Sermão
de Santo Antonio
Pe. Antonio Vieira
§ VI
Com esta última
advertência vos despido, ou me despido de vós, meus
peixes. E para que vades consolados do sermão, que não
sei quando ouvireis outro, quero-vos aliviar de uma desconsolação
mui antiga, com que todos ficastes desde o tempo em que se publicou
o Levítico. Na lei eclesiástica ou ritual do Levítico,
escolheu Deus certos animais que lhe haviam de ser sacrificados;
mas todos eles ou animais terrestres ou aves, ficando os peixes
totalmente excluídos dos sacrifícios. E quem duvida
que esta exclusão tão universal era digna de grande
desconsolação e sentimento para todos os habitadores
de um elemento tão nobre, que mereceu dar a matéria
ao primeiro sacramento? O motivo principal de serem excluídos
os peixes, foi porque os outros animais podiam ir vivos ao sacrifício,
e os peixes geralmente não, senão mortos; e cousa
morta não quer Deus que se lhe ofereça, nem chegue
aos seus altares. Também este ponto era muito importante
e necessário aos homens, se eu lhes pregara a eles. Oh quantas
almas chegam àquele altar mortas, porque chegam e não
têm horror de chegar, estando em pecado mortal! Peixes, dai
muitas graças a Deus de vos livrar deste perigo, porque melhor
é não chegar ao sacrifício, que chegar morto.
Os outros animais ofereçam a Deus o ser sacrificados; vós
oferecei-lhe o não chegar ao sacrifício; os outros
sacrifiquem a Deus o sangue e a vida; vós sacrificai-lhe
o respeito e a reverência.
Ah peixes, quantas invejas vos tenho a essa natural irregularidade!
Quanto melhor me fora não tomar a Deus nas mãos, que
tomá-lo indignamente! Em tudo o que vos excedo, peixes, vos
reconheço muitas vantagens. A vossa bruteza é melhor
que a minha razão e o vosso instinto melhor que o meu alvedrio.
Eu falo, mas vós não ofendeis a Deus com as palavras;
eu lembro-me, mas vós não ofendeis a Deus com a memória;
eu discorro, mas vós não ofendeis a Deus com o entendimento;
eu quero, mas vós não ofendeis a Deus com a vontade.
Vós fostes criados por Deus, para servir ao homem, e conseguis
o fim para que fostes criados; a mim criou-me para o servir a ele,
e eu não consigo o fim para que me criou. Vós não
haveis de ver a Deus, e podereis aparecer diante dele muito confiadamente,
porque o não ofendestes; eu espero que o hei-de ver; mas
com que rosto hei-de aparecer diante do seu divino acatamento, se
não cesso de o ofender? Ah que quase estou por dizer que
me fora melhor ser como vós, pois de um homem que tinha as
mesmas obrigações, disse a Suma Verdade, que "melhor
lhe fora não nascer homem": Si natus non fuisset homo
ille. E pois os que nascemos homens, respondemos tão mal
às obrigações de nosso nascimento, contentai-vos,
peixes, e dai muitas graças a Deus pelo vosso.
Benedicite, cete et omnia quae moventur in aquis, Domino: "Louvai,
peixes, a Deus, os grandes e os pequenos", e repartidos em
dois coros tão inumeráveis, louvai-o todos uniformemente.
Louvai a Deus, porque vos criou em tanto número. Louvai a
Deus, que vos distinguiu em tantas espécies; louvai a Deus,
que vos vestiu de tanta variedade e formosura; louvai a Deus, que
vos habilitou de todos os instrumentos necessários à
vida; louvai a Deus, que vos deu um elemento tão largo e
tão puro; louvai a Deus, que, vindo a este Mundo, viveu entre
vós, e chamou para si aqueles que convosco e de vós
viviam; louvai a Deus, que vos sustenta; louvai a Deus, que vos
conserva; louvai a Deus, que vos multiplica; louvai a Deus, enfim,
servindo e sustentando ao homem, que é o fim para que vos
criou; e assim como no princípio vos deu sua bênção,
vo-la dê também agora. Amen. Como não sois capazes
de Glória, nem de Graça, não acaba o vosso
Sermão em Graça e Glória.
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Texto revisto
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(c) Deolinda
Rodrigues Cabrera
Chaves, 1996
Sermão de Santo Antonio, de Pe. Antonio Vieira
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