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Sermão dos Bons Anos
Pe. Antonio Vieira

 

 


§ VII

Acabou-se o Evangelho, e eu tenho acabado o sermão. Mas vejo que me estão caluniando e arguindo, porque não provei o que prometi. Prometi fazer neste sermão um juízo dos anos que vêm, e eu não fiz mais que referir os sucessos dos anos passados. Mostrei a razão das profecias, as dilações da esperança, e oportunidade do tempo o acerto dos decretos, a propriedade e merecimento do nome, e tudo isto é história do que foi, e não prognóstico do que há-de ser. Ora, ainda que o não pareça, eu me tenho desempenhado do que prometi, e todo este discurso foi um prognóstico certo e um juízo infalível dos anos que vêm Tudo o que disse, ou foram profecias cumpridas, ou benefícios manifestos da mão de Deus: e em profecias e benefícios começados, o mesmo é referir o passado, que prognosticar e segurar o futuro.
Partiu Cristo desterrado a Egipto, e diz o Evangelista S. Mateus: Ut impleretur, quod dictum est per prophetam: ex Aegypto vocavi Filium meum: que aqui "se cumpriu a profecia do profeta Oseas, em que dizia Deus, que havia de chamar e tirar do Egipto a seu Filho".
Dificultoso lugar! Argumento assim: as profecias não se cumprem, senão quando sucedem as cousas profetizadas: Cristo não voltou do Egipto senão daí a sete anos; logo, não se cumpriu então, nem se podia cumprir esta profecia de Oseas. Se dissera o Evangelista, que se cumpria a profecia de Isaías: Ecce Dominus ascendet super nubem levem et ingredietur Aegyptum, claro estava; mas dizer, quando entrou no Egipto, que então se cumpriu a profecia de quando saiu, que não foi senão daí a tantos anos, como pode ser? Reparo foi este de Ruperto Abade, o qual satisfaz à dúvida com uma razão mística; mas a literal, e que nos serve é esta: Como as profecias, quanto à evidência, se qualificam pelos efeitos, e na execução do que prometem têm a canonização de sua verdade; é consequência tão infalível cumpridas as primeiras profecias haverem-se de cumprir as segundas, que quando se mostra o cumprimento de umas, logo se podem dar por cumpridas as outras. Por isso o Evangelista, ainda discursando humanamente, quando viu que se cumpria a profecia de Cristo entrar no Egipto, deu logo por cumprida também a profecia de haver de voltar para a pátria; e assim disse: Ut impleretur quod dictum est per prophetam: que então se cumpriu o que tinha profetizado Oseas, não quanto à execução, senão quanto à evidência; porque o cumprimento da profecia passada, era nova e certa profecia de se cumprir a futura; que se numa parte não faltou o efeito, como poderia faltar na outra? Muitas felicidades tem logo que ver Portugal nos anos seguintes e muitas lhe tenho eu prognosticado neste sermão; porque, como as mesmas profecias que prometeram o que vemos cumprido, prometem ainda outros maiores aumentos a este Reino ou a este Império, como elas dizem, o mesmo foi referir o desempenho felicíssimo das profecias passadas, que prognosticar, antes segurar com firmeza o cumprimento infalível das que estão por vir. Se as nossas profecias na parte mais dificultosa foram profecias, na parte mais fácil, que resta, porque o não serão?
Sete cousas profetizou o Anjo embaixador à Virgem Maria: Ecce concipies in utero, et paries Filium, et vocabis nomen ejus Jesum. Hic erit magnus, et Filius Altissimi vocabitur, et dabit illi Dominus Deus sedem David Patris ejus et regnabit in domo Jacob in aeternum, et regni ejus non erit finis: que "conceberia; que pariria um filho; que lhe poria por nome Jesus; que seria grande; que se chamaria Filho de Deus; que Deus lhe daria o trono de David seu Pai; que reinaria na casa de Jacob para sempre; e que seu Reino não teria .fim . E destas sete profecias, vendo cumprida Santa Isabel só a primeira, pelos efeitos dela julgou que se haviam de cumprir todas as mais: Quoniam preficientur ea, quae dicta sunt tibi a Domino. O mesmo discurso fiz eu, e o devemos fazer todos os Portugueses, se não queremos ser hereges da boa razão e de uma fé mais que humana, dando todos c parabém a Portugal e chamando-lhe mil vezes feliz: Quoniam perficientur et, quae dicta sunt tibi a Domino. Por que como se começaram a cumprir as profecias em sua restauração, assim ás levará Deus por diante e lhes dará o cumprimento gloriosíssimo que elas prometam. Até agora era necessária pia afeição para dar fé às nossa; profecias mas já hoje basta o discurso e boa razão, por que os efeitos presentes das passadas são nova profecia dos futuros; bem assim como (para que até aqui nos não falte o Evangelho) a imposição do nome de Jesus que hoje chamaram a Cristo - Vocatum est nomen ejus Jesus - foi cumprimento do que estava profetizado e profecia do que estava por cumprir. Foi cumprimento do que estava profetizado, porque profetizado estava que se chamaria Jesus o Filho da Virgem: Paries Filium et vocabis nomen ejus Jesum. Foi profecia do que estava por cumprir, porque o nome de Jesus, que quer dizer Salvador, era profecia que havia de salvar Cristo e remir o género humano: Vocabitur nomen ejus Jesus: ipse enim salvum faciet populum suum a peccatis eorum.

§ VIII

Nos benefícios passa o mesmo. Muitos lugares pudera trazer; .um só digo, que pela propriedade do nome tem privilégio de se preferir a todos. Nasceu S. João Baptista, e assentaram consigo os vizinhos daquelas montanhas, que havia de ser o menino pessoa notável e que esperavam grandes venturas em seus maiores anos: Posuerunt in corde sua, dicentes: Quis, putas, puer iste erit? Pois de onde o tiraram estes homens? Que fundamento tiveram para se resolverem tão assentadamente nas grandezas de João e em seus aumentos? - O fundamento que os moveu, eles mesmos o disseram ou o Evangelista por eles: Quis putas, puer iste erit? Etenim manus Domini erat cum illo. Viam os milagres, viam as maravilhas, viam as mercês extraordinárias que Deus com mão tão liberal fazia a João logo em seus princípios, e do erat, tiraram o erit; das experiências do que era, inferiam evidências do que havia de ser; porque aqueles benefícios de Deus presentes, eram prognósticos das felicidades futuras: Etenim manus Domini erat cum illo. Assim como a quiromância humana, quando quer dizer a boa-ventura, olha para as mãos dos homens, assim a quiromância divina, a arte de adivinhar ao celeste, olha para as mãos de Deus, e como a mão de Deus estava tão liberal com João: Etenim manus Domini erat cum illo, na disposição destas primeiras liberalidades, como em caracteres expressos, estavam lendo a sucessão das futuras; e das grandezas maravilhosas que já eram, julgavam as que, correndo os anos, haviam de ser: Quis, putas, puer iste erit? Etenim manus Domini erat cum illo.
Ora grande simpatia tem a mão de Deus com o nome de João. Bem o mostrou o Senhor na feliz aclamação de Sua Majestade, que Deus nos guarde, como há-de guardar muitos anos, pois aos ecos do nome de João, despregou da cruz o braço o mesmo Cristo, assegurando-nos que, assim como a mão de Deus estivera com o primeiro João da Judeia, assim estava e havia de estar sempre com o quarto de Portugal: Etenim manus Dominis erat cum illo. Bem experimentámos esta assistência nos sucessos que referi, e em todos os felicíssimos do ano passado, que em todas as cousas que Sua Majestade pôs a mão, pôs também a Divina a sua. E se estes ou semelhantes efeitos da mão de Deus foram bastantes prognósticos para uns montanheses rústicos, assaz claro foi o modo de prognosticar que segui, falando entre cortesãos tão entendidos. Nem aqui também nos faltou o Evangelho; porque, se nos confirmou a primeira razão com o mistério do nome de Jesus, agora nos prova a segunda com o da circuncisão, da qual dizem comummente os Doutores, que aquele pouco sangue que o Senhor derramou hoje no presépio, foi sinal e como penhor de haver de derramar todo na cruz; que, como Deus é liberal com omnipotência e bom sem arrependimento, o mesmo é fazer um benefício menor, que penhorar-se a outros maiores. E se estes benefícios que da divina mão temos recebido, se podem chamar menores, os maiores quão grandes serão!
Nem nos desconfiem estas esperanças os temores que propusemos ao princípio da variedade dos sucessos da guerra, da inconstância das felicidades do Mundo; porque só as felicidades que vêm por mão dos homens, são inconstantes; mas as que vêm por mão de Deus, são firmes, são permanentes. Quando Josué, à entrada da Terra de Promissão, venceu aquelas primeiras e milagrosas batalhas, mostrando os inimigos mortos aos soldados, lhes disse o que eu também digo a todos os Portugueses: - Confortamini et estote robusti, sic enim faciet Dominus cunctis hostibus vestris, adversum quos dimicatis: Grande ânimo, valentes soldados, grande confiança, valorosos Portugueses, que assim como vencestes felizmente estes inimigos, assim haveis de vencer todos os demais; que, como são vitórias dadas por Deus, este pouco sangue que derramastes em fé de seu poderoso braço, é prognóstico certíssimo do muito que haveis que derramar vencedores; não digo sangue de católicos, que espero em Deus que se hão-de desapaixonar muito cedo nossos competidores e que em vosso valor e em seu desengano hão-de estudar a verdade de nossa justiça; mas sangue de hereges na Europa, sangue de mouros na África, sangue de gentios na Ásia e na América. vencendo e sujeitando todas as partes do Mundo a um só império, para todas em uma coroa as meterem gloriosamente debaixo dos pés do sucessor de S. Pedro. Assim o contam as profecias, assim o prometem as esperanças, assim o confirmam estes felizes princípios, que a divina bondade se sirva de prosperar até os fins felicíssimos que desejamos, que são os com que remata um sermão deste dia S. Bernardo, cujas palavras tantas vezes têm sido profecias a Portugal: Multiplicabitur sane ejus imperium, ut merito Salvator dicatur pro multitudine etiam salvandorum, et pacis non erit finis.
Para que nossas orações comecem a obrigar a Deus, não peço três avemarias, senão três petições do Padre nosso: Sanctificetur nomen tuum; Adveniat regnum tuum; Fiat voluntas tua. Santificado e glorificado seja, Senhor, vosso nome; porque ao nome santíssimo de Jesus, como o primeiro e principal Libertador, reconhecemos dever a liberdade que gozamos. Adveniat regnum tuum: "Venha a nós, Senhor, o vosso Reino"; vosso, porque vosso é o Reino de Portugal, que assim nos fizestes mercê de o dizer a seu primeiro fundador el-rei D. Afonso Henriques: Volo in te et in semine tuo imperium mihi stabilire: E por isso mesmo adveniat, venha; porque como há-de ser Portugal um tão grande Império posto que tem já vindo todo o Reino que era, ainda o Reino que há-de ser não tem vindo todo. E para que nossas más correspondências não desmereçam tanto bem, Fiat voluntas tua: Fazei, Senhor, que façamos inteiramente vossa santa vontade; porque assim como, nos prognósticos humanos; para advertir sua contingência; se diz: Deus sobre tudo, assim eu neste divino, para assegurar sua certeza, digo também: Deus sobre tudo; porque se sobre tudo amarmos a Deus, cumprindo perfeitamente sua vontade, sem dúvida se inclinará o Senhor a ouvir e satisfazer os afectos da nossa, perpetuando a sucessão de nossas felicidades na perseverança de sua graça: Quam mihi et vobis, etc.

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Digitalização e revisão do texto de José Machado

Agosto de 1997


Sermão dos Bons Anos, de Pe. Antonio Vieira

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