Sermão
de Santo Antonio
Pe. Antonio Vieira
§ IV
Antes, porém,
que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também
agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão,
já que não seja de emenda. A primeira cousa que me
desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos
outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância
o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros,
senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário,
era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande
para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não
bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande. Olhai como
estranha isto Santo Agostinho: Homines pravis, praeversisque cupiditatibus
facti sunt, sicut pisces invicem se devorantes: "Os homens
com suas más e perversas cobiças, vêm a ser
como os peixes, que se comem uns aos outros." Tão alheia
cousa é, não só da razão, mas da mesma
natureza, que sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos
da mesma pátria e todos finalmente irmãos, vivais
de vos comer! Santo Agostinho, que pregava aos homens, para encarecer
a fealdade deste escândalo, mostrou-lho nos peixes; e eu,
que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável
é, quero que o vejais nos homens.
Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não:
não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos
para os matos e para o sertão? Para cá, para cá;
para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só
os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é
o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós
todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer
às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer
as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação
nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens
como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum
deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo
e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros,
comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os
oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes;
come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o
sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de
má vontade lhe dá para a mortalha o lençol
mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange
os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o
pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido
toda a terra.
Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece
que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para
que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai,
peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós.
Vivo estava Job, quando dizia: Quare persequimini me, et carnibus
meis saturamini? "Porque me perseguis tão desumanamente,
vós, que me estais comendo vivo e fartando-vos da minha carne?"
Quereis ver um Job destes?
Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados
de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho,
come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador,
come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o
o julgador, e ainda não está sentenciado, já
está comido. São piores os homens que os corvos. O
triste que foi à forca, não o comem os corvos senão
depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda
não está executado nem sentenciado, e já está
comido.
E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos,
e pelos mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus
queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur
iniquitatem, qui devorunt plebem meam, ut cibum panis? "Cuidais,
diz Deus, que não há-de vir tempo em que conheçam
e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade?" E que
maldade é esta, à qual Deus singularmente chama maldade,
como se não houvera outra no Mundo? E quem são aqueles
que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros,
e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos:
Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.
Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais
muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras.
Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão
declaradamente a sua plebe: Plebem meam, porque a plebe e os plebeus,
que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos
avultam na república, estes são os comidos. E não
só diz que os comem de qualquer modo, senão que os
engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm
o mando das cidades e das províncias, não se contenta
a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos senão
que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam.
E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como
os outros comeres, senão como pão.
A diferença que há entre o pão e os outros
comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para
o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano;
porém o pão é comer de todos os dias, que sempre
e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos.
São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão
se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os
miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício
em que os não carreguem, em que os não multem, em
que os não defraudem, em que os não comam, traguem
e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.
Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento
das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes
uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre
os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é
o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito
grandes não só os comem um por um, senão os
cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de
tempos, não só de dia, senão também
de noite, às claras e às escuras, como também
fazem os homens.
Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós
se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as
castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga
em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes,
bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar
aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis
remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em
vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram;
porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer
e devorar os pequenos.
Assim foi; mas, se entre vós se acham acaso alguns dos que,
seguindo a esteira dos navios, vão com eles a Portugal e
tornam para os mares pátrios, bem ouviriam estes lá
no Tejo que esses mesmos maiores que cá comiam os pequenos,
quando lá chegam, acham outros maiores que os comam também
a eles. Este é o estilo da divina justiça tão
antigo e manifesto, que até os Gentios o conheceram e celebraram:
Vos quibus rector
maris, atque terrae
Ius dedit magnum necis, atque vitae;
Ponite inflatos, tumidosque vultus;
Quidquid a vobis minor extimescit,
Maior hoc vobis dominus minatur.
Notai, peixes,
aquela definição de Deus: Rector maris atque terrae:
"Governador do mar e da terra"; para que não duvideis
que o mesmo estilo que Deus guarda com homens na terra, observa
também convosco no mar. Necessário é logo que
olheis por vós e que não façais pouco caso
da doutrina que vos deu o grande Doutor da Igreja Santo Ambrósio,
quando, falando convosco, disse: Cave nedum alium insequeris, incidas
in validiorem: "Guarde-se o peixe que persegue o mais fraco
para o comer, não se ache na boca do mais forte", que
o engula a ele. Nós o vemos aqui cada dia. Vai o xaréu
correndo atrás do bagre, como o cão após a
lebre, e não vê o cego que lhe vem nas costas o tubarão
com quatro ordens de dentes, que o há-de engolir de um bocado.
E o que com maior elegância vos disse também Santo
Agostinho: Praedo minoris fit praeda maioris. Mas não bastam,
peixes, estes exemplos para que acabe de se persuadir a vossa gula,
que a mesma crueldade que usais com os pequenos tem já aparelhado
o castigo na voracidade dos grandes?
Já que assim o experimentais com tanto dano vosso, importa
que de aqui por diante sejais mais repúblicos e zelosos do
bem comum, e que este prevaleça contra o apetite particular
de cada um, para que não suceda que, assim como hoje vemos
a muitos de vós tão diminuídos, vos venhais
a consumir de todo. Não vos bastam tantos inimigos de fora
e tantos perseguidores tão astutos e pertinazes, quantos
são os pescadores, que nem de dia nem de noite deixam de
vos pôr em cerco e fazer guerra por tantos modos?! Não
vedes que contra vós se emalham e entralham as redes, contra
vós se tecem as nassas, contra vós se torcem as linhas,
contra vós se dobram e farpam os anzóis, contra vós
as fisgas e os arpões? Não vedes que contra vós
até as canas são lanças e as cortiças
armas ofensivas? Não vos basta, pois, que tenhais tantos
e tão armados inimigos de fora, senão que também
vós de vossas portas a dentro o haveis de ser mais cruéis,
perseguindo-vos com uma guerra mais que civil e comendo-vos uns
aos outros? Cesse, cesse já, irmãos peixes, e tenha
fim algum dia esta tão perniciosa discórdia; e pois
vos chamei e sois irmãos, lembrai-vos das obrigações
deste nome. Não estáveis vós muito quietos,
muito pacíficos e muito amigos todos, grandes e pequenos,
quando vos pregava Santo António? Pois continuai assim, e
sereis felizes.
Dir-me-eis (como também dizem os homens) que não tendes
outro modo de vos sustentar. E de que se sustentam entre vós
muitos que não comem os outros? O mar é muito largo,
muito fértil, muito abundante, e só com o que bota
às praias pode sustentar grande parte dos que vivem dentro
nele. Comerem-se uns animais aos outros é voracidade e sevícia,
e não estatuto da natureza. Os da terra e do ar, que hoje
se comem, no princípio do Mundo não se comiam, sendo
assim conveniente e necessário para que as espécies
se multiplicassem. O mesmo foi (ainda mais claramente) depois do
dilúvio, porque, tendo escapado somente dois de cada espécie,
mal se podiam conservar, se se comessem. E finalmente no tempo do
mesmo dilúvio, em que todos viveram juntos dentro na arca,
o lobo estava vendo o cordeiro, o gavião a perdiz, o leão
o gamo, e cada um aqueles em que se costuma cevar; e se acaso lá
tiveram essa tentação, todos lhe resistiram e se acomodaram
com a ração do paiol comum que Noé lhes repartia.
Pois se os animais dos outros elementos mais cálidos foram
capazes desta temperança, porque o não serão
os da água? Enfim, se eles em tantas ocasiões, pelo
desejo natural da própria conservação e aumento,
fizeram da necessidade virtude, fazei-o vós também;
ou fazei a virtude sem necessidade e será maior virtude.
Outra cousa muito geral, que não tanto me desedifica, quanto
me lastima em muitos de vós é aquela tão notável
ignorância e cegueira que em todas as viagens experimentam
os que navegam para estas partes. Toma um homem do mar um anzol,
ata-lhe um pedaço de pano cortado e aberto em duas ou três
pontas, lança-o por um cabo delgado até tocar na água,
e em o vendo o peixe, arremete cego a ele e fica preso e boqueando,
até que, assim suspenso no ar, ou lançado no convés,
acaba de morrer. Pode haver maior ignorância e mais rematada
cegueira que esta? Enganados por um retalho de pano, perder a vida?
Dir-me-eis que o mesmo fazem os homens. Não vo-lo nego. Dá
um exército batalha contra outro exército, metem-se
os homens pelas pontas dos piques, dos chuços e das espadas,
e porquê? Porque houve quem os engodou e lhes fez isca com
dois retalhos de pano. A vaidade entre os vícios é
o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E
que faz a vaidade? Põe por isco na ponta desses piques, desses
chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco,
que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis.
ou vermelho, que se chama de Cristo e de Santiago; e os homens,
por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não
reparam em tragar e engolir o ferro. E depois que sucede? O mesmo
que a vós. O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião
ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao
anzol para pescar outros.
Por este exemplo vos concedo, peixes, que os homens fazem o mesmo
que vós, posto que me parece que não foi este o fundamento
da vossa resposta ou escusa, porque cá no Maranhão,
ainda que se derrame tanto sangue, não há exércitos,
nem esta ambição de hábitos.
Mas nem por isso vos negarei que também cá se deixam
pescar os homens pelo mesmo engano, menos honrada e mais ignoradamente.
Quem pesca as vidas a todos os homens do Maranhão, e com
quê? Um homem do mar com uns retalhos de pano. Vem um mestre
de navio de Portugal com quatro varreduras das lojas, com quatro
panos e quatro sedas, que já se lhes passou a era e não
têm gasto; e que faz? Isca com aqueles trapos aos moradores
da nossa terra: dá-lhes uma sacadela e dá-lhes outra,
com que cada vez lhes sobe mais o preço; e os bonitos, ou
os que querem parecer, todos esfaimados aos trapos, e ali ficam
engasgados e presos, com dívidas de um ano para outro ano,
e de uma safra para outra safra, e lá vai a vida. Isto não
é encarecimento. Todos a trabalhar toda a vida, ou na roça,
ou na cana, ou no engenho, ou no tabacal; e este trabalho de toda
a vida, quem o leva? Não o levam os coches, nem as liteiras,
nem os cavalos, nem os escudeiros, nem os pajens, nem os lacaios,
nem as tapeçarias, nem as pinturas nem as baixelas, nem as
jóias; pois em que se vai e despende toda a vida? No triste
farrapo com que saem à rua, e para isso se matam todo o ano.
Não é isto, meus peixes, grande loucura dos homens
com que vos escusais? Claro está que sim; nem vós
o podeis negar. Pois se é grande loucura esperdiçar
a vida por dois retalhos de pano, quem tem obrigação
de se vestir; vós, a quem Deus vestiu do pé até
à cabeça, ou de peles de tão vistosas e apropriadas
cores, ou de escamas prateadas e doiradas, vestidos que nunca se
rompem, nem gastam com o tempo, nem se variam ou podem variar com
as modas; não é maior ignorância e maior cegueira
deixardes-vos enganar ou deixardes-vos tomar pelo beiço com
duas tirinhas de pano? Vede o vosso Santo António, que pouco
o pode enganar o Mundo com essas vaidades. Sendo moço e nobre,
deixou as galas de que aquela idade tanto se preza, trocou-as por
uma loba de sarja e uma correia de cónego regrante; e depois
que se viu assim vestido, parecendo-lhe que ainda era muito custosa
aquela mortalha, trocou a sarja pelo burel e a correia pela corda.
Com aquela corda e com aquele pano, pescou ele muitos, e só
estes se não enganaram e foram sisudos.
§
V
Descendo ao
particular, direi agora, peixes, o que tenho contra alguns de vós.
E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei
a ela, ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram
o riso como a ira. É possível que sendo vós
uns peixinhos tão pequenos, haveis de ser as roncas do mar?!
Se, com uma linha de coser e um alfinete torcido, vos pode pescar
um aleijado, porque haveis de roncar tanto? Mas por isso mesmo roncais.
Dizei-me: o espadarte porque não ronca? Porque, ordinariamente,
quem tem muita espada, tem pouca língua. Isto não
é regra geral; mas é regra geral que Deus não
quer roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar
aos que muito roncam. S. Pedro, a quem muito bem conheceram vossos
antepassados, tinha tão boa espada, que ele só avançou
contra um exército inteiro de soldados romanos; e se Cristo
lha não mandara meter na bainha, eu vos prometo que havia
de cortar mais orelhas que a de Malco. Contudo, que lhe sucedeu
naquela mesma noite? Tinha roncado e barbateado Pedro que, se todos
fraqueassem, só ele havia de ser constante até morrer
se fosse necessário; e foi tanto pelo contrário, que
só ele fraqueou mais que todos, e bastou a voz de uma mulherzinha
para o fazer tremer e negar. Antes disso já tinha fraqueado
na mesma hora em que prometeu tanto de si. Disse-lhe Cristo no horto
que vigiasse, e vindo de aí a pouco a ver se o fazia, achou-o
dormindo com tal descuido, que não só o acordou do
sono, senão também do que tinha blasonado: Sic non
potuisti una hora vigilare mecum? Vós, Pedro, sois o valente
que havíeis de morrer por mim, "e não pudestes
uma hora vigiar comigo"? Pouco há, tanto roncar, e agora
tanto dormir? Mas assim sucedeu. O muito roncar antes da ocasião,
é sinal de dormir nela. Pois que vos parece, irmãos
roncadores? Se isto sucedeu ao maior pescador, que pode acontecer
ao menor peixe? Medi-vos, e logo vereis quão pouco fundamento
tendes de blasonar, nem roncar.
Se as baleias roncaram, tinha mais desculpa a sua arrogância
na sua grandeza. Mas ainda nas mesmas baleias não seria essa
arrogância segura. O que é a baleia entre os peixes,
era o gigante Golias entre os homens. Se o rio Jordão e o
mar de Tiberíades têm comunicação com
o Oceano, como devem ter, pois dele manam todos, bem deveis de saber
que este gigante era a ronca dos Filisteus. Quarenta dias contínuos
esteve armado no campo, desafiando a todos os arraiais de Israel,
sem haver quem se lhe atrevesse; e no cabo, que fim teve toda aquela
arrogância? Bastou um pastorzinho com um cajado e uma funda,
para dar com ele em terra. Os arrogantes e soberbos tomam-se com
Deus; e quem se toma com Deus, sempre fica debaixo. Assim que, amigos
roncadores, o verdadeiro conselho é calar e imitar a Santo
António. Duas cousas há nos homens, que os costumam
fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder. Caifás
roncava de saber: Vos nescitis quidquam. Pilatos roncava de poder:
Nescis quia potestatem habeo? E ambos contra Cristo. Mas o fiel
servo de Cristo, António, tendo tanto saber, como já
vos disse, e tanto poder, como vós mesmos experimentastes,
ninguém houve jamais que o ouvisse falar em saber ou poder,
quanto mais blasonar disso. E porque tanto calou, por isso deu tamanho
brado.
Nesta viagem, de que fiz menção, e em todas as que
passei a Linha Equinocial, vi debaixo dela o que muitas vezes tinha
visto e notado nos homens, e me admirou que se houvesse estendido
esta ronha e pegado também aos peixes. Pegadores se chamam
estes de que agora falo, e com grande propriedade, porque sendo
pequenos, não só se chegam a outros maiores, mas de
tal sorte se lhes pegam aos costados. que jamais os desferram. De
alguns animais de menos força e indústria se conta
que vão seguindo de longe aos leões na caça,
para se sustentarem do que a eles sobeja. O mesmo fazem estes pegadores,
tão seguros ao perto como aqueles ao longe; porque o peixe
grande não pode dobrar a cabeça, nem voltar a boca
sobre os que traz às costas, e assim lhes sustenta o peso
e mais a fome.
Este modo de vida, mais astuto que generoso, se acaso se passou
e pegou de um elemento a outro, sem dúvida que o aprenderam
os peixes do alto, depois que os nossos Portugueses o navegaram;
porque não parte vice-rei ou governador para as Conquistas,
que não vá rodeado de pegadores, os quais se arrimam
a eles, para que cá lhes matem a fome, de que lá não
tinham remédio. Os menos ignorantes, desenganados da experiência,
despegam-se e buscam a vida por outra via; mas os que se deixam
estar pegados à mercê e fortuna dos maiores, vem-lhes
a suceder no fim o que aos pegadores do mar.
Rodeia a nau o tubarão nas calmarias da Linha com os seus
pegadores às costas, tão cerzidos com a pele, que
mais parecem remendos ou manchas naturais, que os hóspedes
ou companheiros. Lançam-lhe um anzol de cadeia com a ração
de quatro soldados, arremessa-se furiosamente à presa, engole
tudo de um bocado, e fica preso. Corre meia companha a alá-lo
acima, bate fortemente o convés com os últimos arrancos;
enfim, morre o tubarão, e morrem com ele os pegadores.
Parece-me que estou ouvindo a S. Mateus, sem ser apóstolo
pescador, descrevendo isto mesmo na terra. Morto Herodes, diz o
Evangelista, apareceu o Anjo a José no Egipto, e disse-lhe
que já se podia tornar para a pátria, porque "eram
mortos todos aqueles que queriam tirar a vida ao Menino": Defuncti
sunt enim qui quaerebant animam Pueri. Os que queriam tirar a vida
a Cristo menino, eram Herodes e todos os seus, toda a sua família,
todos os seus aderentes, todos os que seguiam e pendiam da sua fortuna.
Pois é possível que todos estes morressem juntamente
com Herodes?! Sim: porque em morrendo o tubarão, morrem também
com ele os pegadores: Defuncto Herode, defuncti sunt qui quaerebant
animam Pueri.
Eis aqui, peixinhos ignorantes e miseráveis, quão
errado e enganoso é este modo de vida que escolhestes. Tomai
o exemplo nos homens, pois eles o não tomam em vós,
nem seguem, como deveram, o de Santo António.
Deus também tem os seus pegadores. Um destes era David, que
dizia: Mihi autem adhaerere Deo bonum est. Peguem-se outros aos
grandes da terra, que "eu só me quero pegar a Deus".
Assim o fez também Santo António; e senão,
olhai para o mesmo Santo, e vede como está pegado com Cristo
e Cristo com ele. Verdadeiramente se pode duvidar qual dos dois
é ali o pegador: e parece que é Cristo, porque o menor
é sempre o que se pega ao maior, e o Senhor fez-se tão
pequenino, para se pegar a António. Mas António também
se fez menor, para se pegar mais a Deus. Daqui se segue, que todos
os que se pegam a Deus, que é imortal, seguros estão
de morrer como os outros pegadores. E tão seguros, que ainda
no caso em que Deus se fez homem e morreu, só morreu para
que não morressem todos os que se pegassem a ele: Si ego
me quaeritis, sinite hos abire. "Se me buscais a mim, deixai
ir a estes." E posto que deste modo só se podem pegar
os homens, e vós, meus peixezinhos, não, ao menos
devereis imitar aos outros animais do ar e da terra, que quando
se chegam aos grandes e se amparam do seu poder, não se pegam
de tal sorte que morram juntamente com eles. Lá diz a Escritura
daquela famosa árvore, em que era significado o grande Nabucodonosor,
que todas as aves do céu descansavam sobre os seus ramos
e todos os animais da terra se recolhiam à sua sombra, e
uns e outros se sustentavam de seus frutos: mas também diz
que, tanto que foi cortada esta árvore, as aves voaram e
os outros animais fugiram. Chegai-vos embora aos grandes; mas não
de tal maneira pegados, que vos mateis por eles, nem morrais com
eles.
Considerai, pegadores vivos, como morreram os outros que se pegaram
àquele peixe grande, e porquê. O tubarão morreu
porque comeu, e eles morreram pelo que não comeram. Pode
haver maior ignorância que morrer pela fome e boca alheia?
Que morra o tubarão porque comeu, matou-o a sua gula; mas
que morra o pegador pelo que não comeu, é a maior
desgraça que se pode imaginar! Não cuidei que também
nos peixes havia pecado original. Nós os homens, fomos tão
desgraçados, que outrem comeu e nós o pagamos. Toda
a nossa morte teve princípio na gulodice de Adão e
Eva; e que hajamos de morrer pelo que outrem comeu, grande desgraça!
Mas nós lavamo-nos desta desgraça com uma pouca de
água, e vós não vos podeis lavar da vossa ignorância
com quanta água tem o mar.
Com os voadores tenho também uma palavra, e não é
pequena a queixa. Dizei-me, voadores, não vos fez Deus para
peixes? Pois porque vos meteis a ser aves? O mar fê-lo Deus
para vós, e o ar para elas. Contentai-vos com o mar e com
nadar, e não queirais voar, pois sois peixes. Se acaso vos
não conheceis, olhai para as vossas espinhas e para as vossas
escamas, e conhecereis que não sois aves, senão peixes,
e ainda entre os peixes não dos melhores. Dir-me-eis, voador,
que vos deu Deus maiores barbatanas que aos outros de vosso tamanho.
Pois porque tivestes maiores barbatanas, por isso haveis de fazer
das barbatanas asas?! Mas ainda mal, porque tantas vezes vos desengana
o vosso castigo. Quisestes ser melhor que os outros peixes, e por
isso sois mais mofino que todos. Aos outros peixes, do alto mata-os
o anzol ou a fisga, a vós sem fisga nem anzol, mata-vos a
vossa presunção e o vosso capricho. Vai o navio navegando
e o marinheiro dormindo, e o voador toca na vela ou na corda, e
cai palpitando. Aos outros peixes mata-os a fome e engana-os a isca;
ao voador mata-o a vaidade de voar, e a sua isca é o vento.
Quanto melhor lhe fora mergulhar por baixo da quilha e viver, que
voar por cima das entenas e cair morto!
Grande ambição é que, sendo o mar tão
imenso, lhe não basta a um peixe tão pequeno todo
o mar, e queira outro elemento mais largo. Mas vedes, peixes, o
castigo da ambição. O voador fê-lo Deus peixe,
e ele quis ser ave, e permite o mesmo Deus que tenha os perigos
de ave e mais os de peixe. Todas as velas para ele são redes,
como peixe, e todas as cordas, laços, como ave. Vê,
voador, como correu pela posta o teu castigo. Pouco há nadavas
vivo no mar com as barbatanas, e agora jazes em um convés
amortalhado nas asas. Não contente com ser peixe, quiseste
ser ave, e já não és ave nem peixe; nem voar
poderás já, nem nadar. A natureza deu-te a água,
tu não quiseste senão o ar, e eu já te vejo
posto ao fogo. Peixes, contente-se cada um com o seu elemento. Se
o voador não quisera passar do segundo ao terceiro, não
viera a parar no quarto. Bem seguro estava ele do fogo, quando nadava
na água, mas porque quis ser borboleta das ondas, vieram-se-lhe
a queimar as asas.
À vista deste exemplo, peixes, tomai todos na memória
esta sentença: Quem quer mais do que lhe convém, perde
o que quer e o que tem. Quem pode nadar e quer voar, tempo virá
em que não voe nem nade. Ouvi o caso de um voador da terra:
Simão Mago, a quem a arte mágica, na qual era famosíssimo,
deu o sobrenome, fingindo-se que ele era o verdadeiro filho de Deus,
sinalou o dia em que aos olhos de toda Roma havia de subir ao Céu,
e com efeito começou a voar mui alto; porém a oração
de S. Pedro, que se achava presente, voou mais depressa que ele,
e caindo lá de cima o mago, não quis Deus que morresse
logo, senão que aos olhos também de todos quebrasse,
como quebrou, os pés.
Não quero que repareis no castigo, se não no género
dele Que caia Simão, está muito bem caído;
que morra, também estaria muito bem morto, que o seu atrevimento
e a sua arte diabólica o merecia. Mas que de uma queda tão
alta não rebente, nem quebre a cabeça ou os braços,
se não os pés?! Sim, diz S. Máximo, porque
quem tem pés para andar e quer asas para voar, justo é
que perca as asas e mais os pés. Elegantemente o Santo Padre:
Ut qui paulo ante volare tentaverat, subito ambulare non posset;
et qui pennas assumpserat, plantas amitteret. Se Simão tem
pés e quer asas, pode andar e quer voar; pois quebrem-se-lhe
as asas para que não voe, e também os pés,
para que não ande. Eis aqui, voadores do mar, o que sucede
aos da terra, para que cada um se contente com o seu elemento. Se
o mar tomara exemplo nos rios, depois que Ícaro se afogou
no Danúbio não haveria tantos Ícaros no Oceano.
Oh alma de António, que só vós tivestes asas
e voastes sem perigo, porque soubestes voar para baixo e não
para cima! Já S. João viu no Apocalipse aquela mulher
cujo ornato gastou todas as luzes ao Firmamento, e diz que "lhe
foram dadas duas grandes asas de águia": Datae sunt
mulieri alae duae aquilae magnae. E para quê? Ut volaret in
desertum: "Para voar ao deserto." Notável cousa,
que não debalde lhe chamou o mesmo Profeta grande maravilha.
Esta mulher estava no Céu: Signum magnum apparauit in caelo,
mulier amicta sole. Pois se a mulher estava no Céu e o deserto
na terra, como lhe dão asas para voar ao deserto? Porque
há asas para subir e asas para descer. As asas para subir
são muito perigosas, as asas para descer muito seguras; e
tais foram as de Santo António. Deram-se à alma de
Santo António duas asas de águia, que foi aquela duplicada
sabedoria natural e sobrenatural tão sublime, como sabemos.
E ele que fez? Não estendeu as asas para subir, encolheu-as
para descer; e tão encolhidas que, sendo a Arca do Testamento,
era reputado, como já vos disse, por leigo e sem ciência.
Voadores do mar (não falo com os da terra), imitai o vosso
santo pregador. Se vos parece que as vossas barbatanas vos podem
servir de asas, não as estendais para subir, porque vos não
suceda encontrar com alguma vela ou algum costado; encolhei-as para
descer, ide-vos meter no fundo em alguma cova; e se aí estiverdes
mais escondidos, estareis mais seguros.
Mas já que estamos nas covas do mar, antes que saiamos delas,
temos lá o irmão polvo, contra o qual têm suas
queixas, e grandes, não menos que S. Basílio e Santo
Ambrósio. O polvo com aquele seu capelo na cabeça,
parece um monge; com aqueles seus raios estendidos, parece uma estrela;
com aquele não ter osso nem espinha, parece a mesma brandura,
a mesma mansidão. E debaixo desta aparência tão
modesta, ou desta hipocrisia tão santa, testemunham constantemente
os dois grandes Doutores da Igreja latina e grega, que o dito polvo
é o maior traidor do mar. Consiste esta traição
do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de
todas aquelas cores a que está pegado. As cores, que no camaleão
são gala, no polvo são malícia; as figuras,
que em Proteu são fábula, no polvo são verdade
e artifício. Se está nos limos, faz-se verde; se está
na areia, faz-se branco; se está no lodo, faz-se pardo: e
se está em alguma pedra, como mais ordinariamente costuma
estar, faz-se da cor da mesma pedra. E daqui que sucede? Sucede
que outro peixe, inocente da traição, vai passando
desacautelado, e o salteador, que está de emboscada dentro
do seu próprio engano, lança-lhe os braços
de repente, e fá-lo prisioneiro. Fizera mais Judas? Não
fizera mais, porque não fez tanto. Judas abraçou a
Cristo, mas outros o prenderam; o polvo é o que abraça
e mais o que prende. Judas com os braços fez o sinal, e o
polvo dos próprios braços faz as cordas. Judas é
verdade que foi traidor, mas com lanternas diante; traçou
a traição às escuras, mas executou-a muito
às claras. O polvo, escurecendo-se a si, tira a vista aos
outros, e a primeira traição e roubo que faz, é
a luz, para que não distinga as cores. Vê, peixe aleivoso
e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação
já é menos traidor!
Oh que excesso tão afrontoso e tão indigno de um elemento
tão puro, tão claro e tão cristalino como o
da água, espelho natural não só da terra, senão
do mesmo céu! Lá disse o Profeta por encarecimento,
que "nas nuvens do ar até a água é escura":
Tenebrosa aqua in nubibus aeris. E disse nomeadamente nas nuvens
do ar, para atribuir a escuridade ao outro elemento, e não
à água; a qual em seu próprio elemento é
sempre clara, diáfana e transparente, em que nada se pode
ocultar, encobrir nem dissimular. E que neste mesmo elemento se
crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público
um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão
astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor!
Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que
batem os vossas mares, me estais respondendo e convindo, que também
nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas
e muito maiores e mais perniciosas traições. E sobre
o mesmo sujeito que defendeis, também podereis aplicar aos
semelhantes outra propriedade muito própria; mas pois vós
a calais, eu também a calo. Com grande confusão, porém,
vos confesso tudo, e muito mais do que dizeis, pois não o
posso negar. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador,
e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e
da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei
também que para haver tudo isto em cada um de nós,
bastava antigamente ser português, não era necessário
ser santo.
Tenho acabado, irmãos peixes, os vossos louvores e repreensões,
e satisfeito, como vos prometi, às duas obrigações
do sal, posto que do mar, e não da terra: Vos estis sal terrae.
Só resta fazer-vos uma advertência muito necessária,
para os que viveis nestes mares. Como eles são tão
esparcelados e cheios de baixios, bem sabeis que se perdem e dão
à costa muitos navios, com que se enriquece o mar e a terra
se empobrece. Importa, pois, que advirtais, que nesta mesma riqueza
tendes um grande perigo, porque todos os que se aproveitam dos bens
dos naufragantes, ficam excomungados e malditos.
Esta pena de excomunhão, que é gravíssima,
não se pôs a vós senão aos homens, mas
tem mostrado Deus por muitas vezes, que quando os animais cometem
materialmente o que é proibido por esta lei, também
eles incorrem, por seu modo, nas penas dela, e no mesmo ponto começam
a definhar, até que acabam miseravelmente.
Mandou Cristo a S. Pedro que fosse pescar, e que na boca do primeiro
peixe que tomasse, acharia uma moeda, com que pagar certo tributo.
Se Pedro havia de tomar mais peixe que este, suposto que ele era
o primeiro, do preço dele e dos outros podia fazer o dinheiro
com que pagar aquele tributo, que era de uma só moeda de
prata, e de pouco peso. Com que mistério manda logo o Senhor
que se tire da boca deste peixe e que seja ele o que morra primeiro
que os demais?
Ora estai atentos. Os peixes não batem moeda no fundo do
mar, nem têm contratos com os homens, donde lhes possa vir
dinheiro; logo, a moeda que este peixe tinha engolido, era de algum
navio que fizera naufrágio naqueles mares. E quis mostrar
o Senhor que as penas que S. Pedro ou seus sucessores fulminam contra
os homens que tomam os bens dos naufragantes, também os peixes
por seu modo as incorrem morrendo primeiro que os outros, e com
o mesmo dinheiro que engoliram atravessado na garganta.
Oh que boa doutrina era esta para a terra, se eu não pregara
para o mar! Para os homens não há mais miserável
morte, que morrer com o alheio atravessado na garganta; porque é
pecado de que o mesmo S. Pedro e o mesmo Sumo Pontífice não
pode absolver. E posto que os homens incorrem a morte eterna, de
que não são capazes os peixes, eles contudo apressam
a sua temporal, como neste caso, se materialmente, como tenho dito,
se não abstêm dos bens dos naufragantes.