Til
José de Alencar
Capítulo XVI
A
sura
Na entrada
do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se
outrora à margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho
casebre.
Era uma antiga construção de taipa; e mostrava com
pouca diferença o aspecto comum às habitações
medianas que, naquela parte da província de São Paulo,
se encontram de espaço em espaço pela beira do caminho
e à distância dos arraiais e povoados.
A porta de entrada ficava no meio entre duas janelas estreitas em
vez de vidro. Tanto as portadas, como as folhas, estavam cobertas
de uma pintura cor de ferrugem, que destacava na parede da frente,
branquejada com tabatinga.
A um lado da casa cresciam umas encarquilhadas laranjeiras da China
e um pessegueiro; no outro havia canteiros, onde espigavam no meio
da ervagem couves gigantes, já com pretensões a arbustos,
de tão velhas que eram.
Mais longe, no gramado se erguia um frondoso pau-ferro, a cuja sombra
costumavam se abrigar da calma, durante a sesta, um cavalo magro,
uma vaca e alguns bacorinhos, que levavam o resto do dia a roer
o capim já tosado até a raiz.
Mediavam três dias depois que Berta salvara a vida a Luís
Galvão, retendo o ímpeto de Jão Fera.
Amanhecera de pouco. Estava um dia de inverno frio e brumoso. Forte
cerração cobria o vale, condensando-se ao longo do
rio. A trechos, grossos borbotões de neblina mais espessa
desdobravam-se do viso dos montes ao sopro da viração,
e rolavam como vagas por esse mar de névoas.
Vistas através do véu, as árvores tomavam um
aspecto pavoroso e fantástico, e às vezes figuravam
os espectros, de que a abusão povoa os ermos, a fugirem espancados
com os primeiros albores do dia.
Abriu-se a porta que dava para a varanda, corrida nos fundos da
casa, e assomou o vulto gentil e esbelto de uma moçoila que
trazia ao braço um saco de chita. Apesar da cerração,
era fácil de conhecer Berta, pela garridice petulante dos
gestos e meneios.
Aos saltinhos, ganhou a menina o quintal onde havia um pequeno jardim,
se tal nome cabe a moitas de roseiras, manjericão e malmequeres
plantados de mistura e sem arte dentro de um cercado de varas, entre
as quais estavam suspensos alguns cacos de barro com pés
de craveiros.
Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu
debaixo de sua palhoça uma galinha sura e muito arrepiada.
Não tinha pés a pobre, que lhos havia roído
à noite os ratos; andavam aos trancos, sobre os cotos que
mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la, a deixavam
cair a cada passo, cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia
ainda.
Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a
ao colo, deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco.
Farta a galinha da sua pitança, levou-a Berta à bica,
para matar-lhe a sede e lavar-lhe as penas sujas de poeira e cisco.
Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe nutrição
e asseio, a menina deitou numa palhoça, que a seu rogo fizera
Miguel num canto do cercado, para abrigo de sua protegida.
Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não
se notava a travessa alacridade que cintilava de ordinário
em seus movimentos; e era, pode-se bem dizer, a radiação
de seu gênio. Sua graça então era séria;
havia em seu lindo semblante uma serena efusão da ternura
que fluía-lhe dos olhos meio vendados e dos lábios
descerrados por um riso gentil.
Bem se conhecia, ao vê-la embebida naquela ocupação,
que não havia aí para ela unicamente o atrativo de
uma afeição de criança, como todos na meninice
sentimos, uns pelas bonecas, outros pelos cães ou passarinhos.
Impulso mais forte era o que movia o coração de Berta
para aquele mísero ente, como para todo o infortúnio
que encontrava em seu caminho.
Ninguém na casa se importava com essa galinha, a não
ser para fazer-lhe mal. Antes de perder os pés, por ser feia
e arisca perseguiam-na a pedradas, quando aparecia no quintal. Depois
que a roeu a ratazana, esteve ameaçada da panela, donde a
salvou Berta, que desde esse dia a tomou a seu cuidado.
Daí em diante, não houve mais quem bolisse com a sura;
porque sabiam que não o sofreria sua linda protetora. E como
todos queriam a Berta de coração, o ponto era mostrar
ela predileção por alguma pessoa, ou mesmo objeto,
que porfiavam por lhe adivinharem os pensamentos.
Tendo acomodado a galinha na sua capoeira coberta de palhas e mudado
a água do caco, a menina que derramara pelo chão um
punhado de milho e couve, entreteve-se alguns instantes a ver suas
flores, umas já de véspera abertas, outras botão
como ela, esperando o primeiro raio de sol para desabrocham.
Entre eles, colheu um de rosa que entrelaçou nos cabelos;
e deixando o quintal, sem demorar-se com as outras galinhas que
a cercavam cacarejando, e às quais atirou de passagem o resto
do milho, ganhou o campo.
Estendia-se este com pequenas ondulações até
a margem do rio, que ficava a umas cem braças da casa. Entre
as pitas e crautás, que formavam touças aqui e ali,
em torno de algum arvoredo, serpejavam trilhos, cruzando-se em várias
direções.
Seguiu Berta por aquele que estendia-se na direção
do rio. Não tinha, porém, dado vinte passos, que voltou-se
rapidamente, ouvindo rumor da porta da varanda que outra vez se
abria.
Por entre a folhagem e através da neblina viu ela o vulto
de Miguel, que parara no quintal, volvendo o rosto de um a outro
lado, como indeciso no rumo que devia tomar. Adivinhou logo a menina
que o rapaz lhe percebera a saída e vinha disposto a acompanhá-la.
Ocultou-se então em uma das touceiras, que embastiam as cortinas
de erva-de-passarinho, pendentes das ramas de uma velha laranjeira
do mato. Daí observou Miguel, o qual depois de vagar um instante
perplexo pelo campo, meteu-se pela vereda paralela ao rio, e pouco
depois desapareceu por detrás de uma ponta de capoeira.
Continuou então Berta o seu caminho; mas receosa de que o
rapaz a estivesse espreitando ou voltasse de repente, ora avançava
trêmula de susto, hesitando a cada passo e de chofre escondendo-se
atrás das árvores, ora disparava a correr para encobrir-se
no mato que bordava o sopé da colina.
Capítulo
XVII
Zana
Ao passar pela
garganta de dois outeiros pedregosos, que formavam abraçando-se
uma estreita e úmida charneca, Berta bateu com força
as palmas das mãos breves e delicadas.
Ouvia-se de perto um ornejo soturno, que mais parecia gemido; e
logo depois surdiu dentre o maciço da folhagem a enorme orelha
de um burro, que a muito custo movia o passo trôpego. De magreza
extrema, ressaltavam os ossos a modo que pareciam prestes a furar-lhe
o couro. Era propriamente uma carcaça, coberta com espessa
crosta de lama, onde o animal estivera deitado e lhe secara no pelo.
A outra orelha, que aparecia, a perdera ele na mesma ocasião
em que de uma foiçada lhe vazaram o olho esquerdo, levando-lhe
boa parte da cabeça. Parece que o arteiro do burro conseguira
furar a cerca da roça de um caipira, e regalava-se de milho
verde e tenra fava. Mas saiu-lhe cara a gulodice.
No mísero estado em que o pusera o caipira, pode, arrastando-se,
chegar àquela charneca, onde se deitou, quase moribundo,
em um brejal. Com pouco os urubus vieram pousar nas ramas da imbaúba.
Acaso passou Berta pelo caminho e ouvindo gemidos, foi guiada pelos
abutres, dar com o animal agonizante no meio de uma touça
de junça. Movida de compaixão, venceu a natural repugnância
que lhe devia causar o aspecto da ferida para lavá-la e cobrir
com folhas de fumo atadas por embira.
Do fumo sempre ouvira falar como remédio para todos os achaques.
Se não servisse para ferimentos, em todo o caso guardava
o talho contra as moscas e tavões.
Repetiram-se estes cuidados, até que afinal começou
a ferida a cicatrizar; mas deixara o burro em tal lazeira, que ainda
era duvidoso se escaparia. Não desanimou Berta, em cuja alma
se produziam na maior efervescência os transportes dessas
abnegações veementes, que são para certas naturezas
uma necessidade irresistível de expansão.
- Coitado do cotó! Ainda está muito magricela?...
disse a menina com um carinho compassivo.
E tirou do saco meia dúzia de espigas de milho, que o animal
devorou com uma gana de convalescência.
Debulhado o último sabugo, farejou o burro o saco, donde
se escapavam umas exalações que lhe pruiam agradavelmente
o olfato.
Rindo, outra vez meteu Berta a mão no seu inesgotável
saco e trouxe um punhado de farinha que o burro lambeu-lhe das palmas.
Dando então um ligeiro tapa na belfa do animal, deitou a
correr pelo campo fora seguindo a mesma vereda.
Atrás de um fraguedo, cuja fralda atravessava o leito do
rio, abrolhando-lhe a corrente, existia naquele tempo uma casa em
ruína. Já tinha desabado metade da parede do sótão
e o telhado abatia aos poucos, rompendo os caibros podres.
Da cozinha, que ainda se conservava em bom estado, com exceção
da porta já tombada ao chão pela ferrugem das dobradiças,
saía um som roufenho e soturno, como o grunhido de um porco.
Acocorada a um canto, com o queixo sobre os cotovelos fincados ao
peito cerrando a cara, descobria-se uma criatura humana, dobrada
sobre si a modo de trouxa.
Era uma preta velha, coberta apenas de uma tanga de andrajos, e
que resmoneava, batendo a cabeça com um movimento oscilatório
semelhante ao do calangro. De tempo em tempo desdobrava um dos braços
descarnados, insinuava ligeiramente a mão pela espádua,
e fazia menção de matar uma pulga que imaginava ter
presa entre o polegar e o indicador.
Havia algum tempo já que Berta parara à porta da cozinha,
sem que a estranha criatura desse o menor sinal de a ter percebido.
- Zana! disse afinal a menina.
Estremeceu a negra, e pôs-se a escuta daquela voz, como se
viesse de longe, de bem longe, e só mui de leve lhe ferisse
as ouças. Não se repetindo o chamado, voltou à
primeira posição e continuou a resmonear, abanar a
cabeça coberta de uma carapinha grisalha da cor de lã
churra do carneiro.
Entretanto Berta aproximou-se de uma prateleira que havia na parede,
junto ao fogão, para esvaziar ali o resto do saco. No velho
alguidar esborcinado, deitou a farinha de milho; e sobre a tábua
algum feijão e torresmos de carne de porco, embrulhados em
folhas de couves.
Recostando-se então à aba da prateleira, a menina
com os olhos fitos na preta começou em um tom brando e suavíssimo
a repetir este acalanto:
Cala a boca, anda, nhazinha,
Ai-huê, lê-lê!
Senão olha, canhambola,
Ai-huê, lê-lê!
Vem cá mesmo, Pai Zumbi,
Toma, papanha Bebê!
À proporção que a menina cantava, à
preta desrugava-se o rosto contraído por um espasmo, que
lhe deixara impressa no semblante alguma profunda angústia.
Uma vaga expressão de sorriso chegou a iluminar aquela fisionomia
bruta e repulsiva. Os olhos pouco antes baços e quase extintos
desferiram um lampejo, e vagando um instante pelo aposento, se fixaram
enfim no vulto de Berta.
- Bebê!... regougaram os grossos beiços da negra com
uma voz que não parecia humana, embora repassada de extrema
doçura.
Depois arrancou do peito cavernoso a mesma toada do acalanto, cujas
palavras truncava por forma que somente se percebia delas a sonância
confusa e estranha. Dir-se-ia que ela cantava em algum dialeto africano,
tão bárbara era a pronúncia com que se exprimia.
Entretanto fora dela mesma que Berta aprendera a cantilena por tê-la
ouvido repetir muitas vezes. Imagine-se que esforço de paciência
e atenção não fora necessário à
menina para decifrar entre os sons ignotos e quase inarticulados,
as palavras da cantiga, que ela dantes nunca ouvira.
Mas a pobre louca era uma das misérias sobre que se derramava
como bálsamo a alma de Berta. Desde criança se habituara
a passar aí algumas horas, de quando em vez; tornando-se
moça vinha regularmente duas vezes por semana visitar a sua
protegida e trazer-lhe o sustento.
Esperou Berta com a maior paciência que Zana acabasse de cantar;
e então mostrando-lhe as provisões conseguiu que ela
comesse alguns bocados dados por sua mão. Para que a doida
abrisse a boca, porém, era necessário que a menina
estivesse a repetir de momento a momento duas palavras que pronunciadas
por sua voz carinhosa produziam sobre esse espírito enfermo
um efeito mágico.
- Zana, bebê!...
Capítulo
XVIII
A
visão
Sentara-se
Berta na soleira da porta da cozinha, e com a vergôntea que
partira do galho seco de um marmeleiro, traçava letras no
chão do quintal.
Eram iniciais de nomes, que ela tinha no coração ou
na memória; e naquele momento de cisma lhe acudiam de envolta
com as recordações de sua modesta existência,
à qual estavam entrelaçadas.
De instante a instante, voltava o rosto para observar Zana, que
já completamente alheia e despercebida de sua presença,
continuava a menear a cabeça com a mesma incompreensível
surdina; ou arrancava da taipa um torrão de barro, que mastigava
com avidez.
Nessas ocasiões fitava Berta os olhos em uma réstia
de sol, que, penetrando pela fresta praticada no alto da parede
exterior, cortava obliquamente o aposento com uma faixa de luz.
O raio esbatido na taipa do fundo se inclinava gradualmente com
a elevação do sol no horizonte, e descia vertical
sobre o canto onde se acocorava habitualmente a louca.
A folhada crepitou com um estalido cadente, que indicava passo de
homem ou animal a caminhar por entre o matagal que cercava as ruínas
e ameaçava afogá-las sob a basta ramada.
Olhava a menina assustada para o lado de onde viera o rumor, quando
na balsa fronteira lobrigou um vulto pardo que resvalava por detrás
do tapigo, e cujo ofego sussurrava entre as folhas.
Ligeira escondeu-se Berta na cozinha, e por uma fenda que havia
no aposento próximo, outrora dispensa, espreitou o circuito.
Mas um incidente a distraiu desse propósito, chamando sua
atenção para o interior.
A réstia de sol, descendo, batera na cabeça de Zana,
que se ergueu esfregando os olhos, e aproximou-se do fogão.
Agachada em frente ao bueiro, começou a soprar, como se houvesse
ali nas grelhas algum brasido coberto pelo borralho; entretanto
o tijolo gretado, que servia de lareira, já não conservava
nem restos de cinzas.
Depois de algum tempo empregado na quimérica operação
de acender um fogo ausente, a louca foi à prateleira buscar
uns cacos de telha, que se lhe afiguravam panelas ou frigideiras;
e fez menção de lavar o trem de cozinha, para preparar
a comida.
Em meio dessa ocupação, de chofre voltou ela a cabeça,
aplicando o ouvido, à guisa de quem escuta um chamado, e
para acudir arrancou do peito um grito áspero e gutural:
- Inhá!...
Imediatamente deixou o fogão, depois de por os testos às
panelas, e dirigiu-se pelo corredor à sala da frente, donde
passou à alcova próxima. Não havia aí
ninguém; as paredes esboroavam-se; o teto de fasquias de
taquara caía aos pedaços, e as tábuas do soalho
rangiam sobre os barrotes carcomidos.
Zana tinha parado junto à porta, em atitude de escutar outra
pessoa, que por ventura ali estivesse a falar-lhe. Os gestos rudes,
mas expressivos; os esgares vivos e rápidos, que lhe cambiavam
a móbil fisionomia, indício eram das impressões
encontradas que abalavam esse espírito embotado.
Seguira Berta com ansiosa atenção os passos da louca,
decorando seus menores movimentos e observando-lhe amiúde
a expressão do rosto. Cosida a ela como a sombra ao corpo,
roçando-a muitas vezes a seu pesar, ou bafejando-lhe o rosto
com o hálito, quando acaso se inclinava para espiar-lhe o
semblante, nem assim Zana dava fé de sua presença.
Desde algum tempo, em uma de suas visitas, reparou Berta na singular
mímica da doida, e de princípio não viu nisso
mais do que um efeito natural da loucura. Mais tarde, porém,
notando a insistência com que a negra repetia os mesmos movimentos,
e ordem em que eles se sucediam, suspeitou a menina um mistério.
Não seria essa pantomima a representação muda
de uma cena que ali, naquela casa em ruínas, passara outrora,
e abalara a alma da negra a ponto de a subverter e alucinar?
Assim como dizem que a pupila conserva a imagem da última
visão, não sucederá o mesmo com o espírito,
e não ficará nele gravado, como em estereótipo,
o quadro que iluminaram os últimos clarões da razão
extinta?
Foi este pensamento de Berta, que, atraída pelo encanto desse
mistério, empenhou-se em perscrutar esse ermo onde jazia
no seio de uma casa e de uma consciência, ambas em ruínas,
o arcano impenetrável.
De tantas vezes que assistira àquele esboço rude e
taciturno de uma tragédia ignota, já conhecia Berta
de todos os seus episódios e incidentes, que mais tarde ela
reproduzia de memória com o afã de penetrar-lhes o
sentido oculto.
Até o momento em que Zana entrava na alcova, era fácil
de compreender o fato que a reminiscência da doida retraçava
tão ao vivo.
A preta, que era naturalmente a cozinheira da casa, despertada pelo
sol, do costumado cochilo, acendera o fogo e preparava o almoço,
quando ouviu chamarem-na do interior. Deixou a ocupação,
e acudiu alguém, que estava na alcova.
Aí ouviu assustada e com espanto o que lhe dizia essa pessoa,
e, achegando-se à janela na ponta dos pés, enfiou
os olhos na direção que lhe fora indicada. Assim permaneceu
algum tempo, até que recuou espavorida, com a máscara
do terror no semblante e os ossos dos joelhos a estalarem, batendo
um contra o outro.
O que vira ela?
Não pudera a menina atinar ainda, nem com a explicação
desse terror, nem com o resto da história, que de mais se
complicava.
No meio do súbito pavor, cobrava Zana a vontade, estendia
os braços crispados, parecia tomar um objeto que apertava
ao seio convulso, como se quisesse esconder ou sufocar; e atirava-se
fora do aposento com um ímpeto de horror que a levava até
um cubículo da cozinha, onde fazia sua dormida.
Dir-se-ia que deitava o fardo no chão e corria ao fogão
para tirar dali alguma coisa, que depois de moída espalhava
nas palmas das mãos para ir esfregar o objeto escondido no
cubículo.
Saía então ao terreiro, e passeava de um a outro lado
com os modos de uma ama, ninando criancinha de colo. Era nessa ocasião
que, balançando o corpo, com os braços arredondados
ao peito, ela entoava a monótona cantiga, que Berta conseguira
decifrar.
De repente transmudava-se completamente a doida, passando daquela
extrema volubilidade a uma apatia balorda. Parecia fazer-se um vácuo
em suas reminiscências, que fugiam-lhe deixando a alma sepultada
se intrumescia com a expressão do idiotismo.
Nesse estado de estupor, vagava a passos trôpegos pela casa,
até que parava automaticamente na porta da alcova e estendia
o pescoço para dentro. Devia de ser de ser horrível
o espetáculo que ali surgira a seus olhos, porque depois
de tantos anos, a só imagem a fulminava.
Erguia-se-lhe o corpo hirto; um grito de terror estalava no peito
e vinha estrangular-se nas fauces. Volvia sobre si; e tombava ao
chão, como uma pedra.
Capítulo
XIX
O
desconhecido
Tal era o esboço
grosseiro do misterioso drama, que ali se representara e do qual
Berta debalde se empenhava em devassar o segredo.
Mais estimulava a sua curiosidade o cuidado com que em criança
a tinham arredado da casa em ruínas, já inspirando-lhe
um terror supersticioso da louca, já recomendando-lhe que
nunca se dirigisse para aquela banda.
Também quando a menina queria saber a história de
Zana e a razão por que a negra doida ali vivia abandonada
numa casa em ruínas, que devia ter pertencido a pessoa abastada,
ninguém lhe respondia; mas procuravam uma evasiva para não
falar sobre tal assunto.
Tudo isto, longe de arredar a menina daquele sítio, bem ao
contrário desenvolvia nela uma dessas tentações
de criança que não conhecem obstáculos. A pouco
e pouco, de susto em susto, animou-se ao cabo de muitas semanas
a aproximar-se das ruínas e observar Zana em distância,
até que afinal se convenceu que era uma criatura inofensiva
a mísera doida.
Já tinha então Berta seus quinze anos, e com a afoiteza
da idade também ganhara mais largueza e desenvoltura da ação
para sair de casa e demorar-se fora sem inspirar cuidados.
Berta passava por enjeitada e ela o sabia, pois nunca lho ocultavam.
Fora a mãe de Miguel, nhá Tudinha, quem a recolhera
e criara com o maior desvelo. Na casa, porém, onde se achava
emprestada e por comiseração, era ela a verdadeira
senhora, pois que os donos se faziam cativos seus e porfiavam em
adivinhar-lhe as vontades para satisfazê-las.
Sem dúvida que nhá Tudinha queria mais bem ao filho
de suas entranhas; mas não tinha para ele os extremos, as
debilidades e carinhos, que fazia por essa filha de criação,
a enjeitadinha. De seu lado, Miguel, embora se estremecesse pela
mãe, decerto que pensava mais em Berta, sua colaça.
Sentindo a sedução que exercia em torno de si, não
abusava todavia a menina, transformando-se em uma pequena tirania
doméstica, à imitação de certas crianças
dengosas. A não ser para conservar a liberdade, a que a habituara
uma educação campestre, no mais esquivava-se quanto
podia ao império que lhe deferiam os súditos de sua
graça e gentileza.
Assim explica-se como podia Berta passar horas e horas nas ruínas,
observando Zana e esforçando por desvendar o mistério
dessa louca solitária, que ali vivia ao desamparo, completamente
esquecida e nutrindo-se de terra de raízes cruas, antes que
a menina se incumbisse da tarefa de prover a sua subsistência.
No dia em que estamos não acabou Zana a pantomima de sua
visão diária.
Quando se aproximava pé ante pé da janela da alcova,
em atitude de quem espreita, os olhos da negra esbarraram com os
de um homem. Era o Barroso que assomara de dentro do mato, pouco
antes, e dirigiu-se passo a passo para as ruínas.
Estremeceu a doida, e tão violenta foi a propulsão,
que a fez saltar sobre si. Com os olhos esbugalhados, a boca escancarada
e os beiços arregaçados, ficou banza um instante;
mas logo, espancada pelo terror, precipitou-se para fora tão
desastradamente que errou a porta e bateu em cheio na taipa.
De novo arremeteu, e rechaçada pelo choque, andou aos embates
contra a parede, até que acertando com o vão da porta
fugiu estremunhada de pavor.
Advertida pelo primeiro sintoma de estupefação da
louca, Berta seguindo-lhe a direção do olhar, avistara
também o Barroso, que nesse momento parado em face da janela,
a alguns passos apenas, a encarava com uma expressão de profundo
rancor.
Teve medo a menina, e recuou instintivamente. Estava acostumada
a correr só os campos vizinhos, onde freqüentemente
encontrava caipiras e toda a casta de gente malfazeja, de quem aliás
nunca se receara. Esse homem, porém, inspirava-lhe uma indefinível
repugnância e terror.
Esteve Barroso a considerá-la alguns instantes, com ar de
quem se resolve. Por fim, mascando um riso mau, que revia-lhe dos
lábios, afastou-se murmurando:
- Eu hei de saber! Ah! se fosse!...
Com a partida do desconhecido, recuperou Berta a calma de espírito
e volvia os olhos pela sala procurando Zana, que vira fugir, quando
lhe feriram o ouvido gritos esganidos e sufocados, que vinham do
terreiro.
Precipitando-se da alcova, a preta viera até o terreiro da
cozinha, onde, faltando-lhe as forças, abateu-se como um
fardo a que retiram o apoio.
Imediatamente de dentro do balseiro saltou com o arremesso de um
gato do mato uma estranha criatura cuja roupa de grosso brim escorria
para a ilusão. Acocorando-se em cima do corpo inerte da louca,
apertava-lhe ao pescoço as mãos crispadas, procurando
esganá-la, enquanto com os pés e os joelhos malhava-lhe
o ventre.
Foi esta cena cruel que Berta viu de relance ao chegar à
porta da cozinha, chamada pelos gritos. Arrojando-se do mesmo ímpeto
ao terreiro, seus lábios lançaram com um tom de severa
exprobração o nome do perverso, que espancava tão
barbaramente uma criatura inofensiva.
- Brás!
Não se animou o rapaz a erguer a cabeça, tão
acabrunhado ficara, e tão corrido de sua barbaridade. Naquele
instante não havia forças para obrigá-lo a
fitar o semblante de Berta, e afrontar a cólera de seu olhar.
Agachado, como se quisera sumir-se pela terra a dentro, fugira ele
antes que a menina chegasse para tirar-lhe a preta das garras; e
foi esconder-se por detrás de um marachão da taipa,
que esboroara da parede do outão.
Cuidou Berta de levantar a cabeça da doida, na esperança
de reanimá-la, o que só conseguiu depois de muito
tempo. Quando a preta se pode erguer, ajudou-a ela a ganhar o cubículo,
onde à noite se agasalhava a infeliz. Havia tempo que trouxera
a menina uma esteira, sobre a qual a acomodou, prometendo a si mesma
voltar logo mais com aguardente e pano para deitar sobre a contusão
que tinham deixado as mãos de Brás.
Este continuava agachado por trás do medão de taipa;
espiando à sorrelfa os movimentos de Berta, quedava-se com
a humildade do rafeiro quando espera que a mão do senhor
o fustigue pela falta cometida. Ao rumor dos passos da menina, que
vinha de seu lado, encolheu-se ainda mais; parecia concentrar-se
todo para o transe difícil.
Trazia Berta no olhar uma profunda repulsão, e o lábio
frisado por um assomo de cólera. A perversidade do rapaz
contra a mísera doida a revoltara dolorosamente a ponto de
esquecer que também esse ato cruel era de um espírito
enfermo, e quem sabe se mais digno de lástima.
Parou ela em face do culpado, perplexa, hesitando por ventura no
castigo que devia infligir-lhe. Por fim deixou cair dos lábios
um sorriso de desprezo e afastou-se rapidamente.
Esperava o rapaz uma severa repreensão. Este desprezo e repentino
abandono, o trespassaram de dor. Quis levantar-se para correr após
a menina, e as pernas lhe fugiram. Voltando-se ao rugido que ele
soltara, o viu Berta de joelhos, estorcendo as mãos súplices
e esforçando arrancar das fauces uma palavra que o sufocava.
- Não! disse a menina.
Esta palavra fulminou Brás, que estrebuchou no chão,
estorcendo-se em uma convulsão medonha, que dobrou-lhe o
corpo hirto, como se fosse uma verga de chumbo. Espumava-lhe a boca,
e os dentes rangiam com horríveis contrações,
que deformavam-lhe o semblante.
Vencida pela compaixão dessa agonia, Berta correu a ele;
e sentada sobre a relva, o tomou ao colo para amimá-lo como
o faria a uma criança, acalentando-a com meiguices e carinhos.