Sermão
III - Maria Rosa Mística
Padre António Vieira
§ VII
O profeta Habacuc,
o que melhor e mais claramente praticou a oração mental.
De que nos argúi Deus nos mistérios
do Rosário? De que mistérios falou o profeta quando
diz que ficou mudo de pavor e de pasmo?
Parece-me que,
suposta a evidência destes três motivos: da parte nossa,
cujo proveito devemos procurar, tão útil; da parte
de Deus, a quem queremos agradar, tão conveniente; e da parte
do mesmo Rosário, cuja devoção professamos,
tão
necessário, nenhum entendimento haverá que se não
deixe convencer, e nenhuma vontade que não esteja afeiçoada
ao inteiro
e perfeito exercício do mesmo Rosário, não
só rezando as orações, mas meditando os mistérios,
nem só falando vocalmente
com Deus, mas ouvindo mentalmente o que ele nos diz.
Vindo, pois,
à praxe desta grande obra -- grande, mas nem por isso dificultosa
-- quem melhor e mais claramente a praticou
foi o profeta Habacuc, o qual no capítulo segundo, e no texto
original, diz desta maneira: Super speculam meam stabo, et
figam gradum super gyrum, et contemplabor ut videam quid dicatur
mihi, et quid respondeam ad arguentem me (31):
Subirei -- diz o profeta -- à minha atalaia -- assim chama
ao lugar de oração, porque ela é alta, e esta
vida milícia; e como da
vigilância da sentinela depende a segurança da cidade,
sem oração, e vigilante oração, não
está a alma segura: Super
speculam meam stabo. A palavra speculam, donde tomou o nome a especulação,
declara o gênero da oração de que fala; e
que não fala da oração vocal, senão
da mental, cujo ofício é especular, considerar, meditar.
Supõe que esta atalaia da oração
a que sobe, é formada em um círculo -- como se tratara
propriamente do Rosário -- e diz que não há
de rodear e correr o
círculo, senão parar e fixar o pé nele: Figam
gradum super gyrum -- porque os que rezam só vocalmente vão
dando volta
ao círculo do Rosário sem parar; porém, os
que meditam e especulam, param, com a consideração,
a cada mistério. Assim
parado, pois, diz que há de contemplar: contemplabor -- e
que o fim de toda a sua contemplação será ouvir
o que Deus lhe
fala: Ut videam quid loquatur mihi -- e saber o que há de
responder quando o mesmo Deus o argüir: Et quid respondeam
ad arguentem me.
Isto é
o que diz, e o que fazia o profeta, e isto o que, sem dizer nem
falar, há de fazer quem meditar os mistérios do Rosário.
Parar a cada um meditando-o, e ouvir o que Deus lhe diz e o que
lhe argúe: Quid loquatur mihi, et arguentem me. --
Ponhamos o exemplo desta praxe nos primeiros mistérios. No
mistério da Encarnação diz-me Deus que se fez
homem por
amor de mim, e para me fazer filho de Deus. E de que me argúi?
De que, fazendo por mim o que não fez pelos anjos, e
devendo eu, como filho de Deus, viver uma vida divina, nem vivo
como filho de Deus, nem vivo como anjo, nem vivo como
homem, senão talvez como bruto. No mistério da Visitação
o que me diz é que no mesmo instante em que se viu feito
homem, partiu logo às montanhas a santificar o Batista e
livrá-lo do pecado original. E de que me argúi? De
que indo ele
antes de nascer a tirar do pecado um homem que ainda não
era nascido, eu tenha tão pouco horror ao pecado, não
alheio,
senão próprio, não original, senão atual,
e, o que e pior ainda, habitual, que me deixe estar e continuar
nele, sem temor, sem
cuidado, sem pena, antes alegre e contente, como se alegrou o Batista.
No mistério do Nascimento o que me diz é que
nasceu em um portal por não ter casa, e esteve reclinado
em uma mangedoura por não ter berço. E de que me argúi?
De que
eu me não contente com a comodidade natural e com o necessário
para a vida, senão com a superfluidade, com o luxo, com
os excessos, esquecido de que nasci para a alma morar no céu,
e o corpo na sepultura, não falando na ambição
dos que
edificam palácios soberbos, nem na inveja dos que os não
podem edificar. No mistério da Presentação
no Templo diz-me
que obedeceu à lei sem ser obrigado a ela, e que aos quarenta
dias de nascido se consagrou todo a Deus. E de que me
argúi? De que, comparados aqueles quarenta dias com os meus
quarenta anos, e com os meus cinqüenta, e ainda mais, eu
me lembre tão pouco do que prometi quando me disseram: Ingredere
in Sanctam Ecclesiam (32) -- e que, havendo
renunciado a Satanás, e a tôdas suas pompas, essas
são as que mais professo, não se sabendo em que lei
vivo, ou se tenho
alguma lei, e se o templo e altar que adoro é o de Deus ou
do ídolo. No mistério, enfim, do Menino bem perdido
e melhor
achado, o que me diz é que deixou sua própria Mãe
-- e tal Mãe -- por tratar só de Deus e defender sua
causa. E de que me
argúi? De que quem o perdeu sem culpa o buscasse com tanta
dor, e que não tenha eu dor de o ter perdido tantas vezes,
e
por tão graves culpas, e tão repetidas; que o perca
por muito meu gosto, e, podendo-o achar tão facilmente, o
não busque, e
sobretudo, que ame tanto minha própria perdição
que, buscando-me ele por tantas vias, eu me não deixe achar.
E se tão
sentidamente fala, e tão penetrantemente argúi a infância
de um Deus Menino, que só nesse último mistério
falou, e
nos primeiros ainda não tinha língua para falar, que
será nos outros mistérios, em que bradam as prisões,
os açoites, os
espinhos, os cravos, a cruz, o sangue! E que vozes levantarão
até o céu as chagas conservadas no corpo glorioso
e levadas
ao empíreo, para de lá tornarem a aparecer no dia
do Juízo? O pasmo que tôdas estas coisas causam em
quem
profundamente as medita, e o horror com que estes espantosos brados
se sentem tinir nos ouvidos: Ut tinniant ambae
aures ejus (33) -- só o mesmo profeta o soube declarar dignamente,
e o faz no capítulo seguinte.
A este capítulo,
que é singularmente notável -- e para que todos o
notassem -- com estilo nunca usado, nem do mesmo, nem
de outro profeta, pôs ele por título: Oratio -- oração,
e diz assim: Domine, audivi auditionem tuam, et timui; consideravi
opera tua, et expavi (Hab 3, 1 LXX): Senhor, eu ouvi a vossa audição
-- digamo-lo assim, pois a nossa língua não tem
outra palavra com que explicar a do profeta -- Senhor, eu ouvi a
vossa audição, e temi; considerei as vossas obras,
e fiquei
mudo de pavor e de pasmo. -- Ele pasmou, e o texto de todo o capítulo
é muito para nós pasmarmos. Primeiramente, se o
profeta lhe tinha posto por título oração,
por que não diz que Deus o ouviu a ele, senão que
ele ouviu a Deus? Por que não
diz: Senhor, vós ouvistes a minha oração --
senão: Senhor, eu ouvi a vossa audição: Audivi
auditionem tuam? -- Aqui
vereis como o mesmo profeta, que pouco antes disse que contemplava,
o seu modo de orar era pelos ouvidos. Orava sim,
mas não falava. Deus era o que falava, e ele somente ouvia;
e por isso a sua oração era audição:
Audivi auditionem tuam,
et timui.
Mas, se o seu
temor e o seu horror era causado do que ouvia a Deus, e o que Deus
lhe dizia era tirado do que ele meditava,
e o que meditava eram as obras de Deus: Consideravi opera tua, et
expavi -- que obras eram estas tão temerosas e
espantosas, que o assombravam e enchiam de horror? Porventura criar
o céu e a terra, e tudo quanto nela vemos, com uma
palavra, e lançar do paraíso ao primeiro homem e todos
seus descendentes pelo fruto só de uma maçã?
Porventura alagar o
mesmo mundo com o dilúvio universal, matando tudo quanto
nele vivia, e salvá-lo todo dentro em uma arca? Porventura
abrir
o Mar Vermelho com o golpe de uma vara, para que o seu povo o passasse
a pé enxuto, e afogar nele todo o poder dos
exércitos de Faraó e seus carros? Nenhuma destas coisas,
nem infinitas coisas que Deus obrou do mesmo gênero, eram
as
que assombravam o profeta. Pois, quais eram? Se ele o não
dissera, ninguém o pudera entender nem ainda imaginar. Eram
somente as obras de Deus, de que se compõe o Rosário
e meditamos nos seus mistérios.
Eram os mistérios
da Encarnação, em que Deus, para reparar o homem,
não só se fez homem, mas menino e criança,
que foi
infinitamente mais que criar com uma palavra o mundo: In medio annorum
notum facies; in medio duorum animalium
cognosceris (34). Deus, nascido e reclinado nas palhas em meio de
dois animais, e aí reconhecido de anjos, de pastores, de
reis. Eram os mistérios da Paixão e da Cruz, em que
destruiu o pecado, a morte e o demônio, e salvou o gênero
humano, que
foi mais que afogar o mundo com o dilúvio, e salvá-lo
em uma arca: Cornua in manibus ejus; ibi abscondita est fortitudo
ejus. Ante faciem ejus ibit mors; et egredietur diabolus ante pedes
ejus (35). Deus, com os braços pregados em um
madeiro, mas ali com a morte e o demônio maniatados e prostrados
a seus pés. Eram os mistérios da Ressurreição,
em que,
como Deus, saiu da sepultura vivo, imortal e glorioso, e, como triunfador
do inferno, rico de despojos, que foi muito mais que
abrir o Mar Vermelho, sepultar nele os carros de Faraó e
levar tantos milhares de cativos libertados no seu triunfo: Suscitans
suscitabis arcum tuum, juramenta tribubus quae locutus es: ascendens
super equos tuos, et quadrigae tuae salvatio
(36). -- Deus, ressuscitando a sua humanidade, que foi o arco com
que pelejou, e ressuscitando-a, como tinha prometido às
mesmas tribos que o crucificaram, e trazendo após si em carroças
triunfais os que tinha libertado dos cárceres do limbo.
Estas eram as
obras mais maravilhosas de Deus, estes os mistérios do mesmo
Deus feito homem, gozosos, dolorosos e
gloriosos, que o profeta contemplava e meditava, pasmado e mudo;
estas eram as vozes que ouvia, nascidas da consideração
dos mesmos mistérios -- que são todos os do Rosário
-- e a este modo de meditar e ouvir chamou ele por excelência
oração
-- oratio -- porque o mais excelente modo de orar não é
vocalmente e com a boca, senão mentalmente e pelos ouvidos:
Audivi auditionem tuam.
§ VIII
Duas dificuldades,
que são as que só se podem oferecer para impedir tão
santo e tão importante exercício: a
ignorância e as ocupações. O engano dos que
não meditam porque não sabem. Não só
é engano dizer que não
sabemos meditar, como muitas vezes meditamos sem o saber. A escusa
das ocupações. Resposta do duque de Alba ao
rei da Franca na batalha de Vitemberga. As orações
da Igreja nas solenidades do Rosário.
Agora parece
que se seguia exortar a esta mesma praxe de rezar o Rosário,
não só rezando, senão meditando e ouvindo.
Mas, porque eu não quero desacreditar nem a devoção
nem o juízo dos que até agora o não exercitaram
assim, os quais
suponho persuadidos, somente satisfarei a duas dificuldades -- quando
não sejam tentações do demônio -- que
são as que só
se podem oferecer para impedir tão santo e tão importante
exercício. Quem as aponta não é menos que o
Espírito Santo, por
boca do mesmo profeta que acabamos de alegar, e no mesmo capítulo.
Já disse que este capítulo tinha por título
oratio,
oração. E diz mais alguma coisa? Duas, e ambas notáveis.
Uma no texto latino: Oratio pro ignorantiis: oração
para as
ignorâncias e outra do texto hebreu: Oratio pro occupationibus:
oração para as ocupações. -- Pois esta
oração em que
se reza o Rosário pelos ouvidos, e este título extraordinário
que lhe pôs em cima o profeta, só traz o sobrescrito
para as
ignorâncias e para as ocupações, e só
para elas foi particularmente composto? Sim. Porque estas são
as duas escusas por
que os mistérios do Rosário se não neditam.
Uns dizem que não meditam porque não sabem meditar:
pro ignorantiis --
outros dizem que não meditam, porque têm muitas ocupações,
e não podem: pro occupationibus -- e eu não quero
outra
peroração, senão mostrar a estes ignorantes
e a estes ocupados, que uns e outros se enganam e se mentem a si
mesmos.
Enganam-se os
que dizem que não meditam porque não sabem: pro ignorantiis
-- e é engano ou ilusão manifesta. Meditar
não é outra coisa que cuidar um homem no que lhe importa
ou deseja, e nenhum há que não medite. O pleiteante
medita na
sua demanda; o requerente medita no seu despacho; o mercador medita
nos seus comércios; o estudante medita nos seus
estudos; o pai de famílias medita no sustento de sua casa;
o oficial, o marinheiro, o lavrador, o soldado, todos meditam. De
sorte que para meditar não é necessário ser
anacoreta nem santo. Os muito viciosos também meditam nos
seus mesmos
vícios: os vãos meditam na vaidade: Meditati sunt
inania (37); os falsos meditam nos enganos: Dolos tota die
meditabantur (38); o inimigo medita nos ódios: Meditatur
discordias (39); o ladrão medita nos roubos: Rapinas meditatur
(40); e todo o mau, de qualquer gênero, medita na sua maldade:
Iniquitatem meditatus est in cubili suo (41). -- Tão fácil
como isto é meditar os mistérios do Rosário.
Cuidai e considerai neles, e meditastes. Nem importa ou faz diferença
que
aqueles mistérios sejam obras e ações de Cristo,
e não vossas; porque tôdas as fez nossa o seu amor;
e quando fossem
alheias, nem por isso dificultariam a meditação. Não
discorreis vós e ajuizais sobre as ações do
rei, do general, do prelado,
do ministro, do pregador, e sobre tôdas quantas vedes no vosso
vizinho? Pois, olhai do mesmo modo para as ações de
Cristo, considerai com atenção quem é, o que
faz, o que diz, o que padece, e por amor de quem, e os sentimentos
e afetos
que esta mesma consideração vos excitar no entendimento
ou na vontade estas são as vozes interiores com que Deus
vos
fala, e, se vós os ouvis como deveis, fizestes uma perfeita
meditação.
Assim que não
só é engano dizerdes que não sabeis meditar,
mas antes vos digo que muitas vezes meditais sem o saber.
Dizei-me: quando pelo Natal visitais um presépio, não
vos enternece aquela pobreza, aquela humildade, aquele desamparo?
Quando pela quaresma vedes uma procissão dos passos, aquela
temerosa e lastimosa figura de Cristo com a cruz às costas
não vos move à piedade e compunção?
E quando no dia da Ascensão assistis à Hora, a subida
daquele Senhor ao céu não
vos faz saudades e desejos de outra hora, em que vades também
estar com ele? Pois tudo isto é meditar, e em tôdas
as três
diferenças dos mistérios do Rosário. Mas sucede-vos
o mesmo que a Samuel nos seus princípios. Três vezes
falou Deus a
Samuel chamando-o por seu nome, e ele cuidou que era Heli, e não
Deus, porque ainda lhe não conhecia a fala, diz o texto
sagrado: Porro Samuel necdum sciebat Dominum, neque revelatus fuerat
ei sermo Domini (42). -- Assim vos fala Deus,
e o ouvis, e meditando cuidais que não sabeis meditar, porque
tendes metido no conceito que a meditação e a oração
mental
é uma coisa muito dificultosa. Fazei isto mesmo sempre e
com mais vagar e maior atenção em todos os mistérios,
e quando
tomardes o Rosário na mão, dizei somente a Deus o
que Heli ensinou a Samuel que dissesse: Loquere, Domine, quia audit
servus tuus (l Rs 3, 10): Falai, Senhor, porque vosso servo ouve.
A escusa das
ocupações: pro occupationibus -- ainda tem menos fundamento,
e de que se há de dar mais estreita conta a
Deus. Lembra-me a este propósito que no dia da famosa batalha
de Vitemberga, em que perdeu a liberdade e o vão nome
de imperador o eleitor de Saxônia, tendo durado o conflito
nove horas, correu fama que o sol estivera parado por algum
espaço; e, perguntando el-rei de França ao duque de
Alba, que fora o general do exército cesáreo, se era
verdade o que se
dizia do sol, respondeu: -- Sir, eu nesse dia tive tanto que fazer
na terra que me não ficou lugar de olhar para o céu.
-- Assim
o cuidam -- posto que o não digam tão discretamente
-- os que se escusam de não meditar por muito ocupados. É
certo que
as ocupações que impedem o olhar para o céu
não devem ser muito acomodadas para ir ao céu. A Josué,
que governou
maiores exércitos que quem isto disse, e que ganhou mais
vitórias que seu amo Carlos, e de quem se não duvida
que fez
parar o sol, o que Deus lhe encomendou, sobretudo, foi que de dia
e de noite meditasse na sua lei: Non recedat volumen
legis hujus ab ore tuo, sed meditaberis in eo diebus ac noctibus
(43). -- E a razão que o mesmo Deus lhe deu é muito
para ser advertida dos que têm grandes ocupações:
Ut intelligas cuncta quae agis (Jos 1 , 7): Para que entendas tudo
o
que houveres de fazer. -- Por isso não é de maravilhar
que se vejam tantas coisas feitas sem entendimento e contra todo
o
entendimento, pois os que se ocupam ou são ocupados nelas
não meditam no que devem. E se Josué, que conquistou
trinta e
três reinos na Terra de Promissão, e a repartiu a seiscentas
mil famílias das doze tribos, no meio de tantas e tão
graves
ocupações militares, políticas e econômicas,
tinha tempo de dia e tempo de noite para meditar, bem se deixa ver
quão falso e
quão afetado é o pretexto dos que se escusam da meditação
com a ocupação.
Examinem-se
as ocupações dos mais ocupados, e achar-se-á
que deixam tempo para o jogo, e tempo para a comédia, e
tempo para a conversação, e tempo para outros divertimentos
que levam mais o cuidado, e só para a meditação
dos
mistérios, e da vida do Filho de Deus e de sua Mãe,
com que reformar a nossa, não deixam tempo. Se no meio das
maiores
ocupações sobrevem a doença, não se
trata da cura? Se no meio das maiores ocupações bate
o inimigo às portas, não se
tomam as armas? Sendo, pois, a meditação o remédio
mais eficaz de tôdas as enfermidades do espírito, e
a arma mais de
prova contra todos os combates com que nos faz guerra o demônio,
quem será tão inimigo de si mesmo que deixe a
meditação pela ocupação? A hora de comer
e as horas de dormir nenhuma ocupação as impede; e
qual é o sustento e sono
da alma, senão a meditação interior e quieta
das coisas divinas? Nas mesmas ocupações temporais,
se concorrem muitas
juntas, não se deixam as que menos importam, para acudir
à de maior importância? Por que hão logo de
impedir as
ocupações do mundo a que não importa menos
que a própria salvação? Será bem, diz
Tertuliano, que viva só para os outros
quem há de morrer para si? Nemo aliis nascitur moriturus
sibi (44). A maior ocupação que há nem pode
haver no mundo
é a do pastor universal de toda a Igreja. E vede o que escreve
S. Bernardo ao Papa Eugênio nos livros da Consideração:
In
quo trahere te habent occupationes istae maledictae, si tamen pergis
ita dare te totum illis, nihil tui tibi relinquens
(45). -- Se Vossa Santidade continua a se dar todo às ocupações,
sem deixar nada de si para si, essas malditas ocupações
o
levarão aonde vão os malditos. E se este nome merece
as ocupações do governo eclesiástico, santo
e santíssimo, quando por
demasiada aplicação a elas chegam a impedir a meditação
e consideracão do que toca à alma própria,
escusai-vos lá de
meditar com as vossas ocupações, em tudo temporais
e do mundo!
Suposto, pois,
que nem a ocupação nem a ignorância podem servir
de escusa para não meditar, importa que todos os
devotos do Rosário se ocupem e empreguem na meditação
e consideração de seus soberanos mistérios,
e que em tudo
sigam o exemplo e praxe do profeta, que dizia: Contemplabor ut videam
quid dicatur mihi (Hab 2, 1): Meditarei e
contemplarei para ver e ouvir com evidência o que Deus me
diz. -- E para que ninguém cuide que só com rezar
as orações
satisfaz à obrigação do Rosário, ouçam
todos os que na mesma Missa, agora instituída para a solenidade
própria do Rosário,
diz e pede a Deus a Igreja. Na primeira oração pública
diz assim: Ita ipsius Rosarii sacra mysteria contemplemur in terris,
ut post hujus vitae cursum eorum fructus percipere mereamur (46).
E na última, também pública: Concede per haec
sancta Rosarii Genetricis tuae mysteria, ut continue eadem contemplantes,
perpetuae nobis fiant causa laetitiae (47).
E na oração secreta: Sanctissimae Matris tuae Rosarii
solemnia recolentes, interiori Spiritus Sancti invocatione
sanctifica (48). De sorte que em toda a Missa do Rosário,
não fazendo menção alguma a Igreja das orações
vocais e
exteriores, só pede graça e favor a Deus para a meditação
interior e contemplação dos mistérios: Mysteria
contemplemur,
mysteria contemplantes, interiori Spiritus Sancti invocatione sanctifica
-- porque na meditação, consideração
e
contemplação dos mistérios do Rosário
consiste a parte principal, substancial e essencial desta soberana
devoção; e esta
parte mental e interior é a que dá vigor e eficácia
à parte exterior e vocal, como a alma ao corpo. A razão
é porque Deus não
costuma ouvir senão a quem o ouve. Assim o mostrou o milagroso
crucifixo que, despregando as mãos, tapou os ouvidos,
dizendo ao que lhe pedia perdão e não tinha perdoado:
Non audiam te, quia non audisti me (49). E como nós na parte
mental meditando, ouvimos a Deus, também Deus nos ouve a
nós na vocal. Tanto depende a impetração das
orações do
Rosário da meditação dos mistérios,
ou tanto depende o Rosário rezado pela boca do Rosário
rezado pelos ouvidos.