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Sermão III - Maria Rosa Mística
Padre António Vieira

 


§ V

Conveniência do Rosário rezado pelos ouvidos. O que diz Cristo por boca de Jó. Os ouvidos, colocados de uma e
outra parte da cabeça, são as balanças em que havemos de pesar o muito que fez Deus por nós. O devoto do Rosário
comparado à rola dos Cantares. Por que promete o Esposo à Esposa, não outras jóias, senão arrecadas de ouro
sobreprateado? Por que alega Cristo à Esposa os títulos de irmã, amiga e pomba imaculada? As lágrimas do
presépio e as gotas de sangue figuradas pelo orvalho da noite.

E se da parte do Rosário é totalmente necessário rezar-se pelos ouvidos, da parte de Deus não é menos conveniente, porque
só rezado assim lhe agrada e é aceito. Nenhuma coisa Cristo, Senhor nosso, mais deseja de nós que a justa estimação e
ponderação do muito que fez e padeceu por nós: Utinam appenderentur peccata mea, quibus iram merui, et calamitas
quam patior in statera! Quasi arena maris haec gravior appareret (21): Oh! quem me dera que as penas que padeço e
os pecados por que padeço se puseram em fiel balança! E se veria claramente que excede tanto o peso das penas ao dos
pecados quantas são as areias do mar! -- Isto disse Jó em nome de Cristo, ou Cristo por boca de Jó, porque só em Cristo
se verifica, e em Jó de nenhum modo. Em Jó não, porque qualquer mal de culpa, ainda que seja venial, excede sem
comparação a todo o mal de pena, quanto é possível. E em Cristo sim, porque a mínima ação de Cristo, por ser de preço
infinito, excede infinitamente a todos os pecados do mundo, pelos quais padeceu e pagou. E como, bastando a mínima ação
de Cristo para remir mil mundos, foi tal o seu amor para com os homens que quis nascer, morrer, e obrar todos os outros
mistérios de humildade, paciência e caridade que no Rosário se representam e consideram, a meditação atenta e a justa
ponderação de todos eles é o que mais deseja de nós o soberano Redentor, e para isso nos pede os pesemos em fiel
balança: Utinam appenderentur in statera!

Mas que parte tem ou podem ter nesta balança os ouvidos? Muito grande. Assim o declaram as mesmas palavras na língua
em que falou Jó e é uma filosofia tão admirável como natural. Onde a nossa versão lê: in statera, o texto original tem: in
bilancibus, in auribus. Bilances, são os dois escudos da balança em que as coisas se pesam; aures são as orelhas,
instrumentos dos ouvidos. E por que se comparam ou declaram os dois ouvidos pelos dois escudos da balança? Porque este
é o ofício que lhes deu a natureza, e a forma e o lugar em que os colocou. Como a natureza pôs a razão e o juízo, que é o fiel
da balança, na cabeça, pôs-lhe também de uma e da outra parte os ouvidos, como dois escudos da mesma balança e como
dois assessores do mesmo juízo. Mas, antes que fechemos o passo, ouçamos o grande comentador de Jó, o doutíssimo
Pineda: Cum trutinam requirit, certe aequum auditorem et incorruptum aurium judicium requirit: est enim inter aures
veluti inter duas lances media trutina rationis, et judicii, quod in capite residet. Ergo duae aures, ut quae audiuntur
diligenti mentis trutina expendenda sint, homini concessae sunt (22). -- Quer dizer: deu o autor da natureza ao homem
dois ouvidos, e pô-los de uma e outra parte da cabeça, porque na cabeça tem seu assento a razão e o juízo; e assim o juízo,
posto no meio, e os ouvidos, de uma e outra parte, vem a fazer uma balança natural, em que as coisas se pesam fielmente. --
Esta é pois a razão por que o benigníssimo Redentor, que tomou sobre si a satisfação de nossos pecados, e pagou tanto mais
do que devia, e padeceu tanto mais do que era necessário, e obrou em todos os mistérios de nossa Redenção tantos
excessos quantos só podia inventar o seu amor, para mais obrigar o nosso, esta é a razão por que tanto deseja que na atenta
meditação os pesemos, e por que, com o nome de balanças nos pede os ouvidos, para que, como em justas balanças,
ponderemos os mesmos mistérios, e como por atentos ouvidos ouçamos o que eles nos dizem: Utinam appenderentur in
bilancibus, in auribus.

E para que vejamos em próprios termos quanto Cristo, Senhor nosso, mais deseja e estima no Rosário esta ponderação dos
ouvidos que a reza somente vocal do mesmo Rosário, assim como já ouvimos por boca de Jó o seu desejo, ouçamo-lo
agora por boca de Salomão. Trata altamente Salomão esta diferença no primeiro capítulo dos Cantares, e como as suas
comparações ali são tão extraordinárias, a que vos parece que compararia uma alma devota do Rosário, das que só o rezam
vocalmente? Comparou-a a uma rola com o Rosário ao pescoço: Genae tuae sicut turturis (23) -- eis aí a rola; Collum
tuum sicut monilia (24) -- eis aí o Rosário. E por que não pareça que dar nome de Rosário ao que ali se chama colar é
interpretação alheia do texto, o original hebreu, em que escreveu Salomão, diz que era feito de pérolas furadas e enfiadas:
Margaritas perforatas, et filo copulatas -- treslada Sanctes Pagnino, doutíssimo naquela língua. Assim que, nem o Rosário
podia ser mais próprio nem mais precioso. Era também rezado com grande piedade e devoção, que por isso, quem o trazia
ao pescoço é comparado à rola, cujos arrulhos são piedosos, e mais gemidos que vozes: Sicut turturis.

Isto é o que disse o Esposo, que é Cristo, à Esposa que é a alma; mas o que logo se segue, e acrescentou o mesmo Esposo,
é digno de grande consideração e reparo: Murenulas aureas faciemus tibi, vermiculatas argento (Cânt l, 10): O que
agora vos hei de fazer, Esposa minha, são umas arrecadas para as orelhas, e essas hão de ser de ouro, esmaltadas de prata.
-- Não reparo em Cristo sobrepratear o ouro, como nós sobredouramos a prata, posto que isto tenha o mistério que logo
veremos. Mas o que primeiro faz ao nosso caso é a conseqüência destas palavras sobre as que acabamos de referir. Se o
Esposo acaba de louvar as pérolas do colar e os gemidos da rola, se o colar é o Rosário, e os gemidos a oração vocal,
piedosa e devota -- como explicam S. Gregório, S. Basílio, Teodoreto, e todos os padres comumente -- por que se não dá
por satisfeito disto o Esposo, e, querendo ornar e enriquecer a Esposa com novas jóias, as que trata de lhe fazer não são
outras, senão as arrecadas? Porque as arrecadas, diz S. Bernardo, são jóias e ornato dos ouvidos (25). E como pelos
ouvidos entram à alma as falas interiores de Deus na meditação, ainda que o Rosário que a Esposa traz ao pescoço seja de
pérolas, e a voz com que o reza de rola piedosa e enternecida, não se satisfaz o Senhor inteiramente de que o reze só de
boca, senão também pelos ouvidos. De boca sim, repetindo devotamente as orações vocais, em que a alma fala com Deus;
mas muito mais pelos ouvidos, meditando atentamente os mistérios, em que Deus fala com a alma e ela ouve o que lhe diz.

E para que se veja que estes mistérios não são outros senão os do Rosário, todos de Deus enquanto homem, por isso as
arrecadas eram de ouro sobreprateado: Aureas vermiculatas argento. -- O ouro é a divindade, a prata a humanidade; e
está o ouro debaixo da prata, porque debaixo da humanidade de Cristo está encoberta a divindade. Mas porque a mesma
divindade, enquanto o Senhor viveu neste mundo, de tal maneira andava encoberta debaixo da humanidade que não deixava
de reluzir nas obras da onipotência, essa é também a propriedade e elegância com que o prateado não era todo contínuo,
senão aberto a partes, a modo só de esmalte ou filigrana, que isto quer dizer vermiculatas. Maior advertência ainda, e maior
propriedade. Onde a Vulgata lê vermiculatas, diz a versão chamada Quinta Editio: cum distinctionibus argenti: com
distinções de prata. De sorte que nas jóias, com que de novo se ornaram os ouvidos da Esposa, havia distinções, e essas
distinções estavam na prata, e não no ouro. Por quê? Excelentemente. Porque na divindade, que é substância simplicíssima,
não há distinção, e na humanidade e seus mistérios sim; e mais nos do Rosário, de que propriamente falava: uns gozosos,
outros dolorosos, outros gloriosos, e em cada uma destas distinções outros cinco mistérios também distintos: Cum
distinctionibus argenti. Em suma: que assim como em todos estes mistérios, por meio da meditação, fala Deus distintamente
à alma, assim para todos e cada um deles lhes quer ter bem dispostos e preparados os ouvidos, e não só ornados, mas
sobreornados: Murenulas aureas faciemus tibi. Até aqui o Esposo.

Agora fala a Esposa, e diga ela também o que o Esposo lhe diz quando lhe fala aos ouvidos: Vox dilecti mei pulsantis:
Aperi mihi, soror mea, amica mea, columba mea, immaculata mea (26). Fala a voz de Cristo, e bate às portas da alma,
que são os ouvidos: Voz dilecti mei pulsantis: o que lhe pede é que abra: Aperi mihi -- e os motivos ou títulos que lhe alega
para a persuadir é chamar-lhe irmã: soror mea; amiga: amica mea; pomba e imaculada: columba mea, immaculata mea. E
por que alega Cristo estes títulos, e não outros, quando bate com a voz aos ouvidos da alma? É coisa verdadeiramente
maravilhosa. Alega-lhe estes títulos, e não outros, porque neles se contêm distinta e nomeadamente todos os mistérios do
Rosário: no primeiro título os Gozosos, no segundo dos Dolorosos, no terceiro os Gloriosos. Assim o notou, muito antes de
haver Rosário, Justo Orgelitano, e o declarou tão sucinta como elegantemente: Soror, quia de sanguine ejus; amica, quia
per mortem ejus reconciliata; columba, quia de Spiritu Sancto immaculata: Chama-lhe irmã porque na Encarnação
unindo a si o Verbo a nossa humanidade, se fez irmão nosso: Soror, quia de sanguine ejus. -- E estes são os primeiros
mistérios do Rosário. Chama-lhe amiga, porque por meio da morte e Paixão de Cristo se reconciliou a natureza humana com
Deus: Amica, quia per mortem ejus reconciliata. -- E estes são os segundos mistérios. Chama-lhe, finalmente, pomba e
imaculada, porque por meio da vinda e graça do Espírito Santo se lhe tiraram as manchas do pecado: Columba, quia de
Spiritu Sancto immaculata. -- E estes são os terceiros mistérios. Com estes títulos e motivos de seu amor bateu o Esposo
às portas da alma para que lhas abrisse, e com estes somente, e nenhuns outros, porque não tem Cristo outra máquina nem
outra bataria mais forte para render nossas almas que os mistérios do Rosário. Os nossos ouvidos são os batidos, e a sua voz
é a que bate: Vox dilecti mei pulsantis.

Mas porque a Esposa nesta ocasião se mostrou menos diligente em acudir à voz do Esposo e lhe abrir as portas, que faria o
Amante divino para prosseguir e conseguir a empresa em que tão empenhado estava o seu amor? Caso sobre todo o
encarecimento notável, e no mesmo Deus estupendo! Torna o Senhor a instar no mesmo requerimento, e os motivos que de
novo alega não são outros, senão os mesmos mistérios do Rosário mais vivamente representados: Quia caput meum
plenum est rore, et cincinni mei guttis noctium (Cânt 5, 2): Compadecei-vos de mim -- diz -- Esposa minha, porque trago
a cabeça coberta de orvalho, e me estão correndo pelos cabelos em fio as gotas das noites. -- E que orvalho e que gotas,
não da noite, senão das noites são estas? O orvalho -- diz Filo Carpácio -- é o da madrugada gloriosa em que Cristo
ressuscitou: Caput Christi plenum est rore in resurrectione, quae mane facta est, cum ros in terram descendit (27). As
gotas das noites não hão mister comentador, porque bem se está vendo que são as gotas das lágrimas da noite do
nascimento, e as gotas do sangue na noite do Hôrto: Et factus est sudor ejus, sicut guttae sanguinis decurrentis in terram
(28). De maneira que nas lágrimas do Presépio, acompanhadas de músicas de anjos, lhe alegou os mistérios Gozosos; nas
gotas do sangue, espremidas da dor, da aflição e da agonia no Hôrto, os mistérios Dolorosos; e no orvalho da madrugada da
Ressurreição alegre e triunfante, os Gloriosos. E não alegou nem disse mais o Esposo, porque para penetrar os nossos
ouvidos e render os nossos corações, em chegando a nos representar e repetir uma e outra vez os mistérios do Rosário, não
tem Cristo mais que alegar nem mais que dizer. Ainda desta segunda vez se escusou contudo a Esposa, e não abriu; mas,
tanto que considerou e meditou o que tinha ouvido, não só abriu a porta, mas, saindo de casa, e como fora de si, pelas ruas,
sendo de noite, e pelas portas da cidade, estando cercadas de guardas, roubada e, sobrerroubada, ferida, assim foi buscar o
Esposo, até que o achou. E se tanto caso faz Deus, e tanto consegue de nós pelos mistérios do Rosário ouvidos e meditados,
que muito é que estime mais e lhe seja mais aceito o Rosário por este modo, que rezado só vocalmente.

§ VI

Benefícios da meditação dos mistérios do Rosário. Diz Davi que o seu coração meditava dentro nele, porque muitos
não têm o seu coração dentro em si, senão fora de si. Cristo mais quer ser ouvido que comungado. Razões do
lastimoso milagre dos que comungam e não se sentem abrasados. Por que dizem os discípulos de Emaús que lhes
ardia o coração quando o Senhor lhes falava, e não quando comungavam seu corpo? O salmo das vozes de Deus. O
aperfeiçoamento dos ouvidos. Se Cristo, no Sacramento, antes quer ser ouvido que comungado, como não estimará
mais no Rosário o ser ouvido que ouvi-lo rezar?

Finalmente, que da nossa parte nos seja mais útil esta mesma meditação dos mistérios, e ouvir o que Deus nos diz por ela, só
o poderá duvidar quem ignore o que todos sabem, que por falta de consideração se perde o mundo. Já dissemos ou já nos
disse Davi que na sua meditação lhe falava Deus. E se lhe perguntamos quais eram os efeitos que experimentava neste
meditar e neste ouvir, ele mesmo no-lo dirá, e não sem grande confusão dos que rezam o Rosário e o perdem, porque o não
meditam: Concaluit cor meum intra me, et in meditatione mea exardescet ignis (S1 38, 4): Meditei -- diz Davi -- e por
meio da meditação se me acendeu no peito tal fogo, que o meu coração dentro em mim ardia. -- Nota aqui advertidamente o
Cardeal Hugo, e repara muito em dizer Davi que o seu coração ardia dentro nele: Cor meum intra me: O meu coração
dentro em mim. -- Pois, onde havia de estar o vosso coração, Davi, senão dentro em vós? -- Podia estar lá por onde ele
andou noutro tempo, quando eu não meditava; podia estar lá por onde andam também os corações de muitos que rezam o
Rosário, sem meditação no mesmo tempo em que o rezam: Multi enim sunt qui non habent cor intra se, sed extra, ad
temporalia et mundana quaecumque, nec possunt calefieri: Diz Davi que o seu coração, quando meditava, ardia dentro
nele, porque muitos não têm o seu coração dentro em si, senão fora de si, e muito longe. Fora de si, porque não cuidam em
si, e muito longe de si, porque todos seus cuidados andam só atentos e aplicados às coisas temporais e mundanas, que
amam. -- Donde vem que, assim divertidos e esquecidos do que só importa, não podem conceber o fogo divino, que de frios
os aquente, de duros os abrande e de cegos os alumie, que são os dois efeitos da meditação. O primeiro, tirar e trazer o
coração de lá por onde anda distraído e perdido, e metê-lo dentro em nós: Cor meum intra me -- o segundo, de frio, duro
e cego, pegar nele o fogo do amor divino, alumiá-lo, acendê-lo e abrasá-lo: Et in meditatione mea exardescet ignis.

Isto é o que faz a meditação, e nenhuma mais própria e eficazmente que a dos mistérios do Rosário. Nos primeiros, e
gozosos, da infância de Cristo, como não se acenderá o fogo nas palhas do presépio? Nos segundos, e dolorosos, da
Paixão, como não se ateará com muito mais força nos espinhos e lenhos da cruz? Nos terceiros, e gloriosos, da Ressurreição
e Ascensão, como não subirão as chamas até o céu, donde desçam por reflexão, como desceram, em línguas de fogo? Coisa
digna de grande reparo é que, descendo o Espírito Santo, viesse em forma de fogo e em figura de línguas. Mas assim havia
de ser para obrar o a que vinha. Em fogo, porque vinha acender os nossos corações, e em línguas, porque, para acender os
corações, há de entrar pelos ouvidos. Onde, porém, acharei eu algum meio que convença a verdade desta conclusão, e a
persuada eficazmente a todos os que rezam o Rosário?

Muito há, Senhor, que, parece, me esqueço de que estais presente, pois não recorro aos auxílios de vossa divina sabedoria,
para dar a maior autoridade a quanto tem dito o meu discurso. Mas advertidamente me fui dilatando até este ponto, que é
mais particularmente vosso. Encarnado e sacramentado, sempre sois Verbo, e, posto que no silêncio desse Sancta
Sanctorum parece que não falais, também aí quereis ser ouvido. E como o intento de vosso amor nessa esfera de fogo,
posto que coberta de neve, é acender nossos corações, dai-me licença para que pregue a este auditório que mais quereis ser
ouvido que comungado. Se mais vos agrada o Rosário dos ouvidos que o da boca, por que não direi eu o mesmo desse
Sacramento? Assim o digo, fiéis, e assim o provo, ou assim vos explico e declaro o que tão provado está em nós quanto não
devera: Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur (Lc 12, 49): Diz Cristo que veio lançar fogo à terra,
e que nenhuma outra coisa quer senão que se acenda. -- Pois, se este fogo divino está todo naquela sarça, e multiplicado em
tôdas as partes da terra, como se não acende a terra? Numquid potest homo abscondere ignem in sinu, ut vestimenta
illius non ardeant (Prov 6, 27)? Porventura -- diz o Espírito Santo -- pode um homem esconder o fogo no seio, sem que se
lhe abrasem as vestiduras? -- Pois, como recebemos nós tantas vezes, e metemos dentro no peito aquele fogo, sem que o
mesmo peito se abrase? A razão deste lastimoso milagre é porque não ouvimos a quem comungamos. Comungamos a
Cristo, mas não ouvimos a Cristo; e Cristo, para acender corações, mais eficácia tem ouvido que comungado. Vede
claramente.

Caminhava Cristo para Emaús, também disfarçado como ali está, até que os dois discípulos fizeram alto para passar a noite.
Deixou-se o Senhor convidar, assentou-se à mesa, consagrou o pão, partiu-o entre ambos, e, conhecido, desapareceu. Tudo
isto encerra grandes mistérios, mas o que eu considero ainda espera pela segunda parte da história. Voltam os dois discípulos
para Jerusalém, já não tristes, mas cheios de alegria e alvoroço, já não fracos na esperança, mas confirmados na fé, e,
conferindo o que lhes tinha sucedido, diziam entre si: Nonne cor nostrum ardens erat in nobis dum loqueretur in via (Lc
24, 32)? Não vistes como nos ardia o coração quando nos falava pelo caminho? -- Tende mão: aqui reparo e argúo os
mesmos discípulos. Duas coisas tinha Cristo feito, uma no caminho, outra na mesa, e esta ainda maior, porque no caminho
praticava com eles; na mesa, deu-lhes seu próprio corpo sacramentado. Pois, se dizem que lhes ardia o coração quando o
Senhor lhes falava, por que não dizem que lhes ardia quando comungaram seu corpo? Quando comungaram estava Cristo
mais perto do seu coração, quando lhes falava estava mais longe; quando comungaram estava dentro neles, quando lhes
falava ia somente com eles: Ibat cum illis (Lc 24, 15). -- Pois, se lhes não ardia o coração quando comungaram, por que lhes
ardia quando somente o ouviam? Por isso mesmo: porque o ouviam. E para acender e abrasar corações, parece, tem mais
eficácia Cristo ouvido que Cristo comungado. Comungado desce ao peito, ouvido acende o coração. E se ouvido em um só
mistério do Rosário, que era o da sua Ressurreição, causa tão prodigiosos efeitos, que será em todos os mistérios? Ouçamos
a Cristo no Rosário e ouçamo-lo no Sacramento; e para ouvirmos o que nos diz, meditemos aqueles mistérios, e meditemos
este, que, ainda que parece mudo, todo é vozes.

Ouvi agora o que muitas vezes ouvistes e reparai no que nunca reparastes. É o salmo vinte e oito: Afferte Domino, filli Dei,
afferte Domino filios arietum. Afferte Domino gloriam et honorem; afferte Domino gloriam nomini ejus; adorate
Dominum in atrio sancto ejus (S1 28, 1): Oferecei ao Senhor, filhos de Deus, oferecei ao Senhor cordeiros, oferecei-lhe
honra e glória, e adorai-o no seu santo templo. -- Dizem comumente os expositores que exortava aqui o profeta à freqüência
dos sacrifícios do seu tempo. Mas eu digo que nem falava com os homens do seu tempo, nem dos sacrifícios do seu tempo,
senão do nosso; e provo uma e outra coisa. Não falava com os homens do seu tempo, porque lhes chama filhos de Deus:
Afferte Domino, filii Dei -- e o ser filhos de Deus é próprio dos cristãos e da lei da graça, como diz S. João: Dedit eis
potestatem filios Dei fieri (Jo 1, 12). Nem falava dos sacrifícios da lei velha, porque faz menção de um só sacrifício, e esse
de cordeiro, que é o de que também disse o outro S. João: Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi (28). -- E não
encontra a propriedade desta significação o falar em plural, porque essa é uma das maravilhas deste sacrifício, e deste
Cordeiro: ser um só, e estar multiplicado em toda a parte, como se foram muitos. Isto posto, lede agora o resto de todo o
salmo, e vereis que em todo ele não faz outra coisa o mesmo profeta que encarecer-nos a voz e as muitas vozes do Senhor:
Vox Domini super aquas; vox domini in virtute; vox Domini in magnificentia; vox Domini confringentis cedros; vox
Domini intercidentis flammam ignis; vox Domini concutientis desertum; vox Domini praeparantis cervos (29). Pois,
se o tema e o assunto do profeta é o sacrifício e Sacramento do altar, como todo o seu discurso nem é da verdade e
realidade do mistério, nem do amor, nem da fineza, nem das maravilhas e infinitos milagres que nele se encerram, senão das
suas vozes e mais vozes, sete vezes repetidas? Que tem que ver o Sacramento com as vozes, ou as vozes com o
Sacramento? Esta mesma admiração mostra bem o mal que entendemos no Diviníssimo Sacramento o que primeiro que tudo
e mais que tudo devêramos entender. Cuidamos que Cristo no Sacramento está mudo, e sua presença ali toda é vozes.
Cuidamos que satisfazemos à nossa obrigação com sacrificar, com adorar, com comungar, sem tratarmos de ouvir, e isto é o
que o Senhor mais deseja e espera de nós. Por isso o profeta, deixando tudo o mais que pudera dizer de suas excelências, só
nos prega e apregoa as suas vozes, como eu também faço agora, porque esta é a doutrina e o aviso mais importante à nossa
desatenção, e o espertador mais necessário aos nossos ouvidos. Muito estima Cristo no Sacramento o ser adorado, o ser
venerado, o ser servido e festejado, e, sobretudo, o ser comungado; mas o ser ouvido, muito mais.

Mais que isto parece que dizem outras palavras do mesmo Davi; mas não dizem mais que isto, e o provam admiravelmente:
Sacrificium et oblationem noluisti; aures autem perfecisti mihi (S1 39,7): Vós, Senhor -- diz Davi -- não quisestes
oblações nem sacrifícios, mas aperfeiçoastes-me os ouvidos. -- Quando Deus, em frase da Escritura, diz que quer uma coisa
e não quer outra, não quer dizer que não quer totalmente esta segunda, senão que antes quer e mais quer a primeira. Assim
diz: Misericordiam volo, et non sacrificium (30) -- não porque Deus não queira o sacrifício, mas porque quer, mais que o
sacrifício, a misericórdia. E do mesmo modo se há de entender a sentença proposta de Davi: Sacrificium et oblationem
noluisti; aures autem perfecisti mihi. -- Quer dizer: -- Vós, Senhor, mais quisestes a perfeição dos meus ouvidos que a
oblação dos vossos sacrifícios. -- De sorte que, sendo o Sacrifício e Sacramento do Altar a maior coisa que Deus pode
receber de nós enquanto Sacrifício, e a maior que nós podemos receber de Deus enquanto Sacramento, diz contudo Deus
que mais quer os nossos ouvidos, e que por isso no-los aperfeiçoa: Aures autem perfecisti mihi. -- Vede se tive eu
fundamento para dizer que mais quer Cristo de nós o ser ouvido que o ser comungado. Mas qual é ou pode ser a razão?
Comungar a Cristo é receber o que Cristo é; ouvir a Cristo é perceber o que Cristo diz. Como pode logo ser melhor ouvir o
que diz que perceber o que é? A instância é forte, mas a solução fácil e verdadeira está nas mesmas palavras: Aures autem
perfecisti mihi. -- Há ouvir com ouvidos perfeitos e ouvir com ouvidos imperfeitos: ouvir com ouvidos imperfeitos, é ouvir
somente, sem obrar; ouvir com ouvidos perfeitos, é ouvir e efetuar o que se ouve. E quando se ouve desta maneira, melhor é
ouvir a Cristo que comungar e receber a Cristo. O mesmo Cristo o disse. A mulher do Evangelho louvou a Senhora por
trazer dentro em si a Cristo: Beatus venter qui te portavit -- e o Senhor replicou, dizendo: Quinimmo beati qui audiunt
verbum Dei et custodiunt illud: que melhor era ouvir a palavra de Deus, e guardá-la. -- Logo, melhor é ouvir a Cristo,
guardando o que diz, que comungar a Cristo, recebendo em si o que ele é.

E daqui ficam convencidos todos os que rezam o Rosário quanto mais útil e importante lhes é rezá-lo pelos ouvidos. Que
comparação tem o Rosário somente rezado com a boca, com o mesmo Cristo, e todo Cristo, não só tomado na boca, mas
passado ao peito, e recebido e entranhado dentro em nós? Pois, se Cristo no Sacramento antes quer ser ouvido que
comungado, como não quererá e estimará mais no Rosário o ser ouvido que ouvi-lo rezar? E se a razão desta diferença é ter
mais eficácia Cristo ouvido para penetrar e acender nossos corações, que coração haverá tão frio, tão duro, tão cego, que
não queira receber pelos ouvidos este divino incêndio? O que importa logo a todos os que rezam o Rosário, é aplicar os
ouvidos meditando, e aperfeiçoá-los executando o que ouvirem: Aures autem perfecisti mihi -- porque deste modo se farão
dignos de ouvir da boca de Cristo: Beati qui audiunt verbum Dei.

Parágrafo I e Parágrafo II
Parágrafo III e Parágrafo IV
Parágrafo V e Parágrafo VI
Parágrafo VII e Parágrafo VIII
Parágrafo IX e Notas