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Sermão III - Maria Rosa Mística
Padre António Vieira

 


§ IX

Abramos os ouvidos e os apliquemos com grande atenção ao que Cristo nos diz nos quinze mistérios do Rosário. O
que ouviram os Reis Magos na meditação de um só mistério do Rosário. A voz dos passos de Deus.

O que só resta é que abramos os ouvidos, e os apliquemos com grande atenção e devoção ao que Cristo, Senhor nosso, nos
diz em todos os quinze mistérios do Rosário, que são os principais passos de sua vida, morte e ressurreição gloriosa. E,
posto que em alguns deles, assim antes como depois de nascido, parece que o Senhor está mudo e não fala, todos os
mesmos passos falam, e todos têm voz, e nos dão vozes. Depois de pecarem os primeiros pais, diz o texto sagrado que
ouviram a voz de Deus que passeava pelo paraíso: Cum audissent vocem Dei deambulantis in paradiso (Gên 3, 8). --
Qual fosse esta voz não o declara o texto; mas a exposição mais literal é que era o som dos mesmos passos com que o
Senhor, em figura humana, vinha buscar o homem perdido. Esta foi a voz que eles ouviram, e os obrigou a se esconderem.
Em nenhum passo esteve Cristo mais mudo que no do Nascimento, e por isso os anjos disseram aos pastores que achariam
no presépio um menino que não falava: Invenietis infantem (Lc 2, 12). Mas neste mesmo passo ou mistério do Rosário
vede como o Infante que não falava falou, e de quanta importância foi o que disse.

Ofereceram os reis três diferentes dons, em que eram significados os mistérios do Rosário: no ouro, os Gozosos, na mirra, os
Dolorosos, no incenso, os Gloriosos. E que é o que ouviram, e a quem? Responso accepto in somnis ne redirent ad
Herodem, per aliam viam reversi sunt in regionem suam (50). A quem ouviram -- como nota S. Jerônimo -- foi ao
mesmo Cristo, que, mudo no exterior, lhes falou interiormente aos ouvidos da alma, e por isso in somnis, na maior abstração
e silêncio de todos os sentidos do corpo. E o que ouviram foi que não tornassem a Herodes, de cuja tirania se podiam
justamente temer, e que por outro caminho voltassem seguros para a sua pátria, como fizeram: Per aliam viam reversi sunt
in regionem suam. -- Isto é o que ouviram, na meditação de um só mistério do Rosário, aqueles três reis sábios. E digo na
meditação, porque não lemos no Evangelho que falassem ali vocalmente uma só palavra, e só lemos as que ouviram. Ouviram
o que lhes importava à vida, e ouviram o que lhes importava à alma. Vieram gentios, adoraram fiéis, e tornaram santos. Oh!
quantas vezes tem obrado a meditação do Rosário esta mesma maravilha! Quantos que andavam muito desviados do
caminho do céu, que é a nossa pátria, depois que meditaram aqueles sagrados mistérios, conheceram a diferença e erro de
seus caminhos, e tomaram a verdadeira estrada da salvação! O fim para que o Filho de Deus veio ao mundo foi para nos
ensinar o caminho do céu; e isto é o que nos ensinam todos os passos de sua vida. Não ouçamos as vozes destes passos de
Deus para fugir e nos esconder, como fez Adão, que por isso perdeu o paraíso. Ouçamo-las para imitar e seguir os mesmos
passos e emendar os nossos, como fazia Davi: Cogitavi vias meas, et converti pedes meos in testimonia tua (51) --
porque este é só o caminho certo e seguro por onde se consegue a bem-aventurança, que o mesmo Senhor só promete aos
que ouvem e observam suas palavras: Beati qui audiunt verbum Dei et custodiunt illud.

Notas:

(1) Antes, bem-aventurados aqueles que ouvem a palavra de Deus (Lc 11, 28).

(2) D. Bernard. Serm. 2 de Pentecost.

(3) D. Bruno, Serm. 4 de Annuntiat.

(4) Discorria pensativa que saudação seria esta (Lc 1, 29).

(5) Faça-se em mim segundo a tua palavra (ibid. 38).

(6) Eu saí da boca do Altíssimo (Eclo 24, 5).

(7) D. Thom. I. p. q. 34, art. 1 ad 2.

(8) De tarde, e de manhã, e ao meio-dia, narrá-lo-ei (Sl 54, 18).

(9) Sete vezes no dia te disse louvor (Sl 118, 164).

(10) Nas madrugadas meditarei em ti (Sl 62, 7).

(11) Tenho meditado em todas as tuas obras: meditava nas obras das tuas mãos (Sl 142, 5).

(12) Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, e dá-nos o teu Salvador. Eu ouvirei o que o Senhor Deus me falar (Sl 84, 8 s).

(13) August. tract. 24 in Joan.

(14) Que vela todos os dias à entrada da minha casa, e que está feito espia às ombreiras da minha porta. (Prov 8, 34).

(15) A sua conversação é com os simples (Prov. 3, 32).

(16) Falarei ao Senhor, ainda que eu seja pó e cinza (Gên 18, 27).

(17) A boca do justo meditará sabedoria, e a sua língua falará prudência (Sl 36, 30).

(18) Caiu do meu coração com grande ímpeto uma palavra boa: eu digo ao rei as minhas obras (Sl 44, 2).

(19) Eu nunca jamais fui eloqüente (Êx 4, 10).

(20) E os meus ouvidos, como às furtadelas, perceberam uma parte do seu ruído (Jó 4, 12).

(21) Oxalá se pesassem numa balança os meus pecados, pelos quais mereci a ira e a calamidade que padeço! Ver-se-ia que
esta era mais pesada que a areia do mar (Jó 6, 2 s).

(22) Pineda in hunc locum.

(23) As tuas faces são como a da rôla (Cânt 1, 9).

(24) O teu pescoço tem a beleza dos mais ricos colares (ibidem).

(25) D. Bernard. Serm. 4 in Cant.

(26) Eis a voz do meu amado, que bate dizendo: Abre-me, irmã minha, pomba minha, imaculada minha (Cânt 5, 2).

(27) Philo Carpat. in hunc locum.

(28) Eis aqui o Cordeiro de Deus, eis aqui o que tira os pecados do mundo (Jo 1, 29).

(29) A voz do Senhor sobre as águas; a voz do Senhor no poder; a voz do Senhor em magnificiência; a voz do Senhor que
quebra os cedros; a voz do Senhor que divide as chamas do fogo; a voz do Senhor que prepara os veados (Sl 28, 3 ss. 7
ss).

(30) Misericórdia quero, e não sacrifício (Mt 9, 13).

(31) Na Vulgata: -- Eu estarei no lugar da minha sentinela, e firmarei o pé sobre as fortificações, e pôr-me-ei alerta para ver
o que se me diga, e o que hei de responder ao que me repreenda (Hab 2, 1).

(32) Do ritual do Batismo: Entra para a Santa Igreja.

(33) Ficar-lhe-ão retinindo ambas as orelhas (4 Rs 21, 12).

(34) No meio dos anos tu a farás notória; serás conhecido no meio de dois animais (Hab 3, 1) -- LXX).

(35) Das suas mãos sairão raios de glória; aí é que a sua fortaleza está escondida. A morte irá diante da sua face, e o diabo
sairá diante dos seus pés (ibid. 4 s).

(36) Tu infalivelmente suscitarás o teu arco, tu cumprirás as promessas com juramento que fizeste as tribos, montando sobre
os teus cavalos, e as tuas carroças são a nossa salvação (ibid. 9, 8).

(37) Meditaram coisas vãs (Sl 2, 1).

(38) Todo o dia maquinavam enganos (Sl 37, 13).

(39) Aquele que medita discórdias (Prov 17, 19).

(40) Medita rapinas (Prov 24, 2).

(41) Meditou a iniqüidade na sua cama (Sl 35, 5).

(42) Mas Samuel ainda não conhecia o Senhor, porque lhe não tinha sido revelada a palavra do Senhor (1 Rs 3, 7).

(43) Não se aparte da tua boca o livro desta lei, mas meditarás nele dia e noite (Jos 1, 8).

(44) Tertul. lib. de Pallio.

(45) Bern. lib. I de consid. ad Eugen.

(46) Assim contemplemos na terra os sagrados mistérios de seu Rosário, para que mereçamos depois desta vida gozar de
seus frutos.

(47) Concedei-nos, por estes sagrados mistérios do Rosário de vossa Mãe, que, comtemplando-os continuamente, sejam
para nós causa de eterna alegria.

(48) Santificai, pela invocação do Espírito Santo, os que festejam a solenidade do Rosário de vossa Santíssima Mãe.

(49) Não te ouvirei, porque não me ouviste.

(50) Havida resposta em sonhos que não tornassem a Herodes, voltaram por outro caminho para a sua terra (Mt 2, 12).

(51) Considerei os meus caminhos, e voltei os meu pés para os teus testemunhos (Sl 118, 59).

Edição de base: Sermões Escolhidos - vol. II, Edameris : São Paulo, 1965.

Parágrafo I e Parágrafo II
Parágrafo III e Parágrafo IV
Parágrafo V e Parágrafo VI
Parágrafo VII e Parágrafo VIII
Parágrafo IX e Notas