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Sermão dos Bons Anos
Pe. Antonio Vieira

 


Pregado em Lisboa, na Capela Real, no ano de 1642

Postquam consummati sunt dies octo, ut circumcideretur puer, vocatum est nomen ejus Jesus, quod vocatum est ab angelo, priusquam in utero conciperetur. - Luc. II.

§ I

Em um Mundo tão avarento de bens, onde apenas se encontra com um bom dia, ter obrigação de dar bons-anos, dificultoso empenho! Deus, que é autor de todos os bens, os dê a Vossas Reais Majestades felicíssimos (mui altos e mui poderosos Reis e Senhores nossos) com a vida, com a prosperidade, com a conservação e aumento de estados que as esperanças do Mundo publicam, que o bem da Fé Católica deseja, que a Monarquia de Portugal há mister e que eu hoje quisera prometer e ainda assegurar.
Em um Mundo, digo, tão avarento de bens, onde apenas se encontra com um bom-dia, ter obrigação de dar bons-anos, dificultoso empenho! E na minha opinião cresce ainda mais esta dificuldade, porque isto de dar bons-anos, entendo-o de diferente maneira do que comummente se pratica no Mundo. Os bons-anos não os dá quem os deseja, senão quem os assegura. A quantos se desejaram nesta vida, a quantos se deram os bons-anos, que os não lograram bons, senão mui infelizes? Segue-se logo, própria e rigorosamente falando, que não dá os bons-anos quem só os deseja, senão quem os faz seguros. Esta é a dificuldade a que me vejo empenhado hoje, que o tempo e o Evangelho fazem ainda maior. Em todo o tempo é dificultoso cousa segurar anos felizes; mas muito mais em tempo de guerras e em tempo de felicidades. Se o dia dos bens é véspera dos males; se para merecer uma desgraça, basta ter sido ditoso, quem fará confiança em glórias presentes, para esperar prosperidades futuras? Se a campanha é uma mesa de jogo onde se ganha e se perde; se as bandeiras vitoriosas mais firmes seguem o vento vário que as meneia, quem se prometerá firmeza na guerra, que derruba muralhas de mármore? E como a guerra e a felicidade são dois acidentes tão vários; como a Fortuna e Marte são dois árbitros do Mundo tão inconstantes, como poderei eu seguramente prometer bons-anos a Portugal, em tempo que o vejo por uma parte com as armas nas mãos, por outra com as mãos cheias de felicidade? Se apelo para o Evangelho, também parece que promete ameaças, mais que esperanças; porque nos aparece nele um cometa abrasado e sanguinolento, ut circumcideretur puer, e os cometas desta cor sempre foram fatais aos reinos e formidáveis às monarquias.
Terret fera regna cometes sanguineum spargens ignem - disse lá Sílio. A matéria dos cometas são os vapores, ou exalações da terra subidas ao céu; e como no mistério da Encarnação subiu ao Céu a terra de nossa humanidade, que outra cousa parece Cristo hoje com o sangue da circuncisão, senão um cometa abrasado e sanguinolento, e por isso funesto e temeroso? Ora com isto se representar assim, com o Evangelho e o tempo parecer que nos prometem poucas esperanças de felizes anos, do mesmo tempo e do mesmo Evangelho hei-de tirar hoje a prova e segurança deles Será pois a matéria e empresa do sermão esta: Felicidades de Portugal, juízo dos anos que vêm. Digo dos anos, e não do ano, porque quem tem obrigação de dar bons-anos, não satisfaz com um só, senão com muitos. Funda-me o pensamento o mesmo Evangelho, que parece o desfavorecia; porque toda a matéria e sentido dele é um prognóstico de felicidades futuras.
Toda a matéria do brevíssimo Evangelho que hoje canta a Igreja vem a ser a circuncisão de Cristo e o nome santíssimo de Jesus. E destes dois grandes mistérios se compôs uma constelação benigníssima, que tomada no horizonte oriental de Cristo, foi figura de todo o bem e remédio do Mundo. que o Senhor havia de obrar em seus maiores anos. S. Cirilo: Vocatum est nomen ejus !esus, quod interp,etatur Salvator; editus enim fuit ad toIius mundi salutem, quam sua circumcisione praefiguravit. Grande palavra! De sorte que circuncidar-se Cristo e chamar-se Jesus no dia de hoje, foi levantar figura - praefiguravit - aos sucessos dos anos seguintes, à salvação e felicidades futuras de todo o género humano: Totius mundi, salutem, quum sua circumcisione praefiguravit. Nem desfaz esta verdade a representação do sanguinolento, com que parece nos atemorizava Cristo nos efeitos da circuncisão; porque aquele belo infante não é cometa, é planeta; não é terra subida ao céu, é céu descido à terra. E o céu, quando se põe de vermelho, que prognostica? - O mesmo Cristo o disse, que não é menos que sua esta matemática: Serenum erit, rubicundum est enim caelum. Quando o céu se veste de vermelho, prognostica serenidade. Sempre a serenidade foi título natural das púrpuras. E como aquele Céu animado, como aquele Rei celestial se veste da púrpura de seu sangue, serenidades e felicidades grandes nos prognostica. que nas acções do tempo e nas palavras do Evangelho iremos discorrendo por partes.

§ II

Postquam consummati sunt dies octo, ut circumcideretur puer, vocatum est nomen ejus Jesus, quod vocatum est ab ungelo, priusquam in utero conciperetur. Comecemos por estas últimas palavras.
Diz S. Lucas que, passados os oito dias, termo da circuncisão, lhe puseram a Cristo por nome Jesus; e nota, antes manda notar o Evangelista, que este nome foi anunciado pelo Anjo, antes que o Senhor fosse concebido: Quod vocatum est ab angelo, priusquam in utero conciperetur. Dá razão desta advertência a glossa interlineal, e diz que foi: Ne homo videretur machinator hujus nominis: "Para que não parecesse este glorioso nome maquinado por invento de homens", senão mandado, como era, pela verdade de Deus. Entrou Cristo no Mundo a reduzi-lo com nome de Salvador e Libertador, que isso quer dizer Jesus; pois para que esta apelidada liberdade não a possa julgar alguém por invenção e obra humana, seja profetizada e revelada primeiro por um ministro da Providência Divina: Quod vocatum est ab angelo, priusquam in utero conciperetur.
Não quero referir profecias do bem que gozamos, porque as suponho mui pregadas neste lugar e mui sabidas de todos; reparar sim, e ponderar o intento delas quisera. Digo que ordenou Deus que fosse a liberdade de Portugal, como os venturosos sucessos dela, tanto tempo antes e por tão repetidos oráculos profetizada, para que, quando víssemos estas maravilhas humanas, entendêssemos que eram disposições e obras divinas, e para que nos alumiasse e confirmasse a fé onde a mesma admiração nos embaraçasse. (Falo de fé menos rigorosa, quanta cabe em matérias não definidas, posto que de grande certeza.) Alega Cristo um texto do Salmo XL, em que descreve David o meio extraordinário por onde os procedimentos injustos de um mau homem dariam princípio à redenção de todos, como seria traído o Redentor, como o pretenderiam derrubar por engano do seu estado; e intimando o Senhor o caso aos discípulos, disse estas particulares palavras: - Dico vobis antequam fiat, ut cum factum fuerit credatis quia ego sum: "Eu sou este de quem aqui fala David (que assim explicam o lugar Santo Agostinho, Ruperto, Teofilato e outros); e digo-vos isto antes que aconteça, para que depois de acontecer o creiais."
Notável teologia, por certo! Se o Senhor dissera Digo-vos estas cousas para que creiais, antes que aconteçam, facilmente dito estava; isso é fé - crer o que não se vê; mas dizer as causas antes que se façam, a fim de que se creiam depois de feitas: Ut cum factum fueri credatis?! O que está feito, o que se vê, o que se apalpa necessita de fé?! - Algumas vezes sim; porque sucedem casos no Mundo, como este de que Cristo falava, tão novos e inauditos; sucedem cousas tão raras, tão prodigiosas e por meios de proporção tão desigual e muitas vezes tão contrários ao mesmo fim, que, ainda depois de vistas com os olhos, ainda depois de experimentadas com as mãos, não basta a evidência dos sentidos para as não duvidar, é necessário recorrer aos motivos da fé para lhes dar crédito: Dico vobis antequam fiat, ut cum factum fuerit, credatis. Tais considero eu os sucessos nunca imaginados de nosso Portugal, que, como excessivamente nos acreditam, assim excedem todo o crédito.
Quis Deus que fossem tantos anos antes e tão vulgarmente profetizados estes sucessos, não tanto para os esperarmos futuros, quanto para os crermos presentes; não para nos alentarem a esperança antes de sucederem, mas para nos confirmaram a fé depois de sucedidos. Haviam de suceder as cousas de Portugal, como sucederam, de tão prodigiosa maneira, que, ainda depois de vistas, parece que as duvidamos; ainda depois de experimentadas, quase as não acabamos de crer: pois profetize-se esta venturosa liberdade e ainda o nome felicíssimo do libertador, muito tempo antes - priusquam in utero conciperetur -, para que entre as dúvidas dos sentidos, entre os assombros da admiração, peçam os olhos socorro à fé e creiam o que vêem por profetizado, quando o não creiam por visto.
Por duas razões se persuadem mal os homens a crer algumas cousas: ou por muito dificultosas, ou por muito desejadas; o desejo e a dificuldade fazem as cousas pouco críveis. Era Sara de idade de noventa anos, sobre estéril; promete-lhe um anjo que Deus lhe daria fruto de bênção; e diz a Escritura que se riu e zombou muito disso Sara; e ainda depois de ter um filho chamou-lhe Isac, que quer dizer riso: Risum fecit mihi Deus. Estava S. Pedro em poder de el-rei Herodes preso e com apertada guarda; apareceu-lhe outro anjo, que lhe quebrou as cadeias e o livrou; e diz o texto sagrado: Existimabat autem se visum videre: que "cuidava Pedro que aquilo era sonho e ilusão". Pois Pedro, pois Sara, que incredulidade é esta? Vê-se Sara com um filho nos braços, e chama-lhe riso?! Vê-se Pedro com as cadeias fora das mãos, e chama-lhe sonho?! - Assim havia de ser, porque ambas eram cousas muito dificultosas e ambas muito desejadas. Desejava Sara um filho, como a sucessão de sua casa; desejava Pedro a liberdade, como a mesma liberdade bem da Igreja. A sucessão de Sara estava em poder de noventa anos; a liberdade de Pedro estava em poder de Herodes e de seus soldados; e como a dificuldade era tão grande e o desejo igual à dificuldade, ainda que viam com seus alhos e tinham nas mãos o que desejavam, a Sara, parecia-lhe cousa de riso, a Pedro parecia-lhe cousa de sonho. Que Sara estéril haja de ter filho! Que a prosápia real portuguesa esterilizada e atenuada na décima sexta geração, haja de ter descendente que lhe suceda! Que Sara, depois de noventa anos, que a coroa de Portugal, depois de sessenta, o que não teve quando estava na flor de sua idade, o que não teve quando estava com todas as suas forças o viesse alcançar depois de tão envelhecida e quebrantada! Muito desejávamos, muito suspirávamos por este bem, .mas quanto maior era o desejo, tanto mais parecia. e quase parece ainda cousa de riso: Risum fecit mihi Deus. Que Pedro em poder de el-rei Herodes; que Portugal em poder não de um. senão de muitos reis que o dominavam, lhes houvesse de escapar das mãos tão facilmente! Que Pedro cercado de guardas - Quator quaternionibus militum; que Portugal, presidiado de infantaria em tantos castelos, em tantas fortalezas, sem se arrancar uma espada, sem se disparar um arcabuz; conseguisse em uma hora sua liberdade! Era empresa esta tão dificultosa, representava-se tão impossível ao discurso humano, que ainda agora parece que é sonho e ilusão: Existimabat se visum videre. Assim lhes aconteceu aos filhos de Israel, quando se viram livres do cativeiro de Babilónia: In convertendo Dominus captivitatem Sion facti sumus (lê o hebreu) sicut somniantes: que incrédulos, de admirados, "tinham a verdade por imaginação e cuidavam que estavam sonhando o que viam com os olhos abertos." E como os sucessos de nossa restauração eram matérias de tão dificultoso crédito, que, ainda depois de vistos, parecem sonho e quase se não acabam de crer, ordenou Deus que fossem tanto tempo antes, como tão singulares circunstâncias e com o nome do mesmo libertador profetizadas, para que a certeza das profecias desfizesse os escrúpulos da experiência; para que, sendo objecto da fé, não parecesse ilusão dos sentidos; para que, revelando-as tantos ministros de Deus, se visse que não eram inventos dos homens: Ne homo videretur machinator hujus nominis, quod vocatum est ab angelo, priusquum in utero conciperetur.

§ III

Temos considerado o priusquam, vamos agora ao postquam: Postquam consummati sunt dies octo, ut circumcideretur puer. O que aqui pondera e sente muito a piedade dos santos, principalmente S. Bernardo, é que, nascido de oito dias, sujeitasse o Senhor aquele corpozinho tenro ao duro golpe da circuncisão. Tão depressa?! Aos oito dias já derramando sangue?! Desta pressa se espantam os Doutores; mas eu não me espanto senão deste vagar. Que venha Cristo a remir - e que espere dias?! E que espere horas?! E que espere instantes?! Quem cuida que é pouco tempo oito dias, mal sabe o que é esperar pela Redenção.
Quando Cristo se encontrou com os discípulos de Emaús, iam eles contando a história de seu Mestre e a causa que os levava peregrinos por esse Mundo, e disseram estas notáveis palavras: Nos autem sperabamus, quia ipse esset redempturus Israel; et nunc super haec omnia tertia dies est hodie: "Nós esperávamos que este nosso Mestre havia de remir o povo de Israel; e no cabo de tudo isto, vemos agora que já se vão passando três dias." Três dias?! Pois que muito é isso? Que espaço de tempo são três dias para uns homens desmaiarem? Para uns homens se entristecerem? Para uns homens se desesperarem tanto? - Não se desesperavam, porque eram três dias, senão porque eram três dias de esperar pela Redenção. Esperavam aqueles discípulos que o Senhor havia de remir a Israel: Nos autem sperabamus quia ipse esset redempturus Israel. E para quem está cativo, para quem espera pela Redenção, três dias é muito tempo: Et nunc super haec omnia: como se foram passadas três eternidades: Tertia dies est hodie: Já se vão passando três dias; é muito tempo para quem espera pela Redenção, quanto mais tempo seriam os oito dias que se dilatou a circuncisão de Cristo, pois esperava o Mundo neles, que começasse o Senhor a derramar o sangue e dar o preço com que o remiu!
Não há dúvida que foi muito cedo para a dor, mas não foi muito cedo para o remédio; foram poucos dias para quem vivia. mas muitos para quem esperava. Bem o entendeu assim o Evangelista; porque, havendo de contar estes oito dias, veja-se o aparato de palavras com que o faz: Postquam consummati sunt: "depois que foram consumados"; parece que armava a dizer oito séculos, ou oito mil anos, segundo a grandeza vagarosa e a ponderação das palavras; e no cabo disse: dies octo - oito dias, que, como eram dias de esperar Redenção, ainda Que não foram mais que oito, pareciam uma duração muito comprida, e que não acabavam de chegar, segundo tardavam: Postquam consummati sunt.
E se oito dias de esperar pela redenção, e ainda três dias, é tanto tempo; quanto seria, ou quanto pareceria, não três dias, nem oito dias, não três anos, nem oito anos, senão sessenta anos inteiros nos quais Portugal esteve esperando sua redenção, debaixo de um cativeiro tão duro e tão injusto! Não me paro a o ponderar; porque em dia tão de festa, não dizem bem memórias de tristezas, ainda que os males passados, parte vêm a ser de alegria. O que digo é que nos devemos alegrar com todo o coração e dar imortais graças a Deus, pois vemos tão felizmente logradas nossas esperanças. Nem nos pese de ter esperado tão longamente; porque se há-de recompensar a dilação da esperança com a perpetuidade da posse.
Perguntam os Teólogos como São Tomás na terceira parte, porque se dilatou tanto tempo o mistério da Encarnação, porque não desceu o Verbo Eterno a remir o Mundo, senão depois de tantos anos? Várias razões dão os Doutores: a de Santo Agostinho é muito própria do que queremos dizer: Diu fuit expectandus, semper tenendus: Quis o Verbo Eterno que esperassem os homens e suspirassem tantos séculos por sua vinda, porque era bem que fosse muito tempo esperado um bem que havia de ser sempre possuído. Haviam os homens de gozar para sempre a presença de Cristo, havia o Verbo de ser homem perpetuamente: porque - Quod semel assumpsit nunquam demisit - o que uma vez tomou, nunca mais o largou; seja pois este bem por muito tempo esperado, pois há-de ser por todo o tempo possuído, e mereça com as dilações da esperança a perpetuidade da posse: Diu fuit expectandus, semper tenendus.
Não necessita de acomodação o lugar; de firmeza sim, pelas dependências que tem no futuro; mas um espírito profético e português nos fiará a conjectura desta tão gostosa verdade. S. Frei Gil, religioso da sagrada ordem de S. Domingos, naquelas suas tão celebradas profecias, diz desta maneira: Lusitania sanguine orbata regio diu ingemiscet: "A Lusitânia o reino de Portugal, morrendo seu último rei sem filho herdeiro, gemerá e suspirará por muito tempo." Sed propitius tibi Deus: "Mas lembrar-se-á Deus de vós, ó Pátria minha" - diz o Santo; Et insperate ab insperato redimeris: "e sereis remida não esperadamente por um rei não esperado". E depois de assim remido, depois de assim libertado Portugal, que lhe sucederá? - Africa debellabitur: Será vencida e conquistada África. Imperium ottomanum ruet: O império otomano cairá sujeito e rendido a seus pés. Domus Dei recuperabitur: A casa santa de Jerusalém será finalmente recuperada. E por coroa de tão gloriosas vitórias, Aetas aurea reviviscet: "Ressuscitará a idade dourada." Pax ubique erit: "Haverá paz universal no Mundo." Felices qui viderint: "Ditosos e bem-aventurados os que isto virem!"
Até aqui S. Frei Gil profetizando. De sorte que, assim como antes da Redenção houve suspirar e gemer, assim depois da Redenção haverá possuir e gozar; e assim como os suspiros e gemidos duraram por tantos anos, assim as felicidades e bens permanecerão sem termo e sem limite. O muito, quer Deus que não custe pouco, e era justo que a tanta glória precedesse tanta esperança, e que quem havia de gozar sempre, suspirasse muito: Lusitania diu ingemiscet. Diu fuit expectandus, semper tenendus.
E já que vai de esperanças, não deixemos passar sem ponderação aquelas palavras misteriosas da profecia: Insperate ab insperato redimeris. De propósito reparei nelas, para refutar com suas próprias armas alguma relíquia, que dizem que ainda há daquela seita ou desesperação dos que esperavam por el-rei D. Sebastião, de gloriosa e lamentável memória. Diz a profecia: Insperate ab insperato redimeris: "Que seria remido Portugal não esperadamente por um rei não esperado." Segue-se logo, evidentemente, que não podia el-rei D. Sebastião ser o libertador de Portugal, porque o libertador prometido havia de ser um rei não esperado: Insperate ab insperato; e el-rei D. Sebastião era tão esperado vulgarmente, como sabemos todos. Assim que os mesmos sequazes desta Opinião, com seu esperar, destruíram sua esperança; porque quanto o faziam mais esperado, tanto confirmavam mais que não era ele o prometido; podendo-se-lhe aplicar propriamente aquelas palavras que S. Paulo disse de Abraão: Contra spem in spem credidit; que "creram em uma esperança contrária à sua mesma esperança"; porque pelo mesmo que esperavam, tinham obrigação de não esperar.

Parágrafo I à Parágrafo III
Parágrafo IV à Parágrafo VI
Parágrafo VII e Parágrafo VIII