Sermão dos Bons Anos
Pe. Antonio Vieira
§ IV
Mas ainda que
concedamos que os Portugueses não souberam esperar, não
lhes neguemos que souberam amar, e com muita ventura; que talvez
buscando a um rei morto, se vêm a encontrar com um vivo. Morto
buscava a Madalena a Cristo na sepultura, e a perseverança
e amor com que insistiu em o buscar morto, foi causa de que o Senhor
lhe enxugasse as lágrimas e se lhe mostrasse vivo. Grande
exemplar temos entre mãos! Assim como a Madalena, cega de
amor, chorava às portas da sepultura de Cristo, assim Portugal,
sempre amante de seus reis, insistia ao sepulcro de el-rei D. Sebastião,
chorando e suspirando por ele; e assim como a Madalena no mesmo
tempo tinha a Cristo presente e vivo, e o via com seus olhos e lhe
falava e não o conhecia, porque estava encoberto e disfarçado,
assim Portugal tinha presente e vivo a el-rei nosso senhor, e o
via e lhe falava e não conhecia. Porquê? - Não
só porque estava, senão porque ele era o encoberto.
Ser o encoberto e estar presente, bem mostrou Cristo neste passo
que não era impossível. E quando se descobriu Cristo?
Quando se manifestou este Senhor encoberto? Até esta circunstância
não faltou no texto. Disse a Madalena a Cristo: Tulerunt
Dominum meum: "Levaram-me o meu Senhor"; e o Senhor não
lhe deferiu. Nescio ubi posuerunt eum: queixou-se que .não
sabia onde lho puseram; e dissimulou Cristo da mesma maneira. Si
tu sustulisti eum: "Se vós, Senhor, o levastes, dicito
mihi, dizei-mo"; e ainda aqui se deixou o Senhor estar encoberto
sem se manifestar. Finalmente, alentando-se a Madalena mais do que
sua fraqueza permitia, e tirando forças do mesmo amor, acrescentou:
- Et ego eum tollam: "E eu o levantarei." E tanto que
disse - eu o levantarei: Ego eum tollam, então se descobriu
o Senhor, mostrando que ele era por quem chorava; e a Madalena o
reconheceu e se lançou a seus pés.
Nem mais nem menos Portugal, depois da morte de seu último
rei. Buscava-o por esse Mundo, perguntava por ele, não sabia
onde estava, chorava, suspirava, gemia, e o rei vivo e verdadeiro
deixava-se estar encoberto e não se manifestava, porque não
era ainda chegada a ocasião; porém tanto que o Reino,
animoso sobre suas forças, se deliberou a dizer resolutamente:
Ego eum tollam: eu o levantarei e sustentarei com meus braços,
então se descobriu o encoberto Senhor, porque então
era chegado o tempo, dizendo-nos aos Portugueses o que diz S. Gregório
que disse Cristo à Madalena manifestando-se: Recognosce eum,
a quo recognosceris: "Reconhecei a quem vos reconhece";
reconhecei por rei, a quem vos reconhece por vassalo. Então
sim, e não antes; então sim, e não depois;
porque aquele e não outro era o tempo oportuno e determinado
de dar princípio à nossa redenção.
Recebeu Cristo o golpe da circuncisão e deu princípio
à Redenção do Mundo, não antes nem depois,
senão pontualmente aos oito dias: Dies octo, ut circumcideretur
puer. Pois porque antes, ou porque não depois? Não
se circuncidara ao dia sétimo? Não se circuncidara
ao dia nono? Porque não antes nem depois, senão ao
oitavo? - A razão foi porque as cousas que faz Deus e as
que se hão-de fazer bem feitas, não se fazem antes,
nem depois, senão a seu tempo. O tempo assinalado nas Escrituras
para a circuncisão era o dia oitavo, como se lê no
Génesis e no Levítico: Die octavo circumcideretur
infantulus. E por isso se circuncidou Cristo, sem se antecipar,
nem dilatar aos oito dias: Postquam consummati sunt dies octo; porque
como o Senhor remiu o género humano por obediência
aos decretos divinos, o tempo que estava assinalado na lei para
a circuncisão era o que estava predestinado para dar princípio
à redenção do Mundo. Da mesma maneira se deu
princípio à redenção e restauração
de Portugal em tais dias e em tal ano, no celebradíssimo
de 40, porque esse era o tempo oportuno e decretado por Deus; e
não antes nem depois, como os homens quiseram. Quiseram os
homens que fosse antes, quando sucedeu o levantamento de Évora;
quiseram os homens que fosse depois, quando assentaram que o dia
da aclamação fosse o 1º de Janeiro, hoje faz
um ano; mas a Providência Divina ordenou se antecipasse, para
que pontualmente se desse princípio à restauração
de Portugal a seu tempo: Postquam consummati sunt dies octo.
§ V
Daqui fica tacitamente
respondida uma não mal fundada admiração, com
que parece podíamos reparar os Portugueses, em que os sereníssimos
duques de Bragança vivessem retirados todos estes anos, sem
acudirem à liberdade do Reino, como legítimos herdeiros
que eram dele. Respondido está; declaro mais a resposta:
Cristo, Redentor nosso, ainda em quanto homem, como provam muitos
Doutores, era legítimo herdeiro da coroa de Israel: Dabit
illi Dominus Deus sedem David Patris ejus: et regnabit. Tinha tiranizado
este reino Herodes, homem estrangeiro, a quem por este e por muitos
outros títulos não pertencia; e como, sobre ter usurpado
o Reino, lhe quisesse tirar a vida a Cristo, diz o texto, que o
Senhor se lhe não opôs, antes se retirou para o Egipto:
Secessit in Aegyptum. Notável acção! Não
sois vós, Senhor, o verdadeiro Rei de Israel, como legítimo
herdeiro seu, que, ainda que não empunhais o ceptro, Rei
sois e Rei nascestes, e assim o confessam as nações
e reis estrangeiros: Ubi est qui natus est Rex Judiorum? Pois como
vos retirais agora, como vos não apondes à tirania
de Herodes, como ides viver ao Egipto, e tantos anos? Não
vedes o que padecem tantos inocentes? Não ouvis que já
chegam ao Céu as vozes da lastimada Raquel, que chora seus
filhos: Vox in Rama audita est, ploratus et ululatus multus, Raquel
plorans filios suos? Pois se a vós, como a Rei natural, incumbe
a restauração do Reino, como vos retirais da empresa?
Nem me aleguem em contrário os poucos dias que tinha o Senhor
de vida ou de idade, depois dos oito da circuncisão, porque
na mesma circuncisão e na mesma retirada do Egipto tinha
e lhe sobejava tudo o que era necessário para livrar do cativeiro
os que nele tinham a esperança da liberdade. Ou Cristo os
havia de remir com o sangue próprio, ou com o alheio: se
com o próprio, bastava uma só gota do sangue da circuncisão,
para remir não só o reino de Israel, senão
todo o Mundo. Se com o sangue alheio o mesmo anjo que disse a S.
José: Fuge in Aegyptum, podia fazer a Herodes e a todos seus
presídios e soldados, o que outro anjo fez aos exércitos
de el-rei Senaquerib, matando em uma noite oitenta e cinco mil dos
que sitiavam a mesma Jerusalém. Pois se isto era não
só possível, mas fácil, ao legítimo
e verdadeiro Rei de Israel, porque o não executou então?
- Porque não era ainda chegado o tempo, diz excelentemente
S. Pedro Crisólogo: Cedens tempori non Herodi. Tinha decretado
e disposto, que o tempo da Redenção fosse dali a trinta
e três anos' e se a Providência Divina, que tudo pode,
espera pelas disposições e circunstâncias do
tempo; quanto mais a providência humana, a qual o não
seria, se com toda a atenção e vigilância as
não observasse, aguardando pelas mais convenientes e oportunas
que Deus e o mesmo tempo lhe oferecesse! Assim que, podiam responder
aqueles príncipes, como legítimos e naturais senhorios
e herdeiros da coroa de seus avós, o que em semelhante caso
disseram os famosos Macabeus, assim antes como depois de restituídos
ao seu próprio património: Neque alienam terram sumpsimus,
negue aliena detinemus, sed haereditatem patrum nostrorum, quae
injuste ab aliquo tempore ab inimicis nostris possessu est; nos
vero tempus habentes vindicamus haereditatem patrum nostrorum.
E foi de tanta importância esperar pela oportunidade do tempo,
que por esta dilação se veio a lograr aquela primeira
máxima de toda a razão de estado, assim da Providência
Divina, como da providência humana, que é saber concordar
estes dois extremos: conseguir o intento e evitar o perigo. Já
perguntámos que razão teve Cristo para receber a circuncisão
ao oitavo dia conforme a Lei. Agora pergunto: que razão teve
a Lei para mandar que a circuncisão se fizesse ao oitavo
dia? A circuncisão naquele tempo era o remédio do
pecado original, como hoje o é o baptismo, bem que com diferente
perfeição. Pois se na circuncisão consistia
o remédio do pecado original, e a liberdade das almas cativas
pelo pecado; porque não mandava Deus que se circuncidassem
os meninos logo quando nasciam, ou ao terceiro ou ao quarto dia,
senão ao oitavo? - A razão literal foi, diz o Abulense,
porque quis Deus aplicar o remédio de tal maneira, que se
evitasse o perigo: Quia ante octo dies potest esse vitae periculum.
Quando os meninos nascem, cm todos aqueles primeiros sete dias correm
grande perigo de vida, porque são dias críticos e
arriscados, como dizem Aristóteles e Galeno; pois ainda que
o remédio dos recém-nascidos e sua espiritual liberdade
consistia na circuncisão, não se circuncidem, diz
a Lei, senão ao oitavo dia, passados os sete que essa é
a excelente razão de estado da providência de Deus
saber dilatar o remédio, para escusar o perigo: dilate-se
o remédio da circuncisão até o oitavo dia,
para que se evite o perigo da vida, que há do primeiro ao
sétimo: Quia ante octo dies potest esse vitae periculum.
Se Portugal se levantara enquanto Castela estava vitoriosa, ou,
quando menos, enquanto estava pacífica, segundo o miserável
estado em que nos tinham posto, era a empresa mui arriscada. eram
os dias críticos e perigosos; mas como a Providência
Divina cuidava tão particularmente de nosso bem, por isso
ordenou que se dilatasse nossa restauração tanto tempo,
e que se esperasse a ocasião oportuna do ano de quarenta,
em que Castela estava tão embaraçada com inimigos,
tão apertada com guerras de dentro e de fora; para que, na
diversão de suas impossibilidades, se lograsse mais segura
a nossa resolução. Dilatou-se o remédio, mas
segurou-se o perigo. Quando os Filisteus se quiseram levantar contra
Sansão, aguardaram a que Dalila lhe tivesse presas e atadas
as mãos, e então deram sobre ele. Assim o fizeram
os Portugueses bem advertidos. Aguardaram a que Catalunha atasse
as mãos ao Sansão que os oprimia, e como o tiveram
assim embaraçado e preso. então se levantaram contra
ele tão oportuna como venturosamente.
Mas vejo que me dizem os lidos na Escritura, que é verdade
que os Filisteus se levantaram contra Sansão, mas que ele
soltou as ataduras. voltou sobre eles e desbaratou-os a todos. Primeiramente
muito vai de Sansão a Sansão e de Filisteus a Filisteus.
Mas dado que em tudo fora a semelhança igual, esta mesma
réplica confirma mais o meu intento. Não tiveram bom
sucesso os Filisteus, porque ainda que nós os imitámos
em parte, eles não nos deram exemplo em tudo. Intentaram,
mas não conseguiram; porque as diligências que fizeram
não as aplicaram a tempo. As diligências que fizeram
os Filisteus contra Sansão, foi atarem-lhe as mãos
e cortarem-lhe os cabelos; mas não aproveitaram estes efeitos,
ainda que se obraram: porque, devendo-se fazer ao mesmo tempo, fizeram-se
em diversos. Quando lhe ataram as mãos, deixaram-lhe ficar
os cabelos. com que teve força para se desatar; quando lhe
cortaram os cabelos deixaram-lhos crescer outra vez com que teve
mãos para se vingar. Pois que remédio tinham os Filisteus
para se livrarem de todo e acabarem de uma vez com Sansão?
- O remédio era fazerem como nós fizemos e como nós
fazemos e como nós havemos de fazer: enquanto Sansão
está com as mãos atadas, cortar-lhe os cabelos no
mesmo tempo, e acabou-se Sansão. Assim o podiam vencer os
Filisteus com muita facilidade, que doutra maneira não seria
tão fácil. Porque se lhe não cortassem os cabelos,
teria forças para desatar as mãos, e se desatassem
as mãos, seria necessária muita força para
lhe cortar os cabelos. Tanto como isto importa executar os remédios
a tempo, como nós, por mercê de Deus, o temos feito
até agora tão felizmente, conseguindo a maior empresa
e evitando o menor perigo; porque soubemos esperar pelos dias oportunos,
como mandava a Lei esperar pelos da circuncisão: Dies octo,
ut circumcideretur puer.
§ VI
Ut circumcideretur
puer vocatum est nomen ejus Jesus. Tanto que se circuncidou o Menino,
logo se chamou Salvador. Mas com que consequência? - pergunta
S. Bernardo: Circumciditur puer et vocatur Jesus; quid sibi vult
ista connexio? Que parentesco tem o nome com a acção?
Que combinação tem o salvar com o circuncidar-se?
Três razões acho nos santos; duas repito, uma só
pondero. S. Bernardo e Eusébio Emisseno, dizem que foi a
circuncisão de Cristo: Totius superfluitatis abjectio: Uma
estreita e mui reformada privação de todo o supérfluo.
Vinha Cristo como Rei e Redentor do Mundo a remi-lo e restaurá-lo,
e a primeira cousa que fez, como a mais necessária e importante,
foi estreitar-se em sua Pessoa, cercear demasias, cortar superfluidades
e fazer uma pragmática geral com seu exemplo: Totius superfluitatis
abjectio. Muitas graças sejam dadas a Deus, que para confirmação
ou imitação desta grande razão de estado divina,
não temos necessidade de cansar a memória, senão
de abrir os olhos; não de resolver escrituras antigas, senão
de venerar e amar exemplos presentes. Assim obra quem assim reina;
assim sabe libertar quem assim sabe estreitar: Ut circumcideretur
puer, vocatum est nomen ejus Jesus.
A segunda razão é de Santo Epifânio, e diz que
foi: Ut confirmaret circumcisionem, quam olim instituerat ejus adventui
servientem: "Que quis o Redentor confirmar desta maneira e
honrar a circuncisão, pelo que antes da sua vinda tinha servido."
Bem advertido, mas muito melhor imitado. Parece que os decretos
do Governo de Portugal e os decretos da Providência Divina
correram parelhas (quanto pode ser) na sua e na nossa redenção.
Decretou Deus que à circuncisão se lhe confirmassem
suas antigas honras. havendo respeito ao bem que tinha servido:
e o mesmo decreto se passou cá, e com muita razão:
Ut confirmaret circumcisionem ejus adventui servientem. Tinha servido
a circuncisão no tempo passado e na Lei Velha, pois honre-se
no tempo presente e premeie-se na Lei Nova; que não é
.bem que a felicidade geral venha a ser infortúnio dos que
serviram. Que a circuncisão, que tinha tantos anos de serviços,
que a circuncisão, que tinha derramado tanto sangue, houvesse
de ser desgraçada, porque o mundo foi venturoso, não
estava isso posto em razão. Pois baixe um decreto que lhe
confirme efectivamente todas as honras passadas: Ut confirmaret
circumcisionem, quam olim instituerat; que é bem que a Lei
da Graça premeie não só os serviços
seus, senão os da Lei Antiga, para mostrar, nisso mesmo,
que é Lei da Graça.
Oh! que grande política esta, assim humana, como divina!
El-rei Assuero mandava ler as histórias e crónicas
do reino, para fazer mercês aos que em tempo de seus antecessores
tinham servido. El-rei Salomão sustentava de sua própria
mesa aos filhos de Berzelai, por serviços feitos em tempo
e à pessoa de David; e ó Rei dos reis, Cristo Redentor
nosso, quando no Monte Tabor desembargou suas glórias (que
também pode ser expediente estarem embargadas por algum tempo),
repartiu-as a três que serviam e a dois que tinham servido;
a S. Pedro, a S. João e a Santiago, porque actualmente serviam;
e a Moisés e a Elias, um vivo e outro defunto, porque tinham
servido em tempos passados. Assim recebe Cristo e autoriza hoje
a circuncisão, conforme as honras do tempo antigo, não
porque se quisesse servir dela, que já estava muito envelhecida
e a queria aposentar, senão pelo bem que dantes tinha servido:
Ejus odventui servientem.
A terceira e última razão é de Santo Ambrósio,
de Santo Agostinho, de S. João Crisóstomo, de Santo
Tomás e ainda de S. Paulo, ou quando menos fundada em sua
doutrina, e é esta (alego tantos Doutores pela dificuldade
da razão): Ea ratione pro nobis circumcisus est, ut circumcisionem
auferret: "Recebeu Cristo a circuncisão, porque, como
autor da Lei Nova, queria tirar do Mundo a circuncisão."
Estranha sentença! Pois porque Cristo queria tirar do Mundo
a circuncisão, por isso recebe e executa em si a mesma circuncisão?!
Antes parece que para a tirar do Mundo havia de entrar condenando-a,
desterrando-a, proibindo-a sob graves penas, e não a admitindo
por nenhum caso.
Pouco sabe das razões verdadeiras de estado quem assim discorre.
Circuncida-se Cristo para tirar do Mundo a circuncisão, porque
quem entra a introduzir uma lei nova, não pode tirar de repente
os abusos da velha. Há-de permitir com dissimulação
para tirar com suavidade; há-de deixar crescer o trigo com
cizânia, para arrancar a cizânia. quando não
faça mal às raízes do trigo. Todo o zelo é
mal sofrido, mas o zelo português mais impaciente que todos.
A qualquer relíquia dos males passados, a qualquer sombra
das desigualdades antigas, já tomamos o céu com as
mãos, porque não está tudo mudado, porque não
está emendado tudo. Assim se muda um reino? Assim se emenda
uma monarquia? Tantos entendimentos assim se endireitam? Tantas
vontades tão diferentes assim se temperam? Rei era Cristo,
e Rei Redentor, e nenhuma cousa trazia mais diante dos olhos, que
extinguir os usos da Lei Velha e renovar e introduzir os preceitos
da Nova; e com ter sabedoria infinita e braços omnipotentes,
ao cabo de trinta e três anos de reino, muitas cousas deixou
como as achara, para que seu sucessor S. Pedro as emendasse. Já
Cristo não estava vivo, quando se rasgou o véu do
templo, figura da Lei Antiga. E que cousa se podia representar mais
fácil, que romper um tafetá em trinta e três
anos? Pouco e pouco se fazem as cousas grandes, e não há
melhor arbítrio para as concluir com brevidade, que não
as querer acabar de repente.
Instituiu Cristo, Redentor nosso, o sacramento da Eucaristia, e
instituiu-o na mesma mesa em que estava o cordeiro legal. Pois,
Senhor meu, que combinação é esta, ou que companhia?
O cordeiro com o sacramento? As cerimónias da Lei Velha com
os mistérios da Nova na mesma mesa?! - Sim, que assim era
necessário que fosse, para que viesse a ser o que era necessário.
Queria Cristo introduzir o sacramento e lançar fora o cordeiro
da Lei. e para isso permitiu que o cordeiro estivesse embora na
mesma mesa com o sacramento, que desta maneira se desterram com
suavidade as sombras das leis velhas, e se vão introduzindo
e conciliando os resplendores das novas. Estejam agora juntos o
sacramento e o cordeiro, que amanhã irá fora o cordeiro,
e ficará o sacramento. Com este vagar faz Deus as cousas,
e assim quer que as façam os que estão em seu lugar
(quando elas o sofrem); e tenha mais paciência o zelo, não
seja tão estreito de coração. Mais dói
aos reis que aos vassalos dissimular com algumas cousas; mas por
força se hão-de fazer assim, para se não fazerem
por força. Muito lhe doeu a Cristo, gotas de sangue lhe custou
contemporizar com a circuncisão; mas foi necessário
dissimular com dor, para remediar mm sucesso. Não é
o mesmo permitir que aprovar, antes o que se permite já se
supõe condenado. A benevolência e dissimulação,
como são afectos da mesma cor, equivocam-se facilmente nas
aparências; e quantas vezes se choraram ruínas, os
que se invejaram favores! Vem a ser indústria no príncipe,
o que é razão de estado no lavrador, que as espigas
que há-de cortar, essas abraça primeiro. Assim abraçou
Cristo a circuncisão, porque a queria cortar e arrancar do
Mundo: Ea ratione circumcisus est, ut circumcisionem auferret, mostrando
na suavidade desta razão, e nas outras cousas por que se
circuncidou, quão bem se proporcionava com os meios o nome
que lhe puseram de Salvador: Ut circumcideretur puer, vocatum est
nomen ejus Jesus.
Mas porque se chamou Salvador? Porque não tomou outro nome?
Que o não tomasse de algum atributo de sua divindade, bem
está, pois vinha a ser homem! mas ainda em quanto homem tinha
Cristo a maior dignidade da terra, que era a de rei. Pois já
que havia de tomar o nome do ofício e não da pessoa,
porque não se chamou Rei, porque se chamou Salvador? - A
razão deu-a Tertuliano: Gratius illi erat pietatis nomen,
quam majestatis: Deixou Cristo o nome de rei e tomou o de Salvador,
porque "estimava mais o nome de piedade, que o título
de majestade". O nome de Rei era nome majestoso, o nome de
Salvador era nome piedoso; o nome de Rei dizia imperar, o nome de
Salvador dizia libertar; e fazendo o Senhor a eleição
pela estimação, tomou o de nosso remédio, deixou
o de sua grandeza. Por isso os anjos, na embaixada que deram aos
pastores, puseram primeiro o nome de Salvador e depois o de Ungido:
Quia natus est vobis hodie Salvator, qui est Christus Dominus. E
por isso no título da cruz se chamou o Senhor Jesus Rei.
e não Rei Jesus: Jesus Nazarenus, Rex Judaeorum; para mostrar
no princípio e no fim da vida, que estimava mais o exercício
de nossa liberdade, que a grandeza de sua majestade: Gratius illi
erat pietatis nomen, quam majestatis.
Se os corações puderam discorrer sensivelmente, quanto
melhor falaram neste passo, do que os poderá copiar a língua?
Isto que Tertuliano disse pelo primeiro Libertador do género
humano, pudéramos nós dizer com acção
de graças pelo segundo libertador de Portugal, o qual nesta
felicíssima e verdadeiramente real arção mostrou
bem quanto mais estimava o nome da piedade, que o título
da majestade; pois convidado tantas vezes para a grandeza, rejeitou
generosamente o ceptro; e agora chamado para o remédio, aceitou
animosamente a coroa: Gratius illi erat pietatis nomen, quam majestatis.
Rei não por ambição de reinar, senão
por compaixão de libertar; rei verdadeiramente imitador do
Rei dos reis, que sobre todos os títulos de sua grandeza
estimou o nome de Libertador e Salvador: Vocatum est nomen ejus
Jesus.