Jão Fera, sabia o valentão
que o nome deste havia sempre de ser o mais falado e temido de toda
aquela redondeza, e por isso o tinha em grande ojeriza, apesar do
serviço, que lhe prestara o Bugre, havia anos, livrando-o
de um recruta que o levava preso.
Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não
se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião
de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente
pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca
e espia do capanga foragido.
Tais eram as disposições do Gonçalo quando
chamou o Filipe para dizer-lhe em particular:
- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou
ele.
- Mas decerto, homem!
- E não sabe onde ele se encafua?
- Que esperança! Pois ainda estava aqui?
- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho?
- Abra o preço, amigo.
- Duzentos bicos?
- Topado.
- Mas há de ser com um ajuste...
- Diga lá.
- Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos
não serve.
- É assim mesmo.
- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas
aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá
andando por aí afora. Passando este morro, atrás do
outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá.
É só enquanto avio aqui outro negocinho.
Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da
cerca, onde havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo
fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse
o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores,
ali a dois passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado
a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço
de uma sapopema.
Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à
Nhanica, mulher do Tinguá, que fazia no balcão as
vezes do marido na ausência dele, pôs-se a caminho com
os companheiros.
Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro
a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida
guinilha do castanho, veio parar à porta da venda.
- Já está por cá? perguntou o Gonçalo
que o esperava no terreiro.
- Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo
de gralar! tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria.
- Pois bom proveito lhe faça a roça!
Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira:
- Quedê este homem?
- Ele não está, nhor, não!
- Onde foi?
- Na vila, nhor, sim.
- Quando volta?
- Volta logo.
- O diabo o leve e mais quem o ature.
Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá
que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o
dizia ele; mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro.
- Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo.
- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão
Bugre.
- O patrão também tem negócio com esse danado?
disse Gonçalo.
- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata
nem desata; e já a coisa me cheira a caçoada.
- Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que
ver!
- Então não é o que dizem?
- Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá
isso é verdade. Mas onde vê, já o encostei,
e só com este braço. Não é debalde que
me chamam de suçuarana!
- Com tanto que me avie o diabo depressa.
- Não custa. É só falar; o mais fica por minha
conta. Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem
o ajuste não está feito, que eu já ando com
a obra em meio.
- Pois vamos acabar com isto de uma vez.
Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção
que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça.
Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo,
surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam
carbúnculos, se alongaram pelo caminho além.
- Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega.