Til
José de Alencar
Capítulo XIII
Susto
Na primeira
surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio
um ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu.
Tornaram, pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí
distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a
assomada da colina, curiosa que estava de saber donde partira o
clamor.
- Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio
a Miguel como se não o conhecesse de muito tempo a seus hábitos.
Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências
recônditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal,
feita por lábios amantes? Não estava porventura transpirando
das palavras da moça um queixume pela preferência dada
a uma distração que ela não partilhava?
- É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.
- Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro
mui lindo, que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe...
Mano podia emprestar-lhe.
- Já li; disse simplesmente Miguel.
- Não é tão bonito?
- Muito.
- Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.
Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se
em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se
de que podiam perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço.
- O senhor não deseja formar-se?
- Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se
ao habitual sossego:
- Mas para que pensar nisto?
- Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas
para se ajudarem.
- Para viver lá em São Paulo e lá estudar,
é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em
tom de gracejo.
- Papai lhe empresta.
- Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu.
- Por que razão?
De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina:
- Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando
não pretende pagar.
- É verdade!
Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos
de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu
respeito. Não era ele desses que lançavam à
conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam
contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição
como um fato natural e com certa filosofia prática, rara
em mancebos.
- Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu
me formasse, teria ambições que não são
para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto que
ficando no meu canto, viverei tranqüilo junto daqueles a quem
amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas que não
valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por aí?
Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se
para pregar em Berta uma das peças costumadas. Já
ele se esgueirava sorrateiramente entre a folhagem para tomar de
surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada
alguma coisa que lhe chamava a atenção, desceu a correr
para a figueira e veio interromper o colóquio.
- Onde vai o sr. Galvão?
- Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu
Linda.
- Você não me disse nada.
- Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe
que ficou tão assustada.
- Por que? perguntou Migue.
- Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem
apareceu junto da fazenda um homem muito mau.
- O bugre!
- Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá.
- Isso mesmo.
Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula
constringiu o seio como para reter o coração que lhe
fugia.
- Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação
da amiga, estou bem assustada. Não quis mostrar para não
agoniar mamãe ainda mais do que ela estava; porém
quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria
fico fria e toda trêmula.
- Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão
já chamo o tal Jão Fera para tirar-lhe o susto. É
como se faz com as crianças, para não terem medo do
calhambola.
- Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo!
disse Miguel.
- Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já
devia estar bem longe.
Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar
o caminho. Miguel foi a seguindo, esforçando por manter-se
de ânimo sereno a fim de não redobrar o susto da moça.
Entretanto não deixava ele de estar inquieto e impressionado,
recordando-se do encontro que tivera há pouco tempo com o
feroz capanga, e sobre o qual julgara prudente calar-se.
- Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação
de ver o pai, e a preocupação do motivo daquela demora.
Ela não sabia do incidente da volta por causa das amostras;
mas era ele tão natural que ocorreu a Miguel.
- Talvez tivesse esquecido alguma coisa.
- Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas.
- Onde está Berta? perguntou Afonso que a procurava desde
alguns instantes.
- Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel.
- Berta! chamou Linda.
- Aqui não está. Já corri tudo.
- Dê lembranças a ela, Miguel; não posso esperar;
já é tarde.
- Aí adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda.
- Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mão de Miguel.
Os dois irmãos atravessaram a capoeira, espreitando por entre
as folhas, mas não viram sombra de Berta.
Nesse momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se
ouvira; mas desta vez gania a voz com tal ímpeto e frenesi
que estrangulava-se.
- Til! Til! Til...
Na roça estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas,
e no manejo da enxada batiam a cadência de um canto monótono,
com que amenizavam o trabalho:
Do pique daquele morro
Vem descendo um cavaleiro
Oh! Gentes, pois não verão
Este sapo num sendeiro?
Adubavam o
mote com uma descomposta risada e logo após soltavam um riso
gutural:
- Pxu! Pxu!
Tem os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais,
seus improvisos, que muitas vezes encerram epigramas e alusões.
Bem desconfiavam, pois, o feitor de que a tal cantiga bolia com
ele, e o sapo não era outro senão um certo sujeito
bojudo e roliço, de seu íntimo conhecimento; mas fingia-se
despercebido da coisa.
Quando passaram os dois irmãos, a um sinal da cabeça
de eito, os pretos fizeram um floreio de enxadas, suspendendo-as
ao ar com a mão esquerda, e com a direita pediram a benção.
Capítulo
XIV
A
vespa
Onde sumira-se
Berta, que não a descobria Miguel já cansado e aborrecido
de a procurar por quanta moita e sebe ali havia?
Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito
da viagem de Luís Galvão, sofrera a menina um choque
violento, que redobrou quando foi proferido o nome de Jão
Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara,
e do qual se contavam coisas inauditas.
No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente
haviam escapado ao moço, quando falava das desgraças
que sempre acompanhavam o aparecimento daquele homem sinistro em
qualquer lugar.
É verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o
de tais idéias, costumava ela encontrá-lo naquelas
mesmas paragens, durante as longas excursões que fazia pelos
campos. Mas, recordando-se do aspecto e modo com que nessas ocasiões
lhe aparecia Jão, reconheceu que nessa manhã trazia
o capanga no vulto e no semblante o que quer que fosse de soturno
e ameaçador.
- Nos outros dias, parecia-me tão bom e humilde. Custava-me
a crer todo o mal que dizem dele; e até as vezes dava-me
na vontade perguntar-lhe se era verdade. Mas tinha pena dele. Havia
de afligi-lo muito. São coisas ruins as que por aí
contam. Meu Deus! É possível que se mate gente assim
com tamanha barbaridade?... Aquela cara amarrada que ele tinha hoje;
e os olhos fundos, e os modos arrebatados... Bem se via que levava
uma maldade no pensamento. E para que nos veio seguindo por dentro
do mato até junto da tronqueira, e depois sumiu-se para a
banda da Ave-Maria, de que Linda falou há pouco, e por onde
o sr. Galvão não tarda a passar?... Ah! o coração
me diz: Ele está na tocaia, e é para o sr. Galvão
mesmo!
Estas reflexões tumultuavam no espírito de Berta,
que rompia o mato, fustigando o rosto pelos ramos das árvores
e magoadas as mãos em partir as enrediças.
Ao recobrar-se do sossôbro que tivera, escutando as palavras
de Linda, ela afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro,
e certificar-se da altura em que iam os viajantes. Descendo porém
rapidamente a outra encosta, penetrou na floresta e desapareceu,
antes que pudesse o Afonso já à cata, seguir-lhe a
pista.
Valia a Berta conhecer perfeitamente o sítio, que muitas
vezes antes percorrera com Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto
dali, para quem atalhava o caminho, levando rumo direto por entre
a brenha e ao longo do costão que alombava o penhasco até
a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava pelo dorso do espigão
e saía no tope da garganta.
A estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvão,
descrevia uma larga curva contornando as terras a que servia de
extrema, e vinha passar em pequena distância à direita
do Tanquinho, cerca de uma milha da casa das Palmas, situada no
recosto da esplanada.
Calculou Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avanço
e podia alcançar antes dele a azinhaga, para certificar-se
de que a passara incólume, ou para salvá-lo de qualquer
modo, que a menina não podia imaginar.
Para isso, porém, era indispensável que o mato não
lhe tolhesse o passo nem embaraçasse a carreira; e pois buscava
ela descobrir o trilho no alto do espigão.
Não pode achá-lo. A perturbação em que
a deixara em choque, aumentada com a convicção de
estar Jão na tocaia, lhe roubara a calma necessária
para orientar-se no meio daquele dédalo inextricável,
tecido pelas guitas dos cipós e vergônteas das árvores.
De súbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violência
despedaçados, farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar
nas abóbadas da floresta o estrupido de um passo duro e pesado.
Gente ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rápida
carreira, que não encontrava obstáculo para detê-lo.
Dir-se-ia a disparada de uma anta, se não fosse uma certa
ondulação do rumor que indicava não levar a
corrido alvo certo, mas desviar-se para um e outro lado, fazendo
voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa no rumo, embora
impetuosa na investida.
Parando para concentrar um momento a atenção convenceu-se
a menina que a seguiam; e sua fronte decidida vibrou um gesto de
soberba contrariedade. Chamando a si toda a energia de seu caráter
e todas as forças de sua fina têmpera, Berta de novo
arremessou-se, e rompeu o mato com o desespero de escapar à
perseguição.
Infelizmente, quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma
sebe emaranhada; e aí ficou enleada pelas meadas de enrediças
que fazia entre os galhos das árvores um tecido de folhagem.
Debalde tentou a menina desvencilhar-se; cada vez mais se prendia.
Entretanto se aproximava dela rapidamente o som da outra corrida,
e não tardaria muito que chegasse ali.
Ocorreu então a Berta uma idéia, encolhendo-se dentro
do esconderijo, que lhe deparara tão propício acaso,
quedou-se à espera, sem rumor, cortando sutil com os dentes
as cordas dos cipós que a enleavam.
Chegou enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de
duas braças do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir
mais do que um vulto pardo, que bruxuleou entre o maciço
da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca, até
que perdeu-se na distância.
Surdiu Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, não
só a destrinçar a teia que a envolvia, como a coligir
as vagas lembranças daqueles sítios. Lá não
muito longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo;
a vereda passava por cima.
Caindo em fim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego
chegou à brenha da azinhaga. Aí hesitou um instante.
Em que ponto do despenhadeiro estaria de emboscada o capanga? Onde
e como descobri-lo? Chegaria a tempo? Não seria frustrada
a louca esperança que a trouxera?
A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez
bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe
servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame:
o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera
salvar.
Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava
nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada
que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís
Galvão, não podia ser outro.
Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção
para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante
dela abria-se um barranco profundo. Lançando olhos ansiados
em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta.
Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela manhã
Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso
distender-se como serpente.
Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais,
espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à
frente.
Como dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre
não feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo,
barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco; e
o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar
a cabeça revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado
pela sanha a subverter-lhe o coração.
Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo
de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não
podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.
Chegara o fatal momento.
Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão
Fera arrancou. A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros,
ao impulso de mão invisível que lhe travara os cabelos.
Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada
de cólera e desprezo:
- Malvado!...
O capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela
vespa. Estava em face de Berta.
Capítulo XV
O
relicário
Era medonha
a catadura de Jão Fera quando voltou-se.
A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida
da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e ferocidade
que desprendia-se daquela fisionomia intumescida pela fúria.
Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso
foi precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria.
Reagiu, porém, a altivez de sua alma e a fé que a
inspirava.
Travando as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás
da cintura, e crispados os braços como duas molas de aço
brandidas, conseguiu manter-se com o talhe ereto e a fronte sobranceira,
arrostando em face aquela rábia formidável, que terrificaria
ao mais bravo.
Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de
sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos,
não abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando
a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se
e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe
à jaula, rangendo os dentes.
Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e
ele sentia-se trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo
esse coração nobre e puro, sublevado pela indignação.
De repente começaram a tremer-lhe os músculos da face,
como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as pálpebras
caíram-lhe, vendando-lhe a pupila ardente e rúbida.
- Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com
um timbre de voz, semelhante ao ringir do vidro.
Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos
lábios, aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse
em um antro.
- Estava.
- Que mal te fez essa pessoa?
- Nenhum.
- E ias assassiná-la?
- Pagaram-me.
- Então, matas por dinheiro? perguntou Berta com a veêmencia
do horror, que lhe causava essa torpe exploração do
crime.
- É meu ofício! disse Jão Fera com uma voz
calma, ainda que grave e triste.
- E não te envergonhas?
Com um assomo de soberba indignação foram proferidas
estas palavras pela menina cujo olhar vibrante flagelava as faces
do sicário. Este erguera a fronte num ímpeto de revolta,
pungidos os brios pela humilhação:
- Envergonhar-me de que? Não feri, nunca feri homem algum
de emboscada, às ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a
peito descoberto. Se mato é porque sou mais valente e mais
forte; mas arrisco minha vida, e umas quantas vezes, bem mais do
que esses a quem despacho, pois sou um só contra muitos.
- Que importa isso? A miséria está em venderes a vida
de teu semelhante, se acaso és tu homem e não fera
como te chamam.
Um riso de ironia feroz arregaçou o lábio do capanga.
- E a vida é coisa que não se venda? Aí estão
comprando-a todos os dias e até roubando. A minha, não
a queriam, quando me recrutaram? Foi preciso barganhar por outra,
senão lá ia acabar em alguma enxovia.
- Assim não te causa a menor repugnância derramar o
sangue de teus semelhantes em troca de alguns vinténs?
- Sangue de gente, ou sangue de onça, todo é um; tem
a mesma cor, e a mesma maldade. Já estou acostumado com ele.
Sente-se a fumaça do churrasco. Eu gosto! Disse o sicário
dilatando as narinas, como se esquisito aroma lhe prurisse o olfato.
- Tu és um monstro! disse Berta afinal com uma explosão
de horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores
crimes e capaz de cometer toda a espécie de atrocidade, eu
não queria crer; porque duvidava que um homem pudesse transformar-se
em um tigre carniceiro; e também porque tantas vezes te vi
tão sossegado e cuidados comigo, e eu não podia imaginar
que se pudesse ter esse rosto bom e tranqüilo, tendo-se dentro
do coração uma caninana.
A estas últimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se
com uma entonação afetuosa, o corpo robusto do capanga
oscilou com íntima e rija vibração, como o
prócero ibiratã quando a seiva exuberante irrompe
lascando-lhe o tronco. Na expansão violenta de sua alma,
arrojava-se ele aos pés de Berta e ia cair-lhe de joelhos,
quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado:
- Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar
de mais horrível. Que assassines por paga a quem não
te fez mal, que por vingança pratiques crueldades que espantam,
eu concebo; és como a suçuarana, que às vezes
mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira
e estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho
de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de
quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque
até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez,
e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.
- Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre;
e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno,
porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das
sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu
negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar
ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra
nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela.
- Para ti, portanto, não há gratidão?
- Não sei o que é; demais, Galvão já
pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi.
Estamos de contas justas! Acrescentou Jão Fera com um suspiro
profundo. Assim não era por ele que eu o queria poupar; mas
por outra pessoa.
O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não
teve forças de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave
e abatia-se no chão:
- Foi por mecê, disse a voz submissa.
- Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo?
- Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não
tenho para restituir...
- Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques!
Jão Fera estremeceu:
- Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como
a fatalidade.
- Desempenha!
- Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu
sucumbido:
- Não tenho quarenta mil réis!
Um riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio
de Berta.
- Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino
que farta-se de sangue, com o escrúpulo de meter a mão
na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!...
A tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi
com a voz estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou:
- Jão Bugre é um homem de honra!
- Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre!
Aquele que escapaste de assassinar te dará de esmola o preço
por que ajustaste sua morte, como te deu outrora o pão com
que matavas a fome!
Ante este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu,
desfigurando-se horrivelmente. Nas crispações do rosto,
como nos espasmos das pupilas, sentiam-se as vascas da convulsão
que laborava aquela alma.
- Jura que o respeitarás!
- Não posso! murmurou o capanga com um arranco.
- Jura!
- Minha palavra!...
Era tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada
por uma ânsia do coração, e tamanha desolação
cobria aquela organização possante e indômita,
agora esmagada sob a mão frágil de uma criança,
que Berta comoveu-se profundamente.
- Toma, vende e desempenha a tua palavra!
E estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara
do pescoço e ao qual estava preso o amuleto e a cruz.
- O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir
o objeto, tão cedo estava da agonia daquele transe.
- O relicário de minha mãe!
Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão
Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.
Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo
humano, que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com
a gorja a estertorar e os dentes a ranger.
Berta o reconheceu.
Era Brás, o idiota.